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Doença de Parkinson, Uma Visão Global do Indivíduo: Revisão Narrativa

Doença de Parkinson, Uma Visão Global do Indivíduo: Revisão Narrativa

1. INTRODUÇÃO

As abordagens fisioterapêuticas vem sofrendo adaptações, em decorrência da baixa aderência dos indivíduos ao tratamento em longo prazo. Entre as barreiras encontradas, são citadas: A falta de tempo, a baixa espectativa com resultado, a falta de confiança e até mesmo, a má aceitação da doença. Para mudar essa realidade, é preciso entender as reais razões pelas quais os indivíduos buscam tratamento fisioterapêutico, situação em que paciente e fisioterapeuta devem trabalhar juntos em busca de estimular a autoeficácia e a confiança, respeitando barreiras e motivações individuais. Visando a qualidade do cuidado e a motivação intrínseca ao atendimento fisioterapêutico, surgiu o conceito de cuidado centrado na pessoa, uma abordagem que oferece cuidado respeitoso às preferências individuais, assim como as necessidades e aos valores, fornecendo recursos para a participação igualitária em todas as decisões clínicas. Ao identificar o indivíduo como pessoa, e não como doença ou o sintoma, os objetivos do cuidado passam a se basear na maximização da saúde e, por isso, se entende “viver a vida o melhor possível”. No entanto, para a concretização desse objetivo, fisioterapeuta e paciente devem estar cientes do poder que o indivíduo exerce sobre sua própria saúde. A consciência de empoderamento, promove a pessoa com doença de Parkinson, a possibilidade de autorreflexão, priorização e aplicação de habilidades de resolução de problemas, relacionados a questões de desempenho no domínio das atividades e participação, desenvolvendo o autocuidado e a autonomia, e mudando inclusive, a forma de enxergar suas limitações. Combinado a isso, a escuta das prioridades e preferências dos indivíduos por parte dos fisioterapeutas, permite acesso às reais motivações com seu tratamento, que podem alimentar a construção das intervenções, promovendo a satisfação e a aderência dos pacientes. Essa nova abordagem vem mostrando resultados transformadores na qualidade de vida dos indivíduos com doença de Parkinson. Os protocolos de exercícios variam de altamente individualizado, para atendimento fisioterapêutico em grupo. Nessa nova abordagem, os participantes recebem manuais com as rotinas de exercícios para praticar em casa e, em cada sessão são realizados exercícios funcionais e discussões sobre estratégias para desenvolver o autocuidado. Entre o domínio da Classificação internacional de funcionalidade, incapacidade e saúde (CIF), a estrutura e a função corporal são os mais presentes nos estudos relacionados a qualidade de vida na doença de Parkinson. No entanto, o domínio da participação e da atividade, são os que mostram melhor associação com a qualidade de vida nos pacientes com doença de Parkinson, de acordo com a revisão sistemática de Van Uem e colaboradores. Isso mostra que, apesar do enfoque científico em olhar o indivíduo apenas pelos seus comprometimentos estruturais e funcionais, há mais aspectos, como participação e atividade, a se considerar na abordagem fisioterapêutica, para atingir a qualidade de vida de forma mais ampla. Em um estudo prospectivo do tipo coorte, em que foram avaliados 109 indivíduos diagnosticados com doença de Parkinson no decorrer de sete anos após o diagnóstico, observando a trajetória dos sintomas motores e não motores durante as atividades de vida diária (AVD’s), apontou–se que, no decorrer de cinco anos após o diagnóstico, além de os sintomas motores se agravarem, atingindo o desempenho das AVD’s, começaram a surgir sintomas não motores de depressão e ansiedade.

