Performance Status de Pacientes Oncológicos em Unidade de Terapia Intensiva: Revisão Narrativa
1 – INTRODUÇÃO
A internação na unidade de terapia intensiva (UTI) reflete diretamente na qualidade de vida e na sobrevida dos pacientes que necessitam desse ambiente (1). As internações prolongadas podem apresentar consequências como a diminuição da independência funcional e a fraqueza muscular adquirida na UTI (2). Essas situações podem levar ao aumento dos custos assistenciais, influenciar em diminuição de qualidade de vida e alterar a sobrevida dos pacientes(3).
Atualmente é observado uma busca nos tratamentos intensivos para melhor gerenciar a saúde, bem-estar e funcionalidade a longo prazo dos pacientes (4). Essa mudança na prática envolve redução dos níveis sedação e aumento da preocupação com as consequências funcionais e sua recuperação após a alta da UTI(5). Para isso são cada vez mais importantes as escalas funcionais validadas na UTI, com o objetivo de traçar o perfil do paciente e aperfeiçoar o plano de cuidados para a incapacidade daquele indivíduo(6), como o Perfomance Status (PS) – Escala PS-ECOG, adotada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para avaliar como a neoplasia afeta as habilidades motoras e de vida desse indivíduo (7).
Um perfil de pacientes que sofrem diretamente com essa alteração de funcionalidade na UTI são os oncológicos, esses representam 20% das internações atualmente nessa unidade (8). Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2018 o número de casos novos de câncer em todo o mundo seria de 18,1 milhões (9), estimando-se ser a segunda causa de morte mais prevalente entre os brasileiros nos próximos anos (10).
Devido a esses números, são uma população muito estudada e que apresentaram muitos avanços em relação ao seu tratamento, melhorando as perspectivas de cura e controle, porém os tratamentos mais agressivos, aumentam o risco de complicações, necessitando da utilização da UTI (11), aproximadamente 5 a 10% exigem internação na UTI (9).
Devido a isso essa revisão narrativa tem o objetivo de descrever os motivos de internação dos pacientes oncológicos na UTI e discutir a associação do performance status com os desfechos desses pacientes e a perda de funcionalidade pela internação na UTI.
2- MATERIAL E MÉTODOS
Este trabalho é uma revisão narrativa, descritiva, através de artigos publicados até 2022 sobre associação do performance status com a internação dos pacientes oncológicos na UTI. Os critérios de inclusão foram estudos em português e inglês, cujo o tema fosse capacidade funcional dos pacientes oncológicos na UTI. Os dados foram coletados nos bancos de dados Lilacs, Pubmed e Scielo com os seguintes descritores: câncer; unidade de terapia intensiva; limitação funcional; fisioterapia, performance status. em português e inglês seguindo os descritores em inglês e português encontrados no MeSH e DeCS.
3- REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
3.1 – PACIENTE ONCOLÓGICO E A ADMISSÃO NA UTI.
Até a década de 1990, admissão de pacientes com câncer na UTI era desencorajada pelos estudos devido ao prognóstico reservado para esses pacientes (12). Porém com o passar dos anos novos tratamentos contra as neoplasias, principalmente a terapia direcionada ou imunoterapia, aumentaram a sobrevida desses pacientes, em contra partida também elevaram a necessidade de cuidados intensivos devido as complicações do tratamento e o perfil imunodeprimido desses pacientes com maior risco de morbidade e/ou mortalidade (11) / (13). A admissão em uma UTI permeia em dois possíveis questionamentos: melhorar a chance de cura com a melhora qualidade de vida
possível (13) .
Atualmente a decisão para a internação na UTI desse pacientes deve associar o status de desempenho antes da admissão, gravidade da doença naquele momento, expectativas da família e do paciente e por fim o prognóstico daquela neoplasia para toda a equipe médica envolvida – da UTI, oncologista e hematologista, se for o caso de
uma neoplasia hematológica.(8)
3.2 – PRINCIPAIS CAUSAS DE INTERNAÇÃO NA UTI.
As principais causas de internação desses pacientes na Unidade de Terapia Intensiva são complicações relacionadas ao tratamento oncológico e suas emergências como imunosupressão, plaquetopenia, trombose, síndrome da veia cava superior, leucocitose, hipo/hipercalcemia, toxidade as drogas quimioterápicas (14), sepse e/ ou choque séptico, insuficiência respiratória aguda e lesão renal(15). As neoplasias torácicas são os tipos de tumor sólido mais comuns na UTI; já as leucemias e linfomas são os cânceres hematológicos mais prevalentes nesse ambiente, por serem um espectro de pacientes com imunidade mais baixa as causas de admissão podem ser também mucosite e úlceras gástricas, doença do enxerto contra o hospedeiro (DECH), hemorragia alveolar, disfunção cardíaca, alteração de pressão arterial, doença hepática(12).
