Fisioterapia na Criança com Paralisia Cerebral Concomitante a Microcefalia: Relato de Caso
1. INTRODUÇÃO
A paralisia cerebral é uma doença crônica incapacitante diagnosticada na primeira infância.
Podemos definir como um distúrbio do movimento e/ou postura e da função motora, permanente, mas não imutável, devido a uma lesão não progressiva ou anormalidade da imaturidade do cérebro.
As características da paralisia cerebral estão associadas a danos no cérebro imaturo, que causam deficiências primárias subsequentes, incluindo diminuição do tônus muscular, perda do controle motor seletivo e equilíbrio prejudicado.
Os objetivos terapêuticos na paralisia cerebral visam melhorar a mobilidade, função de membro superior, força muscular, resistência e aptidão cardiorrespiratória.
A paralisia cerebral pode vir decorrente de uma microcefalia onde ocorre um defeito estrutural deixando o tamanho da cabeça do feto ou da criança menor do que o esperado, considerando idade e sexo equivalentes.⁴
A microcefalia pode ser congênita(primária) devido a fatores genéticos adquirida(secundária) relacionado a fatores não genéticos que ao nascer o crânio está dentro da faixa normal e logo diminui devido à desaceleração do crescimento do cérebro.
De acordo com a gravidade, além da paralisia cerebral a criança que nasce com microcefalia pode apresentar diversos problemas que vão desde deficiência intelectual, epilepsia, atraso no desenvolvimento, distúrbios da visão e audição.
O objetivo para esse trabalho é descrever, através de relato de caso, como a Fisioterapia pode promover evolução motora e desenvolver habilidades fundamentais de uma criança com paralisia cerebral associada à microcefalia, promovendo assim ganho de capacidades funcionais, qualidade de vida e a sua inserção social.
2. RELATO DE CASO
Esse artigo fala sobre o caso da paciente M.C.M.P, que nasceu no dia 3 de junho de 2015 às 7:03, no hospital da mulher Mariska Ribeiro. A idade gestacional era de 26 semanas, pesando 760 gramas com 31 cm, perímetro cefálico de 25 cm. O parto foi vaginal, a mãe fez pré natal com 6 consultas.
O apgar no primeiro minuto foi de 2 e o de cinco minutos foi de 7, foi entubada na sala de parto. Escore de gravidade 42(CRIB), parte respiratória apresentou membrana hialina, pneumonia e apneia e na parte metabólica teve hipoglicemia sintomática. Precisou de suporte ventilatório, hood 12 dias, cpap de 27 dias, respirador de 42 dias. Duas doses de surfactante.
Teve alta no dia 27/10/2015 com peso de 3.200kg, estatura 45 cm, perímetro cefálico de 33 cm.
O período de observação deste caso foi de 6 meses ( de agosto de 2022 a fevereiro de 2023).
A escala utilizada será a GMFM 88.
A criança além da fisioterapia realizou tratamento com a fonoaudiologia para motricidade orofacial, fortalecimento da musculatura oro facial ajudando na deglutição, respiração, mastigação(sistema estomatognático) e na linguagem.
O tratamento de fisioterapia é feito duas vezes na semana no período de 40 minutos.
M.C apresenta um quadro motor de quadriparesia hipertônica com hipotonia de base e GMFCS IV. A paciente apresenta limitações motoras, sendo totalmente dependente em suas atividades de vida diária com necessidade de um cuidador de forma integral. Encontra-se em cadeira de rodas e faz uso de órteses em membros superiores e inferiores. Apresenta alterações sensoriais, diminuição de força global, alterações tônicas reflexas, ortopédicas e biomecânicas, levando a dificuldade no ortostatismo dificultando o fluxo respiratório, sendo assim apresentando um desequilíbrio toracoabdominal e costelas aladas.
Foram realizadas como condutas fisioterapêuticas: mobilização tóraco lombar, lombossacra, para proporcionar alongamento e relaxamento das musculaturas, alongamento de peitoral e mobilização das escápulas, com o objetivo de liberar a região ântero-posterior e liberação das musculaturas estabilizadoras de escápula, auxiliando assim no movimento de depressão e adução das escápulas, treino em prono com apoio de cotovelo solicitando elevação de cabeça, para sustentação da mesma, progredindo para a postura de gatas, para o fortalecimento das estruturas estabilizadoras da cintura escapular proporcionando assim um melhor controle de cabeça, sentada em anel para tentar um controle de tronco, também foi trabalhado o tronco na postura sentada com objeto a frente para o fortalecimento das musculaturas estabilizadoras de tronco e abdômen e treino na postura ortostática com flexão e extensão de tronco alcançando um objeto abaixo, para fortalecer as musculaturas de tronco e abdômen com isso ajudando num melhor controle de cabeça e a postura ortostática para a melhora do sistema hemodinâmico e cardiovascular e também auxilia no melhor controle de tronco e cabeça.
