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Ligação da Escala Unificada de Classificação da Doença de Parkinson com a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde

Ligação da Escala Unificada de Classificação da Doença de Parkinson com a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde

A Doença de Parkinson (DP) é uma doença crônica e degenerativa do sistema nervoso central, que resulta da morte de neurônios motores da substância negra, acarretando diminuição da dopamina na via negroestriatal. Essa é uma doença de progressão lenta que afeta principalmente pessoas acima de 50 anos 13,20.

A DP é caracterizada por distúrbios motores e disfunções posturais. Os principais distúrbios motores são a bradicinesia (lentidão do movimento), hipocinesia (redução na amplitude do movimento), acinesia (dificuldade em iniciar movimentos), tremor e rigidez, além de déficits de equilíbrio e na marcha. O diagnóstico clínico e feito por exclusão. Com a progressão da doença, os pacientes podem apresentar desordens cognitivas, déficits de memória, problemas relacionados à disfunção visuo-espacial, dificuldades em realizar movimentos sequenciais ou repetitivos, freezing e lentidão nas respostas psicológicas. É comum o indivíduo apresentar ainda escrita diminuída, diminuição do volume da voz e outras complicações tanto na fala como na deglutição 15,11. A Escala Unificada de Classificação da Doença de Parkinson (UPDRS) é utilizada no mundo todo por capturar diferentes aspectos da DP, tornando-se uma referência para avaliação da mesma.

Esta escala é composta por 42 perguntas, divididas em quatro componentes:

1- Estado mental, comportamento e estado emocional;
2- Atividades da vida diária;

4- Complicações da terapia.

A UPDRS é o instrumento mais frequentemente usado em ambientes clínicos e testes científicos8.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza a utilização de questionários de Qualidade de Vida (QV), além da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), nas diversas áreas da saúde, como ferramenta epidemiológica, de pesquisa, utilização clínica e em políticas sociais, a fim de proporcionar uma linguagem comum das condições relacionadas à saúde. Esta ferramenta distribui as informações em duas sessões principais, sendo a primeira referente às funções e estruturas do
corpo, representados, respectivamente, pelas letras b e s, e informações de atividade e participação, representada pela letra d.
A segunda sessão refere-se a fatores contextuais, englobando fatores ambientais representados pela letra e, além de fatores pessoais, que não são passíveis de classificação segundo a ferramenta6,7.

A descrição das informações da CIF, em caso de aplicação clínica, deve necessariamente ter a presença do qualificador, formado por uma escala genérica com graduação de 0 à 4, onde 0 representa nenhuma deficiência e 4 uma deficiência completa. Os qualificadores têm a capacidade de apontar a gravidade da deficiência, limitação, restrição, barreiras ou facilitadores das condições de saúde6.

Com o objetivo de adequar o uso dessa ferramenta, foram desenvolvidos formulários denominados Core sets, onde são resumidos os itens pertinentes a cada patologia que apresente grande incidência e prevalência e agrupados em um só documento, tornando assim mais fácil e prático o acesso às informações, visto a extensa lista de categorias presentes no documento completo10,14.

Este estudo justifica-se pela carência de material sobre a UPDRS e a falta de universalização na forma de avaliar a doença de Parkinson, propondo assim uma unificação, correlacionando-a à CIF, tendo como objetivo estabelecer uma ligação entre UPDRS e CIF, para que dessa maneira seja possível verificar quais componentes da escala tem possibilidade de maior cobertura, seja nas funções biológicas representadas pelas funções fisiológicas (b) e estruturas do corpo (s), se nas atividades de vida diária e vida social
representadas pelos domínios de atividade e participação (d), ou se nos aspectos de ambiente onde o indivíduo está inserido, representados pelos fatores ambientais (e).

MATERIAIS E MÉTODOS

A ligação da UPDRS com a CIF foi baseada na metodologia proposta por Cieza et al., que propuseram 8 regras para a ligação entre as medidas de resultado e a CIF. As regras específicas determinam que todos os conceitos significantes devam ser considerados antes de se realizar a ligação com as categorias da CIF, e que as opções de resposta quando contenham conceitos relevantes sejam incluídas. No caso do conceito de algum item conter exemplos, estes também devem ser ligados. Essas regras foram desenvolvidas
baseadas na experiência acumulada durante o processo de ligação de centenas de documentos de medidas clínicas e do estado de saúde realizadas.

