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O Uso da Estimulação Elétrica Funcional em Indivíduos após Acidente Vascular Cerebral: Revisão Bibliográfica

O Uso da Estimulação Elétrica Funcional em Indivíduos após Acidente Vascular Cerebral: Revisão Bibliográfica

INTRODUÇÃO:

O Acidente Vascular Cerebral (AVC) é definido como uma lesão no cérebro, caracterizado por interrupção do fluxo sanguíneo causado por um êmbolo, trombo ou extravasamento sanguíneo, com consequentes déficits neurológicos. O AVC é a segunda principal causa de mortes no mundo e, em alguns casos, deixa o paciente com incapacidade de realizar suas atividades diárias. Aproximadamente 85% dos casos de Acidente vascular cerebral são isquêmicos e apenas 15% hemorrágicos.

Estima-se que mais da metade dos indivíduos acometidos por AVC possuam algum comprometimento do sistema sensoriomotor. O comprometimento de vias sensoriais e motoras como consequência do AVC frequentemente está correlacionado a uma pobre recuperação funcional, ao aumento da taxa de mortalidade, à deficiência de equilíbrio postural, ao aumento do risco de quedas, à síndrome dolorosa do ombro, dentre outros.

Entre as limitações de tarefas observadas após um AVC, destaca-se a limitação da mobilidade, principalmente relacionada à marcha. Considerando a mobilidade, tarefas como levantar-se, sentar-se, andar, subir e descer escadas se tornam limitadas. Recorre-se ao uso de dispositivos auxiliares de marcha e, nos casos mais graves, à cadeira de rodas. Especificamente, com relação à marcha, os indivíduos passam a apresentar estratégias biomecânicas compensatórias que resultam em piores parâmetros de marcha como diminuição da velocidade de marcha, comprimento do passo e da passada, entre outros.

Uma expressão do comprometimento da marcha no AVC é a redução significativa na força distal dos membros inferiores. Ao caminhar, esta redução resulta na incapacidade de dorsiflexionar adequadamente a articulação do tornozelo imediatamente após o impulso e sair do chão com segurança, tradicionalmente conhecido como “pé caído”.

A estimulação elétrica funcional (FES) tem sido empregada na reabilitação de pacientes com AVC, seja para gerar contração muscular ou como suporte durante os movimentos. Um pré-requisito para a neuroplasticidade através do treinamento é a intenção volitiva e a atenção da pessoa e, portanto, o usuário deve participar conscientemente na intervenção de reabilitação. Diante disso, o objetivo deste estudo foi analisar os efeitos do FES no comprometimento da marcha de indivíduos pós AVC.

MATERIAIS E MÉTODOS:

Trata-se de uma revisão bibliográfica do tipo narrativa, onde foram utilizados artigos científicos obtidos através das principais plataformas de dados: Google Acadêmico, PubMed, PEDro e SciELO, com o uso dos descritores: Acidente Vascular Cerebral, Deficit de Marcha e Estimulação Elétrica Funcional.

RESULTADOS:

Os estudos selecionados foram realizados em indivíduos com diagnóstico de AVC entre 2013 até 2023. Foram excluídos trabalhos publicados há mais de 10 anos e revisões que não atendiam aos critérios estabelecidos. Foram encontrados 20 artigos, destes, 5 estudos foram selecionados para a realização desse trabalho, conforma a tabela 1.

DISCUSSÃO:

A estimulação elétrica funcional (FES) objetiva produzir uma função corpórea envolvendo, assim, parâmetros estimulatórios, local de aplicação e tarefa a ser realizada. A corrente da FES necessária para ativar um músculo é inversamente proporcional ao grau de inervação e hipotrofia. Desse modo, a FES permite ativar grupos musculares com perda de função motora, afetados por alterações neurológicas.

O feedback sensorial pode ser um importante agente modulador durante a execução da ação motora volitiva, influenciando o desempenho funcional dos indivíduos. Durante a aplicação da FES, ocorre uma integração do córtex sensorial e motor, ativando conjuntamente vias aferentes proprioceptivas e vias eferentes motoras, promovendo a contração muscular.

A FES é uma terapia promissora para facilitar os mecanismos neurais e proporcionar recuperação motora. Em teoria, como o dispositivo promove contrações induzidas eletricamente, que, combinadas com contrações voluntárias, são capazes de fortalecer as sinapses espinhais e provocar alterações corticais. A junção da FES e reabilitação da marcha parece representar um tratamento eficiente. Quando a corrente é aplicada à região fibular, a musculatura parética dorsiflexora é ativada eletricamente enquanto ocorre a fase inicial de balanço e postura do ciclo da marcha, resultando na elevação “ativa” do pé. De fato, o uso dessa corrente elétrica promove modificações na velocidade de condução, no crescimento axonal e na mielinização dos nervos periféricos. Além disso, os efeitos centrais da FES permitem ativação eferente periférica, com maior funcionalidade na força das contrações e resistência à fadiga muscular, bem como aumento de massa muscular e coordenação de movimento. Portanto, a FES pode modificar o movimento de controle através da promoção da reaprendizagem motora, fornecendo um caminho para atividade pré-sináptica e pós-sináptica sincronizada.

