Digite sua palavra-chave

post

Os Efeitos dos Exercícios de Estabilização do Core na Melhora do Equilíbrio em Crianças com Síndrome de Down: Uma Revisão Sistemática

Os Efeitos dos Exercícios de Estabilização do Core na Melhora do Equilíbrio em Crianças com Síndrome de Down: Uma Revisão Sistemática

INTRODUÇÃO 
A Síndrome de Down (SD) ou Trissomia do Cromossomo 21 (T21) é uma desordem cromossômica causada pela presença de todo ou parte de um cromossomo 21. É considerado o distúrbio genético mais prevalente em todo o mundo, sendo a incidência estimada de 1 a cada 1000 nascidos vivos. As várias causas de SD incluem não disjunção (95%), translocação (3,2%) e mosaicismo (1,8%) associado ao cromossomo 21.

O fenótipo da cromossomopatia da síndrome de Down envolve manifestações que afetam múltiplos sistemas corporais, em particular o musculoesquelético, neurológico e sistemas cardiovasculares. Indivíduos com SD apresentam características como rosto arredondado, olhos amendoados, mãos pequenas, dedos curtos, prega palmar única, orelhas pequenas, baixa estatura, língua protusa, hipotonia muscular, densidade neuronal reduzida, hipoplasia, deficiência intelectual e distúrbios metabólicos congênitos.

Crianças com Síndrome de Down (SD) apresentam atraso nas aquisições de marcos motores do desenvolvimento neuropsicomotor, como sentar, engatinhar e deambular, isso devido à fraqueza muscular, hipotonia, frouxidão ligamentar, déficit no equilíbrio e, consequentemente, dificuldade de se manter em situações antigravitacionais.

O equilíbrio funcional é definido como o elemento do controle postural que permite uma criança realizar tarefas cotidianas. O equilíbrio é dividido em estático, capaz de manter o controle postural quando em repouso, e dinâmico, quando em movimento. Tanto o equilíbrio estático como o dinâmico necessitam da interação entre os sistemas visual, somatossensorial, vestibular, neurológico e musculoesquelético para a execução das tarefas com coordenação e planejamento motor adequados. Porém, foi observado que crianças com SD têm déficits associados a esses sistemas, acometendo principalmente a habilidade motora, coordenação, propriocepção, integração sensório motora, diminuição do tempo de reação de equilíbrio e precariedade na elaboração de estratégias para o ajuste postural antecipatório.

O estudo de Maïano C et al comprova que os processos corticais e centrais envolvidos no equilíbrio postural só atingem a maturação completa na fase adulta e, por isso, crianças e adolescentes utilizam de diferentes estratégias como forma de compensação para alcançar a estabilização corporal. Como exemplo está o sistema somatossensorial, que tenta compensar a insuficiência de informações visuais para manter o controle postural, mas como dito anteriormente, ainda não atingiu sua plena maturação nesse período transitório da infância, ou seja, acabam não ponderando de forma eficaz essas entradas proprioceptivas.

Da mesma forma, a pouca maturação do sistema locomotor, diretamente ligada à frouxidão ligamentar e hipotonia, também influencia negativamente o desenvolvimento de estratégias compensatórias eficazes para o controle postural. Na tentativa de compensar a fraqueza muscular e obter o melhor controle postural, as crianças com síndrome de Down tendem a reduzir os graus de liberdade de movimento e, como consequência, há maior gasto de energia durante atividades de vida diária.

Estudos comprovam que o protocolo de exercícios de estabilização do core pode melhorar o planejamento, o controle motor, as respostas posturais aos estímulos, a sensibilidade dos mecanorreceptores e a cinética postural durante atividades funcionais estáticas e dinâmicas.

O termo CORE foi utilizado para se referir à região lombo-pélvica, que envolve os músculos abdominais, paravertebrais, glúteos, diafragma e os músculos do assoalho pélvico. Também visto como o núcleo de potência do corpo humano, o core é uma área de estabilidade central e controle postural. Como um sistema feedforward, os estabilizadores do tronco se contraem antes do movimento das extremidades, aumentando assim a estabilidade do tronco durante as atividades dinâmicas, ou seja, todos os movimentos são gerados a partir do núcleo e são traduzidos para as extremidades. Pode-se dizer que, assim como um core com contração muscular eficaz produz uma pressão intra-abdominal, coordenando harmonicamente os movimentos durante as atividades funcionais, um core hipotônico e descoordenado instabiliza todo esse funcionamento, diminuindo a eficiência do movimento e surgindo padrões compensatórios.

