Cuidados Paliativos na Demência: Uma Revisão Bibliográfica
INTRODUÇÃO
Envelhecer é inerente a vida. O ser humano, dentro de seu contexto social e durante sua trajetória, perpassa por diversas fases, como a infância, a adolescência, vida adulta e a terceira idade. O envelhecimento pode ser apontado como um fenômeno que demarca a existência de todos os seres vivos (BARBOSA et al., 2021). De acordo com Ribeiro (2017), levando em consideração a população mundial, estima-se que o número de pessoas chegando a terceira idade irá crescer em torno de 300% nos próximos 50 anos, passando de 606 milhões, em 2000, chegando em
torno de dois bilhões, em 2050. Para Barbosa (et al., 2021), em 2030, a população brasileira de idosos poderá exceder 40 milhões de pessoas; e em 2060 chegar a ultrapassar 60 milhões de pessoas no Brasil.
Os apontamentos desses dados levam a pensar na importância de políticas assistenciais, sistema de saúde, assistência social; além da necessidade de contextos como família com relação a qualidade de vida da pessoa idosa. Apesar de se conseguir observar que a expectativa de vida vem aumentando significativamente no
decorrer do tempo, não se pode deixar de perceber o envelhecimento e as delimitações que ele traz com relação a saúde dos sujeitos (ESCORSIM, 2021).
Sendo o cérebro o órgão responsável pelas atividades cognitivas, movimento, memória, dentre outros, o quadro de demência acarreta problemáticas quanto a vida cotidiana do sujeito, levando-o a necessitar de ajuda de terceiros. A demência corresponde a uma síndrome, no qual acarreta um processo de deterioração, de forma progressiva, quanto as funções cognitivas do sujeito. Dessa forma, memória, capacidade de raciocínio, linguagem, bem como as habilidades sociais são acometidas por essa patologia, assim, interferindo na vida cotidiana da pessoa idosa
(ESCORSIM, 2021).
De acordo com Ribeiro (2017), a demência leva o declínio de memória associada a déficit de pelo menos uma outra função ligada a cognição, como por exemplo, a linguagem, gnosias, praxias ou funções executivas. A intensidade desse quadro interfere, significativamente, no desempenho social e profissional do indivíduo. Classifica-se tal síndrome em degenerativa e não degenerativa.
Com base nessa explanação, a temática desse estudo consiste nos Cuidados Paliativos na demência. A problemática que norteia a pesquisa reside no seguinte fato: quais os principais fatores que são determinantes para melhorar a qualidade de vida do idoso portador de demência?
Como forma de se responder à questão problema, o objetivo geral da pesquisa diz respeito a investigar as problemáticas associadas à demência e a importância dos Cuidados Paliativos para melhora da qualidade de vida da pessoa idosa. Enquanto objetivos específicos, destacam-se: I. Discorrer sobre o envelhecimento e a pessoa
idosa, levando em consideração seu conceito, e os principais fatores de riscos associados a tal; II. Analisar as políticas públicas voltadas para o cuidado humanizado no quadro clínico de demência; III. Investigar como se dá os Cuidados Paliativos e qualidade de vida da pessoa idosa.
A importância desse estudo se dá pelo fato de que a demência nos idosos consiste em uma realidade. Como a demência se trata de um quadro clínico em que não se apresenta cura, torna-se necessário estabelecer formas de cuidados que possam melhorar a qualidade de vida da pessoa idosa que apresenta tal quadro. Dessa forma, tem-se as abordagens referentes aos Cuidados Paliativos. Não se trata, necessariamente, de se ofertar esses cuidados no sentido de morbidade, ou seja, como um tipo de preparação da pessoa até a morte; pois diz respeito a se
articular maneiras de cuidados que possam ajudar a pessoa idosa com algum grau de demência a conseguir ter uma vida com dignidade e os cuidados que lhe são necessários (BARBOSA et al., 2021).
