Digite sua palavra-chave

post

A Mobilização Precoce, Suas Barreiras e Estratégias em Unidades de Terapia Intensiva: Uma Revisão de Literatura

A Mobilização Precoce, Suas Barreiras e Estratégias em Unidades de Terapia Intensiva: Uma Revisão de Literatura

As UTI’s geralmente apresentam pacientes restritos ao leito devido à seus quadros clínicos agudizados e instabilidade hemodinâmica, ocasionando uma diminuição de funcionalidade consequente de uma redução de mobilidade 1,2,3,4. É notável um crescente número de internações em UTI’s bem como o avanço cientifico e tecnológico da assistência à saúde direcionada ao suporte avançado de vida, acarretando uma maior taxa de sobrevivência desses pacientes 4,5,6,7.

Uma desordem muito comum em pacientes críticos é a fraqueza muscular adquirida na UTI, caracterizada por um quadro de fraquezasem uma etiologia específica além da própria condição crítica que fazem esses pacientes permanecerem imobilizados durante alguns dias, assim como outros fatores ligados ao doente crítico como inflamação e fármacos. Tal condição acaba por contribuir para o aumento de tempo de internação e pior qualidade de vida 8,9,10.

Nos últimos anos, a mobilização precoce tornou-se a base para uma melhor recuperação do paciente critico, por ser uma intervenção segura, viável e de baixo custo, promovendo uma melhora na funcionalidade e qualidade de vida, bem como reduzindo o tempo de internação, readmissões hospitalares e mortalidade5,11,12, 13, 14.

A mobilização precoce inclui níveis de atividades progressivos como: cinesioterapia no leito, sedestação à beira leito, transferência para poltrona, ortostatismo e deambulação1,2,3,4,11.  Essas atividades trazem benefícios inquestionáveis na reabilitação do paciente, porém faz-se necessário a implementação de uma cultura de boa comunicação e colaboração multidisciplinar para estabelecer um protocolo de mobilização precoce eficaz5,14.

Existem barreiras modificáveis para mobilização precoce, entendê-las e criar estratégias para vencê-las é de extrema importância para a implementação dessa realidade como rotina na prática clínica. As práticas em uso devem ser revistas identificando as principais dificuldades da equipe multidisciplinar para uma maior interação com o paciente buscando uma maior participação no seu processo de reabilitação 7,15.

As principais barreiras encontradas para a realização de uma mobilização precoce, podem estar relacionadas a condição clinica do paciente, a estruturação técnica e humana, a cultura da unidade, e ao processo em si.  As contraindicações para a mobilização são consideradas barreiras não modificáveis, como por exemplo, hemorragias ativas, sendo de extrema importância a diferenciação de cada barreira para uma intervenção eficaz e segura 15.

Diante do exposto, este estudo tem como objetivo, identificar e descrever as principais barreiras e estratégias encontradas para a realização de uma mobilização precoce efetiva e segura.

Metodologia

Este estudo trata-se de uma revisão de literatura desenvolvida por meio de artigos publicados a partir do ano de 2010 e obtidos das seguintes bases de dados eletrônicas MEDLINE, PUBMED, SCIELO e LILACS, utilizando os descritores Mobilização Precoce, Fisioterapia em UTI, Barreiras para Mobilização Precoce, e suas similares em inglês e espanhol usadas isoladamente ou em combinação.

Foram incluídos artigos que abordassem a aplicação e/ou barreiras para mobilização precoce em unidades de terapia intensiva e excluídos da tabulação artigos de revisão, de relato de casos e estudos em pediatria.

Resultados e Discussões

A análise dos artigos submetidos aos critérios de inclusão e exclusão resultou em um total de 07 estudos expostos na Tabela 1 (em anexo), com os seguintes tópicos para posterior discussão: título do artigo, autores, tipo de estudo, amostra, avaliadores e resultados.

As barreiras encontradas nos artigos tabulados foram divididas em dois grupos: Barreiras relacionadas ao profissional/equipe que incluem a cultura da UTI, o staff limitado, a falta de protocolos e treinamento da equipe e o tempo necessário para a mobilização; e Barreiras relacionadas ao paciente que são compostas por dispositivos conectados, condições clínicas (instabilidade hemodinâmica e neurológica), segurança e sedação.

Dos 07 estudos destacados, 04 (57%) se enquadram no grupo de barreiras relacionadas ao profissional/equipe, 02 (29%) no grupo de barreiras relacionadas ao paciente e apenas 01 (14%) não se encaixa em nenhum dos grupos, destacando os benefícios da mobilização precoce.

