Os Efeitos dos Recursos Fisioterapêuticos nos Sintomas Clínicos da Incontinência Urinária em Mulheres Idosas: Uma Revisão Integrativa
Introdução
A incontinência urinária (IU) é definida pela Sociedade Internacional de Continência (International Continence Society – ICS) como perda involuntária de urina. É uma preocupação de saúde prevalente entre mulheres idosas, apresentando implicações significativas para a qualidade de vida. O tratamento convencional da IU geralmente envolve intervenções farmacológicas, devido à sua eficácia bem estabelecida e alcançando taxas de sucesso entre 50% e 70%. No entanto, é importante ressaltar que esse método frequentemente é acompanhado por uma gama significativa de efeitos colaterais. A incidência desses efeitos colaterais varia amplamente, situando-se entre 2% e 66%, o que contribui para uma taxa considerável de interrupção do tratamento. Os principais efeitos colaterais são: náusea, cefaleia, sonolência, boca seca, visão turva, tonturas, distúrbios cognitivos e redução do suco gástrico, muitas vezes pouco tolerado pelos idosos.
Além desses desconfortos medicamentosos, de acordo com o paradigma biopsicoecológico, a IU possui associação direta com quedas da própria altura em idosos, pois resultam da interação da urgência da bexiga com as habilidades físicas do paciente (incapacidade de chegar ao banheiro antes do episódio de incontinência), atitudes mentais (ansiedade relacionada à urgência, vergonha e estigma do vazamento), expectativas sociais (demandas de vida e papéis que limitam o acesso ao banheiro) e ambiente (barreiras físicas para chegar ao banheiro).
Entretanto, a fisioterapia tem sido recomendada como forma de abordagem inicial no tratamento da IU e seus sintomas clínicos, podendo ser utilizada de forma individual ou combinada ao tratamento medicamentoso. Considerando a população geral e os artigos utilizados como base para realizar essa revisão bibliográfica, os recursos fisioterapêuticos geralmente propostos nos sintomas de IU são: treinamento dos músculos do assoalho pélvico (PFMT), modalidades de eletroestimulação, treinamento comportamental da bexiga, biofeedback intravaginal e exercícios físicos direcionados para diminuição do risco de queda.
Apesar de existirem diversos tratamentos documentados na literatura, há uma carência significativa de estudos voltados para a população idosa. Diante desse cenário, o presente estudo busca identificar as intervenções fisioterapêuticas disponíveis e analisar seus impactos nos sintomas clínicos da IU em mulheres acima de 60 anos.
Materiais e métodos
O presente trabalho baseou-se no referencial da pesquisa bibliográfica, que consiste no exame da literatura científica para levantamento e análise do que já se produziu sobre determinado tema. Envolveu as atividades básicas de identificação, compilação, fichamento, análise e interpretação.
A busca ocorreu mediante a utilização dos Descritores em Ciência da Saúde (DeCS) da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS): “urinary incontinence”, “elderly”, “physical therapy modalities”. O levantamento bibliográfico foi realizado online utilizando as bases de dados: Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e PubMed.
As estratégias de busca utilizadas foram: “urinary incontinence” and “elderly” and “physical therapy modalities”. Os critérios de inclusão foram: artigos originais de ensaio clínico, publicados entre os anos de 2019 e 2023 e nas línguas inglesa e portuguesa. Foram excluídos artigos que incluíram pacientes com menos de 60 anos, homens, ensaios sem dosimetria dos recursos utilizados, pacientes com doenças sistêmicas causadoras disfunção urinária e artigos não encontrados na íntegra.
Resultados
Foram encontrados 1554 artigos na base de dados Pubmed. Após os critérios de inclusão: clinical trial, artigos dos últimos cinco anos e línguas inglesa e portuguesa, restaram 121 artigos, os quais foram colocados em uma tabela para análise. Após a avaliação dos artigos pelo título, resumo e critérios de exclusão foram selecionados seis estudos que estão descritos na Tabela 1.
Na base de dados Lilacs, ao utilizar os descritores foram encontrados 7 resultados, sendo 1 deles duplicata e os outros seis não preenchiam os critérios de inclusão.

Discussão
A busca por abordagens não invasivas em idosas se faz necessária para prevenir complicações e iatrogenias. Nesse contexto, a fisioterapia emerge como uma opção de baixo custo, segura, sem efeitos colaterais, preservando a autonomia e independência.