MATERIAIS E MÉTODOS
O caminho metodológico percorrido durante esse estudo consistiu em traçar uma pesquisa de revisão bibliográfica, com abordagem narrativa. Entende-se que os estudos bibliográficos dizem respeito aqueles no qual o pesquisador colhe os dados por meio das produções cientificas que já foram realizadas sobre a temática que se pretende abordar (MARCONI; LAKATOS 2016).
Em outros termos, os trabalhos de revisão bibliográfica versam sobre o desenvolvimento de uma revisão de literatura, em que se apresenta a perspectiva de um conjunto de teóricos acerca de determinada temática. Dessa forma, procurando reescrever e refletir sobre os entraves que circundam certo fenômeno (MARCONI;
LAKATOS, 2016).
Logo, o primeiro momento do estudo consistiu na definição, delimitação do tema, para em seguida se chegar a uma problemática, consequentemente, traçar os objetivos que pudessem responder à questão norteadora do estudo. Nesse caso, após estabelecido essas questões iniciais, partiu-se para o levantamento de dados, em que se procurou a partir dos descritores: Demência, Envelhecimento, Cuidados Paliativos.
A coleta de material ocorreu por meio de buscadores como o Google Acadêmico, Scielo, além de banco de dados de revistas de saúde, como também de sites de universidade e instituições de ensino, em produções acadêmicas, como
artigos, monografias, trabalhos de conclusão de curso, livros, materiais que pudessem servir como base para a escrita desse trabalho.
O material coletado foi fichado e selecionado para tendo como base a relevância que apresentavam para a questão da demência e Cuidados Paliativos. Considerou-se também alguns documentos oficiais e legislativos, como determinadas portarias do Ministério da Saúde.
RESULTADOS
A Política Nacional do Idoso (2010), no Brasil, consiste em um documento legislativo, no qual se aborda os aspectos constitucionais, direitos e deveres da pessoa idosa. De acordo com esse documento, entende-se como pessoa idosa
aquela com faixa etária maior que sessenta anos (BRASIL, 2010). O Estatuto do Idoso também consiste em uma política pública que se volta para a seguridade e garantia dos direitos e deveres da pessoa idosa. Em seu artigo terceiro, parágrafo único, o Estatuto formula:
I – Atendimento preferencial imediato e individualizado junto aos órgãos públicos e privados prestadores de serviços à população;
II – Preferência na formulação e na execução de políticas sociais públicas específicas;
III – destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção ao idoso;
IV – Viabilização de formas alternativas de participação, ocupação e convívio do idoso com as demais gerações;
V – Priorização do atendimento do idoso por sua própria família, em detrimento do atendimento asilar, exceto dos que não a possuam ou careçam de condições de manutenção da própria sobrevivência;
VI – Capacitação e reciclagem dos recursos humanos nas áreas de geriatria e gerontologia e na prestação de serviços aos idosos;
VII – estabelecimento de mecanismos que favoreçam a divulgação de informações de caráter educativo sobre os aspectos biopsicossociais de envelhecimento;
VIII – garantia de acesso à rede de serviços de saúde e de assistência social locais (BRASIL, 2003, p.8-9).
O objetivo de tal legislação trata acerca de se pensar o idoso a partir do contexto social enquanto um sujeito, pontuando a necessidade de acesso aos sistemas de saúde, além do caráter ligado a questão da família e convivência com outros indivíduos. Portanto, levando em consideração aspectos como individualidade e particularidades quanto a pessoa idosa (BRASIL, 2010).
No ano de 2013, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), já apontava que pessoas com mais de 60 anos correspondia a 12,1% da população do país (IBGE, 2013). A Organização Mundial de Saúde (OMS) acredita que no ano de 2025, o Brasil poderá ser o sexto país do mundo com o maior número de idosos (OMS, 2005). A partir dessas considerações pode-se observar que a expectativa de vida vem subindo no país. Segundo Barbosa (et al., 2021), atualmente, no Brasil, a expectativa de vida corresponde a 75,7 anos; possivelmente no ano de 2030 até 2060, pode aumentar de 78,7 anos para 81,2 anos.
