Efeitos do Banho de Ofurô nos Parâmetros Fisiológicos em Recém-Nascidos Prematuros
INTRODUÇÃO
A pele neonatal atua como uma barreira à infecção e uma chave na termorregulação e manutenção da homeostase nos neonatos. O manejo e proteção da pele neonatal é importante para manter a estabilidade, que é a pedra angular na melhoria dos resultados(1). As atividades de cuidado apresentam um dilema, na medida em que muitos procedimentos são necessários para a sobrevivência de uma criança e, ao mesmo tempo, são estressantes e
potencialmente prejudiciais ao crescimento e desenvolvimento delas. O banho é uma dessas atividades(2).
Considera-se que o banho faça parte da gama de cuidados importantes e benéficos(3). No entanto, as rotinas de banho na maioria das unidades de terapia intensiva (UTINs) não são atualmente baseadas em evidências que determinariam o momento ou a frequência ideal. Estudos(4),(5) constataram que bebês prematuros podem demonstrar sofrimento comportamental e fisiológico após procedimentos de banho ou mesmo qualquer manuseio.
O manuseio constante de bebês doentes pode aumentar o risco de complicações e afetar negativamente seu desenvolvimento. Além disso, Tambunan e Mediani(6) sugeriram que a redução da frequência de banhos de prematuros não estava associada ao aumento do risco de infecção, motivo comum para justificar a necessidade do banho diário. Parece que a rotina de banho tradicional é controversa.
O que se sabe é que este é um dos métodos de cuidado da pele mais comuns (limpeza e hidratação) para recém-nascidos e também é essencial para promover o desenvolvimento da função de barreira da epiderme(7), oferecendo uma maneira conveniente de limpar os bebês e torná-los mais confortáveis, e que estes podem dormir melhor após um banho de imersão em água morna(3).
O banho pode manter a temperatura do recém-nascido estável e prevenir infecções do cordão umbilical. No entanto, a exposição a estímulos externos, como luz, ruído, mudança de temperatura, perturbação do sono, separação da mãe, o aumento do consumo de oxigênio associado ao aumento do choro, aumento do risco de desconforto respiratório e
sinais vitais instáveis, podem contribuir negativamente para afetar o cérebro e o desenvolvimento neuroendócrino(8).
Para bebês prematuros, deve-se prestar atenção às mudanças fisiológicas e comportamentais durante o banho para tomar medidas interventivas apropriadas(4). Huang et al(9) relataram que um banho de ofurô aumentou significativamente a frequência cardíaca, a demanda de saturação de oxigênio (SpO2) e as frequências de sinais
comportamentais de angústia, e que houve uma associação entre os componentes fisiológicos e a frequência e o tempo de sinais comportamentais. No entanto, um estudo(10) relatou que um banho de ofurô, por outro lado, não alterou significativamente a oxigenação, os sinais comportamentais e a atividade motora de bebês prematuros.
Até agora, poucos estudos se concentraram nos efeitos do banho de ofurô nos parâmetros fisiológicos, explorando apenas os efeitos comportamentais, como nervosismo, angústia e caretas(8). Portanto, os aspectos benéficos e prejudiciais do banho de ofurô precisam ser mais explorados para se compreender e ajustar as atividades de cuidado para atender às necessidades com vistas a apoiar seu desenvolvimento.
Os resultados acima levantam a seguinte questão: o banho de ofurô é realmente benéfico para bebês prematuros? O objetivo desta pesquisa é examinar os efeitos do banho de ofurô nos parâmetros fisiológicos de bebês prematuros.
MATERIAIS E MÉTODOS
Foi realizada uma revisão bibliográfica nas seguintes bases de dados: Pubmed, Scielo e PEDro. A busca foi realizada durante os meses de dezembro de 2021 e janeiro de 2022.
Os descritores utilizados para a busca foram localizados no Medical Subjects Headings (MeSH) e nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS). A estratégia de busca foi: banho de ofurô, banho de balde, parâmetros fisiológicos, prematuros/ofuro bathing, bucket bathing, physiological parameters, premature.
Os critérios de inclusão para este estudo foram artigos sobre bebês prematuros; que avaliaram o banho de ofurô no estado fisiológico do bebê comparando-o com outros tipos de banho; publicados de 2017 ao corrente ano, escritos em português ou inglês; com acesso livre. Foram excluídos os artigos para os quais o texto completo não estava disponível, os que se propuseram a discutir apenas sobre colonização e infecção da pele e os que se encontravam duplicados.
RESULTADOS
Na busca pelas bases de dados, um total de 236 referências bibliográficas foram encontradas, dos quais 73 registros com texto completo foram revisados. Após a retirada das duplicatas e triagem inicial, 40 artigos foram selecionados para leitura completa. Por fim, 30 estudos foram selecionados para esta revisão.
Os estudos selecionados buscaram analisar: a variação dos sinais vitais e sinais de estresse durante o banho bem como tempo de choro dos bebês; as alterações de temperatura antes, durante e após o banho; parâmetros como SpO2, frequência cardíaca (FC) e frequência respiratória (FR).
