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Principais Lesões no Crossfit®: Revisão de Literatura

Principais Lesões no Crossfit®: Revisão de Literatura

INTRODUÇÃO

Sabe-se que a atividade física melhora a qualidade de vida e é essencial para a prevenção e controle de doenças crônicas, tais como hipertensão arterial, sobrepeso, obesidade e níveis altos de colesterol. Estudos evidenciam que o hábito de realizar exercícios regularmente traz melhoras ao metabolismo, levando a diminuição de gordura corporal, incremento de massa muscular, aumento de força muscular, flexibilidade, melhora da postura e autoestima, entre vários outros benefícios.

Dentre as modalidades de treinamento, está em evidência o CrossFit®. Criado por Greg Glassman, em 2000, trata-se de um programa de força de alta intensidade, que tem por objetivo alcançar bom condicionamento físico4. O método desenvolve a competência de seus praticantes nas dez capacidades físicas: força, flexibilidade, resistência muscular, resistência aeróbica, equilíbrio, agilidade, coordenação, precisão, velocidade e potência. O programa é composto por exercícios como andar de bicicleta, corridas de curta distância, nadar, remar, escalar, saltos e levantamento de peso olímpico, que são realizados por meio de uma imensa variedade de ferramentas como por exemplo: cordas, barras, anilhas, caixas, elásticos e correntes. Para realizar tais treinamentos de maneira bem-sucedida, é preciso boa mobilidade, coordenação e uma flexibilidade significativa. Em qualquer tipo de atividade física, é necessário saber como realizar tais atividades com eficácia, intensidade e duração adequadas para que o indivíduo obtenha os efeitos desejáveis do treinamento com saúde.

Devido à grande variedade de exercícios que combinam movimentos funcionais, sendo estes exercícios livres e com grande exigência muscular, tendo ênfase em repetições máximas em determinado tempo, com intervalo para recuperação limitado, e muitas vezes estimulando a competitividade entre seus praticantes, acredita-se que o CrossFit® esteja relacionado a uma maior incidência de lesões, comparado a outras modalidade.

A atividade física quando exige um estresse significativo para o corpo, e em um período extenso pode causar alterações biomecânicas e fisiológicas. Com o aumento da procura pela modalidade, o número de lesões pode vir a crescer na mesma proporção. A fisioterapia tem um papel fundamental na prevenção e tratamento dessas lesões, dessa forma o objetivo desse estudo foi analisar as principais lesões do CrossFit® e os fatores relacionados.

MATERIAL E MÉTODOS

Trata-se de uma revisão de literatura sobre as principais lesões em praticantes de CrossFit®. Realizado no período de setembro a dezembro de 2017. Para tanto, foram obedecidas às seguintes etapas: 1- busca da literatura; 2- coleta de dados; 3- analise crítica dos estudos selecionados; 4- apresentação e discussão dos resultados. A busca por artigos foi realizada em bases de dados eletrônicas: Lilacs, Medline/PubMed e Scielo. A busca na literatura foi realizada para artigos disponíveis em inglês e português. De acordo com a Medical Subject Headings (MESH)/Descritores em Ciências de Saúde (DECS) foram utilizados os seguintes descritores, respectivamente: Exercise/Exercício; Injuries/Lesões; Epidemiology/Epidemiologia. Devido a palavra CrossFit não ser um descritor, foram utilizadas também as palavras chaves: CrossFit; CrossFit Training; CrossFit Intensity e CrossFit Power Training.

Os critérios de inclusão foram artigos que fizessem relação ao CrossFit® e lesões, disponíveis e publicados entre 2007 e 2017. Foram excluídos artigos do tipo revisão.

RESULTADOS

A busca nas bases de dados eletrônicas resultou na identificação de 80 referências sobre o tema estudado. A seleção se deu de forma criteriosa e os passos referentes a seleção e exclusão dos estudos estão dispostos no fluxograma seguindo o Preferred Reporting Itens for Systematic Reviews and Meta-Analyses (Figura 1).

DISCUSSÃO

Dos sete artigos utilizados nesse estudo, dois são do tipo relato de caso¹0˒¹¹. Joondeph e Joondeph¹0 relataram um deslocamento de retina que ocorreu durante um treino de CrossFit® de um indivíduo de vinte e cinco anos de idade. A lesão foi ocasionada como consequência da ruptura de uma faixa elástica que auxiliava o exercício de pull up (elevação corporal na barra). Com o uso repetido, as faixas elásticas enfraquecem e podem vim a se romper. Desta maneira, para evitar acidentes, devem ser substituídas quando estiverem desgastas.

