Relação entre Climatério e as Disfunções Sexuais Femininas: Uma Revisão
Introdução
Nos últimos anos, a expectativa de vida da população mundial vem crescendo de modo considerável.1 No Brasil, há mais de 100 milhões de mulheres, o que corresponde à 51,8% da população, e a expectativa de vida estimada para as mulheres em 2019 era de 80,1 anos de idade.2 No Brasil 32% da população feminina está na faixa etária do climatério3. Por isso, a vivência do climatério pelas mulheres está cada vez mais presente e consequentemente
aumentando a demanda dos serviços de saúde.4,5
O climatério é definido como uma fase biológica normal. É a transição entre o período reprodutivo para o não reprodutivo. O termo climatério significa “época de crise” ou “mudança”.4 É um fenômeno progressivo, compreendendo um período relativamente longo, da vida da mulher1. Podendo ser dividido em fases: pré-menopausa; perimenopausa; menopausa e pós-menopausa. 6 A menopausa, é o marco deste período7. O climatério ocorre entre 40 e 65 anos, pode ter o seu início aos 35 anos, podendo aparecer os sintomas aos 40 anos de idade.1,8,9
É durante o período do climatério que as mulheres se tornam mais vulneráveis as disfunções sexuais em consequência há junção de vários fatores: a diminuição gradual da produção de hormônios pelos ovários; fatores emocionais; sociais e o próprio processo do envelhecimento fisiológico, sendo a função sexual prévia, um fator importante a ser considerado.10,11 Cerca de 60% a 80% das mulheres climatéricas relatam algum sinal ou sintoma nesse período1. A maioria das mulheres referem sintomas vasomotores, psicológicos e urogenitais9. Durante o climatério ocorre alteração epitelial e atrofia da vagina, decorrente do hipoestrogenismo, e essa condição pode levar à dores durante o ato sexual, e consequentemente, gerar contraturas na musculatura do assoalho pélvico (MAP). Com a contratura instalada a dor tende a aumentar, gerando um ciclo vicioso de dor. Se a MAP tiver uma diminuição na sua função muscular a função sexual será prejudicada.11
A disfunção sexual é um problema comum, especialmente em mulheres de meia-idade e tem um impacto negativo na qualidade de vida.13A sexualidade é um componente importante na vida da mulher, ela é multifacetada e tem a influência de muitos fatores: biológicos; emocionais; psicológicos e sociais.11,14 Disfunção sexual é definida como qualquer alteração no ciclo de resposta sexual, que traga sofrimento físico e/ou emocional, individual ou entre os
parceiros. O ciclo de resposta sexual feminino tem quatro fases: desejo; excitação; orgasmo e resolução.15,16 É reconhecido como disfunções sexuais: Transtorno do Desejo/Excitação; Transtorno do Orgasmo; Transtorno de Dor Gênitopélvica/Penetração.17O próprio processo do envelhecimento da mulher está ligado há uma diminuição na resposta sexual, da atividade sexual e da libido.11 A Organização Mundial de Saúde (OMS), reconhece a disfunção sexual como um problema de saúde pública.5
Embora se fale muito em climatério, não é muito abordado o impacto que essas alterações fisiológicas e psicológicas têm na função sexual das mulheres e consequentemente levando a disfunções sexuais. Este estudo tem por objetivo realizar uma revisão da literatura científica, abordando a relação entre climatério e as disfunções sexuais.
Materiais e Métodos
A pesquisa foi realizada, por meio da revisão de artigos científicos, através de uma busca eletrônica nas bases de dados PUBmed, LILACS, SciELO, publicados retrospectivamente até o ano de 2010. Selecionados por meio dos seguintes descritores: climatério, menopausa e disfunção sexual fisiológica de forma isolada e em conjunto. As buscas não foram limitadas por idioma.
Foram incluídos nesta revisão artigos que abordaram o climatério e/ou a disfunção sexual feminina e artigos disponíveis na íntegra. Definiu-se como critério de exclusão os artigos que não se adequaram ao tema proposto e os artigos com abordagem masculina.
Resultados
Na busca eletrônica contabilizou-se 953 artigos, com a utilização dos descritores escolhidos. Depois de prévia leitura 18 artigos foram avaliados pela escala PEDro, sendo selecionados 5 artigos para essa revisão com escore 3.
Vaz et al.18 realizaram um estudo com 66 mulheres climatéricas sexualmente ativas. Para a avaliação foi utilizado formulário próprio e o questionário Quociente Sexual Feminino (QSF). A maioria das mulheres referiram um padrão sexual de regular a bom, porém, um percentual considerável da amostra apresentou um padrão sexual de desfavorável à regular. A frequência de disfunção sexual detectada pelo QS-F foi menor que a insatisfação sexual que as mulheres relataram.
