Protocolos de Mobilização Precoce no Paciente Adulto Crítico: Revisão de Literatura
INTRODUÇÃO
Com o avanço tecnológico e da medicina, a sobrevida dos pacientes internados nas unidades de terapia intensiva tem aumentado de forma considerável. No entanto, muitos desses pacientes permanecem restritos aos leitos causando diversas consequências maléficas
principalmente com relação ao declínio funcional, redução da qualidade de vida e aumento dos custos assistenciais. (PINTO et al 2018)
Intervenções como a mobilização precoce, iniciada logo após estabilização do paciente na UTI, devem ser consideradas no processo de reabilitação dos pacientes adultos estando associada com desfechos positivos a curto e longo prazo como melhora da mobilidade, da
força muscular periférica e período de internação hospitalar. (PIVA et al 2019)
A fim de avaliar a aplicabilidade da mobilização precoce em UTI, é fundamental o uso de instrumentos que possibilitem a mensuração da capacidade do indivíduo em realizar atividades de vida diária, bem como favorecer ao profissional uma melhor conduta terapêutica. (PAULO et al 2021)
Porém, a ausência de protocolos e de conhecimento da equipe multidisciplinar, nível de sedação, disponibilidade de recursos constituem importantes barreiras para a prática de mobilização precoce dentro da unidade de terapia intensiva. Assim o objetivo deste estudo foi
descrever os protocolos de mobilização precoce em unidades de terapia intensiva adulto, analisando as atividades propostas e os recursos utilizados visando à redução de morbidades e à recuperação desses pacientes.
MÉTODOS
Trata-se de revisão de literatura realizada nas bases de dados eletrônica: LILACS e Scielo. Foram selecionados artigos indexados publicados entre o período de 2010 a 2021. Os descritores utilizados foram: mobilização precoce, unidade de terapia intensiva e paciente critico. Para este trabalho foram selecionados estudos apenas em língua portuguesa.
Artigos em outros idiomas foram excluídos, assim como trabalhos de metodologia duvidosa, que não possuíram relação direta com o tema ou que apresentam conflitos de interesse.
Foi encontrado um total de 30 artigos e foram excluídos 10 artigos por não estarem dentro do tema abordado.
O método usado como critério de exclusão, além do idioma e das palavras–chaves no momento da pesquisa, foi a análise dos resumos dos trabalhos, proporcionando um maior direcionamento do que se tratava cada um, deixando assim somente os que focavam no tema em questão que é a mobilização precoce.
Os demais artigos que foram incluídos referiram a mobilização precoce como reabilitação e benefícios para o ganho de funcionalidade e menor tempo de ventilação mecânica e de tempo de internação hospitalar.
DISCUSSÃO
O exercício terapêutico é considerado um elemento principal na assistência fisioterapêutica. A cinesioterapia com inicio precoce traz resultados favoráveis ao paciente crítico revertendo fraqueza muscular fazendo com que retorne mais rápido à funcionalidade e diminuindo o tempo de internação. (SILVA et al 2010)
Pacientes internados em UTI e ventilados mecanicamente apresentam disfunções musculares relacionados à inatividade física. O uso do cicloergômetro foi descrita como uma boa alternativa na intervenção precoce desses pacientes críticos com a finalidade de aumentar a capacidade funcional e a força do quadríceps. (COUTINHO et al 2016)
A fim de avaliar a capacidade funcional de pacientes idosos internados em UTI MELO et al 2018, aplicaram o teste de sentar e levantar cinco vezes sendo portanto uma ferramenta útil para análise do risco de queda e declínio funcional nesses pacientes. Já SILVA e SANTOS
2018, comparam a funcionalidade de pacientes pós-alta da unidade de terapia intensiva realizando o teste de caminhada de 10 metros após a alta da UTI e antes da alta hospitalar e concluíram que houve melhora da velocidade da marcha no momento da alta hospitalar.
Ao analisar o estado funcional de pacientes adultos e idosos desde o despertar ate a alta da UTI e suas associações com a força muscular, Martins GS et al 2019 observaram melhora progressiva tanto da força muscular quanto no estado funcional durante a permanência na UTI.
A utilização da mobilização precoce com objetivo de profilaxia de trombose venosa profunda possui efeitos benéficos, porém, é subutilizada em ambientes hospitalares. Assim como pacientes que permanecem por mais tempo em ventilação mecânica e com mais tempo de internação apresentam maior chance de desenvolver lesão por pressão. (VIVIANI et al 2019 e SANTOS et al 2021).