Evidências mostram que os exercícios de estabilidade do core têm como uma das maiores relevâncias a aplicação em indivíduos com frouxidão ligamentar, porque se baseiam nos componentes do sistema sensório-motor e desempenham papel fundamental para gerar uma estabilidade proximal e, consequentemente, melhorar a mobilidade distal. Outro estudo também sugere que os exercícios de core são um retreinamento neuromuscular, que visa melhorar o controle sensório-motor através da ativação de processos neurofisiológicos de coordenação intermuscular, flexibilidade e respostas posturais.

Então, podemos concluir sinteticamente que os músculos do core são responsáveis por manter posturas, criar movimento, coordenar ações musculares, permitir estabilidade, absorção, geração e transmissão de força por todo o corpo. E, portanto, intervenções específicas conduzem a uma melhor organização neurofisiológica e a adaptações posturais para o equilíbrio.

Sendo assim, o presente estudo tem como objetivo explorar quais os efeitos do treinamento do core sobre a estabilidade postural em crianças com síndrome de Down, analisando a eficácia desses exercícios na melhora do equilíbrio, coordenação e funcionalidade durante atividades dinâmicas.

MATERIAIS E MÉTODOS

Trata-se de uma revisão sistemática realizada a partir da coleta de estudos esclarecedores sobre os fatores de predisposição ao precário controle postural em pessoas com síndrome de Down, avaliando o equilíbrio, explorando as intervenções aplicadas na estabilização do core e seus efeitos sobre o equilíbrio estático-dinâmico nesses indivíduos.

O recolhimento destes estudos foi feito no período entre os meses de julho e novembro do ano de 2022. E as buscas tiveram como base de dados as seguintes plataformas: PubMed, Scielo, Lilacs, PEDro e Physical Treatments. Durante esse período de acesso, foram usadas as seguintes combinações de dois grupos de palavras-chave:

Português: (Grupo 1) “Síndrome de Down” E (Grupo 2) “Estabilidade do Core” OU “Estabilidade Postural” OU “Controle Postural” OU “Equilíbrio”.

Inglês: (Grupo 1) “Down Syndrome” AND (Grupo 2) “Core Stability” OR “Postural Stability” OR “Postural Control” OR “Balance”.

Conforme ilustrado na Figura I, durante o processo de seleção do estudo foram analisados os títulos e resumos, em seguida, se não continham informações suficientes para decidir a elegibilidade, foram examinados os textos completos e após isso foram extraídos os estudos que se enquadravam nos critérios de exclusão e as duplicatas. Além disso, as referências dos estudos recuperados foram analisadas para identificar outras publicações potencialmente relevantes.

Após a realização das pesquisas foram aplicados os seguintes critérios de inclusão: artigos publicados em inglês e português no período compreendido de até 20 anos atrás, estudos de caso somente em crianças diagnosticadas com síndrome de Down, crianças na faixa etária entre 2 a 13 anos, ensaios clínicos devidamente autorizados e revisões sistemáticas que abordassem a síndrome de Down e suas alterações neurofisiológicas.

Não foram incluídos artigos que se enquadrassem nos seguintes critérios de exclusão: estudos que não abordam a síndrome de Down, estudos em adolescentes e adultos, estudos de caso publicados há mais de 10 anos, estudos de caso que não utilizaram exercícios de estabilização do core como intervenção e estudos em animais.

RESULTADOS

Logo abaixo serão descritos detalhadamente os três estudos de caso devidamente selecionados, buscando a elucidação dos efeitos dos exercícios do core na estabilidade postural em indivíduos com síndrome de Down. Os valores estatísticos obtidos comparando pré e pós-testes estão descritos detalhadamente na Tabela I, já na Tabela II são expostos os grupos de intervenção, seus respectivos protocolos, os métodos aplicados pelos autores para mensuração e os resultados das intervenções.

O estudo realizado por Aly et al. visionou a melhora da capacidade de movimento e qualidade de vida em crianças com SD, através da intervenção voltada a exercícios de estabilidade do core. Nele foram divididos dois grupos (21 meninos e 9 meninas) que tinham como critério de inclusão: o diagnóstico confirmado de síndrome de Down, ausência de distúrbios neurológicos ou de mobilidade, presença de habilidades independentes tanto na postura ortostática (PO) como na caminhada, audição e visão funcionais, compreensão das instruções necessárias para o tratamento e procedimentos da avaliação.

A estabilidade postural foi avaliada pré e pós-tratamento com o sistema de equilíbrio Biodex, que é uma plataforma de força usada para ajustar a estabilidade de uma força circular suspensa, avaliando a dinâmica do equilíbrio.