Alguns ensaios clínicos sugerem que o uso da eletroestimulação funcional (FES) pode promover um melhor desempenho motor pós AVC. Tais estudos procuram analisar o impacto do uso de uma corrente elétrica externa sobre os pontos motores dos músculos deficientes durante a contração voluntária e assistida. Além de permitir a despolarização da placa motora, essa corrente permite que o indivíduo experimente a cinestesia de uma contração ou movimento limitado pela doença ou lesão neurológica, o que pode ser útil na recuperação motora.

Outros consideram que o recebimento dos estímulos no córtex lesado pode auxiliar na organização do modelo interno de movimento do membro acometido e aumentar a ativação cortical ipsilateral do córtex somatossensorial primário. Para outros pesquisadores, a aquisição da função em indivíduos crônicos submetidos à FES deve-se à inibição recíproca dos músculos flexores no momento em que os músculos extensores são ativados. Por fim, a hipertrofia tecidual, o incremento de força e a melhora da endurance muscular alcançados no decorrer de uma intervenção prolongada com a técnica FES podem estar diretamente relacionados à recuperação motora funcional observada em indivíduos submetidos a essa intervenção.

Alguns estudos demonstraram que a FES aplicada ao nervo fibular parético tem efeitos clínicos positivos na queda do pé secundária ao acidente vascular cerebral. Uma revisão sistemática mostrou que a FES poderia aumentar a velocidade da marcha em indivíduos após acidente vascular cerebral, quando comparada com órteses no tornozelo e pé (AFO). Uma revisão sistemática mais recente incluiu ensaios clínicos randomizados e mostrou que tanto os dispositivos de estimulação de queda do pé quanto o AFO parecem ser eficazes e equivalentes para aumentar a velocidade da marcha pós AVC.

No estudo prospectivo, longitudinal, randomizado e cruzado, no qual 28 participantes foram distribuídos em grupos e avaliados por testes funcionais, com o intuito de comparar o treinamento em esteira com a FES (TT-FES) e o treinamento em esteira sem a FES (TT), bem como analisar a sequência do treinamento na mobilidade e nos parâmetros da marcha, embora não tenham sido utilizados métodos de avaliação biomecânica, o que pode ser considerado uma limitação, os resultados evidenciaram que o TT-FES foi superior ao treinamento isolado em esteira no que diz respeito ao equilíbrio, capacidade de resistência e coordenação do membro não parético.

Nessa revisão sistemática e meta-análise, 14 estudos foram analisados e forneceram dados de 1.115 participantes, extraindo os tipos de estudos, participantes, grupos de comparação, intervenções e resultados, com o objetivo de analisar os benefícios da FES aplicada ao nervo fibular parético na velocidade da marcha, mobilidade ativa de flexão dorsal do tornozelo, equilíbrio e mobilidade funcional. Esta meta-análise revelou evidências de baixa qualidade para efeitos positivos da FES na velocidade da marcha quando combinada com fisioterapia. A FES pode melhorar a flexão dorsal do tornozelo, o equilíbrio e a mobilidade funcional. Contudo, considerando a baixa qualidade das evidências e a elevada heterogeneidade, estes resultados devem ser interpretados com cautela.

Numa revisão sistemática de ensaios clínicos randomizados, foram empregados 10 estudos. Foi aplicado um protocolo de aplicação da FES com duração de 30 minutos e um número total de sessões variando entre 3 e 60 sessões, para investigar a aplicabilidade da FES sobre a dorsiflexão no membro inferior acometido de indivíduos pós AVC, com medidas de desfechos relacionados com a marcha. Os resultados sugerem assimetria considerável entre os grupos experimentais e controle. Tal achado reforça a recomendação do uso do FES na recuperação motora após o AVC.

Nesta revisão feita com ensaios clínicos randomizados, com 48 participantes, sendo 27 homens e 21 mulheres, separados em dois grupos, com faixa etária entre 48 e 70 anos, analisaram-se os efeitos da FES com padrão simulando a marcha na recuperação motora no pós-acidente vascular cerebral. A FES induziu melhora do equilíbrio e da marcha no grupo estudado.

Neste ensaio clínico randomizado e controlado, quarenta e cinco indivíduos foram aleatoriamente divididos em três grupos: um grupo de quatro canais com EEF, um grupo placebo e um grupo de dois canais. A estimulação durou 30 minutos em cada sessão, com uma sessão por dia, cinco vezes por semana durante três semanas. Foi investigado o efeito da FES nos três grupos, porém o grupo que utilizou os quatro canais apresentou efeitos superiores quando comparado ao grupo placebo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

O acidente vascular cerebral é uma das doenças mais incapacitantes que existe. Diversas são as técnicas utilizadas no tratamento de pacientes pós AVC, dentre elas destaca-se a FES, que tem sido usada como uma opção potencial de tratamento de reabilitação para restaurar a função motora e melhorar a recuperação em indivíduos com paresia. Especialmente após AVC, muitos indivíduos recuperam apenas função limitada. Diante da revisão bibliográfica realizada, conclui-se que a aplicabilidade da FES demonstrou-se eficaz para a recuperação motora funcional da marcha em indivíduos acometidos por AVC.

AGRADECIMENTOS:

Agradeço a Deus por ter me ajudado a chegar até aqui.
Ao meu esposo por estar comigo em todos os momentos.
Aos meus familiares e amigos pelo apoio e incentivo.
À Instituição pelo excelente corpo docente.
A todos que contribuíram de alguma forma, meu muito obrigada.

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ARTIGO PUBLICADO EM 18/12/2025



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