Segundo Soares e colaboradores (2010) o início de terapias adicionais para a sustentação da vida, como diálise ou aminas, após vários dias com necessidade de ventilação mecânica invasiva alerta que a condição clínica do paciente é grave propiciando um desfecho ruim. Somando-se também a gravidade da doença naquela momento de internação, estado de remissão, recorrência, progressão da doença e baixo performance status (PS) (16).
3.3 –PERFORMANCE STATUS E O PACIENTE ONCOLÓGICO.
A escala de performance status – PS-ECOG foi elaborada por um grupo de pesquisadores associados a Eastern Cooperative Oncology Group, que tem como objetivo avaliar com a doença oncológica interfere nas habilidades de vida diária desse paciente. O score numérico pontuação variando de 0-5, desde totalmente independentes até o óbito (7).
O paciente classificado como PS 0 – ele realiza suas atividades de forma normal, sendo capaz de continuar com todo o seu contidiano pré-diagnóstico, sem nenhuma restrição / PS 1 – apresentam sintomas da doença, sendo restritos para atividades de muito esforço, porém deambulam e conseguem levar suas atividades de vida diária / PS2 – realizam o autocuidado, porém não conseguem exercer as atividades laborais, permanecendo fora do leio mais que 50% do tempo / PS 3 – dificuldade também para o auto-cuidado, restritos a cadeira ou ao leito por mais de 50% do tempo, passam a necessitar de cuidados mais intensivos / PS 4 – dependentes para todas as atividades de autocuidado, completamente limitados de atividades, restrito ao leito ou à cadeira / PS 5 – referente ao status de óbito. (17)
3.4 –PERFORMANCE STATUS X MORTALIDADE E O PACIENTE ONCOLÓGICO NA UTI.
A mortalidade dos pacientes oncológicos na UTI parece estar associado ao seu status funcional prévio a internação, sendo utilizado o PS-ECOG como norteador tanto para início, continuidade do tratamento oncológico como para prognóstico na UTI desses pacientes. Quanto pior o PS de admissão, evidenciado na literatura entre 3-4 mais baixa é a sobrevida e maior o risco de morte tanto na internação da UTI quanto a longo prazo.(9)
Segundo as diretrizes da American Society of Clinical Oncology (ASCO), PSECOG menor que 2 é ponto de corte para iniciar os tratamentos oncológicos como quimioterapia e radioterapia, e também cirurgias extensas, consideradas de grande porte. Sendo necessário nesses pacientes definir planos de cuidados direcionados e respeitando suas individualidades para que mantém a qualidade de vida durante o tratamento oncológico. (18)
3.5 – CONTRIBUIÇÃO DA FISIOTERAPIA NO PERFORMANCE STATUS.
Nos paciente oncológicos a fisioterapia tem como foco preservar, restaurar e otimizar as atividades cinético funcionais dos sistemas do corpo, principalmente morto e respiratório, prevenindo maiores complicações (19). Estudos mostram que pacientes submetidos a sessões de fisioterapia melhoram não só aptidão física, como os sintomas causados pela doença oncológica.(20)
A funcionalidade sendo avaliada pela escala PS-ECOG pode contribuir na elaboração de planos de cuidados para assistência ao paciente oncológico, afim de nortear medidas que previnem ou reduzem o comprometimento funcional e os riscos de complicações.(19)
4 – COMENTÁRIOS.
Diante do exposto dessa revisão narrativa é possível observar o quão complexo são o paciente oncológico pode ser dentro de uma UTI e saber maneja-lo depende de fatores clínicos de estadiamento, comorbidades, entre outros, porém o fator que é indicado nos estudos como norteador e auxiliar nesse tratamento e na manutenção da qualidade de vida desse paciente é o performance status. Em vista disso a Fisioterapia como explicitado nesses últimos parágrafos pode ter papel fundamental para que o paciente não chegue extremamente debilitado na UTI ou que quando internado nessa unidade o paciente consiga ter para o bom desempenho dos sistemas funcionais ou que sua reabilitação seja propiciada pela atuação dos fisioterapeutas.
5 – REFERÊNCIAS
1. Darmon M, Azoulay E. Critical care management of cancer patients: cause for optimism and need for objectivity. Curr Opin Oncol. 2009;21(4):318–26.