Comparando os valores médios dos índices de estabilidade dinâmica, pré e pós-tratamento, obtiveram uma diminuição significativa nos índices de oscilação ântero-posterior, médio-lateral e geral do grupo de estudo comparado ao grupo controle no pós-teste.

Ghaeeni et al. tiveram como objetivo estudar o efeito do treinamento do core na diminuição do risco de quedas e melhora da participação social de crianças com SD. Então, foram selecionadas 16 crianças (10 meninos e 6 meninas) com boa mobilidade, membros inferiores saudáveis e compreensão das instruções durante tratamento e avaliação. Elas foram divididas em um grupo controle (A) e um grupo experimental (B), cada um com 8 participantes.

No pré e pós-teste, as oscilações estáticas dos indivíduos foram avaliadas pelo Modified Stork Test, que consiste em o sujeito ficar em uma perna sobre uma superfície plana e a outra perna (livre) ser elevada até o nível do tornozelo da perna dominante. O teste está completo quando a perna livre do sujeito é colocada no chão, estando o avaliador cronometrando o tempo máximo (segundos) que o sujeito fica em uma perna. O teste foi realizado 3 vezes para cada perna e o melhor tempo foi registrado.

Após análises demográficas dos grupos, obtiveram como resultado pós-teste uma significativa melhoria do equilíbrio estático no grupo experimental quando comparado ao grupo controle, onde adquiriram desenvolvimento de força e resistência de músculos profundos da área de estabilização do core.

Alsakhawi et al. publicaram um estudo controlado randomizado cujo objetivo foi investigar os efeitos dos exercícios de estabilidade do core versus exercícios na esteira no equilíbrio dinâmico em crianças com síndrome de Down, no intuito de determinar o método mais eficaz.

As medidas de avaliação para inclusão das crianças no presente estudo foram realizadas através da escala de equilíbrio de Berg para a avaliação clínica do equilíbrio funcional e o sistema de equilíbrio Biodex. Foram selecionadas para a pesquisa 45 crianças com SD capazes de reconhecer comandos que lhes foram dados e conseguir andar independentemente.

As 45 crianças foram divididas igualmente em três grupos A, B e C. As do grupo A (grupo controle) receberam um programa tradicional de exercícios com instruções dadas durante 60 minutos. No grupo B, receberam o mesmo programa do grupo A (por 30 min), além do treinamento de caminhada em esteira (por 30 min). E as crianças do grupo C receberam os mesmos exercícios tradicionais de fisioterapia (por 30 min) mais o treinamento de estabilidade do core (Jeffrey por 30 min).

Os resultados neste estudo demonstraram que não havia diferença significativa na melhora do equilíbrio entre exercícios em esteira e exercícios de estabilidade do core após tratamento em crianças dos grupos B e C, entretanto, foram eficazes quando comparados ao grupo A (grupo controle).


DISCUSSÃO

O objetivo do presente artigo foi realizar uma revisão sistemática sobre os efeitos das intervenções de exercícios de estabilização do core na melhora do equilíbrio em crianças com síndrome de Down e a repercussão nas suas vidas sociais.

Diante disso, todos os estudos revisados com foco em crianças com síndrome de Down mostraram que os efeitos pós-intervenções de exercícios no equilíbrio estático e dinâmico foram significativamente maiores do que os dos grupos-controle. Os achados sugerem que, devido às intervenções de exercícios de estabilização do core, crianças com síndrome de Down obtiveram um aumento em sua capacidade de equilíbrio. Curiosamente, os resultados sugerem que um programa de exercícios de fisioterapia convencional bem elaborado e o treinamento em esteira também representam meios eficazes no aprimoramento do equilíbrio estático-dinâmico entre crianças com síndrome de Down.

Diante dos resultados obtidos, esses estudos mostram que os efeitos pós-testes das intervenções foram positivos, pois acrescentaram, além do tratamento convencional, um protocolo (Jeffrey) de exercícios para o core. Esse programa de exercícios foi realizado no período de 8 semanas, 3 vezes na semana, durante 45 a 60 minutos cada sessão, e consiste em uma abordagem estruturada em 5 níveis, em que o indivíduo avança de nível se conseguir realizar plenamente o nível anterior. Os resultados sugerem que, devido às intervenções com exercícios de estabilidade de Jeffrey, cada criança com síndrome de Down obteve ganho na estabilidade postural e equilíbrio funcional.

Apenas neste artigo, o grupo controle não realizou nenhuma forma de intervenção, o que deixa uma lacuna em relação à comparação com o grupo experimental, já que sabemos que o mínimo incentivo terapêutico em uma criança com desordem neurofisiológica já é capaz de melhorar sua qualidade de mobilidade em comparação com outra que não realiza nenhum tipo de atividade.

