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Avaliação da Função Sexual de Gestantes Praticantes de Exercício Físico

Avaliação da Função Sexual de Gestantes Praticantes de Exercício Físico

A gestação é um período ímpar do ciclo vital da família que provoca adaptações no ajustamento conjugal e no ato sexual, gerando alterações na frequência e na afetividade do casal. A gravidez acarreta mudanças físicas e psicológicas em conjunto com fatores sociais, religiosos e culturais que podem acarretar em influências na atividade sexual do casal.1-5

Existem possíveis fatores que estejam relacionados com uma modificação na função sexual das gestantes, como por exemplo: a idade gestacional, paridade, IMC, idade maternal e incontinência urinária, porém a literatura aponta que esses fatores são insignificantes e contraditórios.6

A saúde sexual segundo a OMS engloba o estado físico, mental, emocional e o bem-estar em todos os comportamentos sexuais e suas crenças.7 A saúde sexual não é meramente a ausência de doença, mas é um sentido equilibrado e global da percepção sexual de cada indivíduo. Atualmente o conhecimento sobre a função sexual feminina mostra-se como um processo multifatorial na qual a gestação é particularmente um período sensível que deve se ter uma maior atenção.8

Os estudos também mostram que a manutenção da prática regular de exercícios físicos ou esportes apresenta fatores protetores sobre a saúde mental e emocional da mulher durante e depois da gravidez.9 Além disso, existem dados sugestivos de que a prática de exercício físico durante a gravidez exerce proteção contra a depressão puerperal.10

Portanto, na vida da mulher, a transição para a parentalidade é um momento delicado, de maior vulnerabilidade para o início ou agravamento de dificuldades sexuais preexistentes ou emergentes. Na gestação, parece existir uma mudança da atividade sexual associada aos fatores físicos e psicológicos, assim, é necessária uma orientação direcionada para esse aspecto da vida, durante a consulta pré-natal. Portanto, o presente estudo tem como objetivo avaliar a função sexual de gestantes praticantes de exercício físico.

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo observacional do tipo corte transversal conduzido na cidade de Salvador. A amostra será feita em espaços de exercícios especializados no período gestacional.

Serão incluídas as gestantes que tenha tido atividade sexual nas quatro últimas semana e excluídas as gestantes que estejam com contraindicação médica para atividade sexual.

As mulheres serão convidadas pelas pesquisadoras a participarem da pesquisa. As que manifestaram interesse serão encaminhadas para o preenchimento dos questionários autoaplicáveis em um local reservado ou a domicílio.

A função sexual na gestação será avaliada pelo FSFI que é um instrumento específico para avaliar a resposta sexual feminina nas últimas quatro semanas com os domínios – desejo, excitação sexual, lubrificação vaginal, orgasmo, satisfação sexual e dor. Este questionário já foi traduzido, validado e adaptado para o Brasil.11 Para cada pergunta há um padrão de resposta, cujas opções recebem uma pontuação de zero a cinco de forma crescente em relação à pergunta feita, exceto as questões referentes à dor, que a pontuação é definida de forma invertida. Com o escore total variando entre dois a 36 pontos, sendo que escores ≤ 26 indicam disfunção sexual.

O cálculo amostral foi feito a partir da calculadora WinPepi, utilizando como base o artigo de Leite APL, que avaliou função sexual em mulheres grávidas, no qual foi considerado uma estimativa de média, utilizando um desvio padrão de 6, uma diferença aceitável de 2, e um nível de confiança de 95% portanto, serão necessárias 38 mulheres grávidas.

RESULTADOS

A amostra foi composta por 29 gestantes, com uma idade média de 31,3± 3,1 anos e com um tempo de gestação de 6,4±1,7 meses. A maioria das gestantes possuía ensino superior completo 25 (92,6%), praticantes de atividade física 28 (96,6%) e são casadas 21 (95,5). Nenhuma gestante apresentou doença na gestação. (Tabela 1)

Tabela 1. Características sociodemográficas das gestantes

Variáveis Média±DP
Idade 31,3 ± 3,1
Tempo de gestação 6,4±1,7
Escolaridade n (%)
Superior Completo 25 (92,6)
Superior incompleto 01 (3,4)
Médio completo 01 (3,4)
Estado Civil
Casada 21 (95,5)
União estável 01 (4,5)
Prática de atividade física
Sim 28 (96,6)
Não 01 (3,4)
Tipo de atividade física
Hidroginástica e Pilates 14 (51,9)
Musculação, hidroginástica e Pilates 06 (22,2)
Yoga, Hidroginástica e Pilates 02 (7,4)
Academia, Bike, Yoga, Hidroginástica e Pilates 01 (3,7)
Dança,Pilates e hidroginástica 01 (3,7)
Pilates e natação 01 (3,7)
Apenas hidroginástica 01 (3,7)
Não pratica atividade física 01 (3,7)
Doença pregressa
Não 25 (86,2)
Sim 04 (13,8)
Doença gestacional
Não 29 (100,0)

Quanto a frequência de atividade física semanal, 19 (67,9%) mulheres realizavam a atividade física por duas vezes na semana e 6 (21,4%) realizavam por quatro vezes na semana. E quanto a duração da atividade, 10 (43,5%) das mulheres relataram realizar 1 hora e 30 min por dia de atividade física, 8 (34,8%) mencionaram 1 hora de atividade física por dia. A maioria das gestantes do presente estudo está na primeira gestação 23(79,3%) e 26 (89,7%) relataram ter a gestação atual de forma planejada.