2. MATERIAIS E MÉTODO

Este trabalho é uma revisão narrativa da literatura, descritivo, através da revisão de artigos publicados de 2010 a 2019 sobre o tema proposto. Os critérios de inclusão foram: idiomas português e inglês que tratem sobre o tema proposto. Os dados foram coletados nos bancos de dados Lilacs, Scielo e Google acadêmico com os seguintes descritores: Doença de Parkinson, cuidado centrado no indivíduo, em português e inglês. Os artigos foram avaliados segundo os critérios PICOS.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

As estratégias de tratamento fisioterapêutico, já consolidadas na literatura na reabilitação nos indivíduos com doença de Parkinson e a sua aplicação efetiva, vem sendo dificultada pela falta de aderência ao tratamento. Diante dessa situação, surgem dúvidas relacionadas à abordagem fisioterapêutica; por exemplo, sobre o que leva os indivíduos a não realizarem o tratamento com e sem supervisão, de que modo o fisioterapeuta pode estar interferindo na autoconfiança à prática do tratamento. Nesse contexto, surgiu o paradigma da dependência na relação fisioterapeuta e indivíduo com doença de Parkinson. O tratamento fisioterapêutico é altamente indicado na literatura atual como peça-chave da reabilitação neurofuncional do paciente com doença de Parkinson. De acordo com o Guia Europeu de Fisioterapia na DP, os tratamentos fisioterapêuticos com maiores resultados sobre a reabilitação motora e não motora dos indivíduos com doença de Parkinson baseiam-se em SMART: specific (específica), measurable (mensurável), achievable (atingível), relevant (relevante), timed (baseado no tempo). Com frequência de treinamento recomendada de três vezes por semana, durante 45 minutos, com intensidade moderada de 55% a 85% da frequência cardíaca máxima, de acordo com o objetivo proposto. Em decorrência da disfunção dos núcleos da base, os indivíduos com doença de Parkinson apresentam limitações nas etapas de automatização e retenção do aprendizado motor e têm a maior parte do seu aprendizado dependente da etapa cognitiva ou de aquisição. Em busca de aperfeiçoar o aprendizado motor, são recomendados exercícios voltados à tarefa, com alto grau de repetição e progressão, utilizando vários contextos e duplas tarefas, usando estratégias explícitas de aprendizado motor por meio de metas conscientes, além do fornecimento de pistas externas ou do uso da prática mental (imagética). Estudos que buscaram elucidar o futuro da fisioterapia na doença de Parkinson apontaram que as pistas externas (visuais, auditivas, sensitivas), muito utilizadas nos treinos supervisionados, mostram–se inviáveis em situações da vida diária. Com base nisso, novas formas de pistas vêm sendo estudadas, muitas com base em novas tecnologias e outras utilizando alternativa mais simples e acessível, que é o foco atencional associado à terapia de observação da ação, quando o indivíduo representa mentalmente a ação antes do movimento. Essa estratégia vem se mostrando promissora no desempenho motor dos pacientes com doença de Parkinson. Estudos mostram que o estado cognitivo é um dos principais determinantes do resultado da reabilitação, que é favorecido ou alcançado por meio do feedback (verbal ou propioceptivo), da demanda atencional (pistas internas ou dupla tarefa), e da motivação (recompensa). Assim, é necessário desenvolver e validar abordagens inovadoras, baseadas em evidências e motivadoras por meio de estudos clínicos randomizados.

Apesar de todo esforço desenvolvido para oferecer o tratamento mais efetivo para os indivíduos com doença de Parkinson, agindo sobre suas expectativas, na melhora dos sintomas da marcha, na bradicinesia, no tremor, na fadiga, entre outros, estudos vêm mostrando que alguns indivíduos têm apresentado barreiras à prática da fisioterapia, não se mantêm motivados com o tratamento e, consequentemente, diminuem a sua aderência. Ellis e colaboradores em seu estudo sobre o guia para o exercício e bem estar, mostraram algumas razões pelas quais os indivíduos com Parkinson se desmotivam à prática de exercício e suas dificuldades em aderir a um estilo de vida ativo. Entre os motivos citados, estão aspectos emocionais, como apatia e depressão, além de sintomas cardiorrespiratórios, como fadiga. Entretanto, o fator mais evidente nesse estudo foi a baixa expectativa de resultados e autoeficácia. Também se observou essa falta de confiança, quando os pacientes foram questionados, se seriam capazes de realizar os exercícios aprendidos em um protocolo de reabilitação intensiva em casa após a alta, de acordo com estudos de Giardini e colaboradores. A falta de confiança que os indivíduos mostraram sentir sobre a própria capacidade de cuidar de si, não realizando os exercícios sem supervisão profissional, faz o fisioterapeuta se deparar com um novo paradigma. Nele, se observa que as barreiras ao tratamento fisioterapêutico estão relacionadas com a dependência, por parte do paciente, de um profissional para se responsabilizar pela sua saúde, atuando de forma passiva nas tomadas de decisão que influenciam diretamente o seu bem estar. Diante desse novo paradigma e da busca por estimular a capacidade individual das pessoas com doença de Parkinson, surgiu a necessidade de mudança de abordagem, partindo da especializada na melhora dos sintomas e da fisiopatologia da doença, para uma que também obtenha essas melhoras, mas por meio da experiência consciente do indivíduo de poder sobre a própria saúde. É necessário estimular o empoderamento, a fim de que os indivíduos se tornem motivados a cuidar de sua saúde de forma autônoma. Muitos indivíduos com DP, não conseguem aderir ao programa de fisioterapia em longo prazo, deparando-se com barreiras que comprometem a continuidade no tratamento e interferem em seus resultados. Nesse contexto, a falta de tempo, a baixa expectativa com os resultados, são os obstáculos mais conhecidos. Entretanto, novos estudos vêm desvendando e demonstrando barreiras enfrentadas pelos pacientes, que não se conhecia, ou mesmo eram ignoradas pela fisioterapia.