Jolley et al (2014)16 realizaram um estudo envolvendo médicos, enfermeiros e fisioterapeutas, que por meio de um questionário destacaram como uma das principais barreiras o tempo necessário para realizar a mobilização, indo de encontro com o estudo de Harris e Shahid (2014)12 que também apontaram o tempo como uma das principais barreiras, já Hoyer et al (2015)17 mostram divergência quanto ao tempo ser uma barreira, no estudo os fisioterapeutas discordaram dos enfermeiros quanto a não ter tempo para mobilizar seus pacientes durante o plantão do dia. Em todos os estudos pode-se observar que todas as classes que compõem a equipe multidisciplinar sabem a real importância da mobilização precoce para o tratamento do paciente crítico.

O Staff limitado é outra barreira relacionada ao profissional/equipe que continua sendo frequentemente citada nos estudos mais atuais, um exemplo disso é o estudo de Malone et al (2015)14, que dentre outras barreiras destacou essa limitação como a mais importante em um dos hospitais observados durante o estudo.

Esse artigo comparou os serviços de fisioterapia entre um hospital universitário e um comunitário, onde nota-se uma diferenciação na importância e na atuação do fisioterapeuta ao paciente crítico, observando assim uma barreira cultural. Os fisioterapeutas que atuavam em hospitais universitários acreditavam estarem mais aptos a se envolverem com o tratamento de pacientes críticos e a desenvolverem uma conduta com alta intensidade de mobilização14.

Além das barreiras relacionadas a equipe e aos profissionais em si, observou-se que nos estudos tabulados as barreiras relacionadas ao paciente obtiveram grande relevância no desenvolvimento de protocolos de mobilização precoce.

A sedação aparece como uma barreira frequente, pois ela limita a participação ativa do paciente e retarda a progressão dos níveis de atividade. O estudo de Harrold et al (2015) comparou 10 UTI’s da Austrália com 09 UTI’s da Escócia, em ambos os países a sedação foi a barreira mais comum, sendo destacado também a instabilidade hemodinâmica e/ou neurológica como uma barreira frequente.18

Harrold et al (2015) também aborda a presença de dispositivos conectados ao paciente, em especial o tubo orotraqueal e a ventilação mecânica em si, como uma barreira, porem sua prevalência foi diferente entre os países, o tubo orotraqueal foi uma barreira maior na Austrália, e a mobilização nessa condição foi significantemente maior na Escócia.18

Esse estudo, em sua conclusão, afirma que apesar das taxas de mobilização em pacientes com dispositivos conectados serem baixas, existem evidências mostrando que mobilizar esses pacientes é uma prática segura e que não inviabiliza a progressão de atividades, corroborando com o estudo de Perme et al (2013) que evidenciou a segurança e a viabilidade da mobilização precoce em pacientes com cateteres femorais, por meio de uma grande número de sessões realizadas com atividades como sedestação, ortostatismo e deambulação18,19.

A mobilização precoce é um importante componente no cuidado de pacientes críticos, pois proporciona melhora na função pulmonar e muscular, principalmente nos pacientes submetidos a ventilação mecânica prolongada, indo de acordo com o estudo de Dantas et al (2012) que avalia a força muscular periférica, e força muscular respiratória em dois grupos de pacientes em ventilação mecânica, um submetido a fisioterapia convencional e o outro a um protocolo de mobilização precoce, cujo resultado mostrou melhora significativa da pressão inspiratória máxima e da força muscular periférica no grupo de mobilização precoce3.

Tendo em vista a importância da mobilização precoce na reabilitação dos pacientes críticos, faz-se necessária a criação de estratégias para transpor as barreiras encontradas. Diversos estudos elucidam a formação de um time multidisciplinar envolvido com o protocolo de mobilização e com uma mudança na cultura de mobilidade para sobrepor as barreiras relacionadas ao profissional e a equipe, outras estratégias destacadas são: aumento do Staff, aquisição de equipamentos melhores e mais modernos, facilitação burocrática através de prontuários e a simplificação dos guidelines 12,14,16, 17.

As estratégias para ultrapassar as barreiras relacionadas ao paciente envolvem um melhor manejo da sedação, dor e delirium para a realização das atividades; implementação de uma educação continuada com o objetivo de enfatizar que a mobilização precoce já se mostrou segura, eficaz e viável por diversos estudos e a conscientização do paciente quanto a importância da reabilitação 12, 17,18.

Conclusão

A partir dos dados encontrados nessa revisão, conclui-se que programas de mobilização precoce melhoram o desempenho funcional do paciente de forma segura, viável e eficaz. Existem muitas barreiras no ambiente de terapia intensiva e é necessário desenvolver novos estudos e criar mais estratégias para sua superação, oferecendo assim, o melhor tratamento para os pacientes críticos.