Tabela 2. Características das gestantes quanto ao histórico gestacional

Número de gestações n (%)
Primeira gestação 23 (79,3)
Segunda gestação 05 (17,2)
Terceira gestação 01 (3,4)
Número de partos
Nenhum parto 28 (96,6)
2 partos 01 (3,4)
Número de abortos
Nenhum aborto 22 (75,9)
Um aborto 06 (20,7)
Dois abortos 01 (3,4)
Gravidez planejada
Sim 26 (89,7)

Na função sexual, a média do escore geral foi de 24,2±9,34, o que expressa uma média que corresponde a presença de disfunção sexual, e os domínios que apresentaram um menor escore foram os domínios desejo 3,1±1,1 e a excitação 3,7±1,7.

Tabela 3. Descrição da função sexual das gestantes

Escores do FSFI m±DP
Desejo 3,1±1,1
Excitação 3,7±1,7
Lubrificação 4,3±1,8
Satisfação 4,4±1,9
Dor 4,6±1,8
Orgasmo 4,2±1,8
Total 24,2±9,34
Disfunção Sexual n(%)* 9(32,3%)
*escore menor que 26

Na comparação entre ter ou não disfunção sexual com o tempo de gestação não houve diferença significativa, sendo a média do tempo de gestação do grupo de disfunção sexual de 6,8±2,1 e a média do grupo sem disfunção sexual de 6,3±1,6( p=0,541).

Na tabela 4, foi demonstrado a correlação entre o escore FSFI e seus domínios com o tempo de gestação das gestantes no qual o escore total do FSFI demonstrou uma correlação negativa moderada de -0,393 com o tempo de gestação (p=0,047) bem como correlação moderadas e negativas com o domínio Dor -0,526 (p=0,006) e lubrificação -0,385 (p=0,050).

Tabela 4 Correlação entre o tempo de gestação e o escore FSFI e seus domínios

Escores do FSFI R p-value
Desejovs tempo de gestação -0,190 0,354
Excitaçãovs tempo de gestação -0,302 0,133
Lubrificaçãovs tempo de gestação -0,385 0,050
Satisfaçãovs tempo de gestação -0,359 0,072
Dorvs tempo de gestação -0,526 0,006
Orgasmovs tempo de gestação -0,298 0,139
Totalvs tempo de gestação -0,393 0,047
*correlação de pearson


DISCUSSÃO

A discussão sobre sexualidade e como lidar com ela ainda é uma questão difícil12 .

Para identificar disfunção sexual, devem ser aplicadas e adaptadas diretrizes apropriadas.

Inúmeros instrumentos têm sido desenvolvidos para facilitar a coleta e a avaliação da história sexual13 . Dentre os questionários específicos para avaliar a função sexual feminina, destaca-se o FSFI, que tem apresentado validade estatística aceitável na literatura14.

Na  literatura,  encontramos  que  a  maioria  das  mulheres  gestantes  apresenta  uma diminuição  do  desejo  sexual,  da  excitação  e  do  orgasmo15.  Já  no  presente  estudo  foi encontrado o escore FSFI e seus domínios com o tempo de gestação  no qual o escore total do FSFI demonstrou uma correlação negativa moderada com o tempo de gestação bem como correlação moderadas e negativas com o domínio dor e lubrificação.

Essas mudanças na resposta sexual durante a gravidez não se justificam pelas alterações somáticas decorrentes do estado gestacional. A maioria dos autores encontrou uma diminuição do interesse sexual no primeiro e terceiro trimestres da gravidez, com uma melhora no segundo, alcançando, algumas vezes, os padrões pré-gravídicos15. Outros autores encontraram um decréscimo progressivo do interesse sexual durante toda a gravidez 16,17. No presente estudo não houve diferença significativa entre ter ou não disfunção sexual com o tempo de gestação.

O desejo sexual e o prazer é algo que irá depender da interação do casal e a influência negativa da sexualidade nos diferentes ciclos gestacionais é notória e não deve ser negligenciada. Apenas o fato de tomar conhecimento da gestação, ainda nas primeiras semanas, parece afetar a sexualidade feminina. Sendo comum, a maioria das gestantes, a presença da disfunção sexual. Nesse período a mulher tende a ficar emocionalmente instável e mais ávida por carinho, apoio e compreensão18.

A importância da saúde sexual para a qualidade de vida tem sido cada vez mais reconhecida nos últimos anos 19. A disfunção sexual pode ter maior impacto sobre a qualidade de vida da mulher, visto que a diminuição da função sexual pode determinar efeitos danosos sobre sua auto-estima e seus relacionamentos interpessoais, com freqüente desgaste emocional 20.

Outros estudos mostram que 80 a 100% dos casais permanecem sexualmente ativos durante a gestação, e que existe a necessidade de os profissionais de saúde da assistência pré-natal fornecerem informações a respeito das modificações que os casais poderão esperar e as possíveis conseqüências prejudiciais ao relacionamento sexual neste período 21,22.

Os estudos também mostram que a manutenção da prática regular de exercícios físicos ou esporte apresenta fatores protetores sobre a saúde mental e emocional da mulher, durante e depois da gravidez 23. Porém, nos resultados encontrados acima, todas as gestantes praticavam atividade física e a maioria apresentou disfunção sexual , exceto uma gestante que não praticava atividade física.

Sendo assim, conclui-se que existe uma disfunção sexual segundo resultados apresentados no presente estudo e que a vida sexual na gestação, apesar de apresentar algumas modificações nos três trimestres, ainda assim pode ser saudável e prazerosa, devendo ser um assunto mais esclarecido nas consultas de pré-natal.

Além disso, o método de convite adotado para participação da pesquisa, talvez tenha sido o motivo de não se ter obtido uma amostra maior na presente pesquisa, pois as gestantes recebiam os questionários que era autoaplicáveis e algumas respodiam na hora e outras levavam para responder á domicilio.

REFERÊNCIAS

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