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Alteração do Padrão de Marcha em Idosos com Medo de Cair: Revisão Narrativa

Alteração do Padrão de Marcha em Idosos com Medo de Cair: Revisão Narrativa

INTRODUÇÃO:

O envelhecimento da população é um fenômeno observado mundialmente que vem ocorrendo de forma rápida nos países em desenvolvimento inclusive no Brasil. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2012 à 2021 a população com 60 anos ou mais passou de 22,3 milhões para 31,2 milhões e números absolutos, representando um crescimento de 39,8% no período.

Com o passar dos anos o corpo humano passa por alterações fisiológicas e estruturais, incluindo os sistemas sensoriais, neuromuscular e locomotor. Algumas dessas alterações como diminuição de flexibilidade, massa muscular e óssea, aumento da rigidez articular, déficit de coordenação motora e dos sistemas vestibular e visual podem causar perda de equilíbrio e instabilidade postural, aumentando o risco de queda nessa população1,3,4

Um fator ligado aos eventos de quedas que é observado por profissionais de saúde que atuam com idosos é o medo de cair, e este é mais prevalente em indivíduos que já caíram, mas também ocorre em idosos que nunca passaram por esse evento. O Ministério da Saúde do Brasil (2016) define o medo de cair como: “um sentimento de grande inquietação diante a noção de um perigo real, aparente ou imaginário de quedas, ou seja, pode estar presente mesmo no idoso que nunca caiu”.

O medo de cair tem sido associado à baixa auto-eficácia, ou seja, o indivíduo possui pouca autoconfiança em lidar com determinadas situações. Dessa maneira, o idoso que apresenta medo de cair evita realizar diversas atividades, o que contribui ainda mais para o declínio funcional decorrente de inatividade e aumenta o risco de quedas. Em sua grande maioria, as quedas ocorrem durante a deambulação ou realização de tarefas que envolvam deslocamento e, por isso, pessoas com medo de cair podem apresentar alterações na marcha.

As quedas em idosos são de natureza multifatorial e por possuírem repercussões físicas, psicológicas e sociais, são consideradas uma das síndromes geriátricas pois estão relacionadas a maior morbidade e mortalidade nesse grupo, gerando um grande impacto nos sistemas de saúde pública. Como a ocorrência desse evento é frequente e pode trazer consequencias graves de saúde para a população, é importante que hajam estudos e pesquisas que identifiquem o perfil dos idosos que caem para que possam ser traçadas estratégias de assistência e prevenção à quedas.

Sabendo disso, este estudo tem como objetivo verificar na literatura estudos que tenham avaliado o medo de cair em idosos e as alterações de marcha presentes nessa população.

MATERIAIS E MÉTODOS:

Para a realização deste trabalho, foram consultadas quatro bases de dados eletrônicas como fonte de pesquisa, LILACS, PEDro, PubMed e Scielo. Foram utilizados os seguintes descritores: idosos (aged), medo de cair (fear of falling) e marcha (march).

Os critérios de inclusão estabelecidos para esta pesquisa foram: artigos escritos nas línguas inglesa e portuguesa entre os anos de 2018 e 2023, cuja amostra fosse de pessoas com mais de 60 anos e que tenham sido realizadas avaliação da marcha e do medo de cair nos pacientes. Foram excluídos artigos que não estivessem nas línguas selecionadas ou fossem revisão de literatura, fora do período de tempo estipulado e cujo estudo não tenha avaliado o medo de cair ou nenhum parâmetro de marcha dos pacientes.

RESULTADOS:

Com o uso dos descritores foram encontrados 19 artigos e após a leitura dos resumos e aplicados os critérios de inclusão, restaram apenas 4 artigos para a leitura na íntegra. Após uma breve pesquisa no Google acadêmico utilizando os mesmos descritores, foram encontrados mais 2 artigos e apenas 1 deles foi incluído neste estudo, totalizando 5 artigos para a amostra. A tabela a seguir apresenta o resumo dos pontos importantes dos artigos incluídos neste trabalho.

O resumo das características gerais dos cinco artigos incluídos foram: três transversais, um comparativo e um relato de experiência. Os cinco estudos foram realizados no Brasil. Todos os estudos foram publicados entre o período de 2019 a 2022, a faixa etária dos idosos foi de 60 anos ou mais, o tamanho da amostra dos estudos variou entre 19 e 308 idosos, um deles avaliou idosos institucionalizados e quatro avaliaram idosos que vivem na comunidade. A ferramenta utilizada para identificar o medo de cair foi a Falls Efficacy ScaleInternational (FES-I) na versão adaptada para o Brasil (FES-I-Brasil) mas a avaliação de marcha foi realizada de forma diferente entre eles, sendo que três utilizaram o teste de velocidade de marcha, um utilizou velocidade de marcha em 6 metros e outro utilizou o teste de caminhada de 10 metros. Além disso, foram utilizadas outras escalas dependendo do perfil dos idosos avaliados no estudo, como TUG, escala de equilíbrio de BERG, Senior Fitness Test, Mini exame do estado mental (MEEM) e escala de depressão geriátrica abreviada (GDS-15).

DISCUSSÃO:

A escala utilizada em todos os estudos para avaliar o medo de cair nos grupos de idosos foi a FES-I-Brasil, por ser uma escala já validada para a população brasileira que contém perguntas sobre atividades da vida diária e que estabelece uma correlação de quedas com a autoeficácia percebida para evitar quedas durante a execução dessas AVD’s.