Friedman et al.¹¹ descreveram um caso de ruptura de latíssimo do dorso em um homem de quarenta e três anos que realizava exercício de muscle up (elevação corporal nas argolas seguida de extensão de cotovelo) durante um treino de CrossFit®. O paciente sentiu dor aguda ardente, rigidez e inchaço na axila. Após 2 semanas de descanso, ele retornou as suas atividades normais. Uma semana depois, no mesmo exercício, sentiu novamente dor e fraqueza imediata. Após 3 meses de tratamento conservador os sintomas melhoraram ligeiramente e o paciente retomou os treinos. Os outros cinco estudos usados nessa revisão são do tipo transversal, que abordaram a taxa de lesões em praticantes de CrossFit®⁸˒¹²˒¹³˒¹4˒¹5. Hak et al.¹² estudaram a taxa de lesões em praticantes de CrossFit® através de um questionário on-line disponibilizado em fóruns. Os dados foram coletados anonimamente, e o questionário incluiu dados demográficos, incluindo idade, sexo, tabagismo e consumo de álcool. Detalhes de treinamento, como o treino de CrossFit® no período total, bem como a participação semanal de treinamento também foram questionados. Os participantes foram perguntados se sofreram alguma lesão durante o treino CrossFit® e para listar o número e a natureza de todas essas lesões. Dos 132 participantes, 97 (73,5%) relataram no mínimo uma lesão que os impediu de trabalhar, treinar ou competir. Nove participantes (7%) sofreram uma lesão que necessitou de intervenção cirúrgica. No total, foram mencionadas 186 lesões, sendo o ombro, coluna lombar e cotovelo os locais mais acometidos. Foi visto que a maioria das lesões eram agudas, no entanto leves. Os autores encontraram a incidência de 3,1 lesões por 1000h de prática da modalidade.

Outro estudo semelhante foi realizado, com aplicação de questionários entre 386 atletas de CrossFit® em academias do EUA8. Foi visto que 75 (19,4%) dos participantes sofreram algum tipo de lesão durante um treino, com maior incidência em ombro (25%), coluna lombar (14,2%) e joelho (13%). Nesta pesquisa foi observado que os homens (53/231) se feriam com mais frequencia do que as mulheres (21/150), o que se mostrou correlacionado ao fato das mulheres serem mais propensas a procurar orientação do treinador em comparação aos homens.

Observou-se em ambos os estudos 8˒¹² alta prevalência de lesões no ombro, principalmente em movimentos de ginástica8, são eles: suspensões na barra (Pull-ups), os agachamentos (Squats), pulos, as flexões de braço (Push-ups), entre outros. Foi visto também maior aparecimento de lesões em exercícios que exigem movimentos de hiperflexão do ombro, colocando as estruturas moles em risco de ferimento¹². Posteriormente a coluna lombar foi mais acometida, principalmente em exercícios de levantamento de peso8. Durante o treino de CrossFit® o levantamento de peso olímpico (LPO) é realizado com alto número de repetições, buscando superação em velocidade, gerando sobrecarga na coluna lombar, aumentando a força de compressão entre os discos intervertebrais e necessitando de maior exigência muscular, o que pode justificar a grande quantidade de lesões na coluna lombar.

A divergência na prevalência de lesões total entre os dois estudos8,12 sendo a porcentagem final de Weisenthal et al.8 significativamente menor (19,4%), pode ser justificada devido a pesquisa ter sido realizada através de questionários on-line, não dividindo adequadamente se quem participaria do estudo seriam atletas mais antigos e de maior nível de desempenho, ou iniciantes que não participam de competições.

Outra pesquisa com aplicação de questionário on-line foi realizada com objetivo de examinar a localização, gravidade, número de lesões e os possíveis fatores de risco para lesão no CrossFit®¹³. O questionário foi composto por questões com relação a participação no treino de CrossFit® (anos, frequência, dias e horas semanais), histórico de lesão nos últimos seis meses, nível de aptidão antes de iniciar a modalidade, atividade física fora do CrossFit® e participação em competições. Quatro filiais no Sul da Flórida participaram da pesquisa.