2. Hough CL, Lieu BK, Caldwell ES. Manual muscle strength testing of critically ill patients: feasibility and interobserver agreement. Crit Care Lond Engl. 2011;15(1):R43.
3. Freitas ERFS de. Profile and severity of the patients of intensive care units: prospective application of the APACHE II index. Rev Lat Am Enfermagem. 2010;18(3):317–23.
4. Bemis-Dougherty AR, Smith JM. What Follows Survival of Critical Illness? Physical Therapists’ Management of Patients With Post–Intensive Care Syndrome. Phys Ther. 2013;93(2):179–85.
5. Elliott D, Denehy L, Berney S, Alison JA. Assessing physical function and activity for survivors of a critical illness: A review of instruments. Aust Crit Care. agosto de 2011;24(3):155–66.
6. Silva FRR, Souza TB, Dias MS, Silva APP, Oliveira KC, Oliveira MML, et al. Avaliação da capacidade funcional dos pacientes em uso de ventilação mecânica internados em uma Unidade de Terapia Intensiva. Rev Hosp Univ Pedro Ernesto. 2017;16(1):6–15.
7. Oken MM, Creech RH, Tormey DC, Horton J, Davis TE, McFadden ET, et al. Toxicity and response criteria of the Eastern Cooperative Oncology Group. Am J Clin Oncol. 1982;5(6):649–55.
8. van der Zee EN, Noordhuis LM, Epker JL, van Leeuwen N, Wijnhoven BPL, Benoit DD, et al. Assessment of mortality and performance status in critically ill cancer patients: A retrospective cohort study. Yunusa I, organizador. PLOS ONE. 11 de junho de 2021;16(6):e0252771.
9. Gheerbrant H, Timsit J-F, Terzi N, Ruckly S, Laramas M, Levra MG, et al. Factors associated with survival of patients with solid Cancer alive after intensive care unit discharge between 2005 and 2013. BMC Cancer. dezembro de 2021;21(1):9.
10. Bastos LFCS. OPAS/OMS Brasil – Câncer | OPAS/OMS [Internet]. Pan American Health Organization / World Health Organization. 2018 [citado 14 de março de 2019]. Disponível em: https://www.paho.org/bra…/index.php?option=com_content&view=article&id=5588:folha-informativa-cancer&Itemid=1094
11. Salluh JIF, Soares M. Políticas de admissão de pacientes oncológicos na UTI: hora de rever os conceitos. Rev Bras Ter Intensiva. setembro de 2006;18(3):217–8.
12. Ewelina BE, Cai Fengfeng, Vetter Marcus, Marsch Stephan. Oncological patients in the intensive care unit: prognosis, decision-making, therapies and end-of-life care. Swiss Med Wkly [Internet]. 10 de agosto de 2017 [citado 28 de março de 2022];147(3132). Disponível em: http://doi.emh.ch/smw.2017.14481
13. Baylot C, Francopoulo A, Gross-Goupil M, Quivy A, Guisset O, Hilbert G, et al. Prognostic factors for cancer patient admitted to a medical intensive care unit. Acta Oncol. 2 de abril de 2020;59(4):458–61.
14. Sapolnik R. Suporte de terapia intensiva no paciente oncológico. J Pediatr (Rio J). 2003;79(2):231–42.
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17. Pereira EEB, Santos NB dos, Sarges E do SNF. Avaliação da capacidade funcional do paciente oncogeriátrico hospitalizado. Rev Pan-Amaz Saúde. 2014;5(4):37–44.
18. Costa RT, Zampieri FG, Caruso P, Nassar Júnior AP. Performance status and acute organ dysfunction influence hospital mortality in critically ill patients with cancer and suspected infection: a retrospective cohort analysis. Rev Bras Ter Intensiva [Internet]. 2021 [citado 28 de março de 2022];33(2). Disponível em: https://rbti.org.br/artigo/detalhes/0103507X-33-2-14
19. Ranzi C, Barroso BF, Pegoraro DR, Sachetti A, Rockenbach CWF, Calegari L. Effects of exercises on pain and functional capacity in hospitalized cancer patients. Braz J Pain [Internet]. 2019 [citado 28 de março de 2022];2(3). Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2595-31922019000300255&lng=en&nrm=iso&tlng=en
20. Mangia AS, Coqueiro NL de O, Azevedo FC, Araujo HT da S, Amorim E de O, Alves CNR, et al. What clinical, functional, and psychological factors before treatment are predictors of poor quality of life in cancer patients at the end of chemotherapy? Rev Assoc Médica Bras. novembro de 2017;63(11):978–87.
Artigo Publicado: 15/12/2023
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