Atuação da Fisioterapia na prevenção de quedas em idosos
Introdução
As evidências observadas neste estudo destacam as quedas de idosos como condição de grande complexidade e que impõe grande desafio para os profissionais da saúde. No Brasil, a população de idosos apresenta elevado crescimento5 e o “Estatuto do Idoso”, Lei n° 10.741 de 1º de outubro de 20035, define como “idoso” a pessoa com 60 anos ou mais.
O envelhecimento pode ser conceituado como um processo multifatorial progressivo e subjetivo que proporciona diminuição da reserva funcional dos órgãos e aparelhos8,9. Esse processo caracteriza-se por um conjunto de alterações morfológicas, fisiológicas, bioquímicas e psicológicas. Devido a tais alterações, em geral há perda progressiva da capacidade de adaptação ao meio ambiente, surgem doenças ou estas se acentuam, que podem alterar suas faculdades motoras e cognitivas e provocar prejuízos motores8,9, embora cada indivíduo possua maneira própria de envelhecer.
Em âmbito mundial, as quedas são responsáveis por 87% das fraturas e 50% das internações nos idosos6. Esses eventos possuem natureza multifatorial, sua frequência e suas consequências são relacionadas à maior morbidade e mortalidade, têm gerado implicações socioeconômicas e sobrecarga para os sistemas de saúde6.
No contexto da saúde, o Brasil vem conquistando importantes avanços ao entender que “a saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício”2. O processo de construção do SUS (Sistema Único de Saúde), regulamentado pela Constituição Federal de 1988 e pelas Leis Complementares (Leis nº 8.080/90 e nº 8.142/90), tende pela universalização, integralidade, descentralização e pela participação popular14.
Como estratégia de consolidação das políticas de saúde, o Ministério da Saúde assumiu, a partir de 1994, o PSF (Programa de Saúde da Família) para reorganizar o modelo tradicional.
A base da estratégia é exercida pela equipe multiprofissional, com participação comunitária e o controle social é exercido pelos Conselhos Municipais de Saúde; trata-se de um modelo de atenção primária voltado à proteção e à promoção da saúde para além de atendimento domiciliar com ênfase nas ações locais que visam reduzir a demanda sobre os centros de saúde e os hospitais2,14.
É comprovado que a prática de atividade física melhora a saúde do idoso de forma global, auxilia na prevenção de quedas, oferece maior segurança na realização das atividades de vida diária, favorece o contato social, reduz o risco de doenças crônicas, atua, assim, sobre a saúde física e mental e na performance funcional ao proporcionar independência, autonomia e qualidade de vida8,9.
O fisioterapeuta exerce um importante papel na prevenção de quedas em idosos por meio da orientação para a realização das atividades físicas4. Porém, o campo de atuação deste profissional vem crescendo gradativamente, possui enfoque na prevenção de doenças e na promoção de saúde, em nível individual e coletivo, além da reabilitação4. Para além, considera-se ser importante a participação da Fisioterapia para desenvolver hábitos saudáveis de vida capazes de, entre outros objetivos, reduzir os riscos de quedas em idosos2.
Essa pesquisa tem como objetivo analisar recentes revisões sistemáticas da literatura sobre a atuação da Fisioterapia na prevenção de quedas em idosos para identificar a importância da atuação deste profissional nos fatores determinantes associados a esses eventos e apontar sua participação em estratégias preventivas multifatoriais8,9 que podem ser exercidas em programas de saúde pública.
Materiais e Métodos
Trata-se de uma revisão de literatura em que os autores pretendem promover a síntese de conhecimento para prováveis incorporações na prática da Fisioterapia. A discussão foi pautada pela experiência profissional e argumentativa dos autores. O levantamento e a análise da produção científica partiram da identificação dos artigos e se seguiu com a compilação, o fichamento, a análise e sua interpretação.
O levantamento bibliográfico foi realizado online, nas bases de dados Lilacs e Scielo, produzidos na última década, publicados na literatura nacional e internacional (inglês e espanhol), disponíveis na íntegra. A pesquisa bibliográfica realizada utilizou os descritores “Fisioterapia”, “saúde pública”, “prevenção de quedas” e “idosos” (“Physiotherapy”, “public health”, “fall prevention” and “elderly”).
Para a seleção da amostra, foram definidos como critérios de inclusão as revisões sistemáticas e os ensaios acadêmicos voltados para a análise da participação da Fisioterapia nos programas de saúde pública, entendido como o foco deste trabalho e foram incluídas pesquisas clínicas voltadas para a população atendida por esses programas. Os critérios de exclusão se voltaram às demais modalidades de estudos ou aqueles que não mantinham o foco para a
atuação nos programas de saúde pública.
Após a análise dos títulos e dos resumos foram selecionados cinco trabalhos de revisões sistemáticas, três ensaios acadêmicos e foram incluídas quatro pesquisas clínicas voltadas para grupos atendidos por programas de saúde pública.
