Benefícios do Uso da Realidade Virtual nos Atendimentos da Fisioterapia dentro das UTIs
INTRODUÇÃO
A Fisioterapia é considerada uma profissão em constante crescimento, que conta atualmente com várias especialidades com o objetivo de contribuir para aliviar o sofrimento das pessoas no processo de reabilitação fisioterapêutica. A importância do fisioterapeuta no ambiente hospitalar e a eficácia das condutas da profissão em pacientes em pós-operatório e em ambientes de terapia intensiva ajudam a minimizar os efeitos nocivos de longos períodos de ventilação mecânica ou hospitalização (FURTADO et al 2020).
A unidade de terapia intensiva (UTI) é um ambiente de alto estresse para os pacientes, pois possui ruído constante, iluminação intensa, além de estressores psicológicos que podem afetar a qualidade do sono, retardar a recuperação e prolongar o tempo de internação causando prejuízos na qualidade de vida relacionada à saúde após a alta. A inatividade dos pacientes no leito de terapia intensiva pode produzir diversas manifestações, (GOMES; et al 2019) como prejuízos psicológicos, físicos e cognitivos. Além disso, distúrbios de equilíbrio e coordenação, bem como delirium devido à privação de estímulos visuais, auditivos e táteis podem ocorrer nesses pacientes. Os efeitos da imobilização são definidos como a redução da capacidade funcional dos sistemas musculoesquelético, cutâneo, respiratório, cardiovascular, gastrointestinal, urogenital e nervoso (SILVA et al., 2010).
A qualidade do sono dos pacientes de UTI costuma ser ruim, aliada à ansiedade e estresse causados pela internação, o que contribui para a rotina dos profissionais e todos os fatores que contribuem para a falta de relaxamento do paciente, dificultando-o a dormir. (CHAHRAOUI et al., 2015, MATTIUSSI et al., 2019). Os distúrbios do sono podem afetar negativamente os sistemas cardiovascular, respiratório, metabólico e imunológico e retardar a recuperação, prolongamento da internação e até problemas persistentes de sono e deterioração da qualidade de vida após a alta. (ALTMAN et al, 2017, BELTRAMI et al, 2015).
Ademais, pacientes com força muscular periférica reduzida passam mais tempo em ventilação mecânica. No entanto, esses efeitos nocivos da imobilidade podem ser revertidos ou mitigados pelas ações do fisioterapeuta. (MACHADO et al., 2017).
Estudos recentes têm explorado métodos alternativos que podem ser usados durante a fisioterapia para complementar o tratamento tradicional e fornecer níveis de atividade suficientes para reverter o estado inativo (CAMERON S, et al., 2015). O espaço complexo exige a inclusão e apropriação de tecnologias. Dessa forma, a Realidade Virtual (RV) está evoluindo como estratégia de tratamento na UTI e pode melhorar o atendimento por ser uma nova tecnologia (SOUZA et al., 2018)
METODOLOGIA
Refere-se a uma revisão de literatura narrativa a fim de abordar estudos referentes ao uso da RV como ferramenta de tratamento para indivíduos internados na UTI. A busca foi realizada nas bases de dados BVS (Biblioteca Virtual em Saúde), PubMed, PEDro e Scielo. Foram utilizados os descritores: “UTI” (ICU), “fisioterapia” (physical therapy) e “Realidade Virtual” (Virtual Reality), que foram publicados entre 2014 e 2021.
DISCUSSÃO
A RV é definida como o uso da tecnologia de computação para criar e manter um ambiente e projetar a presença física de um usuário nesse ambiente, permitindo assim sua interação com o ambiente (CIPRESSO et al., 2018). Esse tipo de tecnologia consiste na criação de um ambiente tridimensional totalmente virtual que favorece a interação do paciente por meio de estímulos visuais, táteis, auditivos e sensoriais, recriando o máximo de realidade possível
(SILVA; MARCHESE, 2015). A RV pode fornecer vários conteúdos, como jogos, música, exercícios de reabilitação, terapia cognitiva e meditação (LEE; KANG, 2020).
