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Função Pulmonar dos Trabalhadores Expostos ao Amianto: Necessidade do Acompanhamento Longitudinal Pós-Exposição

Função Pulmonar dos Trabalhadores Expostos ao Amianto: Necessidade do Acompanhamento Longitudinal Pós-Exposição

INTRODUÇÃO
Amianto ou asbesto corresponde à denominação genérica de um conjunto de minerais fibrosos abundante na natureza, cujo valor comercial decorre das características de ampla utilização industrial por suas propriedades de grande resistência mecânica, comparando-se ao aço, bem como de sua resistência à abrasão térmica e química. O mineral pode ser tecido como artefato seguro para enfrentar calor e à chama, bem como pode ser transformado em material bastante versátil e resistente quando mesclado ao cimento _ o cimento-amianto ou fibrocimento_ empregado na fabricação de telhas, caixas d’água, forros e painéis.
Os efeitos do amianto ou asbesto sobre a saúde humana já são identificados desde a antiguidade, e ao longo do tempo, bem como da observação clínica, esta correlação passou a ser estabelecida com diversos comprometimentos pleuropulmonares não malignos e malignos como: derrame pleural pelo asbesto, espessamento pleural circunscrito ou placas pleurais, espessamento pleural difuso, atelectasia redonda, asbestose além adenocarcinoma de pulmão e mesotelioma. Justamente pelo seu potencial de causar lesões malignas, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) da Organização Mundial de Saúde (OMS) classifica o amianto como pertencente ao Grupo I, ou seja, como agente cancerígeno para o ser humano.
Desde 1940 o amianto começou a ser explorado comercialmente no Brasil. Nos idos de 1956 foi publicada a primeira análise de trabalhadores das minas de extração do mineral, vinculando a exposição ao amianto a diversos agravos à saúde6, contudo, somente em 1991 houve o expresso reconhecimento da necessidade de políticas prevencionistas a partir da ratificação da Convenção nº 162 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil, o que denuncia uma lacuna temporal de pelo menos 50 anos em que os trabalhadores estiveram expostos ao agente danoso mas sob a insegurança da não efetivação de políticas prevencionistas, diagnósticos e consequente notificação dos casos, bem como carentes da adequada atenção à saúde ocupacional inerentes ao risco.
O Brasil alcançou grande expressão no cenário mundial em extração, exportação e consumo do amianto no sentido oposto ao que ocorria na Europa, Canadá e Estados Unidos. O principal tipo de fibra explorado no País, o Crisotila (amianto branco) resistiu às restrições globais e pressões para banimento do uso do mineral por promover forte campanha visando estabelecer menor potencial danoso causado por esta variedade do mineral, permitindo a continuidade de sua exploração por muitas décadas até o banimento da utilização de qualquer forma de amianto no Brasil consequente à decisão do Supremo Tribunal Federal em 29/11/2017.
Ocorre que as consequências à saúde decorrentes da exposição ocupacional ao amianto não se extinguem com a cessação do contato com o mineral, já que existe um tempo de latência entre a inalação das fibras e o desenvolvimento das doenças ocupacionais que pode alcançar décadas, existindo casos com desenvolvimento de enfermidades entre 3 a 10 anos assim como superior a 50 anos após a exposição ocupacional.
Dado o comprometimento da função pulmonar decorrente do caráter das doenças relacionadas à exposição inalatória às fibras do amianto, a espirometria apresenta-se como uma forma de avaliação funcional de grande importância para o estudo e monitoramento da função pulmonar comparando os eventuais dados prévios e o seguimento pós-exposição ocupacional ao amianto. A espirometria é uma prova funcional segura, de baixo custo, sensível à detecção das repercussões funcionais pulmonares e reprodutível, o que a torna bastante útil para monitorizar desempenho ventilatório pulmonar e os efeitos longitudinais da exposição ocupacional ao amianto.
O Fisioterapeuta é profissional cuja competência técnico-científica alcança o âmbito ocupacional em diversas etapas da abordagem ao trabalhador, incluindo a espirometria ocupacional como uma ferramenta intrinsecamente correlata à sua praxis. O objetivo do presente trabalho é descrever as premissas que fundamentam a necessidade do acompanhamento longitudinal da função pulmonar pós-exposição ocupacional dos trabalhadores que estiveram expostos ao amianto bem como evidenciar a expertise do Fisioterapeuta frente esta conjuntura.

