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A Importância do Lúdico Dentro de um Ambiente Fisioterapêutico e a sua Influência no Desenvolvimento Infantil

A Importância do Lúdico Dentro de um Ambiente Fisioterapêutico e a sua Influência no Desenvolvimento Infantil

Introdução

A fisioterapia em pediatria baseia-se na avaliação, no planejamento e no desenvolvimento de um programa de reabilitação individualizado para cada paciente. Na avaliação, que é uma etapa de suma importância, o profissional busca observar os aspectos motores, sensitivos, cognitivos e comportamentais da criança permitindo a elaboração de um plano de tratamento baseado em suas limitações, necessidades e interesses.

Na grande maioria dos casos, a criança que necessita de fisioterapia pediátrica é obrigada a mudar completamente sua rotina, conviver com diversos profissionais de saúde, estar presente em diversas terapias e se sujeitar a inúmeros procedimentos, que podem ser, muitas das vezes, dolorosos. Mesmo com todas essas mudanças, é necessário levar em consideração que a criança desenvolve habilidades motoras, cognitivas e comportamentais por meio da brincadeira e da interação social. Com isso, é fundamental associar o lúdico aos atendimentos fisioterapêuticos, pois, além de torná-los mais toleráveis e prazerosos para a criança, facilita a interação da mesma com o terapeuta.

Quanto à ludicidade, segundo Luckesi (2014), é um estado interno ao sujeito, ou seja, é a experiência interna de vivenciar do ser humano e só serão lúdicas ou não dependendo da situação em que isso ocorre e do indivíduo que as vivencia. De acordo com o autor, não existem atividades lúdicas, existem apenas atividades, pois ela só se torna lúdica se propiciar o bemestar ao indivíduo. A ludicidade, há muito tempo já é reconhecida sua relevância para crianças.

Psicólogos, pediatras, psicanalistas, pedagogos e sociólogos da infância, utilizam do brincar como um recurso essencial, bastante favorável para entender e atender a essa faixa etária. (CARICCHIO, M.B.M., 2017). As atividades lúdicas devem ser utilizadas de maneira intencional e planejada, de acordo com as particularidades da criança e podem estar presentes tanto na avaliação quanto no tratamento fisioterapêutico. Também é importante frisar a conscientização de pais e responsáveis quanto à relevância do brincar para aquela criança. Diversas pesquisas que abordam o lúdico, apresentam vantagens quanto ao desenvolvimento das crianças, como por exemplo, a realidade virtual (RV) em crianças com disfunções neurológicas (SILVA e IWABE-MARCHESE, 2015.) e exercícios lúdicos na fisioterapia respiratória na tentativa de melhorar o efeito de algumas condutas fisioterapêuticas. (SCHENKEL et al., 2013).

Schenkel et al. (2013) destaca diversos exercícios lúdicos com a finalidade de promover a desobstrução pulmonar e a higiene brônquica. Como exemplos de exercícios, destacam-se o soprar bola de sabão, brincar de apito, fazer bolhas com canudinho na água, cata-vento, língua de sogra e encenar o soprar vela de bolo de aniversário. Já Silva e Iwabe-Marchese (2015) utilizaram como recurso lúdico a realidade virtual na reabilitação motora de crianças com
paralisia cerebral e observaram melhora do desempenho físico e cognitivo, do equilíbrio estático e dinâmico e além disso, maior motivação e diversão das crianças frente a terapia.

Nesse contexto, pressupõe-se, então, o quanto é importante a fisioterapia pediátrica observar além dos aspectos físicos e patológicos. A realidade mostra o quanto é fundamental a todos os profissionais de saúde entender do comportamento, das emoções, da realidade social e de tudo o que cerca a criança a ser tratada como forma de melhor atuar nesse contexto. Considerando a relevância da atividade lúdica no contexto da fisioterapia pediátrica, o presente
estudo teve como objetivo analisar o lúdico e a sua influência no desenvolvimento infantil dentro de um ambiente fisioterapêutico.

Materiais e Métodos

Este estudo consiste em uma revisão bibliográfica realizada por meio de análise e integração da literatura a respeito da utilização da atividade lúdica e sua influência na fisioterapia em pediatria.

O levantamento bibliográfico foi realizado de junho de 2021 a janeiro de 2022, incluído ao estudo publicações originais nacionais e internacionais, em português, espanhol e inglês do período de 2005 a 2022. Os artigos necessitavam tratar sobre atividades e estímulos lúdicos, pediatria e desenvolvimento infantil.