Apesar da IU ser mais prevalente em mulheres idosas quando comparadas a adultas/adultas jovens são poucos os estudos direcionados apenas para essa faixa etária. As mulheres com essa faixa etária vivenciam perda de estrogênios que posteriormente acentuam e com isso, provocam alterações fisiológicas como diminuição da força muscular, atrofia do trato geniturinário, entre outros.
Portanto, é importante identificar pacientes com IU para diagnosticá-los e tratá-los de forma conservadora, a fim de melhorar sua qualidade de vida, especialmente em mulheres mais velhas.
Nos estudos selecionados no tempo estipulado dessa revisão de literatura (2019-2023), os seguintes recursos foram utilizados para reabilitação dos sintomas de incontinência urinária em mulheres idosas: eletroestimulação (EE) do nervo tibial, eletroestimulação (EE) parassacral, treinamento muscular de assoalho pélvico (TMAP), treino comportamental de bexiga, exercícios com biofeedback intravaginal e treinamento de força muscular (WT).
Todos os artigos escolhidos utilizaram o questionário ICIQ-SF (International Consultation on Incontinence Questionnaire – Short Form) como uma forma de avaliação da incontinência urinária e o impacto na qualidade de vida das mulheres idosas, sendo utilizado antes, durante e após o tratamento fisioterapêutico.

Eletroestimulação (EE) transcutânea do nervo tibial e parassacral
A eletroestimulação é uma modalidade de tratamento conservador em que o mecanismo terapêutico consiste em equilibrar os impulsos excitatórios e inibitórios que controlam a bexiga; pode ser aplicada de diferentes maneiras, como parasacralmente e no nervo tibial.
O nervo tibial pode ser estimulado de forma transcutânea, onde eletrodos de superfície são posicionados na região da inervação do nervo tibial. É menos invasiva em comparação com outras modalidades, vários estudos relataram bons resultados, incluindo melhora na qualidade de vida e resultados urodinâmicos. Essa técnica é fundamentada na acupuntura chinesa, que emprega o ponto do nervo tibial para suprimir a atividade da bexiga.
A estimulação sacral é outra forma de equilibrar os impulsos da bexiga, mas essa modalidade de eletroestimulação ainda é escassa na literatura.
Considerando o recorte temporal deste estudo de revisão apenas os estudos de Schreiner et al. e Jacomo et al. utilizaram essa modalidade. No estudo de Schreiner et al. foram utilizados os seguintes parâmetros: frequência de 10hz, largura de pulso 200us, intensidade de pulso tolerada pelo paciente e tempo de 30 minutos para cada sessão. A intervenção foi realizada uma vez na semana por 12 semanas.
Em Jacomo et al. foram utilizados os mesmos parâmetros para o grupo 1 com EE tibial enquanto que no grupo 2 com EE parassacral foi utilizado frequência de 10hz, largura de pulso 700us. Ambos os grupos realizaram 8 sessões, com duração de 30 minutos, duas vezes por semana.
Nos dois estudos os grupos que realizaram EE tibial obtiveram resultados superiores ao grupo que realizou EE parassacral e ao grupo que não realizou nenhum tipo de EE, apenas contrações de assoalho pélvico e mudanças comportamentais.
Treinamento muscular de assoalho pélvico (TMAP)
Dos seis artigos selecionados, três utilizaram o treinamento muscular de assoalho pélvico em suas condutas fisioterapêuticas. Essa técnica baseia-se na capacidade da contração dos músculos do assoalho pélvico (MAP) em inibir por mecanismo reflexo a contração do detrusor.
Virtuoso et al. comparou dois grupos, ambos realizaram TMAP em coletivo, em três posições diferentes: deitada, sentada e evoluindo para em pé. No grupo controle (GC), as sessões eram feitas duas vezes por semana, com duração de aproximadamente 30 minutos com oito a 12 repetições de TMAP por exercício. No grupo de intervenção (GI), a mesma conduta de TMAP foi realizada, adicionando treinamento de peso aos pacientes. O GI mostrou uma ausência significativa de sintomas de incontinência urinária (UI) e uma recuperação mais rápida, destacando a eficácia de intervenções combinadas em relação ao TMAP isolado.
No estudo de Mihalová et al., os autores investigaram o impacto de um programa de treinamento físico combinado com TMAP na IU e no risco de quedas. No grupo experimental (GE), além do treinamento físico realizado pelo grupo controle, GE também recebeu educação sobre o assoalho pélvico, treino comportamental, e TMAP em várias posições e com tarefas duplas. Estas atividades foram realizadas duas vezes por semana, com cada sessão durando 30 minutos.