MATERIAIS E MÉTODOS
Trata-se de pesquisa bibliográfica direcionada ao levantamento do tema na qual foram utilizadas as palavras-chave “Amianto”, “Exposição Ocupacional”, “Pneumoconiose”, “Espirometria”, “Função Pulmonar” e “Fisioterapia”, de forma combinada e isolada, em português e inglês, em meios de referências eletrônicos e periódicos nas bases de dados da Biblioteca Virtual em Saúde BVS/Bireme, Scielo e Pubmed, alcançando uma linha do tempo que contemplou publicações entre os anos 1975 e 2018 no âmbito desta pesquisa.
Também foram utilizadas como fontes de consulta os Portais do Ministério da Saúde, do Ministério do Trabalho, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto (ABREA), do Supremo Tribunal Federal (STF), além de Leis, Portarias e Dados Estatísticos correlatos ao tema.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
EXPOSIÇÃO OCUPACIONAL AO AMIANTO NO BRASIL
Os termos Amianto e Asbesto correspondem a um conjunto heterogêneo de fibras minerais naturais utilizadas desde a Antiguidade. Sua denominação provém do latim (amianthus) e do grego (asbestos) correspondendo respectivamente a “incorruptível”, “incombustível”, “indestrutível” em razão das suas propriedades físico-químicas de isolamento térmico; alta resistência a temperaturas, choques mecânicos, produtos químicos, microorganismos e abrasão; boa capacidade de filtragem, isolamento elétrico e acústico; incombustibilidade; durabilidade; flexibilidade e alta afinidade por outros compostos formando matrizes estáveis, como cimentos, resinas e ligantes plásticos, sendo descritos mais de mil usos industriais.
Além das multipropriedades descritas, o baixo custo e a grande quantidade disponível na natureza agregaram muitos atrativos para a utilização em larga escala da fibra mineral, contudo esta exploração comercial do amianto negligenciou durante muitos anos a preocupação acerca dos riscos ocupacionais e ambientais ao mesmo, cuja periculosidade reside na contaminação do ar pela poeira mineral e o consequente risco de inalação das fibras aerodispersíveis do mesmo, o que se dá principalmente na exposição ocupacional. O risco se dá pelo contato com as partículas do pó de amianto que estão em suspensão do ar ou são suscetíveis de ficar em suspensão, seja no momento da extração do minério, processamento industrial ou mesmo no manuseio (transporte, deslocamento, furação, corte, lixamento, escovação, demolição) dos resíduos de materiais produzidos com amianto, sendo consideradas partículas respiráveis de amianto as fibras cujo diâmetro seja inferior a 3 micrômetros.
Até o final da década de 30 o Amianto consumido no Brasil era importado, mas a partir da descoberta das primeiras jazidas em Goiás, na Bahia, no Piauí e em Alagoas nos idos de 1940, se iniciou a extração e exploração comercial do mineral no território nacional.16Nas décadas seguintes, a descoberta de outras jazidas possibilitou ao País a autossuficiência com consumo de 70% do amianto brasileiro no próprio mercado nacional, principalmente na indústria de construção e fabricação de fibrocimento para produção de telhas e caixas d’água.17 levando o Brasil ao 3º lugar no ranking mundial de extração, 2º lugar em exportação e 4º lugar em consumo de amianto segundo a United States Geological Survey (USGS).
Ao passo que os países desenvolvidos como Estados Unidos e Canadá, cientes da nocividade do amianto estavam sob pressão de banimento e substituição do mineral, a produção industrial no Brasil ganhava força, em particular no setor do fibrocimento, resistindo às restrições mundiais ao defender que os danos causados pelo tipo crisotila ou amianto branco, o mais abundante no território nacional, ofereceria menos danos à saúde.5,6 Estatisticamente, enquanto se estimava a exposição média de amianto em 100g/ano para o cidadão americano, 500g/ano para o canadense, a exposição ocupacional média para o brasileiro era de 1200g/ano o que contribui para incremento exponencial dos agravos à saúde.
Em face do retardo e morosidade do Brasil em adotar critérios de risco, diagnóstico e consequentemente notificação dos trabalhadores expostos, as estatísticas nacionais são bastante frágeis. Neste contexto, estima-se que o quantitativo de pessoas que estiveram expostas direta e ocupacionalmente ao amianto seja de mais de 200.000 trabalhadores da indústria de extração e transformação, 300.000 na indústria de manutenção e reparo de sistemas de freio veicular e um número exponencialmente maior, mas não conhecido, de trabalhadores informais envolvidos na construção Civil, o que facilmente ultrapassando mais de 1 milhão de trabalhadores expostos, porém com evidente subnotificação dos dados epidemiológicos.