Resultados
Após a leitura dos trabalhos foram elaborados três quadros com as sínteses dos textos selecionados: o primeiro, Tabela I, foi composto com as ideias principais contidas nos cinco artigos de revisões sistemáticas; o segundo, Tabela II, sobre os três ensaios acadêmicos escolhidos e o último, Tabela III, com os destaques das quatro pesquisas clínicas.
Os quadros foram elaborados a partir das seguintes informações: identificação do artigo, dos autores, seus objetivos, o tipo de amostra, a metodologia, os resultados e suas principais conclusões.



Discussão
Na vida contemporânea, a noção de saúde individual soma-se à de saúde comunitária, o que abre espaço para se almejar as políticas de saúde que ultrapassem o objetivo do simples prolongamento da vida, sem que se tenha preocupação com a qualidade de vida1. A saúde passou a ser percebida como uma possibilidade da vida quotidiana, um conceito positivo que são incluídos como valores os recursos sociais e individuais, bem como as capacidades físicas. Desta forma, ela não é de única responsabilidade dos setores sanitários: ela vai além dos modos de vida saudáveis para visar o bem-estar1.
A promoção da saúde é definida como “o processo de capacitação da comunidade para atuar na melhoria da sua qualidade de vida e de saúde, incluindo sua maior participação no controle desse processo”, inclui, então: educação, geração de trabalho e renda, habitação, lazer e cultura, transportes, meio ambiente, e assistência social1.
Em países considerados mais desenvolvidos já se observam nos programas públicos de saúde as políticas de prevenção de quedas de idosos, caracterizadas por intervenções multidimensionais, mas percebe-se que aqui no Brasil ainda há dificuldades em sua implantação2. O país tem se mobilizado na definição de políticas para este segmento, tendo elaborado, por exemplo, a Política Nacional de Saúde do Idoso5. Essa diretriz assumiu como
propósito a promoção do envelhecimento saudável, a manutenção e a melhoria da capacidade funcional, a prevenção de doenças, a recuperação da saúde dos que adoecem e a reabilitação daqueles que venham a ter sua capacidade funcional restringida de modo a garantir-lhes a permanência no meio em que vivem, exercendo de forma independente suas funções na sociedade2,5.
Segundo à Lei Federal nº 10.7415, o cuidado ao idoso deve basear-se na família com o apoio das Unidades Básicas de Saúde sob a estratégia do PSF (Programa de Saúde da Família), em que, entre outros, são identificados e enumerados os problemas dos idosos que são atendidos pelos programas de saúde pública e que devem representar o vínculo com o SUS4.
A literatura aponta para a existência de aproximadamente 400 diferentes fatores de risco para as quedas dos idosos, subjacentes à associação entre as disfunções de múltiplos sistemas e órgãos e à influência de aspectos externos ao indivíduo, ao menos duas condições de saúde simultâneas e um fator ambiental desempenham papel decisivo na maior parte das ocorrências de quedas entre os idosos6.
Os fatores de risco associados às quedas podem ser classificados em intrínsecos e extrínsecos3. Dentre os fatores intrínsecos, destacam-se a redução da força muscular, alterações de equilíbrio, modificações no padrão da marcha, déficit visual, perdas funcionais e cognitivas3. Dentre os fatores extrínsecos pode-se destacar a qualidade e intensidade da iluminação, superfícies irregulares, tapetes soltos, condições do piso, uso combinado de medicações e os riscos associados às próprias atividades que o idoso está realizando3.
As situações de quedas relatadas pelos idosos explicitaram como cenário: o ambiente domiciliar e o ambiente externo13. Os fatores ambientais foram citados como agravadores de risco de quedas e há tendência de aumento do número de ocorrência desses eventos em ambientes externos12,13, devido à fatores como o mau planejamento e a má conservação dos espaços públicos, em que estão inseridas superfícies irregulares, iluminação pública
insuficiente, falta de corrimão em escadas, falta de barras em banheiros públicos, entre outros, o que demonstra e reforça a necessidade do envolvimento do Estado na questão3.
A intervenção multifatorial e multidimensional é descrita pelos trabalhos acadêmicos como a mais eficaz, além de ações como a adaptação do ambiente, a incorporação de exercícios físicos, a suplementação com vitamina D, a retirada ou redução da dosagem de medicamentos, em especial os psicoativos, e a avaliação da hipotensão postural6.
A Fisioterapia se insere gradativamente nos programas de atenção básica, ampliando seu campo de atuação para além da reabilitação, com enfoque também para a prevenção de doenças e promoção de saúde1,2. Embora essa inserção ainda não se apresente como uma realidade nacional, o incremento de experiências municipais revela um crescimento da atuação dos fisioterapeutas no SUS com o apoio dos gestores locais1,2. Se as estratégias de prevenção para a redução dos episódios de quedas envolvem a proteção e a educação para a saúde1,2, recomenda-se que estejam presentes nos programa de prevenção três componentes articulados: políticas, pesquisa e prática1.