Em um ensaio experimental em centro único, foi avaliado o nível de atividade física de pacientes internados em unidades de terapia intensiva utilizando vídeo game Nintendo Wii e concluíram que o uso para reabilitação proporcionou níveis leves a moderada de atividade. (GOMES et al 2019).
MATOS et al 2016 comparou mobilização precoce entre pacientes clínicos e cirúrgicos ventilados mecanicamente em UTI não foram observadas diferenças na realização dos exercícios ativos quando comparados os dois grupos apesar de os pacientes clínicos sentarem antes . Porém o SOARES et al 2010 concluíram que quando os pacientes são retirados do leito logo após a descontinuação da ventilação mecânica apresentaram menor mortalidade.
Foram evidenciados no estudo de FONTELA 2017 que a maioria dos profissionais de saúde envolvidos no processo de mobilização precoce, tinha informações sobre os benefícios e importância, no entanto inúmeras barreiras como indisponibilidade de profissionais na equipe, tempo insuficiente, excesso de sedação, delirium, risco de auto lesão musculoesqueléticas e excesso de estresse de trabalho foram encontrados.
No estudo de CONCEIÇÃO et al 2017 em que analisou os critérios de segurança para iniciar a mobilização precoce em unidades de terapia intensiva, observou-se que os critérios cardiovasculares foram os mais citados com maior numero de variáveis. Com relação aos critérios respiratórios as variáveis relacionadas com a ventilação mecânica obtiveram maior concordância e houve maior divergência com relação aos critérios neurológicos não havendo consenso em relação a avaliação no nível de consciência dos pacientes.
De acordo com PISSOLATO e FLECK 2018 dos quatro artigos analisados em seu estudo, foram utilizados um protocolo de mobilização precoce que consistia em sentar, levantar, deambular movimentar passivamente os membros.
Em um estudo recente realizado por SILVA et al 2021, foi elaborado um Checklist segundo as principais características a serem avaliadas para o inicio da mobilização precoce incluindo uma sugestão de ações iniciais de mobilização precoce, considerado viável e de baixo custo associado a redução do tempo em UTI e de internação. O checklist evidenciou a avaliação de variáveis clínicas, fisiológicas e hemodinâmicas apresentadas pelo paciente, tais como: frequência cardíaca, pressão arterial sistólica, pressão arterial média, uso de drogas vasoativas, presença de isquemia miocárdica e arritmias, frequência respiratória, saturação periférica de oxigênio, nível de consciência, nível de sedação, doenças neurológicas e/ou musculares que impedissem realizar a mobilização, temperatura corporal, presença de fraturas ósseas, trombose venosa profunda, necessidade de hemodiálise, hemorragia ativa e necessidade de suporte ventilatório.
De acordo com as Diretrizes Brasileiras de Mobilização Precoce em Unidade de Terapia intensiva (2019), a mobilização precoce é segura, com eventos adversos relacionados principalmente com alterações hemodinâmicas e/ou respiratórias de baixa frequência e reversíveis com a interrupção da intervenção e mesmo associada à pequena incidência de efeitos adversos.
Em tempos de COVID-19 é fundamental pensarmos nos efeito deletério secundário à doença e suas consequências, principalmente em pacientes que desenvolvem condições mais graves evoluindo com a necessidade de internação em UTI visto que a imobilidade é bastante
prejudicial, a mobilização precoce nesses pacientes se faz necessária para a redução dos efeitos da doença sobre a função muscular e cardiopulmonar além da mobilidade e funcionalidade (Bonorino e Cani 2020). OLIVEIRA et al 2020 descreveram o quadro clínico de uma criança portadora de cardiopatia congênita com coronavírus positivo e atuação fisioterapêutica mostrando-se efetiva com melhora das trocas gasosas e desconforto respiratório e também na redução de declínio funcional.
Sendo assim, a mobilização precoce se mostrou eficaz em vários aspectos, tanto nos pacientes internados, quanto na pós-alta hospitalar.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os protocolos de mobilização precoce em unidades de terapia intensiva adulto são baseados em intervenções individualizadas e planejadas conforme a necessidade de cada paciente, baseando-se em uma boa avaliação física e funcional. Com o grande numero de evidencias científicas recentes, a mobilização precoce vem ganhando um grande espaço em ambientes hospitalares principalmente em Unidades de Terapia Intensiva e tem se mostrado muito eficiente na melhora clínica e funcional desses pacientes. Porém, são necessários mais estudos com protocolos de intervenção padronizada.