Seu uso é direcionado para doenças, condições e sintomas, como tratamento de dor (tanto aguda quanto crônica) para mitigar e/ou distrair de terapias invasivas, fadiga, distúrbios do sono, gestão do stress, fobias, ansiedade e depressão, reabilitação motora, entre outros (AHMADPOUR et al., 2019; LEE; KANG, 2020; VAQUERO-BLASCO et al., 2021; FELNHOFER et al., 2019; TIERI et al., 2018). Além disso, a RV pode facilitar a compreensão e aceitação da doença pelo paciente e seus familiares, bem como trabalhar aspectos motivacionais para iniciar e manter o tratamento (HSIEH, 2020), afirmação da vida e aceitação da morte como um processo natural, além da estimulação da interação social, afetividade e espiritualidade (WIJMA et al., 2018).
A RV representa uma espécie de revolução no campo da saúde que começou a partir de conceitos relacionados às formas de tratamento e cuidado, mudanças nos métodos de intervenção e treinamento em diversas especialidades como fisioterapia, psicologia, medicina, enfermagem, terapia ocupacional, educação física e outros (CIPRESSO et al., 2018).
A RV pode, portanto, apresentar-se como um portal para a imaginação, um espaço onde os pacientes podem descompactar suas próprias memórias e experiências e criar sua própria realidade com a qual foram tratados para superar o medo, trauma, o estresse e outras condições associadas à sua própria história. (BUYUK et al., 2021; FELNHOFER et al., 2019; GERARDI et al., 2010)
Após o treinamento de RV, observa-se a reorganização cortical desencadeada pela neuroplasticidade, na qual a ativação cortical é reorganizada da ativação contralesional para ipsilesional após a RV, ou seja, há uma mudança na organização cortical do membro afetado do hemisfério ipsilateral para o contralateral após a intervenção de RV. Isso provavelmente se deve ao fato de que a RV pode ter promovido a reorganização. É dependente da prática, o resultado vem do aumento do uso do membro afetado em tarefas motoras relevantes (JANG et al., 2005).
Estendendo-se também aos familiares/cuidadores e à equipa multidisciplinar, para reduzir a sobrecarga causada pelo processo de cuidar e manter a proporção e singularidade da rede de apoio do paciente, podemos demonstrar a aplicação e eficácia da RV em termos de sentimento de empatia, fortalecimento da interação social e vínculos afetivos e também no importante trabalho do luto, bem como efeitos positivos na comunicação entre paciente, família e equipe multiprofissional (NWOSU et al., 2021; WANG et al., 2020).
É uma técnica relativamente nova que se mostrou eficaz no tratamento de uma ampla gama de deficiências e tem três grandes avanços: Primeiro, representa um meio de transcender as limitações da exposição imaginária e a incapacidade de se envolver com detalhes suficientes e afetivamente para reconstruir o evento traumático. Em segundo lugar, é uma ferramenta adequada para fornecer informações ao paciente. E em terceiro lugar, pode-se realmente reconstruir os períodos de tratamento na UTI para substituir e ajustar possíveis memórias delirantes que mais contribuem para o sofrimento psicológico (TROST Z, et al., 2021; VLAKE JH, et al., 2021).
A experiência subjetiva de RV é caracterizada por sentimentos de imersão e presença. A presença refere-se ao grau em que o sujeito experimenta estar no ambiente virtual, enquanto a imersão é a quantidade de informação sensorial gerada pelo sistema de RV (HEMPHILL S, et al., 2021; GOMES TT, et al., 2020; TROST Z, et al., 2021).
