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A Influência da Pré-Habilitação no Paciente com Câncer de Esôfago: Uma Revisão da Literatura

A Influência da Pré-Habilitação no Paciente com Câncer de Esôfago: Uma Revisão da Literatura

Introdução

O câncer de esôfago (CE) destaca-se como uma das neoplasias mais prevalentes, caracterizando-se pela sua agressividade e elevada taxa de mortalidade, frequentemente atribuída a diagnósticos tardios. Essa lamentável realidade é, em grande parte, influenciada pelas características anatômicas, epiteliais e linfáticas do esôfago. Nas últimas décadas, a incidência dessa malignidade tem crescido de forma alarmante, posicionando-se como a oitava neoplasia mais comum globalmente e o terceiro tipo mais frequente entre os cânceres de origem gastrointestinal, afetando principalmente cerca de 70% do sexo masculino.

No Brasil, sem considerar os tumores de pele não melanoma, o câncer de esôfago ocupa a 13ª posição entre os tipos de câncer mais diagnosticados, assumindo a quinta colocação em homens (13,16 por 100 mil), com taxas mais elevadas na Região Sul do país. Estima-se que, nos próximos três anos (2023-2025), aproximadamente 10.990 novos casos de CE serão identificados.

Os dois principais tipos de histopatológico do CE são o carcinoma espinocelular (CEC) e o adenocarcinoma (ADC), cada um associado a diferentes fatores de risco e comprometimento estrutural. Enquanto o ADC está relacionado à doenças do refluxo gastroesofágico, obesidade, baixo consumo de fibras, frutas, vegetais e carnes magras, o CEC tem relação com alto consumo de álcool e tabagismo, além de consumo de bebidas muito quentes. Com isso, o comprometimento anatômico também será diferente, onde ADC está associado em sua maioria ao terço distal e CEC além de mais frequente, afetam comumente terço superior e médio.

O método primordial de tratamento para o câncer de esôfago (CE) é a esofagectomia radical, acompanhada pela linfadenectomia, sendo essencial realizar um estadiamento eficaz da doença por meio da classificação TNM (Tumor, Nódulo, Metástase). Este sistema, estabelecido como padrão internacional para o estadiamento, desempenha um papel crucial ao oferecer uma base sólida para decisões terapêuticas e prognósticos mais precisos. Além da esofagectomia, a quimioterapia neoadjuvante (NAC) emerge como uma terapia frequentemente empregada no tratamento do CE. Quando combinada com a esofagectomia, essa abordagem tem demonstrado resultados superiores e uma maior taxa de sobrevida para os pacientes.

Apesar dos avanços notáveis no manejo clínico e tratamento do CE, a trajetória dos pacientes após o início do tratamento é desafiadora, acarretando impactos adversos significativos na capacidade funcional, na qualidade de vida e na instauração de alterações agudas que muitas vezes evoluem para comprometimentos crônicos, como a sarcopenia e diminuição da reserva fisiológica. Esse contexto demanda abordagens inovadoras e eficazes.

Nesse sentido, a pré-habilitação é uma nova estratégia fundamentada em exercícios personalizados e emerge como um aliado crucial no tratamento do CE. Seu papel revela-se fundamental ao influenciar diretamente o prognóstico dos pacientes, proporcionando um aumento notável na capacidade funcional, reduzindo o estresse fisiológico e minimizando complicações pulmonares frequentemente observadas após a esofagectomia, tais como a pneumonia, que afeta aproximadamente 50% dos pacientes. Além disso, a pré-habilitação demonstra contribuir para a significativa redução do tempo de internação hospitalar, destacando sua importância na otimização do processo de recuperação pós-tratamento. Essa abordagem não apenas busca mitigar os desafios imediatos, mas também visa a promoção de uma recuperação mais duradoura para esse perfil de paciente.

Embora a literatura já tenha investigado a importância da pré-habilitação em diversos tipos de câncer, evidências específicas para pacientes com câncer de esôfago são limitadas. Este estudo visa preencher essa lacuna, proporcionando uma visão abrangente da literatura sobre a relevância da pré-habilitação no contexto do câncer de esôfago e seus impactos na capacidade funcional e qualidade de vida durante o tratamento.

Método

Estratégia de pesquisa

Uma pesquisa sistemática da literatura foi realizada nas bases de dados PubMed de agosto de 2023 a janeiro de 2024. Na pesquisa utilizou-se as seguintes palavras-chave: (câncer de esôfago), (pré-habilitação), (treinamento muscular inspiratório), “Meta-Análise” e “Revisão Sistemática”.

Critério de elegibilidade e seleção de estudos

Para a presente revisão da literatura, foram consideradas ensaios clínicos cujos resultados fossem descritos em artigos completos redigidos em inglês, português ou espanhol. Esses estudos deveriam apresentar observações clínicas em seres humanos, além de uma questão clínica claramente definida, detalhes explícitos dos critérios de inclusão e exclusão, bem como informações abrangentes acerca das bases de dados consultadas e estratégias de busca empregadas.

O processo de triagem para determinar a elegibilidade dos estudos foi realizado em duas fases distintas:

a) triagem de títulos e resumos;

b) triagem de textos completos.

Todos os artigos recuperados foram considerados, independentemente de seus resultados apontarem impactos positivos, negativos ou neutros das intervenções de exercício físico na qualidade de vida relacionada à saúde e na aptidão física de pacientes com câncer de esôfago.