O processo de envelhecimento ocorre a partir de dois pontos centrais: as questões relativas ao desgaste do organismo do sujeito, no que diz respeito ao surgimento de patologias; como também no âmbito social. O envelhecimento,
portanto, acarreta determinadas limitações para o indivíduo, principalmente, com relação a aspectos ligados a saúde, qualidade de vida e contexto social (DUQUE, 2019). Então, apesar de se observar que a expectativa de vida vem aumento, também é importante considerar que:
Este aumento de longevidade na nossa sociedade coloca-nos vários desafios, uma vez que, embora hoje em dia percebamos que é essencial que o indivíduo tenha um envelhecimento bem-sucedido, saudável e ativo, a fim
de evitar algumas patologias, também sabemos que com o avançar da idade é inevitável que novas doenças possam surgir, o que se tem traduzido no desenvolvimento de dependência do idoso e consequente necessidade da
existência de um cuidador para auxiliar nas suas atividades diárias (SUQUEIRA, 2020 apud FERNANDES, 2021, p.5).
Com a chegada da terceira idade, em certos casos, a pessoa idosa é submetida a mudanças em sua vida. Por um lado, se tem a saúde, que já não é a mesma; por outro a necessidade de cuidados de terceiros. Benavente (et al., 2020), entende o envelhecimento como sendo processo que acontece de modo sucessivo, variando de pessoa para pessoa, já que é influenciado por aspectos culturais, ambientais, sociais, econômicos e biológicos. Dessa forma, pontua-se que:
Os levantamentos sociodemográficos sobre o perfil do envelhecimento no Brasil só adquirem inteligibilidade política se explicados a partir dessas relações de classe, pois é a classe trabalhadora que depende visceralmente
das políticas de trabalho e renda e das políticas de proteção social, em especial, Saúde, Previdência e Assistência Social. Desse modo, as condições objetivas e subjetivas (sociabilidades) para envelhecer estão atreladas ao
acesso a que possam ter os trabalhadores frente às políticas redistributivas, e os resultados das pesquisas demonstram o quanto o país promove ou não justiça e equidade social no sentido de diminuir as desigualdades sociais (ESCORSIM, 2021, p.430).
O envelhecimento não acontece de modo linear e homogêneo para todos os sujeitos. Isso se deve ao fato de que se faz necessário levar em consideração aspectos como o contexto sócio-histórico, político e econômico. Portanto, a forma de envelhecer da classe trabalhadora difere da classe dominante. Isso pode ser observado no acesso a sistemas de saúde, por exemplo, ou mesmo com relação ao desenvolvimento de determinados quadros patológicos que a pessoa idosa venha a desenvolver. Ressalta-se também os aspectos referentes a qualidade de vida. Em síntese, o poder aquisitivo e a situação econômica e social do sujeito são determinantes quanto ao seu contexto de envelhecer (ESCORSIM, 2021).
Ribeiro (2017), destaca que as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) são as que mais assolam as pessoas idosas; tendo sua prevalência na faixa etária de 60 anos ou mais. Dentre essas doenças, destaca-se mais a demência. “O aumento da expectativa de vida da população brasileira resultou na elevação da demência de Alzheimer (DA) (…)” (SILVA et al., 2021, p.2). Nesse cenário que se deve pensar as práticas de saúde, bem como o acesso a esse sistema para pessoa idosa, bem como refletir sobre as boas práticas voltadas para a saúde da pessoa idosa.
“As doenças crônicas não transmissíveis podem comprometer a capacidade funcional do idoso, sendo as principais causas de incapacidade e mortalidade em todo mundo” (BARROS et al., 2021). Dentre as DCNT, a OMS (2005) estabelece que as principais que afetam os idosos consistem em: doenças cardiovasculares, hipertensão, acidente vascular cerebral, doença pulmonar, demência, cegueira, doenças mentais e depressão, neoplasia, diabetes, por exemplo.
Portanto, é a partir desse contexto que se deve pensar em formas de promoção da saúde da pessoa idosa, bem como alternativas e modelos de tratamento, que mesmo não sendo incisivo quanto a cura, deve fomentar um campo para se pensar a respeito da qualidade de vida dessa população (FERNANDES, 2021).