3.2. PNEUMOCONIOSES RELACIONADAS AO AMIANTO E SUA REPERCUSSÃO NA FUNÇÃO PULMONAR
As Pneumoconioses são pneumopatias etiologicamente relacionadas à inalação de poeiras no ambiente ocupacional. Para que a enfermidade ocorra, se faz necessário que o material seja inalado e alcance as vias respiratórias inferiores em quantidade suficiente para superar os mecanismos fisiológicos de depuração: transporte mucociliar, transporte linfático e fagocitose pelos macrófagos alveolares. Anatomicamente, partículas menores que 5μ são consideradas “fração respirável” e possuem maior chance de depósito no trato respiratório inferior onde podem desencadear o processo patógeno.
O amianto constitui poeira inorgânica com características físico-químicas bastante lesivas induzindo pneumoconiose fibrogênica, ou seja, a inalação do material particulado leva à fibrose intersticial do parênquima pulmonar. As partículas inaladas induzem atividade inflamatória que induz alveolite com lesão de pneumócitos tipo I, proliferação de pneumócitos tipo II e fibroblastos, estimulando fibrogênese . Quanto maior a quantidade de partículas inaladas ou quanto mais persistente a exposição no tempo, maior o risco de instalação de fibrose difusa e progressiva do parênquima.
a) Asbestose – fibrose intersticial pulmonar difusa e bilateral bastante relacionada à magnitude e duração da exposição ao agente. O período de latência pode variar de 5 a 15 anos ou mais. A dispneia é o sintoma predominante, podendo estar associada também a estertores crepitantes basais, ou mais raramente a dor torácica e baqueteamento digital. Na análise da função pulmonar apresenta-se distúrbio ventilatório restritivo. Casos com distúrbio ventilatório obstrutivo de pequenas vias sugerem anormalidade funcional precoce ou podem estar associados a tabagismo.
b) Placas pleurais circunscritas – são as manifestações mais frequentes da exposição ao amianto e surgem primariamente na pleura parietal. O tempo de latência médio é 30 anos para seu surgimento, porém também há relato de casos com tempo inferior a 3 anos assim como superior a 50 anos. Costumam ser assintomáticas se não estiverem associadas a derrame pleural, quando então surgem dor torácica e dispneia aos esforços.
c) Espessamento pleural difuso – afeta a pleura visceral e pode decorrer de processo inflamatório pleural ou extensão de fibrose parenquimatosa subpleural. Em casos acentuados pode restringir expansibilidade pulmonar causando distúrbio ventilatório restritivo. Associa-se também a dispneia ao exercício e episódios de tosse seca.
d) Atelectasia redonda – é uma anormalidade pleuroparenquimatosa induzida pelo amianto, causada por espessamento pleural focal com retração e colapso pulmão adjacente. Geralmente assintomática, porém pode comprometer a expansão volumétrica pulmonar.
e) Adenocarcinoma de pulmão e mesotelioma – não são enquadrados como pneumoconioses contudo, também estão associados aos relatos de exposição ao amianto. São necessárias exposições cumulativas elevadas ( > 25 fibras/ano) e intervalo de tempo pelo menos 10 anos de exposição para atribuir o adenocarcinoma ao asbesto. Por outro lado, o mesotelioma maligno é um tumor bastante raro, mas que na maioria dos casos está relacionado com exposição ao asbesto, e, lamentavelmente, com prognóstico extremamente reservado sendo eleito tratamento paliativo. Justamente pelo seu potencial de causar lesões malignas, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) da Organização Mundial de Saúde (OMS) classifica o amianto como pertencente ao Grupo I, ou seja, como agente cancerígeno para o ser humano.
Ainda que Heródoto já tivesse descrito uma alta mortalidade por doença pulmonar dentre os escravos que fiavam e teciam mortalhas de amianto, foi em 1899 que Murray apresentou a primeira descrição científica de doença com publicação sobre asbestose. Contudo, o grave risco da enfermidade como doença ocupacional foi reconhecido somente em 1930 com a elevação dos número de casos de asbestose nos países industrializados.