DISCUSSÃO DOS DADOS
Os bebês prematuros têm barreiras de pele subdesenvolvidas, pele mais fina, alta suscetibilidade a infecções e estimulação externa de calor prejudicada que pode alterar o fluxo sanguíneo(6). Sun et al(7) afirmam que os cuidados adequados e a boa higiene da pele neonatal são essenciais para manter o funcionamento do organismo. Além disso, os autores mencionam que o banho auxilia no equilíbrio ventilação-perfusão como função fisiológica
do corpo.
Gunay e Coskun(10) afirmam que o primeiro banho deve ser realizado quando a temperatura do prematuro estiver estável, exceto no RN com HIV que o banho deve ser imediato, segundo Lemos et al(11), argumenta que o banho precoce em bebês pode causar diminuição da temperatura e aumentar a oxigenação dos tecidos. Ainda, Fonseca Filho et al(12) atestam a importância de manter a criança aquecida e retardar o banho.
Idealmente, o momento do primeiro banho é determinado pela condição do recémnascido, bem como pelo impacto de práticas como tempo de contato pele a pele, início da amamentação e vínculo materno/familiar precoce(13). Para Mohamed et al(14) o momento dos banhos iniciais para recém-nascidos varia de local para local, e as práticas de cuidado mudaram ao longo do tempo. Os autores citaram dois estudos que avaliaram os efeitos do horário do banho em recém-nascidos saudáveis indicando que banhos realizados nas primeiras 24 horas provavelmente não impactam negativamente na termorregulação e banhos tardios (12 horas após o nascimento) podem aumentar as taxas de amamentação.
Esses achados são corroborados pela literatura, Lee e Lee(15), em uma revisão integrativa, relatam que, embora recém-nascidos saudáveis possam ser banhados com segurança uma hora após o parto, o momento ideal para os banhos não é claro e que considerações culturais podem afetar as práticas locais.
No contexto da observação do banho, Gaddam et al(16) descobriram que a maioria dos bebês estava em estado de sono antes do banho e ficava mais acordada à medida que o banho prosseguia. Portanto, deve-se ajustar o horário do banho para evitar a interrupção do sono dos recém-nascidos.
O banho afeta o trato pulmonar e gastrointestinal, aumenta a evaporação e dilata os vasos periféricos da pele. A probabilidade de hipotermia neonatal, definida como temperatura <36,5°C, aumenta em recém-nascidos cuja termorregulação é insuficiente e pode resultar em taquipneia, apneia, hipóxia, acidose metabólica e hipoglicemia. Estresse por frio e hipoglicemia são os dois problemas importantes em prematuros que requerem tratamento imediato(17).
Nishino et al(18) relataram que a água fria produz um aumento da linha de base na atividade do sistema nervoso simpático (SNS), com uma queda no equilíbrio simpatovagal. Isso provavelmente representa uma resposta fisiológica ao estresse.
Levando em conta as considerações termorregulatórias, os efeitos do banho na temperatura do prematuro variam dependendo da condição do recém-nascido, tipo de banho e horário. A pele do prematuro é mais fina (epiderme 20% e estrato córneo 30% mais fino), levando a uma maior permeabilidade e potencial perda de calor por convecção,
condução, evaporação e radiação(5).
A natureza tenta manter a temperatura corporal e a hidratação ao nascimento, fornecendo aos bebês uma cobertura protetora chamada vernix caseosa que constitui uma barreira única entre o líquido amniótico e a pele do feto desempenhando um papel importante na regulação do pH no processo de adaptação da pele neonatal(19).
A Organização Mundial da Saúde (OMS)(3) informa que os recém-nascidos não devem tomar banho nas primeiras 24h, mas esperar até que seus sinais vitais se estabilizem, especialmente que isso deixará o vernix caseoso residual intacto.
A temperatura axilar normal para recém-nascidos varia entre 97,2° e 99,9°F. A redução da temperatura corporal mesmo em 1,8°F (1°C) pode ser clinicamente significativa com mudanças comportamentais notáveis, pois os recém-nascidos hipotérmicos mobilizam recursos metabólicos para restabelecer a homeostase da temperatura(20).
Em um estudo controlado randomizado(21) com 102 prematuros saudáveis, 14 bebês que receberam banhos de ofurô experimentaram em média 0,36°F menos perda de temperatura do que aqueles que receberam banhos de esponja. O tempo dos banhos iniciais variou de 2 a 24 horas após o nascimento.
Alguns estudos(2),(22),(23) na busca por métodos que podem aumentar a estabilização fisiológica durante os cuidados neonatais comparam o banho de esponja versus de ofurô. O estudo de Tasdemir et al(22), foi realizado para examinar o efeito do banho de ofurô e do banho de esponja nas variáveis fisiológicas do prematuro e frequência cardíaca. Ambos os métodos de banho aumentaram a SpO2 do recém-nascido e o banho de ofurô foi mais eficaz na redução da frequência cardíaca.