À medida que o ser humano vai entrado no processo de envelhecimento, é natural a perda de algumas capacidades. O corpo humano vai sendo demarcado por uma série de carências, perdendo força, dentre outros pontos. O surgimento de DCNT está mais associado a pessoas idosas, nesse sentido, quadros clínicos como o de demência, por exemplo, podem se manifestar durante esse período da vida do sujeito (FERNANDES, 2021). Nesse sentido, evidencia-se que:
A terminologia demência é utilizada para designar várias patologias do cérebro que contém características similares, como a perda lenta e gradual a nível funcional e cognitivo, que levam consequentemente a uma alteração do comportamento do indivíduo. Para além disso, as demências são doenças que surgem no nosso cérebro e este é o órgão que controla tudo aquilo que fazemos, seja de forma voluntária ou involuntária, pois é quem nos comanda e nos ajuda nas tarefas simples do dia a dia (FERNANDES, 2021, p.11).
Em Carneiro (2021), as demências degenerativas correspondem aquelas que se originam, com predominância cortical, por exemplo, a Doença de Alzheimer; doença vascular, doença de Huntington, doença de Pick, doença de Parkinson, dentre outras, e subcortical. A divisão entre cortical e subcortical corresponde a localização da doença. Quanto as demências não degenerativas, destacam-se processos infecciosos, traumatismos, deficiência associada a aspectos nutricionais, tumores, por exemplo.
Tendo vista a complexidade quanto ao diagnóstico, para se conseguir confirmar um quadro clínico de demência, faz-se necessário realizar exames de sangue, tomografia, ressonância magnética, com intuito de procurar por evidências no cérebro a respeito de possíveis alterações que comprovem o diagnóstico de demência. Esses exames também servem para que se consiga identificar outros possíveis problemas de saúde que estejam associados ao quadro de demência (FERNANDES, 2021).
A manifestação da demência de pessoa para pessoa pode ser diferenciada. Incide em afirmar que a forma pela qual essa doença afeta os indivíduos vai variar e ser demarcada por particularidade em cada sujeito. Isso está associado a questões como qualidade de vida, contexto social, questões econômicas, aspectos culturais e próprio acesso aos sistemas de saúde (DUQUE, 2019).
“A demência contém vários graus que variam desde os sintomas mais leves aos mais graves. As demências distinguem-se em 7 estádios, sendo que cada estádio contém algum nível de deterioração mental/cognitivo”. Esses estágios são caracterizados pelos seguintes aspectos: Estágio 1, alterações significativas; Estágio 2, queixas relativas à memória; Estágio 3, caracterizado por déficits ligeiro da memória; Estágio 4, refere-se a uma demência ligeira; Estágio 5, demarcado por demência moderada; Estágio 6, demência grave; Estágio 7, sendo caracterizado como uma demência muito grave (FERNANDES, 2021, p.13).
A demência, portanto, corresponde a uma síndrome de etiologia diversa, mas que conduz, de modo progressivo, a um declínio da cognição e perda da capacidade funcional do sujeito, gerando um contexto de dependência no autocuidado. Sua incidência está associada a idades avançadas, sendo também acompanhada de comorbidades, além de dor e comprometimento de diversos órgãos (ABREU, 2016).
Com relação a sua incidência, no Brasil as DCNT são consideradas como epidemias que foram agravadas pelo processo de transição demográfica acelerado, que ocorreu e vem acontecendo no país. O Relatório da Associação Internacional de Alzheimer, no ano de 2015, estimou que surgia um caso de demência no mundo, a cada 3,2 segundo; com uma previsão de que no ano de 2050, acontecera um novo caso por segundo. Estima-se que em 2030 se terá um total de 65,7 milhões de pessoas com doença de Alzheimer no mundo (DALTADO; CAVALCANTI, 2021).