Na coleta de dados foram utilizados palavras-chave e descritores do DeCS (Descritores em Ciência da Saúde) e do MeSH (Medical Subject Headings), em diferentes combinações, em português, espanhol e inglês: pediatria/ pediatria/ pediatrics; reabilitação/ rehabilitación/ rehabilitation; desenvolvimento infantil; lúdico. Tais descritores foram usados em pesquisas na base de dados da Biblioteca Eletrônica Científica Online (SciELO), Lilacs, PubMED, Latindex e Google Acadêmico.

Como critérios de inclusão, o artigo deveria ser obtido na íntegra; relatar sobre tratamentos fisioterapêuticos e estímulos lúdicos em crianças com desenvolvimento típico ou atípico, ser redigido em português, inglês ou espanhol. Foram excluídos estudos onde não apresentavam o lúdico como terapêutica, estudos que não abordavam o tratamento em crianças e que não fazem referência sobre o desenvolvimento infantil, revisões de literatura e artigos que não incluíam a fisioterapia.

Resultados

Mediante a busca nas bases de dados, foram encontrados 98 artigos, sendo 43 deles excluídos, pois não atendiam os critérios de inclusão da pesquisa, e assim, foi obtido um número prévio de artigos nas bases de dados: Google Acadêmico 19 artigos, SciELO 15 artigos, Lilacs 12 artigos e Latindex 9 artigos (Total 55 artigos). Diante dessa seleção, obteve-se uma análise mais criteriosa e foram selecionados 7 artigos, que estão de acordo com a temática da pesquisa, sendo possível categorizar a utilização do lúdico nos diferentes desfechos para a população pediátrica. A Tabela 1 ilustra o processo de busca e seleção de tais artigos.

Tabela 1. Tabela da aplicação dos critérios de inclusão e exclusão.

Depois de selecionar e analisar criteriosamente os artigos, os mesmos foram categorizados com relação às características gerais, de acordo com a Tabela 2.

Tabela 2 – Descrição dos estudos a respeito do ano de publicação, tipo de estudo e amostra.

Quanto aos tipos de estudos, dois (25%) foram ensaios clínicos randomizados, dois (25%) foram Coorte, um foi estudo de caso (12,5%), um foi descritivo exploratório (12,5%) e um (12,5%) quase-experimental. Em relação a língua de publicação de cada artigo, cinco (62,5%) foram publicados em português e dois (25%) em espanhol. Na Tabela 3 são apresentados os dados dos artigos a respeito dos autores, ano, títulos, objetivos, métodos e conclusões.

Tabela 3 – Descrição dos estudos incluídos a respeito dos autores, títulos, objetivos, métodos e
conclusões.

Diante dos estudos selecionados é possível observar que a faixa etária foi de 3 meses a 12 anos. As patologias envolvidas foram Paralisia Cerebral, Síndrome de Down, pneumonia, bronquite aguda, disfunções neuropsicomotoras e musculoesqueléticas e que todos os objetivos estão relacionados a influência do lúdico no tratamento das mesmas. Na Tabela 4 são apresentados os recursos lúdicos utilizados pelos estudos.

Tabela 4 – Descrição dos recursos lúdicos utilizados pelos artigos.


A Realidade Virtual (RV) foi utilizada na maioria dos estudos (57%) e todos através da plataforma Wii Balance Board da Nintendo. Além disso, um desses estudos associou à RV juntamente com a terapia aquática e o conceito Neuroevolutivo Bobath no solo. Brinquedos mais simples, como brinquedos de encaixe, pega vareta, brinquedos sonoros, boliche, também foram citados em dois (28,5%) artigos como recursos lúdicos eficientes nos tratamentos. Em um estudo (14,5%), a fisioterapia respiratória usou como recurso lúdico a “língua de sogra”, canudo, “moinho de vento”.

Discussão

O presente estudo buscou analisar, com base na literatura, a utilização do lúdico nos diferentes desfechos fisioterapêuticos na população pediátrica e a sua influência no desenvolvimento infantil. No estudo de Hartwig et al. (2017) é observado que, atividades lúdicas são grandes potenciais terapêuticos na reabilitação. Além disso, é importante considerar que a criança desenvolve habilidades motoras, cognitivas e comportamentais através da brincadeira e da interação social (SILVA, A. S.; VALENCIANO, P. J.; FUJISAWA, D. S, 2017).

