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Fotobiomodulação na Radiodermite Pós Tratamento para o Câncer de Mama: Relato de Caso

Fotobiomodulação na Radiodermite Pós Tratamento para o Câncer de Mama: Relato de Caso

INTRODUÇÃO

O câncer de mama é uma doença causada pela multiplicação desordenada de células da mama. Esse processo gera células anormais que se multiplicam, formando um tumor. Há vários tipos de câncer de mama por isso, a doença pode evoluir de diferentes formas. Segundo o INCA para o ano de 2022, foram estimados 66.280 casos novos o que representa uma incidência de 43,74 casos, tornando assim o câncer de mama um problema de saúde pública (Ministério da Saúde Instituto Nacional de Câncer, Fatores de Risco de câncer no Brasil, 2022).

Diversos são os fatores de risco para desenvolver a neoplasia mamaria, são eles: idade, obesidade, sobre peso, pós menopausa, sedentarismo, consumo de bebida alcoólica, exposição frequente a radiação ionizante, história reprodutiva e hormonal, fatores genéticos (alterações nos genes BRCA1 e BRCA2) e hereditário (Ministério da Saúde Instituto Nacional de Câncer, Fatores de Risco de câncer no Brasil, 2022).

Uma das opções terapêuticas para o tratamento do câncer de mama, e a radioterapia que pode ser utilizada com finalidade pós-operatória/pós-quimioterápica (adjuvante) para destruir células remanescentes e reduzir recidiva loco- regional, ou de forma pré-operatória (neoadjuvante) desejando a redução do tumor e facilitar o procedimento operatório. Tal modalidade terapêutica provoca, frequentemente, toxicidade cutânea mais conhecida como radiodermite (COSTA et al., 2019). Essas dermites são lesões definidas como um conjunto de reações cutâneas decorrentes da destruição de células basais da epiderme, provocadas por exposição à radiação ionizante necessária para eficácia da radioterapia.

Um dos recursos utilizados no plano fisioterapêutico das radiodermites é a fotobiomodulação, que consiste no uso da luz para induzir alterações bioquímicas no processo de recuperação tecidual, reduzir o processo inflamatório e diminuir a dor na área lesionada (Fernandes & Machado, 2019). A terapia a laser, quando utilizada nos tecidos e nas células, não é baseada em aquecimento, ou seja, a energia dos fótons absorvidos não é transformada em calor, mas em efeitos fotoquímicos, fotofísicos e/ou fotobiológicos. Quando a luz laser interage com as células e tecidos na dose adequada, certas funções celulares podem ser estimuladas, como a estimulação de linfócitos, ativação de mastócitos, aumento de ATP mitocondrial eproliferação de vários tipos de células, promovendo, assim, efeitos antiinflamatórios. Nos últimos anos, a fototerapia por luzes coerentes (lasers) destaca-se como um bioestimulador para o reparo tecidual, aumentando a circulação local, a proliferação celular e a síntese de colágeno. A radiação emitida pelos lasers de baixa potência tem demonstrado efeitos analgésicos, antiinflamatórios e cicatrizantes, sendo, por isso, bastante utilizada no processo de reparo tecidual (Lins et al., 2010).

O objetivo deste trabalho é demonstrar, através de um relato de caso, a eficácia da fotobiomodulação da remissão da sintomatologia da radiodermite.

METODOLOGIA

O trabalho será apresentado em formato de relato de caso. A paciente em questão foi esclarecida sobre os objetivos do trabalho e houve o preenchimento do termo de livre consentimento e esclarecido antes do atendimento inicial. O
tratamento e acompanhamento foi realizado no Serviço de Reabilitação em Mastectomia do Centro Municipal de Reabilitação do Engenho de DentroRJ/CMRED-SMS, no ano de 2020.

RELATO DE CASO

Paciente Y.R.R, Sexo feminino, 25 anos, estudante, solteira, não possui histórico de hipertensão e diabetes, nega tabagismo e etilismo, não possui histórico familiar de câncer de mama e colo do útero. Foi diagnosticada com câncer na mama direita do tipo Carcinoma Invasivo. Realizou 16 ciclos de quimioterapia neoadjuvante e ao término da quimioterapia foi submetida à Mastectomia Radical Modificada. Após acompanhamento pela oncologia do Instituto Nacional do Câncer III, foi indicada a realizar 25 sessões de radioterapia adjuvante, evoluindo com deiscência cicatricial.

Paciente foi encaminhada para o ambulatório de fisioterapia oncológica do Centro Municipal de Reabilitação do Engenho de Dentro – CMRED, RJ. No momento da avaliação fisioterapêutica, a queixa principal referida pela paciente foi: “sinto meu braço direito repuxando”. Ao exame físico observou-se: temperatura aumentada em toda a região do plastrão (local de retirada da mama) direito, deiscência cicatricial com 8 cm horizontal e 3 cm vertical (mensuração realizada com fita métrica), Hiperestesia local, Dor (EVA=8), radiodermite grau 3, Ausência de fibrose cicatricial, Diminuição da amplitude do arco de movimento no membro superior direito para os movimentos de abdução e flexão de ombro acima de 90° e ausência de linfedema. Após a avaliação foi indicado o tratamento 2 vezes por semana com duração média de 40 a 60 minutos de acordo com a rotina ambulatorial do local.