No Brasil já existe 1,2 milhões de pessoas com demência. O aumento do número de idosos apresenta relação com esse aumento de casos. Estima-se que o número de idosos com demência apresenta uma forte tendência a crescer, de forma considerável (DALTADO; CAVALCANTI, 2021).
A partir dessas considerações, torna-se claro a necessidade de se pensar a demência como um problema de saúde de pública, sobretudo, porque acarreta, em sua maioria, a população idosa. Nesse sentido, as formas de cuidado devem se voltar para os aspectos relacionados a qualidade de vida da pessoa idosa que apresenta o quadro de demência (DALTADO; CAVALCANTI, 2021). É importante considerar também que a demência não configura enquanto um quadro terminal; portanto, é necessário que as formas de cuidado visem uma melhoria da qualidade de vida do
idoso, levando em consideração suas limitações e o estágio de demência. Nesse sentido, em torno do quadro de demência, pontua-se:
Entende-se porque razão esta realidade se transformou num alarme global para os países. Não estão em causa apenas os gastos diretos com os cuidados de saúde. Mais do que uma síndrome, a demência é uma condição
social que se interliga com problemas demográficos, assistência social, problemas com os cuidadores familiares, com a capacidade de trabalho destes e, não menos importante, com a dignidade e Direitos Humanos (ABREU, 2016, p.6).
Levando em consideração que o acesso a saúde acontece de acordo com a classe econômica do sujeito, não seria equivocado destacar que pessoas com alto poder aquisitivo irá ter privilégios diferenciados quanto a oferta de cuidados referente a algum parente com demência. Já, a população de classes menos favorecidas terá apenas o sistema de saúde pública. Nesse sentido, a forma de lidar com esse quadro clínico também vai estar associada à fatores sociais, econômicos, culturais, ou seja, considerando o contexto do sujeito acometido por tal enfermidade (DALTADO; CAVALCANTI, 2021).
Dentro desse contexto Escorsim (2021), chama atenção para o fato de o envelhecimento ser percebido como fenômeno social, atravessado por aspectos sociais, econômicos, privilégios de classe, dentre outros marcadores. Dessa forma, o modo como se articula a acesso ao sistema de saúde vai também de encontro as condições e políticas públicas que são destinadas a classe trabalhadora. Ao se voltar, portanto, para a questão de como lidar com o paciente que apresenta o quadro clínico de demência, por exemplo, as formas de ofertar uma melhor qualidade de vida também vão de encontro as articulações no campo da saúde e políticas públicas que consigam atender a essas demandas de pacientes (ESCORSIM, 2021).
Como a demência se trata de um quadro clínico em que não se apresenta cura, torna-se necessário estabelecer formas de cuidados que possam melhorar a qualidade de vida da pessoa idosa que apresenta tal quadro. Dessa forma, tem-se as abordagens referentes aos Cuidados Paliativos. Não se trata, necessariamente, de se ofertar esses cuidados no sentido de morbidade, ou seja, como um tipo de preparação da pessoa até a morte; pois, diz respeito a se articular maneiras de cuidados que possam ajudar a pessoa idosa com algum grau de demência a conseguir ter uma vida com dignidade e os cuidados que lhe são necessários (ESCORSIM, 2021).
O conceito de Cuidados Paliativos foi sendo construído e reconstruído no decorrer do tempo. A forma de se definir esses cuidados, de acordo com a OMS em 1990, volta-se para aspectos relacionados aos cuidados em pacientes com doenças terminais. Já em 2014, a OMS reconheceu a necessidade de se pensar nos Cuidados Paliativos dentro do contexto de pacientes não terminais, mas que apresentavam quadros clínicos de doenças crônicas degenerativas. Dessa forma, compreende-se que:
Os Cuidados Paliativos são cuidados holísticos ativos, ofertados a pessoas de todas as idades que se encontram em intenso sofrimento relacionado à sua saúde, proveniente de doença severa, especialmente aquelas que estão
no final da vida. O objetivo dos Cuidados Paliativos é, portanto, melhorar a qualidade de vida dos pacientes, de suas famílias e de seus cuidadores (RADBRUCH et al., 2020, P. 12).
