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Desenvolvimento Neural e Aprendizagem Motora do Recém-nascido e sua Interferência na Evolução das Atividades Reflexas

Desenvolvimento Neural e Aprendizagem Motora do Recém-nascido e sua Interferência na Evolução das Atividades Reflexas

Desde muito cedo durante o desenvolvimento do encéfalo fetal, uma série de adaptações neurais ocorre paralelamente ao processo maturacional do sistema nervoso, caracterizadas por mudanças neuroplásticas que substanciam a evolução funcional do sistema nervoso central. Conforme descreve Silva Vernon (2001), a seqüência neuroplástica que garante ao cérebro a realização das suas inúmeras funções se deve ao fato de ser o processo migratório dos neurônios o maior responsável por esta competência.

O processo da migração neuronal e da multiplicação celular (neurogênese), como mostrado em Silva Vernon (2001), inicia-se aproximadamente na sexta semana de gestação e próximo aos noventa dias após a concepção as maiores divisões do córtex, encontram-se praticamente formadas desenvolvendo-se estruturalmente em grande velocidade até próximo ao termo da gestação.

Neurobiologistas formularam algumas teorias na década de 70 sobre o processo da migração neuronal e de que forma o mesmo ocorria. Duas das várias teorizações propostas parecem bastante razoáveis e tentam explicar por que, em determinado momento do desenvolvimento neural definido geneticamente, os neurônios tendem a se organizar em direção ao centro do córtex.

Uma das teorias, a do processo das glias radiais, descreve que tal direcionamento ocorre através de vias ramificadas sobre as quais os neurônios trafegam em uma única direção para instalarem-se na lâmina cortical mais próxima. Contudo, a segunda teoria, a da migração por afinidade química, sugere que as células são geneticamente programadas para terem afinidade com um ambiente químico, seguindo então um gradiente de atração ozônica exercida pelos neurônios já residentes nas lâminas corticais (Bannish, 1997; Silva Vernon, 2001).

Segundo Banninsh (1997), embora nenhum novo neurônio seja gerado após o nascimento, as mudanças ocorridas no cérebro são inúmeras, como por exemplo, o número de conexões entre neurônios, conhecidas como sinapses, que continuam a crescer em todas as células do sistema nervoso, com exceção daquelas com funções predeterminadas (entre elas podemos citar as células que são responsáveis pelos mecanismos de ações reflexas dos recém-nascidos). De fato o processo denominado sinaptogênese ocorre tão rapidamente, que no primeiro ano de vida, o total no número de sinapses eleva-se a mais de dez vezes, e muito provavelmente representa o início do desenvolvimento cognitivo do ser humano.

O sistema nervoso central de um recém-nascido reúne os neurônios de toda uma vida. Entretanto, confirmando a citação do parágrafo anterior, as fibras nervosas capazes de ativar todo o encéfalo precisam ser construídas e, para que isso possa acontecer, é necessário que a criança seja submetida a estímulos, exigências e desafios (Ferraz, 2000).

Como descreve Hebb (1949), descrito por Silva Vernon (2001), a representação interna de um evento de aprendizado é realizada por um grupo de neurônios simultaneamente ativados diante das informações sensoriais que este evento introduz no organismo. Várias repetições do mesmo evento fazem com que os neurônios perceptores fortifiquem a representação interna daquele estímulo específico. Diante desta teorização, e sabendo-se que em bebês recém-nascidos o encéfalo é um órgão de grande plasticidade, pode-se considerar que o processo de aprendizagem, na verdade, é o resultado das experiências vivenciadas pelas células neurais que, através da sinaptogênese, armazenam o aprendido em forma de conhecimento.

Entretanto, antes de estar realmente pronto para exercer de forma eficiente suas funções, o neurônio precisa estar efetivamente mielinizado para que possa manter a comunicação entre regiões encefálicas distintas. O processo de mielinização começa a surgir entre o quarto mês de gestação e o primeiro ano de vida, com o crescimento de um tipo especial de células da glia, os oligodendrócitos. Neste período, os sistemas motor e sensorial iniciam a mielinização que mais tarde vai envolver as conexões entre os outros sistemas integrantes das áreas corticais e subcorticais, unindo, através da velocidade de condução nervosa, diferentes regiões do cérebro. Este fato, contudo, não ocorre com o cérebro de um bebê por ser este relativamente desmielinizado.

