Benefícios do Método Canguru em Recém-Nascidos Prematuros: Uma Revisão de Literatura
Introdução
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define parto prematuro com bebês nascidos vivos antes de completarem 37 semanas de gestação, relatando que é a principal causa de morte em todo o mundo para crianças com menos de cinco anos de idade, sendo os países da Ásia e da
África Subsaariana responsáveis por 81,1% dos nascimentos prematuros globalmente em 201410. O nascimento prematuro causa um impacto traumático para mãe, uma vez que, além do risco de perda, a genitora se vê diante de um bebê diferente do idealizado por ela e pelo pai8.
Em 1999 surge no Brasil a “Norma de Atenção Humanizada ao Recém-nascido de Baixo Peso – Método Canguru, com a precípua proposta de humanizar o atendimento ao recém-nascido hospitalizado de modo a atender as demandas do desenvolvimento do bebê prematuro ou de
baixo peso, sendo um modelo de atenção perinatal voltado para a atenção qualificada e humanizada que reúne estratégias de intervenção biopsicossocial favorecendo também o cuidado ao recém-nascido e à sua família9.
O Método Canguru é uma intervenção de contato pele a pele do bebê com um dos pais ou cuidador realizado na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN), melhorando a amamentação, o crescimento, o neurodesenvolvimento, apego entre os pais e o bebê, reduz
infecções, contribui na diminuição do estresse do recém-nascido e dos pais que precisam permanecer na UTIN12.
Em países desenvolvidos e em desenvolvimento vários serviços adotaram o Método Canguru, evidenciando possibilidades de adaptação da proposta em diferentes contextos na assistência neonatal; Em países desenvolvidos experimentos mostraram que a aplicação do Método
Canguru era seguro na resposta fisiológica do RN15.
Bebês submetidos ao Método Canguru tem como resposta a redução dos riscos de infecção, redução de doenças graves principalmente em relação ao aparelho respiratório 6 meses pósalta, menor tempo de internação, estabilização da temperatura corporal, redução nos episódios
de apneia e menos choro5. O contato pele a pele proporcionado pelo Método Canguru também tem como benefícios ao recém-nascido o vínculo afetivo e o alivio da dor14.
Portanto devido à relevância deste tema na comunidade científica, o objetivo desta revisão narrativa foi identificar quais as evidências literárias acerca dos benefícios do Método Canguru em recém-nascidos prematuros.
Materiais e Métodos
Delineamento Metodológico
Trata-se de um estudo de revisão bibliográfica do tipo narrativa, na qual consiste em um processo de busca, analise e descrição de um corpo do conhecimento em busca de resposta a uma pergunta13.
Identificação e seleção dos estudos
A etapa de identificação dos estudos pré-selecionados e selecionados foi realizada por uma pesquisadora independente, de modo a garantir um rigor científico. Para elaboração desse artigo foram seguidas as seguintes etapas metodológicas: pergunta condutora, seleção e obtenção de artigos, discussão dos resultados e apresentação da revisão bibliográfica.
Para seleção dos artigos foi realizado um levantamento nas seguintes bases de dados: Medical Literature Analysis and Retrieval System Online – MEDLINE via PUBMED, Literatura Latino Americana e do Caribe em Ciências da Saúde – LILACS via Biblioteca virtual em saúde – BVS e Cientific Electronic Library Online (SCIELO).
Para a busca dos artigos foram utilizadas três palavras chaves indexadas nos descritores em ciências da saúde (DeCS) e Medical subject Headings (Mesch): kangaroo method, método canguru, infant, premature, recém-nascido prematuro, prematurity, prematuridade.
Critérios de Elegibilidade
Os critérios de inclusão estabelecidos para a seleção dos artigos foram artigos publicados na língua inglesa e portuguesa, na íntegra e disponibilizados online, publicados entre os anos de 2004 a 2020, com delineamentos do tipo ensaios clínicos randomizados, pesquisa exploratóriadescritiva de delineamento qualitativo, estudo comparativo prospectivo e observacional, coorte, revisão sistemática, na qual abordasse os benefícios do método canguru em bebês prematuros e cujos objetivos contemplassem o desfecho esperado.
Foram excluídos estudos de revisão literária artigos de relato de caso, capítulos de livros, trabalhos de conclusão de cursos, opinião de especialistas, estudos de caso, estudos em animais, adultos e artigos que abordassem outro método.
Após pesquisa nas bases de dados, os artigos foram selecionados pelos títulos e resumos em seguida filtrados através da leitura da íntegra dos artigos a serem selecionados, sites confiáveis como o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS), também foram
selecionados para contribuir no presente estudo.