Cento e noventa e um atletas responderam aos questionários (94 homens, 97 mulheres). Destes, cinquenta sofreram um total de 62 lesões durante a participação do treino de CrossFit®. Os locais lesionados mais frequentemente foram: Ombro (22,6%), joelho (16,1%) e coluna lombar (12,9%). Homens e mulheres apresentaram prevalência de lesões semelhantes (homens 31,92%, mulheres 20,62%). O estudo apresentou relação significativa sobre a taxa de lesões entre competidores (40%) e não competidores (19,05%). Esse fato pode ser atribuído ao nível de habilidade e as cargas utilizadas durante os treinos, já que à medida que a habilidade e força aumentam, os atletas evoluem para movimentos mais complexos com cargas mais pesadas. Além disso, a prática de atividade física externa foi associada a um maior índice de lesões; 30% dos indivíduos lesionados realizam exercícios fora do CrossFit®, enquanto apenas 15% dos que relataram lesões não praticam atividades físicas externas.

Em um total de 62 lesões, 34 ocorreram agudamente, enquanto uma menor proporção foi crônica (22/62). Isso foi semelhante aos achados de Hak et al.¹².Vinte e quatro por cento dos atletas relataram que a lesão não afetou seu treinamento, enquanto 50% relataram que tiveram que diminuir o regime de exercícios. Quase 20% dos atletas relataram que tiveram de abster-se dos treinos de CrossFit® devido a lesão, e outros 20% tiveram de cessar exercícios específicos. A incidência geral de lesões foi de 2,3 por 1000h de prática da modalidade. Essa taxa se assemelha à relatada anteriormente por Hak et al.¹² Mais recentemente, Sprey et al.¹4 realizaram um estudo através de um questionário on-line distribuído em vários centros de treinamento no Brasil. No total, 54 centros responderam ao questionário. Este questionário incluiu dados demográficos, nível de sedentarismo no trabalho, treinamento esportivo antes de iniciar o CrossFit®, rotina do treinamento atual, prática de outras atividades esportivas, acompanhamento profissioanal e se os participantes sofreram algum tipo de lesão ao praticar CrossFit®. Quinhentos e sessenta e seis questionários foram respondidos, com 243 mulheres (42,9%) e 323 homens (57,1%). A maioria (58%) dos atletas relataram que seu trabalho era sedentário. Quanto ao tempo de prática de atividades físicas, 356 (67%) dos participantes relataram realizar exercícios por mais de 3 anos. Apenas 32,7% dos atletas relataram participar de competições de CrossFit®.

No geral, 176 participantes (31%) afirmaram ter sofrido algum tipo de lesão durante os treinos. O estudo não especifica o local da lesão, porém dentre estes, 74 (42%) relataram procurar um profissional de saúde para diagnosticar ou tratar a lesão; 59 (33,5%) relataram ter que modificar seu treinamento normal em comprimento, intensidade, ou qualquer outra característica por mais de 2 semanas, embora sem requerer tratamento especializado; e 42 (24%) relataram ter que parar de praticar CrossFit® ou qualquer outra atividade física, por mais de 1 semana, também sem tratamento específico.

Não foi observada relação entre a incidência de lesões com sexo, idade, peso, altura ou IMC. Também não houve relação significativa sobre a taxa de lesões em indivíduos que praticavam atividade física anteriormente. Foi evidenciado que indivíduos que praticaram CrossFit® por mais de 6 meses mostraram taxas de lesões significativamente maiores (35,1%) do que aqueles que praticaram por menos de 6 meses (22,9%). Observando dessa forma, a participação nas competições também é um fator de risco de lesão, pois as pessoas que competem tendem a ter praticado CrossFit® por mais tempo.

Summit et al.¹5 desenvolveram uma pesquisa eletrônica para determinar as características de treinamento e prevalência de lesões no ombro em atletas de CrossFit®. O questionário incluiu dados demográficos, características de treinamento e a prevalência de lesões ao longo de um período de 6 meses. Um total de 187 indivíduos completaram a pesquisa. Quarenta e quatro (23,5%) relataram que sofreram uma lesão no ombro nos últimos seis meses. Destes, 17 (38,6%) afirmaram que essa lesão foi um agravamento de uma lesão sofrida antes de iniciar o CrossFit®.

