Fatores de Risco Associados a Lombalgia em Idosos: Uma Revisão Sistemática
Introdução
Atualmente a lombalgia é um dos distúrbios mais comuns no processo de envelhecimento humano, estudos demonstram que a sua incidência vem sendo uma das pautas mais abordadas no mundo científico. Apesar do envelhecimento não estar diretamente associado a doenças e incapacidades, o idoso, por ser vítima de mecanismos
fisiológicos que alteram a capacidade física, torna-se um forte candidato a demonstrar queixas de lombalgia.
Os idosos fazem parte de uma classe unicamente sensível para pesquisadores e profissionais da saúde lidarem com a lombalgia, por conta do seu prognóstico não ser comumente favorável. Com isso, os idosos podem progredir para um déficit significativo, como, por exemplo, perda de autonomia, comorbidades e aumento com custos médicos.
Cada vez mais a população idosa aumenta ao redor do mundo. No Brasil temos aproximadamente 23,5 milhões de idosos e os estudos projetam que os idosos brasileiros sejam a sexta maior população até 2025, tendo mais de 32 milhões de pessoas. Cerca de 70% a 85% dos indivíduos sofrerão com algum episódio de dor lombar durante a vida. A dor lombar é a segunda condição mais comum de saúde entre os idosos brasileiros, atrás apenas da hipertensão arterial, causando maiores gastos e incapacidades funcionais.
A dor lombar é um sintoma localizado na altura da cintura pélvica, gerando um quadro clínico de dor, incapacidade de se movimentar e trabalhar. As dores lombares podem ser com ou sem envolvimento neurológico (lombociatalgias) e primárias ou secundárias. A queixa de dor lombar em idosos tem início lento e usualmente é causada pelas alterações degenerativas dos componentes na formação da coluna vertebral. Quando as queixas lombares começam com dor aguda, podem estar relacionadas à fratura espontânea ou mesmo pequenos traumatismos causados por
osteoporose, mieloma múltiplo ou metástase. As lombalgias podem ser agudas quando a duração do sintoma perpetua por até 4 semanas, subaguda menos de 12 semanas e crônica quando a duração atinge mais do que 12 semanas.
Quando os tratamentos para lombalgia são mal sucedidos, tendem a causar uma redução no desempenho funcional e na capacidade física dos idosos na realização de atividades diárias, de lazer ou ocupacionais, com suas famílias ou em sociedade.
Além disso, deve-se considerar também o impacto socioeconômico negativo causado pela lombalgia na vida de muitos idosos.
Uma melhor compreensão de quais idosos são mais propensos a apresentarem lombalgia poderia ajudar na orientação e prevenção dentro da abordagem clínica e consequentemente aumentar a qualidade de vida dos pacientes. Com isso, essa revisão sistemática visa analisar os fatores de risco associados a lombalgia em idosos, comparando dados apresentados pelo grupo controle. A avaliação será baseada nos valores das análises múltiplas dos estudos selecionados.
Metodologia
Essa revisão sistemática foi desenvolvida de acordo com a declaração do PRISMA, com base em artigos pesquisados nos bancos de dados do PubMed, Base PEDro, Lilacs, Scielo, Bireme, Science Direct e Cochrane as buscas foram realizadas em março de 2023. As palavras-chave utilizadas foram: idoso, lombalgia, risco e falha. A busca foi
realizada com filtro de 10 anos para data inicial até março de 2023, os artigos selecionados encontravam-se na língua inglesa e portuguesa. Foram incluídos no estudo, artigos que cumpriram os critérios inclusão, sendo eles: abordar pacientes idosos, não ser um artigo de revisão sistemática, metanálise ou estudo de caso, abordar os fatores de risco associados a lombalgia em idosos e utilizar as variáveis da causa da lombalgia, idade, sexo, índice de massa corporal (IMC), sedentarismo, depressão e comorbidades na análise múltipla. Após a elaboração das palavras-chaves, a busca nas bases de dados apresentou os seguintes resultados: foram encontrados 96 artigos (PubMed), 2 artigos (Bireme), artigo (Lilacs), 91 artigos (Cochrane), 31 artigos (Scielo), 27 artigos (Science Direct), 625 artigos (Base PEDro) gerando um total de 873 artigos.
Após a exclusão de 36 artigos duplicados, foi realizada a leitura de títulos e resumos de 837 artigos por dois pesquisadores independentes. Após essa análise, foram selecionados 37 trabalhos para a leitura na íntegra, com a avaliação dos mesmos, foi identificado 6 artigos que contemplaram os critérios de elegibilidade, conforme ilustrado na Imagem 1.

Resultados
Os artigos selecionados avaliaram os fatores associados a lombalgia em idosos, onde o grupo experimental (GE) apresentou dor lombar e o grupo controle (GC) não referiu dor lombar, os fatores associados a lombalgia foram analisados baseados nos resultados das análises múltiplas dos estudos selecionados.
A amostra foi composta de 9.602 pacientes (n=9602), em que 4.531 pertenciam ao GE e 5.071 ao GC, sendo que 5.100 eram do sexo feminino e 4.502 do sexo masculino. A maioria dos pacientes eram maiores de 70 anos (69,12%). Observou-se que a maioria dos homens e mulheres eram eutróficos, 63,95% e 58,2%, respectivamente. Em média 51,4% dos homens e 55% das mulheres apresentaram 3 ou mais comorbidades, a minoria da população estudada era branca (45,33%). Em relação ao nível de atividade física, a maioria dos idosos tanto do sexo masculino quanto do
sexo feminino eram sedentários, 85,9% e 65,25%, respectivamente. Em média 51,4% dos homens e 50,3% das mulheres tinham até 4 anos de escolaridade e a maioria dos idosos de ambos os sexos eram casados 70,83% (Tabela 1).