Portanto, consistem em cuidados relacionados a atender o sujeito dentro de um contexto holístico, considerando aspectos como sua individualidade, particularidades, dentre outros. Ressalta-se também questões ligadas ao controle da dor, bem como a oferta de cuidados com relação a qualidade de vida da pessoa. Os Cuidados Paliativos, nesse sentido, não se relacionam apenas com pessoas que se encontram demarcadas por doenças terminais, mas também se volta para sujeitos, em qualquer idade, que apresentam qualquer quadro clínico crônico, que dificuldade sua vida
(RADBRUCH et al., 2020).
Os Cuidados Paliativos acontecem em níveis biológicos, com relação aos cuidados e controles de sintomas, prevenção de outras doenças, bem como manutenção e auxilio nas atividades básicas do cotidiano; ressalta-se também os
aspectos referentes a dependência que o paciente idoso com demência vai desenvolvendo no decorrer da evolução de seu quadro (RADBRUCH et al., 2020). Assim, destaca-se:
Os Cuidados Paliativos preconizam que o atendimento ao paciente sem possibilidade terapêutica de cura deve ser pautado na escuta, na percepção, na compreensão e na identificação das necessidades para, só então, planejar
ações (CARNEIRO, 2021, p.13).
Dessa forma, a importância dos Cuidados Paliativos se configura enquanto uma forma de fornecer a pessoa idosa, com demência, cuidados em todos os aspectos de sua vida. Ou seja, no contexto assistência, deve-se observar o quadro do paciente e procurar entender quais são suas principais limitações para que se possa estabelecer um plano de tratamento. Portanto:
O plano de tratamento deve considerar o estágio demencial, a capacidade cognitiva desse paciente, a presença de comorbidades, uso de medicamentos, bem como estar em consonância com a equipe de saúde que assiste o paciente, primando pela sua qualidade de vida e primordialmente eliminando focos de infecções e situações que desencadeiam dor (BARROS et al., 2021, p.8-9). Diversas são as limitações que acometem as pessoas idosas, sobretudo, com
relação ao aparecimento das demências. Nesse contexto, os Cuidados Paliativos se voltam para se estabelecer e formular formas para lidar com o paciente. Não se trata apenas de delimitar um modelo de tratamento, mas sim de entender a situação de cada paciente e compreender os estágios da demência e os níveis de limitação
(RADBRUCH et al., 2020).
DISCUSSÃO
Como vem sendo pontuado no decorrer deste estudo, a demência e seu quadro clínico apresenta sua incidência na população idosa, que por sua vez, vem crescendo significativamente, no Brasil e no mundo. Ao se voltar para o sistema de saúde e as formas que são ofertadas para lidar com o paciente com demência, observa-se que ainda se tem a ausências de políticas públicas bem como caminhos específicos. Dentro desse contexto, pensa-se sobre a abordagem através dos Cuidados Paliativos. No entanto, a priori, é importante compreender que esses cuidados não se relacionam apenas com pacientes em fase terminal (SILVA et al., 2021).
De acordo com Carneiro (2021), os Cuidados Paliativos podem ajudar na melhora quanto ao controle de sintomas, respostas à doença, qualidade de vida do sujeito, da família, dentre outros fatores. Os Cuidados Paliativos devem ser norteados por princípios e não protocolos, isso se deve ao fato de que se faz necessário reconhecer os critérios individuais de cada sujeito e leva-los em consideração.
Ribeiro (2017), destaca que para a inclusão de pacientes com síndromes demenciais no contexto dos Cuidados Paliativos, deve-se levar em consideração aspectos como a avaliação multidimensional, dinâmica e interdisciplinar, objetivando analisar os problemas e capacidades da pessoa idosa, bem como as áreas funcionais, os aspectos psicológicos, para que se possa elaborar um plano de acompanhamento. Ressalta-se também o reconhecimento de doença crônica, critérios sócioassistenciais e forma de evolução da doença.