No Brasil, a primeira referência sobre as doenças relacionadas ao amianto foi registrada nos idos de 1956 com a publicação da primeira análise de trabalhadores das minas de extração do mineral, vinculando a exposição ao amianto a diversos agravos à saúde. O primeiro caso de asbestose comprovado na indústria do cimento-amianto foi descrito na literatura científica apenas em 1975, apresentando o relato de caso de um trabalhador que referia 22 anos de exposição ocupacional. Naquela ocasião, os pesquisadores se valeram da publicação para chamar atenção de profissionais envolvidos com a saúde ocupacional quanto à indispensável realização de exames radiológicos e provas de função pulmonar dos trabalhadores expostos à poeira do amianto de forma a permitir o seguimento epidemiológico e a efetivação de práticas prevencionistas.

ASPECTOS NORMATIVOS E LEGAIS RELACIONADOS AO AMIANTO NO BRASIL
Diante do potencial nocivo da exposição ao amianto em todas as suas formas e visando estabelecer medidas para proteção dos trabalhadores, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) editou a Convenção nº 162 em 1986, a qual foi ratificada pelo Brasil por meio do Decreto nº 126 de 22/05/1991 para que a mesma fosse “executada e cumprida como nela se contém”.
Na sequência, a edição da Portaria SST nº 01 de 28/05/1991 do então Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) regulamentou a referida Convenção instituído os termos referentes ao asbesto no anexo n° 12 da Norma Regulamentadora 15 (NR-15)14 quanto aos limites de tolerância de poeiras minerais nas atividades e operações insalubres. Dentre seus itens, além dos aspectos relacionados às medidas ambientais e de uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), a norma instituiu o tipo e frequência de exames ocupacionais, conforme item 18:
18. Todos os trabalhadores que desempenham ou tenham funções ligadas à exposição ocupacional ao asbesto serão submetidos a exames médicos previstos no subitem 7.1.3 da NR-7, sendo que por ocasião da admissão, demissão e anualmente devem ser realizados, obrigatoriamente, exames complementares, incluindo, além da avaliação clínica, telerradiografia de tórax e prova de função pulmonar (espirometria).
18.1. A técnica utilizada na realização das telerradiografias de tórax deverá obedecer ao padrão determinado pela Organização Internacional do Trabalho, especificado na Classificação Internacional de Radiografias de Pneumoconioses (OIT-1980).
Bem como estabeleceu a necessidade de continuidade de realização periódica de exames dos trabalhadores durante 30 anos após o termino do contrato de trabalho, segundo o item 19:
19. Cabe ao empregador, após o término do contrato de trabalho envolvendo exposição ao asbesto, manter disponível a realização periódica de exames médicos de controle dos trabalhadores durante 30 (trinta) anos.
19.1. Estes exames deverão ser realizados com a seguinte periodicidade: a) a cada 3 (três) anos para trabalhadores com período de exposição de 0 (zero) a 12 (doze) anos; b) a cada 2 (dois) anos para trabalhadores com período de exposição de 12 (doze) a 20 (vinte) anos; c) anual para trabalhadores com período de exposição superior a 20 (vinte) anos.
Apesar do avanço normativo quanto ao monitoramento da saúde dos trabalhadores expostos ao amianto, somente com a Lei nº 9.055 de 01/06/1995 foi determinado que as empresas enviassem anualmente ao Sistema Único de Saúde e aos Sindicatos representativos dos trabalhadores a listagem dos empregados e os respectivos diagnósticos.21 Os procedimentos e critérios apara envio da listagem de trabalhadores expostos e ex-expostos ao amianto foram definidos pelo Ministério da Saúde após 11 anos, por meio da Portaria nº 1851 de 09/08/2006.22 Nesse ínterim, foi instituída a Lista de Doenças relacionadas ao trabalho pela Portaria nº 1.339/GM/MS em 1999, foi efetivado o reconhecimento do Asbesto ou Amianto como agente etiológico ou fator de risco de natureza ocupacional bem como das respectivas doenças decorrentes do mesmo.
A longa trajetória dos debates sobre a nocividade do amianto no mundo e o crescimento dos casos de doenças do aparelho respiratório associadas ao amianto culminaram em um movimento social pró-banimento da exploração e uso do mineral no Brasil, sob grande pressão dos organismos internacionais como a Organização Internacional do Trabalho (OIT), quando já havia sido banido em mais de 70 Países por configurar uma ameaça à vida.6 O apogeu da discussão com o banimento da utilização de qualquer forma de amianto no Brasil se deu em 29/11/2017 quando o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a inconstitucionalidade do art. 2º da Lei Federal nº 9.055/95 que ainda permitia o uso e exploração do amianto crisotila (amianto branco). A decisão da Corte se deu mediante o consenso em torno da natureza altamente cancerígena do mineral e da inviabilidade de seu uso de forma segura, conforme o entendimento dos órgãos nacionais e internacionais que detém autoridade sobre o tema da saúde em geral, e em especial da saúde do trabalhador.