O tratamento fisioterapêutico teve com o objetivo principal cicatrização da deiscência e melhora da radiodermite. A paciente em questão foi submetida a 3 atendimentos de fisioterapia utilizando o a fotobiomodulação como principal
componente da terapia, utilizado o aparelho Therapy Plus 250 mW de potência que possui dois comprimentos de onda luz vermelha (V) 660 nm e infravermelho (IV) 808 nm, sendo escolhido para esse caso aplicação mista, ou seja, fazendo a utilização da luz vermelha e infravermelha.

Na primeira sessão a paciente apresentava dor na região do plastrão (Eva: 8), deiscência medindo 8 cm x 3 cm. Foi utilizado lápis demográfico para realizar a marcação na pele com espaço de 1 cm de um ponto a outro, onde foi aplicado o laser. No que se refere à dosimetria, foi estipulado 1J por ponto alternando entre laser vermelho e infravermelho no plastrão e 1J vermelho na deiscência cicatricial por 10 segundos por ponto de aplicação. Paciente recebeu orientação domiciliar para realizar exercícios de MMSS na altura do ombro (90º) e cuidados com plastrão.

Já na segunda sessão a paciente apresentou melhora significativa do quadro álgico em plastrão (EVA 2), mas referiu dor em ombro direito (Eva 7), manteve-se a medida da deiscência e foi observado melhora da hiperpigmentação da pele e cicatriz operatória. A conduta terapêutica foi mantido na região da radiodermite e realizado laser 9J infravermelho no ombro para alivio da dor. Iniciou-se cinesioterapia ativa– assistida (flexão de ombro com bastão e abdução de ombro com total de 3×10 repetições) até altura do ombro (90º) e Mobilização escapular e orientação domiciliar na realização dos exercícios até altura do ombro.

Na terceira sessão a paciente não relatou nenhuma queixa, EVA 0, cicatrização da ferida operatória, melhora do aspecto da pele em plastrão, sem fibrose tecidual e ainda com limitação na realização da abdução do ombro acima de 90º. Conduta terapêutica foi aplicação do Laser 1J vermelho em plastrão e 1J infravermelho na cicatriz, iniciado cinesioterapia ativo resistido 1/2 kg limitando o movimento a altura do ombro devido ao processo de cicatrização da pele, foi realizado mobilização escapular e glenoumeral, mantivemos a orientação domiciliar dos exercícios.

DISCUSSÃO

Segundo Lins et al (2011), a aplicação do laser de baixa potência no pósoperatório de feridas cirúrgicas parece interferir em seu padrão de cicatrização tecidual, e acelerando o processo de reparo. Pode-se inferir que o uso de um único tipo de laser no processo de reparo nos diversos tecidos pode não ser completamente eficaz quanto a sua capacidade de acelerar a cicatrização, visto que cada tecido apresenta um padrão de absorção de energia específica. Em nosso trabalho optamos pela utilização do laser de baixa potência por já saber que sua resposta frente ao reparo tecidual é extensamente descrita na literatura cientifica. Embora tenhamos usado apenas o laser de baixa potência alteramos o comprimento da onda (misto) para obter penetração e absorção diferenciada no local tratado, respeitando a avaliação e percepção do terapeuta perante a ferida operatória.

DeLand et al (2007) avalia o uso da fotobiomodulação por diodo emissor de luz (LED) na prevenção da radiodermatite em pacientes com câncer de mama submetidas à radioterapia de intensidade modulada (IMRT), os autores observaram que o uso do LED reduz a incidência de radiodermatite (graus 1, 2 e 3) quando comparado ao grupo controle submetido à IMRT sem aplicação de fotobiomodulação. Estudos realizados por Censabella et al. 2016, avaliaram a terapia de fotobiomodulação utilizando laserterapia MLS® no manejo e na prevenção da radiodermatite aguda. Ambos demonstraram que a terapia de fotobiomodulação pode ser uma ferramenta eficaz para prevenir ou reduzir a severidade da radiodermatite. Baseado nesses dados o, presente estudo buscou eficácia da fotobiomodulação através do laser na radiodermite, com o principal objetivo de redução da toxidade da pele e fechamento da ferida.

Em revisão sistemática, Lopes et al. 2019, concluiu-se que o uso da terapia com Laser de baixa potência pode ser utilizada tanto para prevenir quanto para tratar complicações como radiodermatites, mucosites orais e linfedemas, decorrentes do tratamento oncológico, sendo o laser uma terapia segura.