Os critérios de exclusão foram aplicados de maneira rigorosa, englobando todos os estudos que não estivessem alinhados com os critérios de inclusão previamente estabelecidos.

Desenvolvimento e Discussão

Na presente revisão, foram explorados artigos que trouxeram a pré-habilitação nos pacientes com câncer de esôfago e seus benefícios no pós-operatório imediato e tardio e na qualidade de vida dos sobreviventes.

A pré-habilitação é caracterizada pelo aumento da capacidade funcional e psicológica do paciente, visando mitigar os impactos adversos decorrentes de um estresse significativo, seja ele por um tratamento neoadjuvante ou procedimento cirúrgico em si. Essa nova estratégia traz com base a nutrição, intervenções psicológicas, além dos princípios da reabilitação, através de programas de exercícios que visam aumentar a reserva funcional de um indivíduo para capacitá-lo ao que se aproxima e acelerar a recuperação funcional pós-operatória. Para além dos benefícios físicos observáveis, a pré-habilitação exerce um papel significativo no bem-estar psicológico e emocional dos pacientes. Ao oferecer uma sensação de controle e envolvimento direto no processo de tratamento, esses programas não apenas melhoram a qualidade de vida, mas também promovem uma saúde mental mais positiva e resiliente.

A avaliação do condicionamento cardiorrespiratório desempenha um papel crucial na determinação da necessidade de pré-habilitação em pacientes programados para cirurgias abdominais extensas. O Teste Cardiopulmonar (TECP) emerge como uma ferramenta fundamental para essa avaliação, oferecendo uma análise objetiva da capacidade funcional dos sistemas cardiovascular, respiratório, hematológico e celular. Entretanto, não é a realidade de todos os serviços a possibilidade da aplicação do teste ou a viabilidade, necessitando de outra alternativa para avaliação dessa variável tão importante e impactante.

Estudos recentes exploraram o uso do teste de caminhada de seis minutos (TC6MIN) para prever a morbimortalidade após procedimentos cirúrgicos. Este teste emerge como um dos principais indicadores funcionais em populações idosas, as quais podem colher consideráveis benefícios da pré-habilitação. Sua simplicidade e baixo custo o tornam uma ferramenta acessível e eficaz para avaliar a capacidade funcional, medindo a distância percorrida pelo paciente durante seis minutos.

No estudo conduzido por Gonçalves et al. em 2019, discute-se que pacientes idosos cujo desempenho no TC6MIN quando inferior a 400 metros (sendo acima de 400 metros um indicativo de independência e mobilidade), apresentaram uma resposta favorável à pré-habilitação, havendo um aumento de 10% a 15% na capacidade funcional em relação aos níveis basais durante o período pré-operatório, o qual se mantém após a cirurgia. Os pesquisadores ressaltam ainda que programas de exercícios pré-operatórios devem ser direcionados apenas a pacientes de alto risco para garantir sua custo-efetividade, ou seja, aqueles com reservas cardiopulmonares reduzidas (limiar aeróbico <11ml/kg/min).

Seguindo esse conceito, Akiyama, Yuki et al. em 2020, observou que o programa proposto proporcionou resultados positivos, conforme evidenciado pelo TC6MIN. O grupo de intervenção, que se submeteu a um regime de treinamento muscular respiratório, treino de força e exercícios aeróbicos duas vezes por semana em um ambiente controlado, demonstrou uma melhora significativa na distância percorrida durante o teste. Além disso, houve uma menor incidência de atelectasia pós-operatória de esofagectomia e complicações respiratórias, juntamente com uma melhor tolerância ao exercício na população estudada, alinhando-se aos objetivos da estratégia terapêutica proposta.

A esofagectomia é um procedimento cirúrgico complexo que requer anestesia por um período que pode variar de 4 a 8 horas, seguido por um tempo de ventilação mecânica. Como resultado dessa intervenção, até 75% dos pacientes desenvolvem complicações pós-operatórias, como pneumonia. A hipótese de que o treinamento muscular inspiratório (TMI) poderia reduzir a incidência de pneumonia ao melhorar a capacidade ventilatória pré-operatória vem sendo estudada.

No entanto, em um estudo conduzido por Valkenet em 2018, que envolveu a submissão de 120 pacientes a sessões de TMI com um resistor de carga linear pelo menos duas vezes por semana ou mais até a cirurgia, observou-se ganho de força, resistência e potência no grupo controle. Entretanto, não foi possível estabelecer uma correlação entre esses ganhos e a diminuição da taxa de pneumonia pós-esofagectomia. Esse resultado pode ser atribuído, em parte, à dissecção dos ramos pulmonares do nervo vago durante a esofagectomia, uma complicação comum associada ao procedimento que pode contribuir significativamente para o desenvolvimento de pneumonia pós-operatória.

Em síntese, a pré-habilitação em pacientes com câncer de esôfago representa uma abordagem integral para otimizar os resultados terapêuticos. A implementação sistemática desses programas pode não apenas melhorar a aptidão física dos pacientes, mas também mitigar complicações pós-operatórias, reduzir o tempo de internação e promover uma recuperação global mais satisfatória.

Conclusão

Diante desses impactos multifacetados, a promoção da pré-habilitação emerge como uma estratégia indispensável na busca por abordagens mais abrangentes e eficazes no tratamento do câncer de esôfago.

Referências

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    ARTIGO PUBLICADO EM 25/06/2026



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