Os resultados do estudo Caka et al(2) mostraram que apesar da SpO2 ser significativamente baixa no grupo de intervenção em relação ao grupo controle antes do banho, após o procedimento esta variável aumentou. Os resultados deste estudo indicaram que o banho de ofurô proporcionava mais relaxamento aos bebês do que o banho
tradicional, como efeitos positivos nos sinais vitais, SpO2, tempo de choro, dor e níveis de estresse.
Paran et al(23) em uma revisão de evidências sobre banho de prematuros, postulam que o uso de imersão em ofurô com água cobrindo os ombros é melhor para bebês do que imersão com menos cobertura de água, e melhor do que banho com esponja ou pano. Os autores observaram que durante a imersão, a pressão da água causa respostas cardiovasculares de curto prazo à medida que o sangue se desloca das pernas e do abdome para o átrio direito do coração. Em termos de pressão hidrostática, está associada à redução da frequência cardíaca, aumento do débito cardíaco e redução da resistência vascular periférica total.
O banho de ofurô não apenas mantém a temperatura corporal do prematuro, os níveis de SpO2 e a FC dentro da normalidade, mas também reduz o tempo de choro durante o banho, o que tem um impacto positivo na redução da dor(24). Além disso, é relatado para reduzir os sintomas de estresse comportamental em recém-nascidos durante o
banho, como choro, caretas, tônus muscular anormal, etc., e faz com que os bebês se sintam relaxados(25).
Çaka e Gözen(26) examinaram os efeitos de dois métodos de banho na duração do choro e nas medidas fisiológicas de 80 prematuros. Os grupos foram determinados como banho enfaixado (G-BE) (n = 40) e banho de ofurô (G-BO) (n = 40) e a duração do banho foi determinada como máximo de 5 minutos em ambos os grupos. Os valores de
temperatura, frequência cardíaca (FC) e SpO2 foram avaliados antes do banho, logo após o banho e 10 minutos após o banho. Quando os recém-nascidos foram comparados por grupos, observou-se que as temperaturas corporais dos recém-nascidos do grupo G-BE logo após o banho e 10 minutos após o banho foram significativamente maiores do que as do grupo G-BO. Os resultados do estudo indicaram que o G-BO foi eficaz na manutenção da temperatura corporal, nível de SpO2 e FC dos recém-nascidos dentro dos limites normais e pode diminuir o estresse vivenciado durante o banho.
O estresse excessivo induz consequências negativas na função genética e cerebral e emocional no neonato(27). Ceylan et al(28) determinaram os efeitos dos métodos de banho de ofurô e de esponja sobre sinais de estresse e dor em prematuros na Turquia. Um total de 35 bebês prematuros, nascidos com 33-37 semanas de gestação com peso ao nascer <1.500 g, foram incluídos no estudo. Dois métodos de banho foram aplicados em intervalos de 3 dias. Os sinais vitais e os níveis de SpO2 foram medidos antes e nos minutos 1, 5, 15, 30 após o banho. Os resultados apontaram que houve diferenças estatisticamente significativas entre os métodos de banho nos sinais vitais, níveis de SpO2 e tempos de choro. Os níveis de estresse e dor de acordo com o tipo de banho foram significativamente
maiores na condição de banho de esponja. Os autores concluíram que o banho de ofurô é um método de cuidado inofensivo e seguro que proporciona uma experiência de banho calma e sem estresse para os recém-nascidos, simulando um ambiente uterino.
O ambiente intrauterino é quente e cheio de líquido sem estar sujeito à gravidade. Para prematuros separados desse ambiente antes da gestação completa, a adaptação ao ambiente externo é mais difícil e estressante(29). Nesse método, como o corpo do bebê é cercado por água, a força da gravidade é reduzida e há uma oportunidade de regular o comportamento motor para redescobrir os movimentos da vida fetal(30).
CONCLUSÃO
Com base nos resultados obtidos e apesar da limitada literatura encontrada, pode-se recomendar o banho de ofurô, pois na maioria dos estudos, os bebês que o receberam experimentaram significativamente menos perda de temperatura, foi eficaz na manutenção do nível de SpO2, afetando positivamente as leituras cardiopulmonares, com efeitos vasculares positivos associados à imersão em água. Este método de banho, que inclui em si os componentes do cuidado do desenvolvimento, se mostra adequado, de baixo estresse e seguro, podendo ser usado como método de banho de rotina em UTIN.
Os tempos de banho são flexíveis, dependendo das características e estabilidade do prematuro. No entanto, o melhor horário para o banho ainda é desconhecido. Espera-se que os resultados desta pesquisa contribuam para melhorar os resultados de desenvolvimento de curto e longo prazo causados pela hospitalização de prematuros em UTIN e aumentar a qualidade da assistência oferecida.
Embora as vantagens deste método tenham sido comprovadas em grande parte dos estudos, sugere-se a realização de mais pesquisas sobre o efeito do banho de ofurô em outras respostas comportamentais causadas padrão de sono, padrão de alimentação, ganho de peso em prematuros bem como a criação de diretrizes e protocolos baseados em
evidências.
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Artigo Publicado em: 02/03/2023
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