Durante o desenvolvimento estrutural encefálico, os sistemas sensoriais do bebê evoluem, se aperfeiçoam e o aprendizado aumenta, sendo então necessário que o número de sinapses também acompanhe esta evolução. Contudo, também é necessário que, para subsidiar o processo de proliferação das sinapses, haja um maior volume de “combustível” (neurotransmissores). O consumo de glicose representa o maior contingente de energia na primeira infância, por ser o suporte para estas mudanças estruturais no sistema nervoso em formação.

Portanto, podemos concluir que os processos biológicos pelos quais evoluímos nosso pensamento, aprendizado e memória são reflexos das capacidades funcionais no sistema nervoso central em interação com a nossa ambiência de vida, além das bases hereditárias do desenvolvimento.

As mudanças na fisiologia do sistema nervoso central em desenvolvimento, tal como as modificações nas taxas metabólicas, o processo de mielinização e a sinaptogênese, são refletidas em alterações no repertório do comportamento dos bebês. O domínio motor dos recém-nascidos exibe características fixas de ações reflexas básicas, como, por exemplo: o reflexo de sucção, de moro, pontos cardeais, preensão, dentre outros, que são conhecidos como reflexos de respostas primitivas e essenciais na sobrevida do neonato (Bannich, 1997). Com a maturidade da criança, as expressões reflexas são inibidas por controles corticais de níveis mais altos, ou seja, são integrados às atividades corticais, dando lugar a ações mais programadas sob o controle do córtex e, mais tarde, da própria vontade.

O período das atividades reflexas e inatas no desenvolvimento dos recém-nascidos estende-se desde o nascimento até, aproximadamente, o final do primeiro mês de vida. As atividades deste período serão fundamentais para que o neonato possa aprender a executar voluntariamente os movimentos que antes tenham sido executados de forma reflexa. Desta forma, o bebê pode captar, perceber e reter, pela primeira vez, em seus engramas cerebrais, as sensações proprioceptivas e exteroceptivas a eles correspondentes e que, em conjunto, constituem a imagem sensorial dos movimentos, estímulo e modelo determinante à execução dos movimentos automáticos e voluntários. A partir destas atividades reflexas, o bebê aprenderá a executar todas as futuras ações próprias de um recém-nascido.

Conforme descreve Brandão (1984), em um determinado momento da evolução, os primitivos movimentos reflexos se modificam e dão origem a um novo tipo de atividade. Ao final do primeiro mês de vida, o bebê adquire um nível de amadurecimento do sistema nervoso, capaz de permitir que as sensações captadas por seus movimentos, despertem o seu interesse. Por exemplo, quando um bebê executar um movimento reflexo e ao acaso tocar com os dedos em um determinado objeto, este contato despertará sensações táteis que serão percebidas e armazenadas. O prazer proporcionado a partir da percepção da imagem sensorial e tátil fará com que a atenção da criança se concentre sobre a imagem proprioceptiva correspondente ao movimento executado, e recebida em feedback, fazendo com que permaneçam no campo perceptivo, enquanto durar o interesse. Este interesse despertado determinará que o movimento seja reproduzido, as mesmas sensações táteis serão novamente percebidas, e servirão de estímulo a sucessivas repetições do movimento. Neste ponto, o bebê passa a executar movimentos totalmente diferentes das atividades reflexas até então praticadas pela repetição. Os movimentos correspondentes serão adquiridos e consolidados.

Estabelece-se então um verdadeiro ciclo: uma ação reflexa provoca uma sensação exteroceptiva que, por sua vez, é percebida com agrado, servindo de estímulo e proporcionando a reprodução do movimento. Neste momento, a criança deixa de ter somente atitudes reflexas e ingressa no vasto universo dos movimentos voluntários.

Contudo, outras teorias sobre a função dos reflexos primitivos nos movimentos voluntários são relatadas por Pimentel (1996), após uma ampla revisão a respeito da reavaliação da função dos reflexos no desenvolvimento normal e anormal da criança.

