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Eletroestimulação e os Benefícios para a Qualidade de Vida do Paciente após Alta da Unidade de Terapia Intensiva

Eletroestimulação e os Benefícios para a Qualidade de Vida do Paciente após Alta da Unidade de Terapia Intensiva

INTRODUÇÃO

A Fraqueza Muscular Adquirida na Unidade de Terapia Intensiva (FAUTI) é uma condição clínica que afeta cerca de 20 a 50% dos pacientes submetidos a internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), em que desencadeia um grande comprometimento funcional associado, já na primeira semana de internação.

A FAUTI não promove somente a perda de massa muscular em virtude do tempo que o paciente permanece restrito ao leito, mas também a presença de politraumas, infecções severas, tempo em Ventilação Mecânica (VM), uso de
bloqueadores musculares, além de disfunções de múltiplos órgãos e sistemas. Com isso, o conjunto de variados quadros e seu agravamento podem promover o desenvolvimento da Polineuropatia do Paciente Crítico (PPC).

A PPC se caracteriza pela natureza axonal, em sua maioria de ordem motora, simétrica e aguda. Esse quadro está diretamente ligado a fisiopatologia da sepse, que provoca distúrbios na microcirculação acarretando hipóxia e consequentemente degeneração axonal primária de fibras sensitivas e motoras, em sua maioria distais.

Essa condição também pode ser conhecida como miopatia necrotizante da UTI, miopatia tetraplégica aguda, miopatia esferoidal aguda, síndrome pós-paralisia e miopatia de filamentos grossos, porém o mais usual é polineuropatia do paciente crítico.

As desordens neuromusculares são consideradas um agravante nos quadros clínicos do paciente e observa-se que a PPC aumenta o tempo de VM, sendo fator preditor. Nesse sentido, a mobilização precoce se apresenta como sendo um conjunto de estratégias e intervenções que são iniciadas logo que as funções hemodinâmicas seguras sejam restabelecidas pelo paciente. Essa estratégia é adotada para minimizar o tempo de internação, melhorar a força muscular global, diminuir o tempo em VM e promover melhor qualidade de vida após a alta hospitalar.

Dentre os recursos fisioterapêuticos na mobilização precoce está a eletroestimulação neuromuscular (EENM), essa ferramenta passou a ser utilizada em conjunto com outras condutas ou até mesmo de forma isolada. As formas de utilização mais comuns são: Eletroestimulação Funcional (FES), Estimulação Elétrica Transcutânea (TENS), Estimulação Elétrica Muscular Russa (EEMR) e Estimulação Elétrica Interferencial (EEI).

Dentre os benefícios apontados com o uso da EENM estão: a melhora da força muscular global, pico de força de quadríceps e diminuição no tempo de internação.

Nesse contexto, ao se observar os benefícios da mobilização precoce, bem como da eletroestimulação, o presente estudo tem como objetivo discutir, baseado na literatura, os benefícios da eletroestimulação para a qualidade de vida do paciente após alta da unidade de terapia intensiva.

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo do tipo revisão da literatura, que levantou a seguinte questão: “Quais os benefícios da eletroestimulação para a qualidade de vida do paciente após alta da unidade de terapia intensiva?” O estudo foi realizado a partir da identificação dos estudos selecionados através de buscas em publicações indexadas
nas seguintes bases de dados Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE) via Biblioteca Virtual de Saúde (BVS), na Physiotherapy Evidence Database (PEDro) e na biblioteca Scientific Electronic Library Online (SciELO).

Visando assegurar as buscas, foi consultado Descritor em Ciências da Saúde (DeCS): “Estimulação Elétrica Nervosa Transcutânea, unidade de terapia intensiva e qualidade de vida”. Na língua inglesa, de acordo com o Medical Subject Headings (MESH) os descritores foram: “transcutaneous electrical nerve stimulation, intensive care unit and quality of life”. Estes descritores foram combinados entre si, ou não, com a utilização do operador booleano AND. Os descritores foram utilizados para que remetesse a temática do estudo através da construção de estratégias e busca através da combinação desses descritores.