Apenas 1 indivíduo informou que sua lesão no ombro necessitou de cirurgia. Trinta e três dos 44 indivíduos feridos atribuíram suas lesões a uma determinada causa, incluindo a forma imprópria de realizar o exercício (n = 11, 33,3%), exercícios com cargas pesadas (n = 4, 12,1%), fadiga muscular (n = 6, 18,2%), falta de orientação de um profissional (n = 1, 3%) e exacerbação de lesão anterior (n = 11, 33,3%). Onze indivíduos escolheram a opção “Eu não sei” quando perguntado o que eles acham que causaram a lesão.

Os resultados desta pesquisa¹5 mostraram que 49% das lesões totais foram devido a movimentos de ginástica e 51% das lesões devido a movimentos de levantamento de peso, o que se assemelha aos resultados dos estudos citados anteriormente. A incidência de novas lesões no ombro foi de 1,18 por 1000 horas de prática.

A taxa de lesões no CrossFit® se aproxima a incidência de lesões em outros esportes. Um estudo que investigou a taxa de lesões em corredores de longa distância calculou a incidência de 2,5 feridos por 1000h de treinamento ¹6. A taxa de lesões em levantadores de peso olímpico foi de 3,3 lesões por 1000h de treino ¹7. Uma pesquisa realizada com ginastas evidenciou uma taxa de 4,63 lesões por 1000h de treino¹8.

A grande incidência de lesões em ginastas e em atletas de levantamento de peso olímpico, se mostram apoiadas pelos estudos citados nesta revisão anteriormente, onde foi observado que os exercícios com movimentos de ginástica foram responsáveis por um maior número de lesões, seguido por exercícios de levantamento de peso. Esses achados podem ser devido ao fato de que movimentos de ginástica necessitam de habilidade, força e flexibilidade para serem realizados de maneira correta; assim como os movimentos de levantamento de peso necessitam de uma grande amplitude de movimento e estabilidade do ombro. Sabendo disso, tanto os atletas quanto os treinadores devem estar cientes dos ricos e acompanhar de perto a performance dos participantes nestes exercícios, garantindo que os mesmos sejam executados corretamente, evitando movimentos que coloquem as estruturas em risco de lesões.

Atletas competidores da modalidade e que participam de treinos há mais tempo se mostraram mais sujeitos a sofrer lesões, o que provavelmente se dá devido a rotina mais intensa de treinamento. Já foi comprovado que exercícios de alta intensidade podem levar a apoptose (morte celular) de linfócitos, ocasionando uma diminuição dos linfócitos circulantes e por consequência uma redução na imunidade, que poderá ser maior, quanto mais intenso e frequente for o exercício¹9. Outro ponto que se mostrou relevante é a presença de um instrutor durante os treinos, pois a sua falta foi associada a uma maior incidência de lesões.

Todos os estudos de corte transversal utilizaram a variável da taxa de lesão por 1000h de prática, porém existem discrepâncias entre eles quanto ao tamanho das amostras, gêneros envolvidos, nível de treinamento dos participantes, participação em outros esportes ou se são competidores. É importante ressaltar que todas as pesquisas relatadas nesta revisão apresentam viés de seleção, devido aos questionários serem distribuídos eletronicamente, o que pode atrair mais pessoas que já sofreram algum tipo de lesão para respondê-los.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os locais mais acometidos por lesões durante os treinos de CrossFit® foram, respectivamente: Ombro, coluna lombar e joelho. Os exercícios com movimentos de ginástica e levantamento de peso olímpico foram os maiores responsáveis. Além disso, foi evidenciado que atletas competidores e com mais tempo de prática foram os mais afetados.

A ausência de um instrutor durante o treino também está relacionada a um maior número de lesões. Foi observado que as taxas de lesões no CrossFit® se aproximam as de outros esportes de intensidade semelhante.

O CrossFit® é um esporte de natureza competitiva, de alta intensidade, que inclui exercícios com grande número de repetições, tempo de descanso limitado, exigindo grande amplitude de movimento e em alta velocidade, que quando combinados, tais fatores podem proporcionar um maior risco de lesão ao atleta. Com o aumento da popularidade da prática, consequentemente o número de lesões pode vir a crescer. Fisioterapeutas devem estar atentos aos fatores relacionados para aconselhar e tratar estes indivíduos de forma mais criteriosa.



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