Infelizmente, a presente revisão permanece limitada por encontrar um baixo número de estudos que atenderam aos critérios de elegibilidade e por apresentarem algumas limitações panorâmicas. Dentre elas, o fato de que não foram ditas quais foram as adaptações feitas durante as intervenções, já que indivíduos com síndrome de Down apresentam atraso cognitivo e muitas vezes precisam de diferentes estratégias para entender o comando solicitado.

Inclusive, há a necessidade de futuros estudos comparando diferentes frequências e durações dos tratamentos a longo prazo, além de diferentes programas de intervenção para exercícios de core. Assim, obteríamos um conjunto maior de amostras para revisar e fazer novas análises quantitativas sobre a melhora do equilíbrio funcional em crianças com síndrome de Down.

CONCLUSÃO

Crianças com síndrome de Down apresentam déficits nas aquisições de marcos motores devido ao seu pobre equilíbrio funcional e, consequentemente, perdem qualidade no movimento. Assim, através deste estudo de revisão sistemática, foi evidente que os exercícios de estabilidade do core apresentam resultados significantes na melhora do equilíbrio funcional dinâmico e estático em crianças com síndrome de Down, o que contribui para a melhora do desempenho motor durante a execução das suas atividades de vida diária.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. Aly SM, Abonour AA. Effect of core stability exercise on postural stability in children with Down syndrome. Health Sci. 2016; 5: 213–222.
  2. Ghaeeni S, Bahari Z, Khazaei AA. Effect of core stability training on static balance of the children with Down syndrome. Physical Treatments. 2015; 5: 49–54.
  3. R.S. Alsakhawi, M.A. Elshafey. Effect of core stability exercises and treadmill training on balance in children with Down syndrome: Randomized Controlled Trial. Advances in Therapy. 2019; 36 (9): 2364–2373.
  4. Goyal K, Goyal M, Samuel AJ. Impacto dos exercícios de estabilização no equilíbrio e na distribuição da pressão plantar em crianças com excesso de peso: um protocolo de estudo randomizado controlado. Rev Pesqui Fisioter. 2020; 10 (4): 724-736.
  5. Zago M, Almeida Carvalho Duarte N, André Collange Grecco L, et al. Gait and postural control patterns and rehabilitation in Down syndrome: a systematic review. J. Phys. Ther. Sci. 32: 303–314, 2020.
  6. Maïano C, Hue O, Lepage G, et al. Do exercise interventions improve balance for children and adolescents with down syndrome? a systematic review. Phys Ther. 2019; 99: 507–518.
  7. Mohamed A. Eid, Sobhy M. Aly, Mohamed A. Huneif, et al. Effect of isokinetic training on muscle strength and postural balance in children with Down’s syndrome. International Journal of Rehabilitation Research 2017, 40: 127–133.
  8. Arumugam A, Raja K, Venugopalan M, et al. Down Syndrome – A Narrative Review with a Focus on Anatomical Features. Clinical Anatomy 2016; 29: 568–577.
  9. Rodríguez‑Grande EI, Vargas‑Pinilla OC, Torres‑Narvaez MR, et al. Neuromuscular exercise in children with Down Syndrome: a systematic review. Scientific Reports 2022; 12: 14988.
  10. Malak R, Kotwicka M, Krawczyk-Wasielewska A, Mojs E, et al. Motor skills, cognitive development and balance functions of children with Down syndrome. Ann Agric Environ Med. 2013; 20 (4): 803–806.
  11. Antonarakis, S.E, Skotko, B.G, Rafii, M.S, et al. Down Syndrome. Nat Rev Dis Primers 2020; 6: 9.
  12. Miyake Y, Kobayashi R, Kelepecz D, et al. Core exercises elevate trunk stability to facilitate skilled motor behavior of the upper extremities. J Bodyw Mov Ther. 2013; 17 (2): 259-65.
  13. Jeffreys I. Developing a Progressive Core Stability Program. National Strength & Conditioning Association 2002; 24 (5): 65-66.
  14. Akuthota V, Ferreiro A, Moore T, et al. Core stability exercise principles. Curr. Sports Med. Rep. 2008; 7 (1): 39-44.
  15. Lee, K. The Relationship of Trunk Muscle Activation and Core Stability: A Biomechanical Analysis of Pilates-Based Stabilization Exercise. Int. J. Environ. Res. Public Health 2021; 18: 12804.

ARTIGO PUBLICADO EM 20/03/2025



Conteúdo Relacionado

Sem comentários

Adicione seu comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.