Foram incluídos artigos originais, em português, inglês e espanhol, publicado nos últimos cinco anos (2017-2021), com delineamentos do tipo ensaios clínicos controlados randomizados cegos ou duplo cegos e coortes, que abordassem a eletroestimulação e os benefícios para a qualidade de vida do paciente após alta da
UTI. Foram excluídos os artigos de estudo de caso e relato de experiência, além daqueles em formato de resumo e que não possuíam texto completo. Assim, a presente pesquisa se desenvolveu a partir de uma análise e leitura de artigos publicados por diversos autores com a finalidade de comparar os seus respectivos pontos de vista, reconhecendo os métodos por eles utilizados e discutidos a respeito dos benefícios da eletroestimulação para a qualidade de vida do paciente após alta da UTI.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Feitos os cruzamentos dos descritores, foram encontrados um total de 21 artigos. Com 0 registros adicionais por meio de outras fontes, 4 artigos foram excluídos por serem duplicatas e não se adequarem a questão norteadora do estudo. 17 artigos foram selecionados, dos quais 3 não foram elegíveis de acordo com os critérios de inclusão. Dos 14 artigos restantes, 3 foram excluídos após a leitura na íntegra de acordo com os critérios de seleção. Estes dados estão apresentados no fluxograma prisma. Alguns dos estudos removidos tinham eletroestimulação sendo utilizada em
pacientes que não foram submetidos a internação em UTI, restando então 11 artigos elegíveis para compor o trabalho (Figura 1).

Todos os artigos incluíram eletroestimulação como conduta no grupo intervenção, bem como os referidos pacientes encontravam-se internados em unidade de terapia intensiva.

Em relação ao tamanho amostral, a população variou de 33 a 314 participantes adultos, com idade superior a 18 anos, sendo a população masculina o gênero predominante. As internações na unidade de terapia intensiva ocorreram por diversos quadros patológicos como: exacerbação de DPOC, insuficiência respiratória, insuficiência cardíaca, quadros críticos de sepse, entre outros.

Os desfechos avaliados foram predominantemente: tempo em ventilação mecânica, tempo de internação, força global, capacidade funcional, perda muscular e qualidade de vida. Dois artigos avaliaram de forma mais superficial o efeito da eletroestimulação em níveis de aminoácidos e citocinas plasmáticas, bem como inflamação sistêmica.

Diversos protocolos de aplicação de Eletroestimulação Neuromuscular (EENM) foram analisados e seus mais variados desfechos clínicos registrados. Nesse sentido, foram observados os principais desfechos e suas respectivas condutas avisando avaliar os impactos e melhores formas de utilização da eletroestimulação.

A fraqueza muscular adquirida em unidade de terapia intensiva (FAUTI) está presente em 20-50% dos pacientes internados em UTI e é importante preditor de tempo em VM, sucesso de extubação, funcionalidade após a alta e mortalidade.

Desta forma, evitar a FAUTI ou diminuir as suas complicações características tornase sabidamente importante para determinar o sucesso da recuperação dos pacientes.

A escala Medical Research Council (MRC) é utilizada para mensurar a gravidade da fraqueza muscular, delimitando como pontuações menores que 48 (60) fraqueza importante e menores que 36 (60) fraqueza muscular grave.

A força muscular foi analisada mediante escala MRC, no estudo de Barros e colaboradores, embora todos tenham apontado melhora clínica, o estudo de Silva e colaboradores não apresentou melhora significativa na comparação entre grupos. O grupo controle presentes no estudo de Souza e colaboradores realizado com intervenção mais ativa, por meio de um protocolo de mobilização precoce, bem como o estudo de Campos e colaboradores que comparou a EENM obtiveram melhora clínica e estatística significativa nas pontuações MRC em comparação ao grupo
controle, apontando para a eficácia da EENM na melhora da força muscular dos pacientes em estado crítico.