É possível observar a falta de confiança quando os indivíduos são questionados sobre a capacidade de realizar exercícios aprendidos em um protocolo de reabilitação intensiva em casa após a alta. A maioria refere que tem essa intenção, mas, uma boa parcela diz não se sentir hábil a aplicar esses ensinamentos em casa, conforme a citação a seguir de uma das pacientes entrevistadas no estudo de Giardini e colaboradores: “Eu vou lhe falar a verdade: Eu não serei capaz de realizar os exercícios sozinha após a alta. Assim que eu tenho a experiência de dor e rigidez nas pernas, perco a motivação e fico com medo de me machucar, então interrompo os exercícios.” Khali e colaboradores investigaram as barreiras encontradas por pacientes em um protocolo home-based (em domicílio) de marcha com mínima supervisão. Entre os motivos relatados pelos participantes do estudo para não realizar os exercícios, destacam-se: falta de tempo em decorrência de demandas familiares, como cuidar de filhos ou netos, ou por causa do trabalho; depressão que comprometeu a motivação com o tratamento; falta de expectativas em relação aos resultados; diagnóstico de demência, que interferiu na adaptação ao tratamento; contexto cultural de que pessoas idosas não devem realizar atividade física; sigilo em relação à doença.

O estudo qualitativo desenvolvido por Quinn e colaboradores buscou entender o ponto de vista de fisioterapeutas e pacientes sobre programas de exercício, identificando barreiras que poderiam impactar a participação dos indivíduos. As barreiras norteavam fatores como limitações físicas, pouca informação sobre os exercícios, complexidade dos exercícios, local de realização, segurança e comprometimentos cognitivos. A maior parte dos fisioterapeutas acredita que as limitações cognitivas relacionadas à memória podem afetar a habilidade dos pacientes de se engajar em exercícios de forma independente, bem como que o protocolo deve se basear nas habilidades dos indivíduos a favor da segurança.

Em busca de sugestões dos próprios participantes para se manterem motivados, Ene e colaboradores, por meio de entrevistas qualitativas, apontaram que os aspectos mais considerados para o indivíduo não deixar a prática fisioterapêutica são: progressão da doença; recomendações do fisioterapeuta; convicção de que os exercícios irão ajudá-los com seus sintomas; manejo da depressão; capacidade de continuar a participar de atividades que valorize em sua vida diária. No estudo de Ene e colaboradores, em relação às características da atividade fisioterapêutica que os participantes sugeriram melhorar a motivação, estão o ajuste periódico de progressão dos exercícios, a fim de sempre se manter desafiado, a combinação de atividades como exercício aeróbio e ioga, melhores instruções sobre a realização de exercícios, principalmente em atividades de alongamento adaptados aos seus interesses individuais e agradáveis. Com o objetivo de motivar os indivíduos e estimular a confiança com o propósito de evoluir para exercícios não supervisionados, Keus e colaboradores recomendaram a prática fisioterapêutica em grupo, o que pode ser bem elucidado a partir do relato dos participantes no estudo qualitativo de Leavy e colaboradores: “O treinamento em grupo significa que você se forçava a se concentrar e a ter um melhor desempenho.”