Decorrido apenas um ano desde o banimento do uso e exploração de todas as formas de amianto no Brasil, se faz necessário manter a rigor o monitoramento de todos os trabalhadores que estiveram expostos ao mineral, em face do potencial latente para comprometimento da saúde pulmonar ainda pelas próximas décadas. Ainda que não estejam inseridos nas estatísticas oficiais, é comprovado no Brasil o número de mais de 3.500 vítimas apenas dentre os que trabalharam nas fábricas de duas empresas do setor de fibrocimento, e especialistas estimam que haja um pico de mortalidade consequente à exposição ao amianto por volta do ano 2030.

AVALIAÇÃO LONGITUDINAL DA FUNÇÃO PULMONAR PÓS-EXPOSIÇÃO OCUPACIONAL
Os dados do SINAN apontam 108 casos de óbitos por pneumoconiose devido ao amianto e outras fibras minerais entre os anos de 1996 a 2016 na faixa etária de 15 a 74 anos. Ocorre que o levantamento estatístico também reflete a controvérsia do processo brasileiro de elaboração de critérios de risco e políticas de saúde ocupacional relacionadas ao amianto. Este contexto prejudicou a leitura da variação temporal e tendência histórica relacionada ao agravo, situação de subregistro citada por vários pesquisadores do tema.
Também não contribuem para o reconhecimento desses agravos o mimetismo com outros fatores etiológicos não relacionados ao amianto, a falhas no levantamento de história ocupacional, dificuldade de acesso aos meios diagnósticos adequados e em especial pelo período de latência entre a exposição ao agente e o evento diagnóstico em si, o que reforça a importância de um efetivo plano de acompanhamento longitudinal pós-exposição ocupacional ao amianto.
Desde 1992, quando o Amianto foi banido na Itália, o País se empenha para definir um protocolo de acompanhamento de saúde pós-ocupacional para os trabalhadores de amianto, visando a eficácia, adequação, economia e utilidade social requeridas para a adequada vigilância em saúde. No mesmo cotejo segue a Espanha, que baniu o Amianto em 2001 e instituiu o Programa de Vigilancia de la Salud de los Trajadores Expuestos al Amianto (PIVISTEA) incorporando organizações de empregadores, sindicatos e sociedades científicas, com vistas à manutenção de política de vigilância sanitária dos trabalhadores anteriormente expostos ao amianto.
No Brasil, ainda que após o banimento do amianto não tenha sido elaborada uma política específica, a exemplo da Espanha e da Itália, o País já dispunha dos requisitos normativos conforme o Anexo 12 da NR 15,14 a Lei nº 9.055 de 01/06/199521 e a Portaria nº 1851 de 09/08/2006 do Ministério da Saúde22 os quais orientam que sejam minimamente realizados, anualmente (ao longo de 30 anos) além da anamnese, o diagnóstico radiológico e provas de função pulmonar (espirometria) incluindo a Capacidade Vital Forçada (CVF), o Volume Expiratório do 1º Segundo (VEF1), o Índice de Tiffeneau (VEF1/CVF) e Fluxo Expiratório Forçado em 25% e 75% (FEF 25-75%). Estudos de análise longitudinal da função pulmonar por meio de espirometria em programas de monitoramento de trabalhadores da indústria de amianto e fibrocimento demonstraram a utilidade clínica de acompanhar os limites do declínio ao longo do tempo, uma vez que a média de parâmetros espirométricos demonstrou sofrer influência da dose de exposição ao agente, bem como observou-se declínio da capacidade funcional ao longo dos anos a despeito da cessação da exposição à fibra mineral.
Em razão da latência variável entre a exposição ocupacional ao mineral e um eventual diagnóstico, a avaliação longitudinal da função pulmonar se faz um marcador indispensável. A espirometria constitui o parâmetro de maior importância prática para o estudo do desempenho ventilatório, destacando-se as variáveis de análise simples e reprodutíveis que derivam da CVF, do VEF1 e da relação entre eles. Nas alterações restritivas, como nos quadros de fibrose associados à exposição ocupacional ao amianto, o diagnóstico está associado à redução da Capacidade Pulmonar Total (CPT), sendo a prova de função pulmonar é especialmente importante também para fins de compensação previdenciária e reparação cível, quando se faz necessária a valoração do dano causado.