Martins et al.19 fizeram um estudo transversal analítico, com 71 mulheres entre 35 e 65 anos, por meio de questionário sociodemográfico e de saúde e o questionário de Índice da Função Sexual Feminina (FSFI). Mulheres no período não reprodutivo, tinham 3 vezes mais risco de desenvolverem uma disfunção sexual (DS). Uma prevalência de DS em mais da metade das mulheres estudadas, sendo mais evidente naquelas no período não reprodutivo.
Santos et al20 analisaram 21 mulheres na faixa etária de 35 à 61 anos, através dos questionários FSFI e sociodemográfico. Quase todas as mulheres possuíam vida sexual ativa. Os domínios que mais pontuaram no FSFI foram o desejo hipoativo, excitação e lubrificação, sendo o desejo, um fator de grande influência na resposta sexual feminina.
Cabral et al21 propuseram um estudo transversal, com 370 participantes, mulheres na faixa etária de 40-65 anos. Elas responderam questionários: FSFI , Internacional de Atividade Física (IPAQ); Qualidade de Vida (WHOQOL-Bref); índice de Kuppermam da Menopausa (IMC) e sociodemográficos com perguntas clínicas e comportamentais. Foi encontrado um percentual bem considerável de disfunção sexual na amostra, mais da metade, onde quanto maior a idade maior a probabilidade de desenvolver disfunção sexual. Observou-se a influência de fatores sociodemograficos, biológicos e comportamentais na função sexual dessas mulheres.
Valadares et al.22 realizaram um estudo de base populacional com 378 mulheres, entre 40- 65 anos. Para a avaliação utilizaram questionários de auto resposta, para avaliar os domínios de função sexual: desejo, excitação e orgasmo. O instrumento para avaliar a baixa função sexual foi baseado no Short Personal (SPEQ). Problema mais prevalente foi o baixo desejo sexual.
Dentre os artigos avaliados, todos eles apresentaram de algum modo, uma alteração na função sexual feminina.
| Tabela 1 – (Caracterização da população estudada) | |||
| Autor | Métodos | Resultados | Conclusão |
| Vaz et al. (2020)18 |
Estudo transversal não probabilística acidental. Com 66 mulheres entre 35 e 65 anos, sexualmente ativas. Questionários QS-F e formulário próprio. |
Padrão desempenho satisfação sexual mais predominante, foi o de regular a bom. O padrão desfavorável a regular apresentou percentual considerável. |
A frequência de DS detectada pelo QS-F foi menor que a insatisfação sexual relatada pelas mulheres. |
| Martins et al. 201819 |
Estudo transversal e analítico. Mulheres entre 35 e 65 anos (n=71). Questionários sociodemográficos, saúde e FSFI. |
Prevalência de DS (n=42), mulheres com baixa escolaridade , acima de 50 anos e ocorrência de pelomenos um parto vaginal têm maior chances de desenvolver DS. |
Domínios FSFI que apresentarammenor média: desejo;excitação;orga smo; lubrificação nessa ordem. Dor não teve relação estatística significativa. |
| Santos et al. 201620 |
Estudo transversal qualitativo e quantitativo.Com 21 mulheres participantes, entre 35 e 61 anos. |
Quase a totalidade das mulheres com vida sexual ativa. Domínios de desejo hipoativo, excitação e lubrificação foram o que mais pontuaram. Desejo apresentado como um grande influenciador na resposta sexual. |
Mudanças biopsicossociais do climatério repercutindo na vida sexual. |
| Cabral et al. 201321 |
Estudo transversal. Com 370 mulheres participantes, com idades de 40- 65 anos. Responderam questionários sociodemográfico, FSFI, IPAG, WHOQOL-Bref e IMC |
Mais da metade das mulheres (67%) apresentaram DSF. Probabilidade maior entre as mulheres de maior idade. |
Influência de fatores sociodemográficos, biológicos e comportamentais na função sexual. |
| Valadares et al. 201122 |
Estudo transversal de base populacional,n=378. Mulheres com idades entre 40-65 anos. Responderam questionários para avaliar domínio desejo,excitação e orgasmo. Baseado no Short Personal Experience. |
Associação entre nervosismo e baixo desejo sexual.Baixa excitação associada ao aumento de idade.Fatores biológicos com influência na etiologia da baixa excitação sexual, função orgásmica e frequência das atividades sexuais. |
Problema mais prevalente foi o baixo desejo sexual. Ter parceiro sexual foi positivo para aumentar os domínios de frequência sexual e função sexual. Fatores biológicos como influência negativa. |
| Fonte: Autora. | |||
Discussão
O presente estudo teve como objetivo analisar a associação entre climatério e as disfunções sexuais femininas. Destaca-se o baixo número de artigos que se adequaram aos critérios de inclusão deste tema. Com o aumento da expectativa de vida, os estudos sobre a sexualidade feminina, tornam-se muito relevantes.