Silva e Iwabe-Marchese (2015), Abdalla et al. (2010) e Sebastián et al. (2016) utilizaram a Realidade Virtual (RV) como recurso lúdico na reabilitação motora de crianças com Paralisia Cerebral (PC). Silva e Iwabe-Marchese (2015) observaram uma melhora do equilíbrio estático e dinâmico e do desempenho físico e cognitivo, além de mais motivação dos pacientes em relação a fisioterapia. Para Abdalla et al. (2010) a RV, por promover melhoras significativas nas alterações de equilíbrio, controle motor e esquema corporal, pode ser uma grande aliada ao
atendimento fisioterapêutico convencional em crianças com PC. Já no estudo de Sebastián et al. (2015), tais intervenções foram utilizadas nos atendimentos com o objetivo de corrigir patologias musculoesqueléticas, como escolioses e desordens de marcha, contribuindo assim, para o equilíbrio e controle postural do paciente.

No estudo de Alvarez et al. (2018), é observado que, o videogame na reabilitação surgiu com o intuito de atrair as crianças para que elas fossem participativas, mas, foi muito além disso. Com a RV se tornou possível obter participação e ainda sim proporcionar um melhor bem-estar para as crianças. O uso da Realidade Virtual favorece o desenvolvimento motor em crianças com Síndrome de Down pois, além de proporcionar uma melhora da qualidade de vida, estimula principalmente a mobilidade funcional.

Costa et al. (2015) evidencia que o lúdico e o brincar contribuem para as crianças que estão submetidas às intervenções fisioterapêuticas na área hospitalar, de tal forma que elas sejam mais colaborativas ao processo de reabilitação. É no ambiente hospitalar, que muitas vezes são realizadas a reabilitação respiratória, e os recursos lúdicos mostraram-se essenciais para o desenvolvimento cardiorrespiratório dessas crianças. O autor também ressalta a síndrome do jaleco branco, que muitas das vezes pode ser uma barreira para essas crianças e acaba dificultando a relação terapeuta-paciente. Com isso se faz necessário o uso de vestimentas mais coloridas com cores mais chamativas a fim de melhorar a aceitação desses pacientes.

Segundo Reis et al. (2007), o lúdico junto à terapêutica, utilizando brinquedos de encaixe, brinquedos sonoros, jogos e brincadeiras, em crianças com PC, torna o tratamento mais dinâmico, melhora a coordenação motora e o estímulo neuropsicomotor. Além disso, contribui para que a criança se comunique com o ambiente e, principalmente, supere seus medos aos tratamentos dolorosos na qual muita das vezes é submetida. Hartwig (2017) também utiliza em seu estudo brinquedos mais simples, como Pega Vareta, jogo de boliche, cavalinho de madeira e ressalta que os brinquedos são ferramentas potencialmente eficientes nos tratamentos pediátricos, pois o brincar é a atividade mais importante na vida de uma criança, além de possibilitá-la ser protagonista da ação que cria ou que é estimulada a criar e não somente espectadora.

Baseado nos artigos de Hartwig et al. (2017), Sebastián et al, (2015), Costa et al. (2015), Hammond et al. (2013) e reforçado por King (2016), os estímulos lúdicos, apresentam grande potencial terapêutico, sejam eles simples ou mais elaborados, independentemente do ambiente, que pode ser domiciliar, clínico ou hospitalar. Portanto, com o uso de atividades lúdicas, a fisioterapia se torna mais motivadora para as crianças, tendo em vista que, o brincar é importante e deve ser incorporado no tratamento, sempre considerando a individualidade de cada criança.

Conclusão

O presente estudo nos permitiu observar que os estímulos lúdicos apresentam um grande potencial terapêutico e que por meio deles é possível desenvolver atendimentos mais atrativos para as crianças além de estreitar a relação terapeuta-paciente. É importante ressaltar que os recursos lúdicos citados no estudo podem ser utilizados para o tratamento de diversas disfunções, bem como em diferentes contextos, seja no ambiente hospitalar, ambulatorial ou domiciliar. Sendo assim, é de suma importância vincular o lúdico ao tratamento fisioterapêutico, uma vez que a criança também desenvolve habilidades motoras, cognitivas e comportamentais por meio da brincadeira e da interação social.

Referências Bibliográficas

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ARTIGO PUBLICADO EM 01/08/24



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