Uma abordagem adequada da Fisioterapia é capaz de reduzir o risco de quedas, os estudos apontaram para a necessidade de exercícios com a frequência de, no mínimo, duas vezes por semana1,3 e que englobe aquecimento, alongamento, fortalecimento muscular, equilíbrio e relaxamento, podendo ser realizados tanto no solo quanto na água, para atender as necessidades dos idosos de forma global9,10. As estatísticas constaram melhora significativa em relação ao equilíbrio, às limitações por aspectos físicos, da dor, nos aspectos sociais e na saúde mental, à
capacidade funcional e à qualidade de vida7.
Além disso, o fisioterapeuta pode contribuir na identificação de grupos vulneráveis da área de atuação e de fatores de risco para doenças crônicas; na investigação de evidências da efetividade de ações de práticas de cinesioterapia/atividade física e recursos analgésicos no controle e prevenção de doenças crônicas; em campanhas de estímulo a modos de viver saudáveis com objetivo de reduzir fatores de risco; na oferta de suporte e orientações a familiares e cuidadores na prevenção de quedas, em possíveis incapacidades e deformidades; na capacitação da Equipe de Saúde da Família, no que concerne às suas habilidades e competências profissionais; na articulação com gestores para mobilização de recursos e fortalecimento de ações para um estilo de vida saudável, na construção de espaços para práticas de atividade física/cinesioterapia e educação em saúde e na mobilização da comunidade para a transformação do ambiente público que atendam às condições favoráveis à saúde e de acessibilidade à edificações, mobiliários e espaços urbanos, entre outras2.
Contudo, foram apontados pelos autores7,8,10,13 das pesquisas clínicas os déficits significativos de força nos membros inferiores e a restrição de atividades físicas8. As intervenções analisadas se mostraram insuficientes para melhorar a marcha, a flexibilidade multiarticular da coluna e do quadril10. Tem sido encontrada ainda nesta literatura outra consequência das quedas, classificada como “síndrome pós-queda”1,10: uma manifestação de
medo de cair, gerado por um ou mais eventos, apontado como consequência do déficit de mobilidade e equilíbrio em vez de fatores psicológicos8.
A formação dos fisioterapeutas tem sido voltada para a prática médica com uma abordagem biológica e intra-hospitalar. A ausência de definições do objeto de estudo na área de conhecimento social aliados à atenção quase que exclusiva à doença, são potencializados pela sua própria gênese, evolução histórica, legislação e currículo de formação nos cursos de graduação2. Entretanto, a conjuntura de mudanças e de transformações do campo das políticas e práticas de saúde tem levado a Fisioterapia a se inserir gradativamente na atenção básica, ampliando seu campo de atuação para além da reabilitação, com enfoque para a prevenção de doenças e na promoção de saúde2.
Entre as atividades que os fisioterapeutas vêm realizando nos PSF, desenvolvidas nas USF (Unidades de Saúde da Família) e em domicílios estão: os grupos de gestantes, grupos de postura, grupos de mães de crianças com infecção respiratória aguda, grupo de prevenção e de acompanhamento de pacientes com hanseníase, grupo de mães de crianças com problemas neurológicos, grupo de idosos, atuação no climatério, atuação na saúde da criança, atendimento individual, estimulação essencial em crianças com atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, atuação nas creches, reeducação postural, resgate dos cuidadores dentro do ambiente familiar e orientações de saúde em geral2.
A atenção à saúde do idoso está inserida em todos os cursos de especialização em saúde da família, bem como nos processos de educação permanente, na busca de se atingir a abordagem idealmente proposta para esse grupo etário, sempre em seu contexto familiar esocial14.
Conclusão
Embora as transformações nas políticas de saúde pública tenham ocorrido a partir da Constituição de 1988 e com a criação do SUS, o modelo assistencial ainda é predominante no país, caracterizado pela prática médica voltada para uma abordagem biológica e hospitalar de elevado custo. Contudo, os êxitos da reforma proposta vem sendo a busca permanente dos gestores de saúde2,14. A inserção da Fisioterapia na assistência básica não se apresenta como
uma realidade nacional, mas o incremento de experiências municipais revela um crescimento da atuação do fisioterapeuta com o apoio dos gestores locais2.
O programa preventivo de Fisioterapia é capaz de melhorar a qualidade de vida ao promover o equilíbrio dos idosos e a possibilidade do alcance da capacidade funcional, podendo contribuir com baixos índices de quedas e hospitalizações e com possível redução de gastos com saúde7.
O fisioterapeuta deve, portanto, articular suas ações integrando a recuperação, a prevenção de incapacidades e/ou doenças e a promoção da saúde, intervindo não só no indivíduo, mas também no coletivo, programar suas ações levando em consideração os aspectos sociais, econômicos, culturais e ambientais que possam intervir no processo saúde-doença. As visitas domiciliares devem ter uma abordagem familiar, não centrada no indivíduo acometido
por alguma doença, mas realizar ações que permitam o compartilhamento da responsabilidade da intervenção com todos os membros, buscando soluções mais eficientes e próximas da realidade da família2.
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