Portanto, a integração de treinamento físico, TMAP e execução de tarefas simultâneas no grupo experimental (GE) resultou em uma eficácia superior no alívio dos sintomas de incontinência urinária (IU) e na diminuição da probabilidade de quedas em comparação com o grupo controle (GC), que se dedicou exclusivamente ao treinamento físico.
O estudo conduzido por Dumoulin et al. examinou a eficiência do TMAP quando praticado coletivamente em comparação com sessões individuais. Embora ambos os formatos tenham contribuído para a diminuição da incontinência urinária (UI), a versão em grupo destacou-se por ser mais acessível e apresentar uma melhor relação custo-benefício. Isso sugere que o TMAP em grupo poderia ser uma opção eficiente e economicamente vantajosa para implementação em ambientes clínicos.
A prática de fortalecimento muscular deve consistir em exercícios que promovam contrações voluntárias especificamente dos músculos alvo, sob orientação detalhada. Isto implica em evitar a ativação de músculos adjuntos, tais como os glúteos, os adutores do quadril e os músculos abdominais, que frequentemente são confundidos e contraídos no lugar dos músculos do assoalho pélvico.
Para maximizar a efetividade do tratamento, é essencial que o fisioterapeuta oriente inicialmente o paciente a respeito das estruturas e das funções específicas dos músculos envolvidos nas contrações desejadas.
Terapia Comportamental
A terapia comportamental, segundo a ICS evidencia, compreende a análise e alteração da relação do sintoma da paciente e seu ambiente para modificação de maus hábitos miccionais.
Chu et al. (2019) incluiu na sua intervenção medidas comportamentais como parte de um programa integrado que também envolveu exercícios físicos e prevenção de quedas. A terapia comportamental para incontinência urinária (IU) pode envolver várias estratégias, como treinamento da bexiga, técnicas de relaxamento, ajustes de dieta e líquidos, e agendamento de visitas ao banheiro para melhor gerenciar a urgência e frequência urinária.
Esse estudo evidenciou que o grupo experimental (GE), submetido a uma intervenção que incluiu atividades físicas, treinamento vesical e estratégias comportamentais, apresentou desempenho mais satisfatório em contraste com o grupo controle (GC), o qual foi apenas submetido a uma consulta com um profissional especializado em incontinência urinária.
Tal achado indica que a terapia comportamental pode desempenhar um papel significativo no contexto de um programa terapêutico integrado destinado ao tratamento da incontinência urinária entre a população de mulheres idosas.
Conclusão
Conclui-se que os estudos revisados neste artigo demonstram a eficácia de abordagens multifacetadas no tratamento da incontinência urinária (IU) em mulheres idosas. As técnicas de eletroestimulação transcutânea do nervo tibial e parassacral se mostraram promissoras, com a EE tibial destacando-se por sua menor invasividade e resultados positivos tanto na qualidade de vida quanto em achados urodinâmicos.
A fundamentação dessas técnicas na acupuntura chinesa e a adaptação dos parâmetros de estimulação para cada paciente individualmente sugerem um caminho personalizado e menos invasivo para o tratamento da IU.
O treinamento muscular de assoalho pélvico (TMAP) também se revelou uma estratégia terapêutica eficaz, com estudos apontando benefícios tanto na prática individual quanto em grupo. A incorporação de TMAP em programas de exercícios físicos e a atenção para realização correta dos exercícios, evitando a compensação por músculos adjacentes, são cruciais para a maximização dos resultados.
Os estudos indicam que a inclusão de treinamento de peso e a execução de tarefas duplas podem potencializar a recuperação e alívio dos sintomas de IU, além de contribuir para a redução do risco de quedas.
Por fim, a terapia comportamental emerge como um componente valioso em um programa integrado de tratamento, abordando a IU não apenas no nível fisiológico, mas também por meio da alteração de comportamentos e hábitos que afetam a dinâmica miccional. A combinação de exercícios físicos, treinamento da bexiga e medidas comportamentais mostrou-se superior em comparação com as consultas isoladas com especialistas, sublinhando a importância de uma abordagem holística e multidisciplinar no tratamento da IU.
Entretanto, mais estudos devem ser realizados para ratificar esses achados e suas metodologias descritas de forma mais detalhada para que seja possível a sua aplicabilidade clínica.
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ARTIGO PUBLICADO EM 18/06/2026
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