A espessura, volume e circunferência muscular foram analisados por Felix e colaboradores e Taroco e colaboradores onde se demonstrou uma leve melhora na espessura da musculatura expiratória abdominal. Entretanto, o estudo de Barros e colaboradores evidenciou um percentual de perda muscular menor, estatisticamente significante, no grupo intervenção. Em contrapartida, Pinto e colaboradores não evidenciaram diferença significativa no volume muscular e na circunferência da musculatura entre os grupos.

O número de dias em VM demonstra fator importante no risco de mortalidade e independência funcional após a alta, sendo que números elevados de dias em VM pressupõem baixa taxa de sucesso de extubação, aumento no risco de pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV), catabolismo e insuficiência crônica de órgãos.

Os estudos de Souza, Campos e Felix e colaboradores avaliaram ainda, o impacto da eletroestimulação no número de dias em ventilação mecânica é muito significativo. Já o estudo de Pinto e colaboradores não obteve diferenças entre os grupos analisados. Com isso, verifica-se que ocorre uma significativa melhora no número de dias em ventilação mecânica, bem como nos demais desfechos como melhora da capacidade funcional, força e massa muscular, destacando-se a importância da aplicação de um protocolo de mobilização precoce eficiente nas UTI.

Os níveis de aminoácidos e citocinas plasmáticas são importantes marcadores de perda muscular e desgaste. O estudo de Silva e colaboradores avaliou as citocinas plasmáticas no sistema com o uso de eletroestimulação e identificou que os valores de aminoácidos no sistema foram significativamente mais baixos no grupo intervenção. Tal desfecho requer mais estudos para um melhor entendimento do real impacto da eletroestimulação a nível sistêmico.

Taroco e colaboradores e Moraes; Costa; Nascimento avaliaram o tempo de internação dos grupos submetidos a eletroestimulação. O estudo de Taroco e colaboradores demonstrou diminuição significativa dos dias em internação no grupo intervenção, em contrapartida Moraes; Costa; Nascimento não obteve melhora estatisticamente significante entre os grupos.

As escalas funcionais são amplamente utilizadas em UTI, com o intuito de avaliar a funcionalidade durante o período de internação e após a alta. Com isso, o estudo de Lima; Almeida; Carvalho; Souza e colaboradores e Campos e
colaboradores utilizaram escalas funcionais em seus estudos. Lima; Almeida; Carvalho notaram melhora significativa na escala de Barthel na pontuação referente a atividade de subir escadas. Já Souza e colaboradores, ao utilizar a escala de independência funcional não encontrou diferença significativa entre os grupos estudados, assim como Campos e colaboradores que não evidenciou diferença significativa entre os grupos, ao utilizar as escalas de KATZ, Barthel e SF-36.

Os principais achados referentes ao uso da eletroestimulação estão relacionados ao aumento da força muscular, diminuição do tempo em VM e tempo de internação. A eletroestimulação combinada com mobilização precoce produz melhora significativa nos desfechos do paciente crítico na maior parte dos estudos analisados, sendo que os efeitos tendem a serem maiores no paciente com maior debilidade e que não esteja possibilitado de realizar mobilização precoce.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Frente ao exposto, verifica-se que a eletroestimulação se apresenta como um recurso fisioterapêutico seguro e eficaz, capaz de promover melhora significativa na capacidade funcional e força do paciente, minimizando a perda de massa muscular e da circunferência da musculatura, além de reduzir o tempo de internação em UTI e de uso da ventilação mecânica. O protocolo de EENM e sua combinação com demais condutas de acordo com o período de internação em que for instalado impacta diretamente na qualidade de vida do paciente, sendo assim observado inúmeros
benefícios em sua utilização.

REFERÊNCIAS

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ARTIGO PUBLICADO EM 03/10/24



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