Entende-se que não se trata de preparar o idoso quanto a sua morte. Mas sim de procurar por formas de lidar com o paciente idoso e a demência em um contexto de qualidade de vida e prevenção de sintomas, e até mesmo determinadas patologias. É claro que a pessoa com síndromes demenciais tem sua saúde afetada, no entanto, por se tratar de uma doença crônica e degenerativa, o paciente vai necessitando de tratamento constante, não como forma de cura, mas enquanto promoção assistência de uma qualidade de vida (SILVA et al., 2021).
É preciso que se volte para o paciente e se tenha disponibilidade quanto a escuta, dessa forma, compreendendo enquanto um ser holístico, demarcado por suas dimensões. Nesse sentido, é necessário que por meio desse trabalho com a escuta, se procure diminuir os sintomas clínicos, como controle de infecções, prevenção de outras comorbidades, alivio de dor, dentre outros (SILVA et al., 2021).
Os Cuidados Paliativos dentro do contexto dos cuidados psicológicos também são pontos essenciais. Sando que as síndromes demenciais afetam o cérebro, o cuidado psicológico consiste em procurar entender os sintomas psicológicos, bem como as formas de comportamento do paciente, fornecendo terapias comportamental, estimulação multissensorial, cognitiva, atividades físicas, musicoterapia, recreação, dentre outras formas de psicoterapias que possam ajudar a atenuar os sintomas nos pacientes idosos com demência (SILVA, 2018).
No contexto dos Cuidados Paliativos, a abordagem por meio das Práticas Integrativas e Complementares (PIC), que consistem na relação entre a Medicina Tradicional, Medicina Alternativa e Complementar e a Medicina Integrativa, que podem auxiliar quanto ao diagnóstico de demências, na pessoa idosa (MARQUES et al., 2020).
Dessa forma, a oferta desses tipos de recursos deve promover uma melhor qualidade de vida para o paciente, já que funcionam como uma ampliação das abordagens de cuidado e das possibilidades terapêuticas. A homeopatia, acupuntura, antroposofia, termalismo, terapia ocupacional, musicoterapia, dentre outros, são exemplos de como uma abordagem integrativa pode propor uma série de intervenções quanto ao quadro demencial em idosos (MARQUES et al., 2020).
Marques (et al., 2020), pontua que a homeopatia, por exemplo, é descrita na literatura cientifica como recorrente com relação a pacientes idosos que apresentam quadros de depressão e síndromes demenciais. Por meio da análise de estudos randomizados, os pesquisadores pontuam que a terapia homeopática pode ser eficaz quanto a diminuir sintomas da depressão leve e moderada, além de ajudar na insuficiência cerebral e tratamento de demência. A pesquisa discute a eficácia da homeopatia e do uso de antidepressivos, como o Fluoxetina, evidenciando que a
homeopatia pode ser uma alternativa quanto ao uso de drogas antidepressivas e ansiolíticas.
Lins; Gomes (2019), aborda a importância da terapia ocupacional como forma de cuidado ao idoso com demência, além de um exemplo de PIC. “O idoso acometido por demência tem as ocupações e o desempenho ocupacional comprometido, necessitando de um cuidador e da assistência do terapeuta ocupacional” (LINS, GOMES, 2019, p.119). Nesse contexto, compreende-se que a terapia ocupacional pode ajudar no processo de significação em torno do que o idoso quer, precisa, deve fazer, seja de natureza física, mental, social, política, espiritual.
Áreas como o descanso, a educação, o lazer, participação social são progressivamente comprometidas com o avanço da demência. Nesse sentido, a terapia ocupacional pode trabalhar com a pessoa idosa a construção de uma rotina,
bem como atividades que possam ajudar quando as questões de ordem psicológicas, sociais, dentre outras (LINS, GOMES, 2019).
De acordo com Silva (2012), mediante os tratamentos farmacológicos, nota-se a necessidade de incorporar tratamentos não farmacológicos para lidar com idosos com síndromes demenciais. Nesse contexto, a prática da reminiscência, por exemplo, consiste em um tipo de terapia que busca organizar as memórias, com ênfase nos
momentos agradáveis do passado, buscando ajudar quanto a valorização e ganhos, diminuindo a minimização das perdas durante a demência. Outra forma de terapia consiste na estimulação cognitiva, que pode acontecer mediante a musicoterapia, por exemplo, assim como também na meditação.