Resultados
Foram identificados 32 artigos, destes, após exclusão por título, resumo e por ser duplicado, foram selecionados 13 para leitura na íntegra, destes, 7 estudos se encaixaram nos critérios de elegibilidade.
Os descritores foram combinados utilizando-se o operador booleano OR e AND, conforme estratégia de busca descrita na Tabela 1.
Tabela 1- Estratégia de busca de acordo com as bases de dados
| Bases de dados | Estratégia de busca |
| MEDLINE via PubMed | Kangaroo Method and Prematurity, Kangaroo or Prematurity. |
| SCIELO | Kangaroo Method, Método Canguru, Recém-nascido prematuro. |
| LILACS via BVS | Prematurity and Kangaroo Method. |
Discussão
Coskun e Gunay contemplaram em seu ensaio clínico dividido em dois grupos sendo um grupo cuidado canguru e o outro cuidado padrão, em que as mães do grupo canguru realizavam a técnica por 15-20 minutos, uma vez ao dia, cinco dias por semana durante três semanas,
enquanto as mães do grupo cuidado padrão viram seus bebês por 15-20 minutos uma vez por dia, cinco dias por semana durante três semanas, resultando que as médias de quantidade de leite das mães do grupo canguru aumentaram em todas as semanas comparadas com as mães do grupo cuidado padrão que houve diminuição gradual da produção de leite, acreditando assim que o aumento da produção de leite deu-se pelos sentimentos maternos das mães, diminuindo seu estresse e desenvolvendo uma relação mãe-bebê proporcionado pelo método canguru².
Mota e Frota, em seu estudo avaliaram semanalmente até a alta hospitalar ou até os bebês completarem a idade corrigida de 40 semanas, 14 recém-nascidos prematuros, sendo 7 provenientes da UTI Neonatal e 7 do Método Canguru, utilizando a ficha de avaliação pelos
métodos Dubowitz e Amiel-Tison, que contemplam diferentes variáveis como um exame neurocomportamental (Dubowitz) e avaliação dos aspectos do desenvolvimento motor (Amiel- Tison), evidenciando que os bebês do método canguru apresentaram uma variação de 67% entre
tônus normal e hipertônico 33%, boa movimentação espontânea, os reflexos primitivos desses bebês foram mais presentes, na atividade sensorial notou-se uma predominância de respostas interativas, os recém-nascidos do método canguru também passaram menos tempo internados comparados aos bebês da UTI Neonatal7.
Corroborando tais achados, El- Farrash et al., realizou um ensaio clínico com 120 recémnascidos pré-termos que foram randomizados em três grupos, 40 receberam o método canguru por 60 minutos diários por sete dias consecutivos, 40 receberam o método canguru por 120 minutos diários por 7 dias consecutivos e 40 grupo controle que receberam cuidados neonatais convencionais podendo os pais segurar os bebês por 15 a 30 minutos; Os recém-nascidos dos grupos método canguru apresentaram pontuações mais altas para atenção, excitação, regulação, reflexos não ideais, qualidade dos movimentos, pontuação mais baixa para excitabilidade, letargia, e menor necessidade de manuseio em comparação ao grupo controle o que revela que o método canguru fornece estimulação sensorial e quanto maior a duração da estimulação multissensorial por meio do método canguru, mais rápida é a aceleração do processo de maturação neurológica em curso4.
Defilipo e colaboradores em um ensaio clínico submeteram 30 recém-nascidos prematuros e de baixo peso à posição canguru uma única vez por 90 minutos, onde era coletados as variáveis fisiológicas antes da aplicação do método canguru e coleta imediata após o método, sendo
utilizado o sistema de pontuação de Silverman-Anderson para avaliar o grau de conforto respiratório, frequência cardíaca (FC) e saturação periférica de oxigênio foram coletadas por meio de um oxímetro de pulso conectado a um monitor, frequência respiratória (FR) avaliada
por ausculta durante 1 minuto com estetoscópio, temperatura axilar com termômetro e o teste de Wilcoxon foi aplicado para determinar se houve mudança nas variáveis antes e depois do método canguru; A comparação das variáveis antes e após a aplicação do método canguru pelo teste de Wilcoxon mostrou redução estatisticamente significativa da FR (p=0,02) e do escore de Silverman-Anderson (p<0,01), houve estabilização da saturação periférica de O2, temperatura axilar e FC3.