O guia europeu de fisioterapia para DP salienta que, para alcançar a motivação do paciente, a fisioterapia deve objetivar a centralização no indivíduo, definida como “oferecer cuidados que respeitem e respondam às preferências individuais dos pacientes”. O Institute of Medicine, uma organização privada sem fins lucrativos dos Estados Unidos que fornece políticas de saúde, em 2001, em busca de abranger as necessidades essenciais de cuidado à saúde, estipulou seis objetivos a serem considerados para melhorar a qualidade do cuidado, que são: ser segura, eficaz, equitativa, oportuna, eficiente e centrada no paciente. Esses objetivos promoveram uma nova visão de qualidade do atendimento por parte das equipes multiprofissionais de reabilitação da doença de Parkinson, que agora buscam transpassar esses valores à prática clínica.

Na abordagem centrada na pessoa, os fisioterapeutas que buscam uma atenção centralizada no indivíduo devem tentar acessar a “pessoa por trás da doença”, respeitando as preferências, que devem ser incluídas nas escolhas de seu tratamento por meio de uma participação ativa. Portanto, para abordagem centrada na pessoa, é preciso a capacidade de tomada de decisão por parte do indivíduo. Apesar de isso ser uma limitação à prática em indivíduos com alterações cognitivas, pode-se aplicar essa abordagem nos estágios leves e moderados da doença de Parkinson. A integração do indivíduo à sua reabilitação promove a ele a possibilidade de autorreflexão, priorização e aplicação de habilidades de resolução de problemas relacionados a questões de desempenho nos domínios da atividade e participação, desenvolvendo o autocuidado e autonomia. Combinado a isso, a escuta das preferências e das prioridades dos pacientes por parte dos fisioterapeutas permite acesso às reais motivações com o seu tratamento, que devem alimentar a construção das intervenções, promovendo a satisfação e a aderência ao tratamento.

Em busca de estratégia para manter a qualidade de vida de pacientes com DP, Fereshtehnejad, em seu estudo de revisão, mostrou que o revolucionário paradigma de envolver os indivíduos no processo de tomada de decisão sobre suas próprias vidas pode, além de melhorar a qualidade de vida, aumentar a aderência, expandir o conhecimento sobre sua saúde, fornecer suporte emocional, colaboração, cuidado contínuo e diminuir os custos com o tratamento. Para o sucesso dessa abordagem, a educação do indivíduo por meio do automonitoramento e do autocuidado se torna essencial para a manutenção da qualidade de vida. A aproximação da equipe profissional às capacidades, às limitações e aos valores individuais das pessoas com DP permite o respeito e a valorização por parte da equipe sobre o conhecimento oriundo da experiência da doença. Essa sabedoria advém da experiência de vida desses indivíduos e os torna mestres em relação ao enfrentamento do desafio que é viver com DP, e que não se pode obter por meio do conhecimento teórico e científico do fisioterapeuta que não tem a doença. O somatório de conhecimentos científicos e experiência da doença permite o desenvolvimento de todos os envolvidos no processo de aprendizado e fortalece o caminho na busca pela saúde vivida pelos indivíduos e fisioterapeutas. Essa nova forma de ver o profissional e se empoderar de sua saúde ocorre de dentro para fora nos indivíduos com DP, permitindo uma reconexão com a sua saúde, como um ato de amor consigo mesmo.

Ciente da capacidade de contribuir para o desenvolvimento da própria saúde, o indivíduo passa a ser um participante ativo dos processos tanto clínicos quanto científicos do estudo da doença. Nessa esfera, ele se torna uma referência aos outros indivíduos com DP e aos profissionais, alimentando-os a buscar esse poder em si, e tornando mais construtiva a relação entre paciente e fisioterapeuta. Dessa forma, o modelo hierárquico de cuidado com o típico discurso “confie em nós, sabemos o que é melhor para ajudá-lo” por parte da equipe profissional, não cabe mais. Pleno de suas capacidades e de sua saúde, o indivíduo passa a ser o próprio professor em parceria com o profissional, o que leva esse vínculo a outro patamar. No entanto, essa postura exige uma adaptação dos profissionais de fisioterapia, visando acolher e estimular essa nova realidade. O novo olhar para as pessoas e para a fisioterapia vem sendo abordado no mundo científico de diversas formas. A mais citada nesse âmbito é a abordagem centrada na pessoa, com protocolos de tratamento que podem ser de home-based (em domicílio) com atendimento multiprofissional por visitas domiciliares, ou abordagem com variação de períodos com ou sem supervisão pelo fisioterapeuta. Entre elas propõem-se atividades altamente individualizadas, em grupo ou até em comunidades por meio da formação de centros regionais de cuidado aos indivíduos com DP, capazes de aproximar a equipe multiprofissional da realidade daquela população e podendo até traçar guias de cuidado em parceria com os indivíduos, como idealizado por Keus e colaboradores.