Usando a gaiola de therasuit como recurso, a paciente foi posicionada de pé no spider com apoio anterior da barra realizando treino de marcha na esteira(necessita de ajuda para o movimento da marcha, foi necessário a ajuda de dois fisioterapeutas um em cada perna realizando o movimento da marcha),para uma descarga de peso nos quadris e joelhos.
3. DISCUSSÃO
A Paralisia Cerebral não tem cura, mas muito pode ser feito para que o indivíduo alcance o máximo de autonomia possível. Com a fisioterapia pode ocorrer o controle muscular e a marcha, com o objetivo principal de melhorar a independência e naqueles gravemente comprometidos facilitar os cuidados diários.
Após o período de 6 meses a paciente M.C apresentou melhora nas posturas, ganho de força em membros superiores e inferiores, tronco, melhora na posição da cabeça e na postura sentada a 90. A partir do teste gmfm 88 a paciente apresentou melhoras em algumas dimensões como está descrito na tabela 1. Podemos ver que a dimensão A, onde a mesma apresentou melhora em supino e prono sendo capaz de liberar os membros superiores e manipular um objeto, já na dimensão B foi possível observar uma melhora na força das musculaturas de tronco, sendo capaz de permanecer mais tempo sentado em anel e alcançar um objeto a frente. Tivemos um ganho extra onde na dimensão E ela foi capaz de passar de sentado para de pé com apoio das mãos da terapeuta e dar um passo à frente.
A fisioterapia consegue promover, a longo prazo, a diminuição do impacto dos diversos prejuízos causados pela paralisia cerebral e, ao mesmo tempo, melhorar o alinhamento postural e as habilidades motoras.
Com isso podemos observar que os exercícios melhoram a força muscular, resistência muscular local e amplitude do movimento articular.

4. CONCLUSÃO
A fisioterapia não é a cura ou normalidade, porém ela proporciona uma melhor eficiência no tratamento de um paciente portador da paralisia cerebral, impedindo a formação de deformidades devido à falta de mobilização articular, posturas prolongadas, e encurtamento muscular, fazendo com que a criança tenha uma melhora na força muscular, resistência muscular local, na amplitude de movimento, proporcionando uma melhor qualidade de vida, o conforto familiar e a reintegração na sociedade de forma natural e saudável.
REFERÊNCIAS
1Blair E, Watson L. Epidemiologia da paralisia cerebral.Semin Fetal Neonatal Med 2005;xx:1–9.
2McKinnon CT, Meehan EM, Harvey AR, Antolovich GC, Morgan PE. Prevalência e características da dor em crianças e adultos jovens com paralisia cerebral: uma revisão sistemática. Dev Med Child Neurol 2019; 61: 305–314.
3Ryan JM, Cassidy EE, Noorduyn SG, O’Connell NE. Intervenções de exercícios para paralisia cerebral. O banco de dados Cochrane de revisões sistemáticas 2017; 6: Cd011660.
4Von der Hagen M, Pivarcsi M, Liebe J, et al. Abordagem diagnóstica da microcefalia na infância: um estudo em dois centros e revisão da literatura.Neurol Infantil Dev Med 2014; 56: 732-41..
5Devakumar D, Bamford A, Ferreira MU, et al. Causas infecciosas de microcefalia: epidemiologia, patogênese, diagnóstico e tratamento.Lancet Infect Dis 2018; 18: e1- e13.
6Von der Hagen M, Pivarcsi M, Liebe J, et al. Abordagem diagnóstica da microcefalia na infância: um estudo em dois centros e revisão da literatura.Neurol Infantil Dev Med 2014; 56: 732-41.
7Fontes S, Alegrete N, Vieira I. Caracterização das alterações vertebrais em crianças com Paralisia Cerebral. Rev. Port. Ortop. Traum. 2013; 21 (3): 341-348
8Gomes C, Golin M. Tratamento Fisioterapêutico na Paralisia Cerebral Tetraparesia Espástica, Segundo Conceito Bobath. Rev Neurocince 2013.
9Das SP, Ganesh GS. Abordagem baseada em evidências para fisioterapia na paralisia cerebral. Indian J Orthop 2019;53:20-34.


ARTIGO PUBLICADO EM 03/06/2026
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