Enquanto, Nimbalkar et al., através do seu ensaio randomizado controlado com 50 neonatos, que objetivou determinar o efeito do método canguru na diminuição da dor através da punção no calcanhar por ser um procedimento comum de lesão tecidual realizado rotineiramente em recém-nascidos prematuros, utilizando o Premature Infant Pain Profile (PIPP), aplicando o método durante 15 minutos antes, durante todo o procedimento e após a punção, mostrou que a pontuação média do PIPP na condição método canguru foi de 5,38 em comparação com 10,23 na condição não-método canguru, sendo estatisticamente significativo comprovando que o método canguru diminui a dor aguda em prematuros11.
O Método Canguru (MC) também ajuda na possibilidade para o aumento da segurança das mães em relação aos próprios filhos, pois há insegurança e o sentimento de medo das genitoras por considerarem os seus filhos frágeis, em razão da prematuridade e as condições clínicas, tal prática do contato pele a pele proporcionado pelo MC demonstra o fortalecimento do apego das mães com seus bebês, além do aumento de segurança tanto na própria condição materna quanto na sua capacidade de cuidar dos seus filhos, mesmo internados na UTI Neonatal¹.
A afetividade entre o bebê prematuro e os pais é importante para o fortalecimento familiar, o método canguru influencia em forma positiva na aproximação do binômio pai-filho estabelecendo um vínculo afetivo, desenvolvendo apego e fazendo com que o homem
compartilhe todos os momentos da vida de seu filho, como também os cuidados com sua companheira6.
Referências Bibliográficas
1. ABREU, M.Q.S.; DUARTE, E.D.; DITTZ, E.S.; Construção do apego entre o binômio mãe e bebê pré-termo mediado pelo posicionamento canguru. Revista de Enfermagem do Centro-Oeste Mineiro, 2020, 10/3955.
2. COSKUN, D.; GUNAY.; The effects of kangaroo care applied by Turkish mothers who have premature babies and cannot breastfeed on their stress levels and amount of milk production. Journal of Pediatric Nursing, , https://doi.org/10.1016/j.pedn.2019.09.028.
3. DEFILIPO, E.C.; et al. Kangaroo position: Immediate effects on the physiological variables of preterm and low birth weight newborns. Fisioter.Mov., Curitiba, v.30, Suppl 1, 2017.
4. EL-FARRASH, R.A.; et al. Longer duration of kangaroo care improves neurobehavioral performance and feeding in preterm infants: a randomized controlled trial. International Pediatric Research Foundation, Inc. 2019.
5. FILHO, F.L.; et al. Evaluation of the neonatal outcomes of the kangaroo mother method in Brazil. Jornal de Pediatria – Vol. 84, Nº 5, 2008.
6. JESUS, N.C.; et al. A vivência do método canguru: A percepção do pai. Rev enferm UFPE online., Recife, 9(7):8542-50, jul., 2015.
7. MOTA, L.A.; SÁ, F.E.; FROTA, M,A.; Estudo comparativo do desenvolvimento sensório-motor de recém-nascidos prematuros da unidade de terapia intensiva neonatal e do método canguru. Revista Brasileira em Promoção da Saúde, vol. 18, núm. 4, 2005, pp. 191-
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8. MOREIRA, J.O.; et al. Programa mãe-canguru e a relação mãe-bebê: Pesquisa qualitativa na rede pública de Betim. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 14, n. 3, p. 475-483, jul./set. 2009.
9. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Atenção humanizada ao recém-nascido método canguru manual técnico. 3ª edição, Brasília-DF, 2017.
10. New global estimates on preterm birth published. Disponível em: https://www.who.int/reproductivehealth/global-estimates-preterm-birth/en/ Acesso em: 10 fev. 2022.
11. NIMBALKAR, S.M.; et al. Kangaroo Mother Care in Reducing Pain in Preterm Neonates on Heel Prick. Indian J Pediatr (January 2013) 80(1):6–10.
12. PADOS, B.F.; HESS, F.; Systematic Review of the Effects of Skin-toSkin Care on Short Term Physiologic Stress Outcomes in Preterm Infants in the Neonatal Intensive Care Unit. Advances in Neonatal Care, Vol. 00, No.0, pp. 1-11.
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15. VENANCIO, S.I.; ALMEIDA, H.; Método Mãe Canguru: aplicação no Brasil, evidências científicas e impacto sobre o aleitamento materno. Jornal de Pediatria – Vol. 80, Nº5(supl), 2004.
Artigo Publicado em: 20/07/2023
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