Tecnologicamente, os dispositivos utilizados nos ambientes virtuais desempenham um papel importante na criação de experiências virtuais de sucesso. De acordo com a literatura, podem ser distinguidos dispositivos de entrada e saída. (TORI, E. et. al., 2020; CIPRESSO et al., 2018)
Dispositivos de entrada são os que permitem ao usuário se comunicar com o ambiente virtual, que pode ir desde um simples joystick ou teclado até uma luva que permite capturar os movimentos dos dedos ou um rastreador capaz de capturar posturas. Mais detalhadamente, teclado, mouse, trackball e joystick representam os dispositivos de entrada de desktop fáceis de usar, que permitem ao usuário lançar comandos ou movimentos contínuos e discretos para
o ambiente. Outros dispositivos de entrada podem ser representados por dispositivos de rastreamento como luvas com sensor que capturam movimentos, posturas e gestos das mãos, ou luvas de aperto que detectam os movimentos dos dedos e rastreadores capazes de seguir os movimentos do usuário no mundo físico e traduzi-los no mundo virtual ambiente. (TORI, E. et. al., 2020; CIPRESSO et al., 2018)
Pelo contrário, os dispositivos de saída permitem ao usuário ver, ouvir, cheirar ou tocar tudo o que acontece no ambiente virtual. Como mencionado acima, entre os dispositivos visuais pode-se encontrar uma ampla gama de possibilidades, desde os mais simples ou menos imersivos (monitor de um computador) até os mais imersivos como óculos ou capacetes VR ou CAVE que é um sistema imersivo de RV composto por projetores direcionados para três ou mais paredes de uma sala. (CIPRESSO et al., 2018). Além disso, dispositivos auditivos, alto-falantes e hápticos são capazes de estimular os sentidos do corpo, proporcionando uma experiência virtual mais real. (CIPRESSO et al., 2018)
Utilizando videogames e recursos tecnológicos relacionados para efeitos de tratamento, esta intervenção não substitui a fisioterapia tradicional, mas complementa-a, considerando-a uma alternativa inovadora, atrativa e motivadora que funciona através de estímulos multissensoriais. Atividades, usando um controlador para capturar os movimentos que são exibidos em uma tela. Os programas utilizados contêm sensores que detectam e identificam os
movimentos do paciente de acordo com os jogos pré-estabelecidos pelo fisioterapeuta. (LATORRE et al 2018)
O uso da gameterapia permite que os participantes desenvolvam habilidades como coordenação motora, agilidade, movimentação e descarga de peso, ajustes posturais, equilíbrio, rotação do tronco e força muscular de membros inferiores de forma lúdica e interativa, com brincadeiras e dinâmicas , sustentando a maneira com a motivação para
reduzir a apatia e o absenteísmo do paciente (DE JESUS et al. , 2018; MAGNA TS, et al.,2020). Essa tecnologia é vantajosa não só porque aborda os componentes da reabilitação diretamente envolvidos na fisiopatologia, mas também porque estimula o interesse e a motivação do paciente para a terapia e é utilizada para tratamentos não farmacológicos da dor aguda e crônica (VIEIRA GP, et al., 2014).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Uma vez definida e incorporada a RV no plano de tratamento, deve-se priorizar a centralidade do paciente, cuja orientação é dada pelo projeto terapêutico concebido e não apenas pela tecnologia, um conjunto único e genérico de experiência imersiva não adaptável a todos, exigindo flexibilidade e singularidade nos tratamentos. É importante a “dose” certa de RV para cada paciente, entendendo que alguns podem exigir mais realismo ou mais intervenções em ambiente virtual, enquanto outros podem exigir menos seções de RV ou estratégias diferentes, sem mediação computacional, tal como a mentalização.
AGRADECIMENTOS
Gostaria de agradecer às seguintes pessoas:
Aos meus pais, Alexandre e Silvia, por terem me apoiado e incentivado a crescer cada vez mais.
Ao meu marido, Carlos, que me consolou, incentivou e me apoiou para que eu tenha sucesso hoje e sempre.
Agradeço também, а toda a equipe da interfisio que nos possibilitou ter aulas com os melhores professores, nos proporcionando о conhecimento no processo de formação profissional.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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ARTIGO PUBLICADO EM 05/12/2024
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