Hirsch e colaboradores buscam por meio de workshops e programas de exercícios educar os indivíduos com DP a se tornarem treinadores físicos, a fim de que eles possam auxiliar e guiar outros indivíduos em seus exercícios e no autocuidado. Além disso, capazes de organizar e prescrever o seu treinamento e compartilhar esses conhecimentos, os indivíduos passam a treinar juntos, formando uma comunidade de reabilitação de pessoas com DP e guiada por eles, apenas com estímulo e fonte de conhecimento técnico-científico dos profissionais. O uso de recursos tecnológicos por meio de smartphones e internet está sendo cada vez mais empregado como ferramenta para que os indivíduos, por meio de sua iniciativa de autocuidado, conheçam e tenham maior acesso a recursos terapêuticos, como exercícios e orientações multiprofissionais. Além disso, a internet serve como um estímulo a indivíduos com DP ao empoderamento, construindo a própria rede virtual de prestadores de cuidado, apoiando o compartilhamento de informações e colaboração entre todos os participantes. Entre as plataformas mais conhecidas, está a iniciativa europeia de ParkinsonNet, que introduziu uma nova “cultura colaborativa de cuidado”, em que profissionais especializados e indivíduos envolvidos trabalham juntos para tentar obter bons resultados, com o empoderamento e autogestão na condição de componentes-chave.

No Brasil, o projeto Amparo da professora Maria Elisa Pimentel Piemonte, da Universidade de São Paulo, fornece programações de palestras online para indivíduos com DP e familiares, como estratégia de conscientização por meio do conhecimento técnico-científico, adaptado às necessidades frequentemente encontradas pelos indivíduos, fornecendo um espaço mais acessível para tirar as dúvidas. Além disso, o Brazilian Parkinson’s Disease Rehabilitation Initiative (BPARKI), coordenado pela professora Alessandra Swarowsky, da Universidade do Estado de Santa Catarina, desenvolve atividades de extensão e pesquisa no empoderamento de pessoas com DP. Nessa iniciativa, desenvolve-se um protocolo fisioterapêutico EMPOWER-PD, que visa aplicar na prática todos os conceitos de cuidado centrado no indivíduo em associação com os conhecimentos clínicos já fundamentados da fisioterapia na doença de Parkinson.

O EMPOWER-PD foi desenvolvido para: fornecer ao profissional e ao indivíduo com DP uma alternativa de intervenção fisioterapêutica com abordagem centrada no indivíduo, respeitando os princípios da qualidade do cuidado; disponibilizar ferramentas para motivar o indivíduo com DP por meio do autoconhecimento de suas capacidades e limitações; desenvolver com o indivíduo um caminho para o empoderamento de sua saúde e, assim, melhorar os sintomas motores e não motores por meio de um protocolo de mobilidade e locomoção, baseado nas preferências de cada pessoa; oferecer alternativas à fisioterapia para agir sobre o paradigma da dependência dos indivíduos e a projeção da responsabilidade de sua melhora no fisioterapeuta. Baseia-se em quatro pilares: autoconhecimento do próprio corpo; desenvolvimento de estratégias para as próprias limitações e aprimoramento de suas habilidades; flexibilização e desenvolvimento de suas capacidades; autonomia pela experiência independente de autocuidado para uma vida mais ativa.