O climatério é um momento de transição entre a fase reprodutiva para não reprodutiva da vida das mulheres, caracterizada por muitas mudanças hormonais e metabólicas1. Modificações estas que favorecem o surgimento de alterações nas fases de resposta sexual feminina16. É uma fase de interação complexa de múltiplos fatores fisiológicos, psicológicos e interpessoais, onde a disfunção sexual feminina é um problema comum entre as mulheres.23
As mudanças corporais que as mulheres sofrem neste período podem ser refletidas de diferentes formas em suas vidas. Os níveis decrescentes de estrogênio estão intimamente ligados ao comprometimento da resposta sexual. Queixas como dispareunia, redução da lubrificação vaginal, anorgasmia, instabilidade emocional e incontinência urinária são frequentemente relatadas por essas mulheres. Fatores esses que influenciam diretamente a função sexual12,24. Como a sexualidade feminina é multifatorial, os fatores de risco para desenvolver uma disfunção sexual vão muito além do hipoestrogenismo, sendo um somatório de fatores25.
Estudos revelam uma relação entre o avanço da idade e a piora na função sexual, ou seja, quanto mais a mulher se aproxima da fase não reprodutiva maiores são as chances de desenvolver uma disfunção sexual. A função sexual feminina muda com o envelhecer13,19,21. A tendência é que mulheres mais jovens tenham menos comprometimentos sexuais.16
Os domínios mais comprometidos observados em estudos, foram o de desejo, falta de lubrificação vaginal e dor na relação sexual 19,20,22. Sendo a falta de lubrificação vaginal, um fator de risco significativo para o aparecimento da disfunção sexual. No entanto, poderia ser resolvido se essa mulher fosse acompanhada por um profissional de saúde qualificado.6 A dor na relação sexual é uma queixa frequente das mulheres durante o climatério, que pode ser
decorrente da falta de lubrificação ou pela atrofia vaginal e afeta negativamente a vida dessas mulheres23.
Sintomas da menopausa têm sido associados a uma piora na qualidade de vida e quanto mais severos maior o comprometimento da função sexual, chegando a uma prevalência de 70% de disfunção sexual nas mulheres no climatério.20 Sintomas que estão relacionados a menopausa quando se unem a escores de qualidade de vida física, mental reduzidos impactam negativamente nos relacionamentos pessoais, íntimos e na vida diária dessas mulheres26. A disfunção sexual feminina seja ela de curta duração ou longa, afeta a qualidade de vida, levando a ansiedade, depressão, prejudicando os relacionamentos ou ocasionando problemas em outras áreas da vida11. Valladares et al, observaram uma associação entre nervosismo e baixo desejo sexual22.
A OMS reconhece a sexualidade feminina como um importante componente da saúde da mulher e um direito humano básico.28 De acordo com um estudo de saúde da mulher , 75% das mulheres de meia- idade relataram que o sexo era importante para elas29,30. A função sexual é um integrante essencial da vida da mulher e que precisa receber a devida atenção necessária.
Conclusão
Como o climatério faz parte do próprio processo natural do envelhecimento, não há como evitá-lo, mas é possível enfrentá-lo. Saber lhe dar com todas as alterações dessa fase é fundamental, daí a importância do conhecimento, de ter acesso a informação.
Por levar a alterações no ciclo de resposta sexual, o climatério, tem uma relação estreita com o aparecimento das disfunções sexuais femininas. Podendo ser considerado, o período da vida da mulher, onde a função sexual sofre mais prejuízos. A disfunção sexual compromete várias esferas da vida da mulher.
Faz-se necessário uma abordagem multiprofissional a essa mulher climatérica. Os sistemas de saúde devem se preparar para atender essas mulheres, com mais estratégias específicas para essa população, visto que, é cada vez maior o número de mulheres que passam pelo climatério. Não é só viver mais e sim viver com qualidade de saúde.
Hoje em dia há uma maior liberdade para a mulher buscar o seu prazer sexual. Toda mulher tem o direito de viver a sua vida sexual plenamente independente de que fase esteja do seu ciclo de vida. Por isso, é imprescindível mais estudos que abordem o tema, para que possamos ajudar essas mulheres a passar por todas as alterações dessa fase.
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Artigo Publicado em: 23/03/2023
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