A musicoterapia também é descrita nos estudos científicos como eficazes com relação a alivio de estresse e tensão. Entende-se também que ela funciona como calmante, podendo aliviar uma série de tensões. Ela também pode ser aplicada tanto de forma coletiva como individual; ajudando quanto ao resgate de memórias antigas, podendo ser usada para trabalhar aspectos relacionados ao corpo, alma e mente (MARQUES et al., 2020).
A realização de atividades físicas também vem sendo pontuada como relevante para o tratamento da pessoa com demência. No entanto, também se observa autores que discordam de sua eficácia (SILVA, 2012). Porém, é importante ressaltar que com a demência, a pessoa vai perdendo a capacidade quanto aos comandos do cérebro
para a realização de atividades do cotidiano, nesse sentido, as atividades físicas podem ajudar quanto minimização de perdas de movimento nos músculos, membros superiores e inferiores, além de ajudar na circulação, por exemplo.
Os cuidados medicamentosos também têm sua importância. É necessário que os profissionais de saúde, que lidam com Cuidados Paliativos, atentem para o conhecimento acerca dos medicamentos e como deverão ser utilizados pelos pacientes com doenças como o quadro de demência. A dor causa uma série de desconforto que pode ser de caráter físico, psíquico, social ou espiritual, podendo ser lesões cutâneas, odores desagradáveis, anorexia, depressão, fadiga, por exemplo. O alívio da dor e controles de sintomas deve ser um aspecto importante dentro dos Cuidados Paliativos em idosos com demência (CARNEIRO, 2021).
Outro aspecto dentro dos Cuidados Paliativos diz respeito aos cuidados sócio interacionais. “Identifica-se a necessidade de manter a socialização do paciente e seu engajamento em atividades produtivas, na tentativa de preservar e aproveitar suas reservas cognitivas para melhorar sua qualidade de vida” (CARNEIRO, 2021, p.15).
Portanto, compreende-se enquanto os cuidados relativos à vida social do paciente idoso, suas relações, as formas de psicoterapias que podem ser utilizadas, além de questões relacionadas as atividades do cotidiano que a pessoa pode ser levada a praticar, dentre outras (MARQUES et al., 2020).
Observa-se que esses cuidados convergem para se criar uma rotina levando em consideração o quadro do paciente. Portanto, caso uma pessoa idosa com síndrome demencial consiga andar, realizar determinados tipos de atividades, ela deve ser impulsionada, orientada e monitorada quanto a tal, isso se deve ao fato de se conseguir criar uma rotina para o idoso, não o limitando apenas a cama ou solidão, por exemplo (SILVA, 2012).
A pesquisa de Carneiro (et al., 2021), constatou que em idosos com síndromes demenciais, observou-se maior dependência quanto a realizar atividades como tomar banho, vestir-se, alimentar-se; além de alterações de humor e comportamento dos idosos; dificuldade em reconhecer pessoas/locais; insônia, desorientação e incapacidade em distinguir situações de perigo.
CONCLUSÃO
Dessa forma é importante ressaltar com a presente revisão que, além de se mostrar necessário mais estudos que abordem os Cuidados Paliativos com uma visão mais multidisciplinar e não restrita somente à pacientes terminais, é também fundamental formular um plano de tratamento em pacientes com demência, englobando todas as nuances dos Cuidados Paliativos, considerando assim aspectos biológicos, psicológicos, as interações sociais, o uso de medicamentos e as psicoterapias. Todos esses pontos devem se conectar para que se consiga estabelecer um acompanhamento integrativo e uma rotina pela qual a pessoa idosa com demência possa ter uma melhor qualidade de vida, dentro de suas limitações e quadro clínico.
REFERÊNCIAS
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ARTIGO PUBLICADO EM 24/10/24
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