REFERÊNCIAS
1. PINTO, BF; PINTO, BF; DIAS, EHF– Efeitos Sistêmicos da mobilização precoce em pacientes adultos internados na unidade de terapia intensiva: revisão atualizada-Fisioterapia Brasil 2018;19(6):857-865. https://doi.org/10.33233/fb.v19i6.2118
2. PIVA, TC; FERRARI, RS; SCHAAN, CW. Protocolos de mobilização precoce no paciente crítico pediátrico: revisão Sistemática. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, 2019;31(2):248-257.
3. PAULO, FVS. et al. Mobilização precoce a prática do fisioterapeuta intensivista: intervenções e barreiras. Rev. Pesqui. Fisioter., Salvador,2021 Maio, 11(2): 298-306 http://dx.doi.org/10.17267/2238-2704rpf.v11i2-3586 ISSN: 2238-2704
4. SILVA, APP; MAYNARD, K; CRUZ, MR. Efeitos da fisioterapia motora em pacientes críticos: revisão de literatura. Revista Brasileira Terapia Intensiva, 2010; 22(1): 85-91.
5. COUTINHO, WM. et al. Efeito agudo da utilização do cicloergômetro durante atendimento fisioterapêutico em pacientes críticos ventilados mecanicamente. Fisioterapia e Pesquisa. 2016;23(3):278-83.
6. MELO, TA. et al. Teste de sentar – levantar cinco vezes: segurança e confiabilidade em pacientes idosos na alta da unidade de terapia intensiva. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, 2019;31(1):27-33.
7. SILVA, PB; SANTOS, LJ. Funcionalidade e velocidade da caminhada de pacientes após alta da unidade de terapia intensiva. Revista Brasileira de Terapia Intensiva , 2019;31(4):529-535.
8. MARTINS, GS. et al. Análise do estado funcional e força muscular de adultos e idosos em Unidade de Terapia Intensiva: Coorte prospectiva. Ciência e Saúde Coletiva, 2021;26(7):2899-2910.
9. VIVIANI, AG. et al. Aplicabilidade da mobilização precoce na prevenção de trombose venosa profunda em ambiente hospitalat: uma revisão sistemática. Rev Pesqui Fisioter, 2019;9(3):421-428. Doi: 10.17267/2238-2704rpf.v9i3.2448
10. SANTOS, SJ. et al. Ocorrencia de lesão por pressão em pacientes internados em unidade de terapia intensiva. Revista Mineira de Enfermagem, 2021;25:e-1367.
11. GOMES, TG; SCHUJIMANN, DS; FU, C. Reabilitação com uso de realidade virtual: atividade física para pacientes admitidos na unidade de terapia intensiva. Rev Bras Ter Intensiva, 2019;31(4):456-463.
12. MATOS, C A. et al. Existe diferença na mobilização precoce entre pacientes clínicos e cirúrgicos ventilados mecanicamente em UTI? Fisioterapia e Pesquisa, 2016; 23(2): 124-8.
13. SOARES, TR. et al. Retirada do leito após a descontinuação da ventilação mecânica: há repercussão na mortalidade e no tempo de permanência na unidade de terapia intensiva? Revista Brasileira de Terapia Intensiva, 2010;22(1):27-32.
14. FONTELA, PC; FORGIARINI Jr, LA; FRIEDMAN, G. Atitudes clínicas e barreiras percebidas para a mobilização precoce de pacientes graves em unidades de terapia intensiva adulto. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, 2018;30(2):187-194.
15. CONCEIÇÃO, TMA. et al. Critérios de segurança para iniciar a mobilização precoce em unidades de terapia intensiva: revisão sistemática. Rev Bras Ter Intensiva, 2017;29(4):509-519.
16. PISSOLATO, JS; FLECK, CS. Mobilização precoce na unidade de terapia intensiva adulta. Fisioterapia Brasil, 2018;19(3):377-384.
17. SILVA, RLA; FELIX, LM; MORAES, FR. Checklist de mobilização precoce: construção de uma ferramenta para facilitar sua aplicação nas unidades de terapia intensiva. Conscientiae Saúde, 2021 jan./dez;20:1-15,e19500.
18. AQUIM, EE. et al. Diretrizes Brasileiras de Mobilização Precoce em unidade de terapia intensiva. Rev Bras Ter Intensiva, 2019;31(4):434-443.
19. BONORINO, KC; CANI, KC. Mobilização precoce em tempos de COVID-19. Rev Bras Ter Intensiva,2020; 32(4):484-486.
20. OLIVEIRA, JS; VEIGA, IS; MOTA, CS. Intervenção Fisioterapêutica em uma criança com coronavírus em um hospital de referencia: relato de caso. Rev. Pesqui.Fisioter. Salvador, 2021 Fevereiro;11(1):227-232.
Artigo Publicado em: 27/07/2023
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