Moreira et al. 2011, afirma que a laser de baixa potência pode atuar tanto na proliferação de fibroblastos quanto sobre a produção de colágeno. Estes efeitos dependem da densidade de energia, número de aplicações e do comprimento de ondas utilizados. Relata também que dependendo da dose utilizada podem-se ter efeitos estimulatórios ou inibitórios, sugerindo que dose acima de 10 J/cm² inibe a produção de colágeno e de 3-4 J/cm² intenso efeito sobre o crescimento de colágeno. No caso da paciente foi utilizado 1J/cm² cobrindo toda área do plastrão. A dosimetria selecionada foi baseada no consenso determinado pela Associação mundial de Laserterapia (World Associationof Laser Therapy) que descreve de 1 a 3J para o efeito cicatricial e também foi a dosagem que a paciente não relatou desconforto.

De acordo com Trindade, 2016, não há evidencias na literatura de um número mínimo de aplicações da fotobiomodulação para notar os efeitos da terapia, cada paciente apresenta uma melhora da lesão em números diferentes de aplicações. Em nosso trabalho observamos que em apenas 3 aplicações houve fechamento total da ferida e nenhuma complicação cicatricial subsequente, alcançando objetivo terapêutico.

Por fim, os autores Rodrigues et. al, 2020 afirmam que existe a necessidade de desenvolvimento de maiores pesquisas e que enfatizem a melhor dose, tempo de aplicação adequado, melhor comprimento da onda, bem como a área abrangente e o número de sessões para esses pacientes submetidos aos tratamentos decorrentes das reações adversas da radioterapia, buscando o desenvolvimento de protocolos e unificação dos cuidados.

CONCLUSÃO

Foi observado que o uso da fotobiomodulação pode ser uma abordagem terapêutica eficaz, rápida, indolor e não invasiva para o tratamento e prevenção da radiodermite. Nesse relato de caso utilizamos o comprimento de onda mista, 1J/cm² com 10 segundos de aplicação por 3 semanas e ainda sim obtivemos o fechamento da ferida redução do quadro de dor. Também é fundamental que a paciente seja orientada quanto aos cuidados e alterações na pele, assim como, informada sobre a necessidade de acompanhamento fisioterapêutico pré e pós tratamento de radioterapia visando a prevenção, acompanhamento e tratamento o mais precoce possível das complicações.

REFERÊNCIAS

CENSABELLA, Sandrine et al. Fotobiomodulação para o tratamento da dermatite por radiação: o ensaio DERMIS, um estudo piloto da terapia a laser MLS (®) em pacientes com câncer de mama. SupportiveCare in Câncer, vol. 24,9, 2016: 3925-33. doi: 10.1007/s00520-016-3232-0.

COSTA, Cássia et al. Radiodermatites: Análise dos Fatores Preditivos em Pacientes com Câncer de Mama. Rev. Brasileira de Cancerologia. 6º de junho de 2019 citado 24 de setembro de 2020; 65. 1. E-05275

DELAND, M. Maitland et al. Treatmentofradiation‐induceddermatitiswith light‐emittingdiode (LED) photomodulation. Lasers in Surgeryand Medicine: The OfficialJournalofthe American Society for Laser Medicine andSurgery, v. 39, n. 2, p. 164-168, 2007.

FERNANDES Giane Chaves, MACHADO Marcelo Resende. A Biofotomodualção na prevenção da radiodermite em pacientes com câncer na mama submetida á radioterapia: Revisão de literatura. Revista De trabalhos acadêmicos – UNIVERSO JUIZ DE FORA, NO 9.

LINS. Ruthinéia Diógenes Alves Uchôa et al. Efeitos Bioestimulantes do laser de baixa potência no processo de reparo. AnBrasDermatol. Campina Grande, 2010.

LOPES, Allana Emiliana Vitor; SANTOS, Dayane Trajado dos; GONÇALVES, Gessé Dias. Efeitos do laser de baixa potência em radiodermatites de pacientes com câncer mamário: uma revisão de literatura. 2019. Ministério da Saúde, Instituto Nacional de Câncer. Estimativa e incidência de câncer no Brasil e Fatores de Risco de câncer no Brasil. Rio de Janeiro

MOREIRA, Flávia Fonseca et al. Laserterapia de baixa intensidade na expressão de colágeno após lesão muscular cirúrgica. Fisioter. Pesqui., São Paulo , v 18, n. 1, p. 37-42, Mar. 2011 .

RODRIGUES, Julia Maria dos Santos et al. Uso do laser de baixa intensidade nas radiodermites: revisão sistemática. J. nurs. health. 2020;10. 2: e20102009

TRINDADE, RoxeanneHilario. Terapia a laser de baixa intensidade (LLLT) em lesão pós operatório de mama: processo de cicatrização e indicadores NursingOutcomesClassification (NOC). 2016.

ARTIGO PUBLICADO EM: 01/02/24



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