 Referências Bibliográficas

1- Albuquerque IM, Carvalho MTX, Machado AS, Soares JC. Impacto da mobilização precoce em pacientes de terapia intensiva. Salud(i)ciencia, 2015; 21: 403-08.

2- Brito MCS, Silva LW, Ribeiro E. Mobilização precoce em pacientes adultos submetidos à ventilação mecânica (VM) na unidade de terapia intensiva (UTI). Rev. Eletrôn. Atualiza saúde, v.2, Salvador: n.2 jul/dez; 2015.

3- Danta CM, Silva PFS, Siqueira FHT, Pinto RMF, Matias S, Maciel, et al. Influência da mobilização precoce na força muscular periférica e respiratória em pacientes críticos. RevBras Ter intensiva, 2012; 24 (2): 173-79

4- Feitoza CL, Jesus PKS, Novais RO, Gardenghi G. Eficácia da fisioterapia motora em unidade de terapia intensiva, com ênfase na mobilização precoce. Rev Eletôn Saúde e Ciência, 2014; IV (1): 19-27.

5- Murakami FM, Yamaguti WP, Onoue MA, Mendes JM, Pedrosa RS, Maida AL, et al. Evolução funcional de pacientes graves submetidos a um protocolo de reabilitação precoce. Rev Bras Ter Intensiva,2015; 27(2): 161-69

6-Silva VS, Pinto JG, Martinez BP; Camelier FWR.  Mobilização na unidade de terapia intensiva: revisão sistemática. Fisio Ter Pesq, 2014; 21(4): 398-404

7- Azevedo PMDS, Gomes BP. Efeitos da mobilização precoce na reabilitação funcional em doentes críticos: uma revisão sistemática. Rev Enferm Ref, 2015; Série IV (5): 129-38.

8- Lukue A, Gimenes AC, Reabilitação precoce em terapia intensiva. Pneumol Paulista, 2013; 27 (1) 44-48.

9- Hodgson CL, Berlney S, Harrold M, Saxena M, Bellomo R. Clinical review: early patiente mobilization in the ICU. Critical Care, 2013; 17: 207.

10- Parry SM, Puthucheary ZA. The impacto fextendedbedreston the musculoskeletal system in the critical care environment. Extrem Physiol Med, 2015; 4: 16.

11- Badaró RR, Júnior JAS.  Parâmetros para mobilização precoce do paciente crítico.  2012. Disponível em: www.ibrati.org

12- Harris CL, Shahid S. Physical therapy driven quality improvement to promote early mobility in the intensive care unit. Bayluniv med cent, 2014; 27 (3): 203-07.

13- Damluji A, Zanni JM, Mantheiy E, Colantuoni E, KoME, Needham DM. Safety and feasibility of femoral catheter sduring physical rehabilitation in the intensive care unit. Jour Critical Care, 2013; 28: 535. E9 – 535. E15.

14-Malone D, Ridegeway K, Nordon-Craft A, Moss P, Schenkman M, Moss M. Physical Therapist Practice in the Intensive Care Unit: Results of a National Survey. Phys Ther, 2015; 95 (10): 1335-44.

15- Dubb R, Nydahl P, Herms C, Schwabbauer N, Toonstra A, Parker AM, et al. Barriers and Strategies for Early Mobilization of  Patients in Intensive Care Units. Annalsats, 2016.

16- Jolley SE, Regan-baggs J, Dickson RP, Hough CL. Medical intensive care unitclinician atitudes and perceived barriers to wards early mobilization of critically Ill patients : a cross-sectional survey study. BMC anesthesiology, 2014; 14 (84) : 2-9.

17-Hoyer EH, Protman DJ, Chan K, Needham DM. Barriers to early mobility of hospitalized general medicine patients: Survey development and results. Am J Phys Med Rehabil, 2015; 94 (4): 304-12.

18-Harrold ME, Salisbury LG, Webb AS, Allison GT.Early mobilisation in intensive care units in Australia and Scotland: a prospective, observational cohort study examining mobilisation practises and barriers. Critical care, 2015; 19 (336): 2-9.

19-Perme C, Nalty T, Winkelman C, Nawa RK, Masud F. Safety and efficacy of mobility interventions in patients with femoral catheters in the ICU: A prospective observational study. Cardiopulmonary Physical Therapy Journal, 2013; 24(2): 12-17.



Conteúdo Relacionado

Sem comentários

Adicione seu comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.

×
Olá! Seja bem-vindo(a). Se tiver alguma dúvida, me procure. Estou a disposição para te ajudar.