O protocolo EMPOWER-PD é desenvolvido em oito semanas, que progridem envolvendo os quatro pilares em associação com as preferências da vida diária dos indivíduos, coletados pelo fisioterapeuta em anamnese prévia, com perguntas sobre o que lhe proporcionava alegria em suas AVD’s, quais eram os seus hobbies, as suas atividades prazerosas (dança, jardinagem, pintura, por exemplo). O exercício consiste no treinamento de marcha em solo em diferentes contextos, além de sentar-se e levantar-se, com progressões específicas para cada tarefa. Cada circuito foi montado com a cooperação entre o grupo e o profissional, por meio das percepções individuais, que progressivamente foi permitindo que o grupo se guiasse sozinho.

Outro antigo e eficaz recurso são os grupos de indivíduos com DP, que se unem para conversar sobre suas necessidades emocionais e sociais, ajudando uns aos outros a criar um ciclo de percepções pessoais de seus sentimentos e necessidades, melhorando a sua comunicação e permitindo a normalização e a aceitação dessas percepções. Williams e colaboradores relataram que os membros do “Grupo Qualidade da Vida” de Edimburgo, no Reino Unido, partilham as suas experiências sobre o que funciona para eles, compartilhando sugestões e dicas para uma vida mais fácil. Ao se sentirem mais capacitados, eles se tornam mais participativos em atividades e assumem papéis oficiais em comitês, o que lhes dá mais oportunidades para divulgar seus conhecimentos e experiências. No caso desse grupo específico, atualmente os próprios participantes se tornaram facilitadores em cursos de autogestão da DP, para aprimoramento da qualidade de vida, a fim de ajudar e educar outros indivíduos com doença de Parkinson.

O automonitoramento e autoconhecimento sobre seu corpo e seus sintomas são peças-chave para a promoção do automanejo do indivíduo com DP. Com o propósito de fornecer evidências sobre o bem estar fisiológico e psicossocial de indivíduos com DP por meio de exercícios que favoreçam a relação entre mente e corpo, Kwok e colaboradores, em sua metanálise, observaram que algumas terapias complementares, como a dança, a ioga e o tai chi chuan, abordam intervenções que buscam aprimorar essa relação. A interação entre a mente e corpo é capaz de promover autoconsciência, claridade mental, concentração e habilidade de tolerar desconfortos físicos, promovendo ganhos reais na mobilidade funcional, na estabilidade postural e nos sintomas motores de indivíduos com DP, por meio de exercícios que coordenam a mente e o corpo pela consciência durante a prática de movimentos controlados e de atenção focal.

Da mesma forma, Giardini e colaboradores escreveram qualitativamente a experiência de indivíduos com DP após um protocolo intensivo de reabilitação multidisciplinar, composto por quatro semanas de fisioterapia, três vezes por dia, cinco vezes por semana. A intervenção continha exercícios para a melhora do equilíbrio, da força muscular, da capacidade aeróbia e da flexibilidade, buscando sempre promover a autonomia das AVD’s. Além de encontrar resultados significativos em variáveis quantitativas, como as fornecidas pela escala de equilíbrio de BERG, pelo Timed Up and Go, pelo teste de caminhada de seis minutos e pela escala unificada de avaliação da DP (parte motora), o estudo ainda verificou qualitativamente que o tratamento se tornou uma fonte para o paciente se conhecer melhor.

Os dois estudos discutidos anteriormente demonstraram que é possível aprimorar o autoconhecimento do indivíduo com DP durante a prática clínica da fisioterapia por meio de exercícios que se transfiram à realidade das AVD’s e que utilizem a atenção e a consciência do corpo durante a sua realização. A atenção durante o controle do movimento é um fator importante para o desenvolvimento do aprendizado motor na DP, em decorrência de sua limitação nas etapas de automatização e retenção do movimento aprendido decorrente da neurodegeneração do estriado. A associação entre a realização de uma tarefa motora e a ativação cognitiva de atenção e percepção do corpo durante essa mesma tarefa é caracterizada como uma dupla tarefa. O aumento da demanda atencional durante a dupla tarefa, apesar de promover um maior desafio motor ao paciente, permite a hiperativação de outras áreas cerebrais (córtex pré-motor, cerebelo, lobo parietal inferior), compensando a disfunção nos gânglios da base.