Discussão
A longa duração e o caráter incapacitante decorrente da dor lombar crônica fazem com que a prevalência encontrada na população idosa seja consideravelmente importante. Embora relativamente poucos estudos investiguem a epidemiologia da lombalgia em países em desenvolvimento, um corpo crescente de evidências recentes de alta qualidade sugere que a prevalência da lombalgia em idosos também é alta nesses países. Uma melhor compreensão de quais idosos são mais propensos a apresentar lombalgia poderia ajudar a orientar a decisão clínica e consequentemente melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
Diversos estudos demonstram que os pacientes maiores de 70 anos apresentam maior risco de desenvolverem lombalgia quando comparados com os idosos de 60 a 69 anos. Esses resultados podem estar relacionados ao fato dos indivíduos entre 60 e 69 anos, em geral, serem mais ativos mantendo uma rotina social e profissional após a
aposentadoria, o que não é tão comum entre idosos acima dessa faixa etária. Cho e cols, demonstraram que entre as mulheres, a prevalência de dor lombar grave aumentou acentuadamente de acordo com a idade, sugerindo tornar-se outra importante consequência para a saúde do envelhecimento da população.
Estudos recentes demonstram que as mulheres apresentam maior risco de desenvolverem lombalgia25,26,28,31. Esses resultados podem ser corroborados devido as mulheres estarem mais expostas a trabalhos fora de casa com exposição a cargas ergonômicas, repetição, posição viciosa e alta velocidade de repetição. Há também os fatores anatômicos e funcionais (baixa estatura, menor massa muscular, menor massa óssea, maior fragilidade nas articulações que são menos adaptadas ao esforço físico e o excesso de peso) que podem colaborar para o surgimento da lombalgia crônica.
Recentes pesquisas demonstram que pacientes com 3 comorbidades ou mais, apresentam maior risco em desenvolver lombalgia. Os dados apontam que ocorre a associação da dor lombar com o declínio funcional causado por diversas comorbidades, como, por exemplo, a perda de mobilidade, incapacidades que impedem atividades de vida diária e geram perda funcional e consequentemente maior fragilidade nos idosos. Estudos canadenses e norte-americanos relataram uma alta prevalência de sedentarismo nos idosos, sendo observado que grande parte dos idosos sedentários relataram sofrerem de lombalgia crônica.
A incapacidade física derivada da dor, afeta os aspectos emocionais, psicossociais e principalmente a capacidade funcional do idoso. A saúde funcional está diretamente relacionada à qualidade de vida, convívio social, condição intelectual, estado emocional e tomadas de decisão. A atividade física nas últimas décadas vem ganhando destaque, pois evidencia a relação direta com a prevenção de doenças crônicas e a melhoria da capacidade funcional de todos os indivíduos, principalmente dos idosos. Com isso, o idoso torna-se menos dependente de assistência.
Alguns dos estudos relataram que muitos idosos fazem trabalhos pesados, como por exemplo, transporte e levantamento de cargas, em pé e também inclinando o corpo. Machado e cols e Palma e cols, demonstraram que pacientes idosos que não realizam atividade física, apresentaram maior risco de desenvolverem lombalgia, porém Quintina e cols não observaram associação da lombalgia com a realização de atividade física entre idosos. Segundo Farias e cols, a atividade física é um preditor importante da função e capacidade física em pacientes com dor lombar. Idosos que são ativos envelhecem melhor, enriquecem a qualidade de vida, contribuindo assim para a reabilitação das funções fisiológicas interdependentes, consequentemente obtendo uma prolongação da vida.
Sintomas de fadiga e depressão são manifestações clínicas de sofrimento psicológico que afetam uma proporção importante de indivíduos com dor lombar aguda e crônica. Machado e cols, demonstram que pacientes com sintomas de fadiga e depressão apresentam maior risco de desenvolverem lombalgia durante a velhice. Ambos os sintomas têm demonstrado ser um importante contribuinte para a piora dos resultados funcionais entre a população de idosos, bem como em amostras clínicas que apresentam diferentes doenças reumáticas, incluindo dor lombar.
Vicente e cols demonstram associação entre obesidade e incapacidade física em pessoas com idade ≥ 60 anos, com efeitos maiores observado em indivíduos com valores de IMC entre 30 kg/m2 e 35 kg/m2 (correspondente a obesidade tipo I).
Takahashi e cols e Machado e cols, demonstraram que idosos acima do peso apresentam maior risco de desenvolverem lombalgia quando comparados com idosos sem excesso de peso, sendo assim o IMC podendo ser relacionado a um fator de risco para lombalgia em idosos. Porém um estudo internacional realizado com idosos que vivem na China, Gana e Índia, não observou associação entre o excesso de peso e a dor lombar crônica e aguda. Machado e cols, relataram um risco extremamente maior dos idosos obesos desenvolverem lombalgia (quase 30 vezes maior), no entanto, essa estimativa apresenta um nível grande de incerteza, já que o intervalo de confiança (IC) foi extremamente amplo.
Conclusão
Com base na literatura, concluiu-se que os pacientes idosos do sexo feminino, maiores de 70 anos, que possuem mais de 3 comorbidades, excesso de peso, sedentários e com sintomas de fatiga e depressão, apresentam maiores riscos de desenvolverem lombalgia. Sugerindo assim, que nestes pacientes deve ser realizado um trabalho de prevenção da lombalgia o mais breve possível para obtenção de um melhor prognóstico do paciente.
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ARTIGO PUBLICADO EM 17/04/2025
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