Neste cenário, o Fisioterapeuta é profissional cuja característica técnico-científica figura intrinsecamente correlacionada, quer seja pelo contexto ocupacional, quer seja pela análise dos aspectos funcionais, cerne de sua práxis. Notadamente nos últimos anos, a saúde ocupacional tem recebido a contribuição do Fisioterapeuta em diversas etapas e contextos relacionados do processo de trabalho como o segmento de exames ocupacionais, adequação ocupacional da pessoa com deficiência (PcD) e de profissionais readaptados, análises e intervenções ergonômicas, implantação de Comitês de Ergonomia (COERGO), estruturação de ambulatórios nas empresas, atuação em Perícia e Assistência Técnica etc.
Estas competências do Fisioterapeuta encontram-se afiançadas pelas Resoluções COFFITO n° 400/2011 que disciplina a especialidade profissional de fisioterapia respiratória34, nº 464/2016 que dispões sobre elaboração e emissão de atestados, relatórios técnicos e pareceres35, n° 465/2016 que disciplina a especialidade de fisioterapia do trabalho36, nº 466/2016 que dispões sobre a perícia Fisioterapêutica e a atuação do perito e do assistente técnico37, pelo acórdão n° 294 do COFFITO acerca da legalidade do Profissional Fisioterapeuta na prática da espirometria38, e ainda endossada na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) do MTE de código 2236 que dentre as atividades contempla avaliação de funções respiratórias e estabelecimento de nexo de causa respiratória.
Ainda que por meio da revisão bibliográfica não tenham sido encontradas referências especificamente relacionadas à atuação do Fisioterapeuta com trabalhadores expostos ao amianto, há uma crescente nas publicações científicas de Fisioterapeutas na última década abordando a análise da função pulmonar de trabalhadores. A exemplo, pesquisa sobre a Funcionalidade pulmonar de garis que observou por meio de espirometria uma alta prevalência de distúrbio ventilatório obstrutivo na amostra pesquisada, o que era totalmente desconhecido por parte dos trabalhadores pois nunca haviam se submetido a uma prova espirométrica antes. Entre trabalhadores da indústria metalúrgica foi realizada pesquisa com avaliações espirométricas e de pico de fluxo expiratório que não evidenciou depreciação da função pulmonar dentro do universo pesquisado no estudo transversal. Resultado semelhante foi alcançado na pesquisa com trabalhadores da mineração de pirocloro, em que a frequência de sintomas respiratórios e alterações espirométricas foi baixa para a análise transversal da amostra. Todavia, a pesquisa com avaliação de sintomas respiratórios e índices espirométricos em trabalhadores de pedreiras/marmorarias, com elevado risco de silicose pela exposição ocupacional ao cristalino e sílica, evidenciou um alto percentual de fator sintomático e alteração significativa nos índices espirométricos analisados (CVF, VEF1 e PEF), justificando necessidade de readequação dos aspectos prevencionistas e necessidade de atenção à saúde dos trabalhadores já afetados.
Denota-se assim, além da importância do seguimento longitudinal dos trabalhadores expostos ao amianto, a legitimidade do Fisioterapeuta para acompanhamento desses trabalhadores que estiveram expostos ao mineral, contribuindo tanto para fins de diagnóstico, tratamento, notificação estatística, estudos epidemiológicos bem como na quantificação da capacidade funcional pulmonar para eventual amparo previdenciário e questões judiciais decorrentes do dano.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Por anos a fio, a magnitude do reconhecimento entre o amianto e as doenças ocupacionais foi obscurecida no Brasil, seja pelos interesses escusos em defesa da própria indústria, seja por fragilidade da notificação e levantamento estatístico, o que levou sobremaneira a um problema de saúde pública cujas dimensões ainda não são mensuráveis. Conquanto a exploração e atividade comercial com amianto estejam legalmente banidas do Brasil há cerca de um ano, se faz necessário o seguimento longitudinal de monitoramento da saúde pulmonar dos trabalhadores que estiveram expostos ao mineral pelas próximas décadas, sendo o Fisioterapeuta um profissional legitimado para atuar neste cenário.



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