A dupla tarefa vem sendo indicada cada vez mais à prática clínica em decorrência da sua proximidade com os desafios da vida diária que normalmente exigem estratégias motoras passíveis de serem praticadas durante o tratamento fisioterapêutico, desenvolvendo a confiança do indivíduo e o motivando a levar uma vida mais ativa, em razão do seu caráter desafiador próximo à realidade cotidiana do paciente. A participação do paciente no automonitoramento durante os exercícios, e até mesmo fora dele, permite o reconhecimento de suas capacidades e limitações e, a partir disso, a realização de atividades com mais segurança, tendo como base a percepção do próprio corpo. Diante de uma nova perspectiva, estudos que vêm explorando essa nova abordagem mostram resultados transformadores na qualidade de vida dos indivíduos com DP. Os protocolos de exercícios já estudados envolvem vinte e sete horas de intervenção, distribuídas em 4,5 horas de dedicação semanal, sendo duas vezes por semana de abordagem fisioterapêutica em grupo (1,5 hora cada sessão) e 1,5 hora de atividade fisioterapêutica domiciliar. Nesse estudo, os participantes receberam manuais com as rotinas de exercício para realizar em casa, e em cada sessão eram trabalhados exercícios funcionais e realizadas discussões sobre estratégias para desenvolver o autocuidado. Nesse contexto, os indivíduos eram estimulados a avaliar os seus problemas por meio da pergunta chave: “posso mudar algo sobre mim, sobre a tarefa ou sobre o ambiente para melhorar minha capacidade?”

No estudo de Eggers e colaboradores, o plano de tratamento era individual, com visitas domiciliares regulares de uma enfermeira especializada em DP (a cada três meses, ou sempre que necessário, sem aviso prévio), e auxílio de uma linha telefônica. Os planos foram revisados a cada quatro semanas e adaptados de acordo com as necessidades individuais dos pacientes. A fim de desenvolver a responsabilidade sobre o autocuidado, o Guia Europeu de Fisioterapia para a doença de Parkinson recomenda uma abordagem centrada no indivíduo, com enfoque na mudança de comportamento. Além disso, destaca requisitos necessários para a mudança de comportamento, que podem ser oferecidos pelos fisioterapeutas; entre eles, o conhecimento sobre a doença e os benefícios das intervenções, o interesse em melhorar as suas limitações, a possibilidade de o paciente se sentir competente para realizar o novo comportamento requerido (autoeficácia) e a autoestima do paciente. O desenvolvimento de uma motivação intrínseca, em que o simples fato de realizar o exercício se torna recompensador por si só, motivando o paciente e promovendo a continuação da prática de forma espontânea, é o limiar a ser atingido para a promoção do empoderamento da saúde, em que o indivíduo autogerencia a própria saúde. A autoeficácia é um fator que deve ser priorizado na prática clínica para o ganho da autonomia e pela sua alta relação com a satisfação desses pacientes.

4. CONCLUSÃO

A abordagem fisioterapêutica centrada no indivíduo surge como um implemento ao desenvolvimento profissional do fisioterapeuta, além do conhecimento dos sintomas oriundos da DP, ao tornar o seu trabalho integrado por trás da pessoa com doença de Parkinson. O foco dessa abordagem situa-se na união dos benefícios fisioterapêuticos no tratamento dos sintomas motores e não motores, já consolidados na literatura, no respeito à experiência e às preferências do indivíduo com DP, sobre as decisões clínicas e na abertura do profissional ao se colocar em igualdade com cada indivíduo que atende profissionalmente, compreendendo os agentes dessa relação como compartilhadores de experiências. A literatura cada vez mais vem trazendo alternativas para estimular essa nova realidade. Independentemente das ferramentas ou dos recursos utilizados para guiar os indivíduos com DP, visando a reconexão com a sua totalidade, seja por meio de exercícios, tecnologia ou conversa, o importante é não perder a essência da mensagem por trás das abordagens, ou seja, não se pode deixar de considerar que o indivíduo é ilimitado, e capaz de atuar em parceria com o fisioterapeuta para o próprio bem estar físico, mental e social, ou seja, para sua saúde. Na abordagem fisioterapêutica centrada no indivíduo, unem-se a experiência com a doença e com a reabilitação, como uma oportunidade para que a pessoa com DP se supere e se desenvolva cada vez mais como ser humano. Da mesma forma, o fisioterapeuta deve estar presente diante de cada indivíduo com escuta ativa e acolhendo as suas preferências e experiências com a doença e consigo.

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ARTIGO PUBLICADO EM 16/10/2025



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