Além do medo de cair, um outro fator importante de ser identificado por aumentar o risco de queda em idosos é a redução da mobilidade física, que foi avaliada nos estudos incluídos neste trabalho através de testes de velocidade de marcha. Este é um teste simples de fácil reprodutibilidade e permite reconhecer alterações na marcha e déficits de equilíbrio que podem gerar quedas nos idosos.

Dos estudos incluídos nessa revisão, quatro tiveram resultados positivos ao correlacionar a redução na velocidade de marcha com o aumento no medo de cair avaliado através do questionário FES-I-Brasil 13,1,10,12. Esse resultado está de acordo com muitos estudos realizados sobre o assunto, já que a diminuição da velocidade de marcha tem relação
com a redução da funcionalidade e aumento do risco de quedas, além de predizer eventos adversos como limitações funcionais, perda de independência, aumento de incapacidade, hospitalizações, fraturas e morte quando o seu resultado está abaixo dos valores esperados.

Silva et. al. (2020) não encontrou diferenças significativas entre os scores obtidos no questionário FES-I-Brasil e na média de velocidade de marcha pelas idosas divididas entre Caidoras e Não Caidoras e, dos parâmetros avaliados, apenas a simetria dos passos apresentou diferença significativa entre os grupos. Porém, os próprios autores destacam que uma possível limitação no estudo é o fato de a classificação entre os grupos ser feita através do relato das pacientes, entrando em questão o viés da memória das mesmas. Apesar de os artigos utilizados nessa revisão corroborarem o que vem sendo descrito na literatura, as metodologias de pesquisa dos mesmos difere quanto a forma de avaliar a funcionalidade dos idosos, pois apesar de a maioria ter utilizado o teste de velocidade de marcha, o mesmo teste não foi padronizado quanto a distância percorrida pelos pacientes, o que pode ser considerado um fator limitante para este tipo de avaliação. Um outro fator limitante para o presente estudo foi o número de artigos encontrados para a realização do mesmo.

CONCLUSÃO:

Podemos concluir que, idosos com uma baixa autoeficácia apresentam medo de cair e isso está relacionado à diminuição na velocidade de marcha.

REFERÊNCIAS:

1. Müller DVK, Bastos JS. Análise comparativa da mobilidade funcional e medo de quedas de idosas comunitárias. Rev. Aten. Saúde, São Caetano do Sul. 2019; 62(17): 05-11.

2. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-10noticias/noticias/34438-populacao-cresce-mas-numero-de-pessoas-com-menosde-30-anos-cai-5-4-de-2012-a-2021 (acessado em 07/05)

3. Silva L.P.G, Araújo M.G.R, Costa A.S., Oliveira D.A., Lucena L.C., Santos T.M. Performance funcional, composição corporal e medo de cair em idosas com desmineralização óssea caidoras e não caidoras. Existem diferenças? Revista brasileira Ciência e Movimento. 2020;28(4):96-109.

4. Tomaz ACS, Silva G, Fabiano LC, Fernandes S, Tos DD. Análise do risco de quedas em idosos submetidos à avaliação da mobilidade, equilíbrio e marcha. Arquivos do Mudi. 2021; 25(3) 10-24.

5. Pena BS, Guimarães HCQCP, Lopes JL, Guandalini LS, Taminato M, Barbosa DA, Barros ALBL. Medo de cair e o risco de queda: revisão sistemática e metanálise. Acta Paul Enferm. 2019; 32(4): 456-463.

6. Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Manual para Utilização da Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2016. 94p.

7. Lopes KT, Costa DF, Santos LF, Castro DP, Bastone AC. Prevalência do medo de cair em uma população de idosos da comunidade e sua correlação com mobilidade, equilíbrio dinâmico, risco e histórico de quedas. Rev Bras Fisioter, São Carlos. 2009; 13(3): 223-229.

8. Albuquerque VS, Fernandes LP, Delgado FEF, Mármora CHC. O uso de dispositivos auxiliares para marcha em idosos e sua relação com autoeficácia para quedas. Revista HUPE, Rio de Janeiro, 2018;17(2):51-56 11

9. Falsarella GR, Gasparotto LPR, Coimbra AMV. Quedas: conceitos, frequências e aplicações à assistência ao idoso. Revisão da literatura. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, Rio de Janeiro. 2014; 17(4): 897-910.

10. Oliveira DB, Paciência TDG, Souza GCA, Carbone EMS, Silva JM. Medo decair e risco de quedas em idosos assistidos por uma clínica escola de reabilitação. Arch. Health. Sci. 2019: 26(1):19-23.

11. Camargos, Flávia F. O. et al. Adaptaçao transcultural e avalia ̃ ção das propriedades psicome tricas da Falls Efficacy Scale – International em idosos brasileiros (FES-I-BRASIL). Brazilian Journal of Physical Therapy, Sao Carlos, ̃ v. 14, n. 3, p. 237-243, maio/jun. 2010

12. Vieira GC, Cardoso GV, Barros AAA, Cunha ACM, Delgado ACM. Avaliação do medo de cair e da velocidade da marcha em idosos residentes em uma instituição de longa permanência: relato de experiência. HU rev. 2019; 45(2):227-230.

13. Mendrano AL, Gonçalves C, Jesus CJ, Freitas MA, Souza LF. Associação entre declínio cognitivo, sintomas depressivos e do medo de cair com a velocidade da marcha confortável em idosos comunitários. Estud. interdiscipl. envelhec., Porto Alegre. 2022; 27(1):91-107.

14. Lenardt MH, Setoguchi LS, Betiolli SE, Grden CRB, Sousa JAV, Lourenço TM. A velocidade da marcha e ocorrência de quedas em idosos longevos. Rev Min Enferm. 2019; 23:e- 1190

ARTIGO PUBLICADO EM 10/04/2025



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