McGraw, apud Pimentel (1996), teorizava, já em 1943, que a inibição das atitudes reflexas ocorria devido à maturação do sistema nervoso central (SNC). Baseada em suas pesquisas, acreditava que a diminuição da atividade reflexa ocorria mediante a maturação cortical e conseqüente inibição subcortical, além de entender que a exposição a diferentes ambientes e as oportunidades de execução reflexa rendiam etapas nas realizações motoras. Esta autora dividiu o comportamento reflexo em dois tipos distintos: um intencional, onde o controle deve-se a função do córtex; outro reflexivo ou “nuclear”, sobre o qual as estruturas subcorticais possuem o controle. Fiorentino (1981), assim como McGraw, postulava que os reflexos precisam ser integrados pelo controle inibitório dos centros corticais mais altos, para desenvolver uma gama mais larga de movimentos voluntários. Porém, acreditava também que as atividades reflexas serviam ao propósito de desenvolver o tônus muscular em um indivíduo. Por exemplo, o reflexo de marcha primitiva foi estudado como sendo localizado em segmentos espinhais, que desenvolve o equilíbrio entre o tônus extensor e flexor para serem capazes de adotar posturas futuras, como sentar e caminhar, pois estimula o equilíbrio do tronco.

“[…] Reflexos que não são inibidos pela maturação do sistema nervoso central interferem no desenvolvimento normal, pois interferem na integração normal entre o tônus flexor e extensor” (Fiorentino apud Pimentel, 1996, p. 23).

Persistindo nos estudos de Pimentel, há a citação de que o princípio das pesquisas de Gesell (1940) é de que o desenvolvimento se dá por meio de padrões de comportamento controlados por uma fisiologia intrínseca ao desenvolvimento e maturação do SNC, não pela exposição ambiental. De acordo com esta teoria, pode-se afirmar que o reflexo tônico cervical assimétrico (RTCA), por exemplo, surge com padrões simétricos, desencadeando uma conduta motora de unilateralidade. Deste modo o RTCA é um estágio essencial à formação de substratos neurológicos aos padrões de movimentos de lateralidade do desenvolvimento motor.

Milani-Comparetti (1981) observou o comportamento de fetos com 17 semanas de idade gestacional, com o propósito de observar o posicionamento destes. Diante destas observações, concluiu que os padrões de movimento dos recém-nascidos como, por exemplo, a reação de colocação dos pés, marcha primitiva e o movimento de arrastar, são sinais residuais do comportamento motor dos fetos, embora modificados pela ação da gravidade. Sob este ponto de vista, os reflexos primitivos ou “padrões motores primários” estão permanentemente disponíveis no repertório dos comportamentos motores, podendo ser solicitados funcionalmente ao longo do desenvolvimento. Uma vez esta função torne-se desnecessária aos padrões de movimento, poderá retroceder ou até mesmo aumentar sua intensidade, para servir a uma necessidade funcional da motricidade. Conclui-se, então, nesta pesquisa, que o desenvolvimento mostra uma progressão da fase reflexa para a fase voluntária, pois “[…] a fase reflexa serve para adquirir o sistema lançado, e a fase voluntária subseqüente é baseada em associação de reflexos anteriores” (Pimentel, 1996, p 25.).

Referencias Bibliográficas:

BANICH, Marie T. Fundamentos da Imunociência. New York: Ed. Houghton Misflin Co., 1997.

BRANDÃO, J. S. Desenvolvimento Psicomotor da Mão. Rio de Janeiro: Ed. Entrelivros, 440p, 1984.

FERRAZ, P. C. G. Correlação Entre Nível de Percepção e Identificação de Processamento Hemisférico. Dissertação de Mestrado. Apresentada À Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Como Requisito Parcial À Obtenção do Título de Mestre em Ciências do Desporto. 2000.

FIORENTINO, M. A Basis for Sensorimotor Development: Normal and Abnormal. Springfield, Illinois: Charles C. Thomas, 1981.

MILANI-COMPARETTI, A. Pattern Analysis of Normal and Abnormal Development: The Fetus, The Newborn, The Child. In: Slaton DS Chapel Hill, NC: University of North Carolina: ed. Development of Movement in Infancy.: 1-37, 1981.

PIMENTEL, E. D. The Disappearing Reflex: A Reevaluation of Its Role in Normal and Abnormal Development. Physical & Occupational Therapy in Pediatrics, Vol. 16(4), 1996.

SILVA, Vernon (Prelo). Aprendendo Futebol: uma abordagem construtivista. 2001.



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