Cada item da UPDRS foi ligado com conceitos da CIF, por duas profissionais fisioterapeutas, que realizaram a tarefa separadamente. Ao final, foram comparados os resultados encontrados pelos codificadores independentes e resolvidas as discordâncias por consenso entre ambos. Em relação a análise estatística, forma utilizadas medidas de frequência absoluta e frequência relativa percentual. O grau de concordância entre os dois profissionais que realizaram o processo de ligação foi calculado por meio do Coeficiente de Kappa simples e do intervalo de confiança (95%). A escolha pelo grau de concordância entre dois avaliadores mantém a tendência da literatura nesse tipo de metodologia de ligação de instrumentos de coleta de dados com a CIF 9,12,21 . Além disso, o Coeficiente de Kappa é uma medida de concordância interobservador, que mede o nível de concordância retirando o efeito do acaso. Seus valores variam de 0 a 1, sendo que 1 indica concordância máxima e 0 nenhuma concordância3. O software utilizado foi o
SPSS (versão 20.0).

RESULTADOS
A UPDRS é dividida em seis módulos: estado mental, atividades de vida diária, exame motor, complicações na terapia flutuações clinicas e outras complicações. Conta com 42 itens de analise.

O processo de ligação da UPDRS com as categorias da CIF gerou 50 conteúdos significativos que foram ligados a 44 categorias da CIF. 2 conteúdos significativos não puderem ser ligados as categorias, pois um não era coberto pela classificação e o outro tratava de uma condição de saúde.

Destas 44 categorias da CIF, 77,2 % (34) tratam sobre o domínio de funções corporais e 22,7 % (10) sobre atividades e participação. Não houve nenhuma categoria da CIF relacionada a estruturas corporais e fatores ambientais. A lista com todas as categorias da CIF contempladas na UPDRS está disposta na tabela 1.

Em relação a concordância entre os profissionais que fizeram o processo de ligação, a concordância percentual foi de 88%. O coeficiente de Kappa foi de
0.82 com intervalo de confiança a 95% de 0.79 – 0.87. O que demonstra uma concordância bastante elevada.

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DISCUSSÃO
A Doença de Parkinson afeta o gânglio da base, no interior do cérebro, que conduz a uma redução no tamanho e velocidade de movimentos sequenciais, em particular para habilidades motoras. Essas atividades são normalmente realizadas automaticamente, como caminhada, equilíbrio, controle postural, mobilidade na cama, tarefas manipulativas, fala, conversa e deglutição1,17. Disfunções em algum desses domínios, podem resultar na dificuldade em dirigir, fazer compras, resolver problemas financeiros, conversar, humor e relacionamentos16.

Além das deficiências, limitações de atividades e restrição a participação que acompanham aqueles que têm a Doença de Parkinson, os adultos mais velhos podem apresentar uma série de comorbidades relacionadas à idade. Portanto, estes idosos com a Doença de Parkinson podem ser muito propensos à complicações como quedas, pneumonia e
psicose, podendo aumentar substancialmente a carga social e econômica que a doença por si já oferece18.

A UPDRS apresenta a maioria dos conceitos referentes à funções do corpo. Esse resultado reflete a persistência na criação de instrumentos para avaliação da capacidade funcional predominantemente baseado em uma concepção biomédica do processo de adoecimento. Esse achado corrobora os achados de Schepers et al., que utilizaram metodologia semelhante para a ligação da CIF com ferramentas de avaliação para indivíduos com hemiparesia decorrente de acidente vascular encefálico.

Outro aspecto relevante é que nenhuma categoria referente aos fatores ambientais foi contemplada pelo instrumento. De acordo com Castro et al., O ambiente é um dos componente do modelo explicativo da CIF proposto pela OMS e tem relação direta com o processo de funcionalidade e incapacidade . É importante salientar que, no momento em que o ambiente não é considerado na criação de um instrumento de avaliação da capacidade funcionalidade, uma importante limitação pode se verificar no instrumento.
Esse achado de sub-representação das categorias relacionadas aos fatores ambientais também foi verificado por Geyh et al., em um estudo que fez a ligação de conteúdos da CIF com as medidas de mensuração da qualidade de vida em hemiparéticos.

A utilização de ferramentas de avaliação clinica em adição a abordagem biopsicossocial da CIF, permite ao profissional ter em um só documento, o registro não só de achados biomédicos tradicionais, como também achados informações sobre as atividades de vida diária, participação social e fatores ambientais, possibilitando um novo olhar sobre a deficiência e a incapacidade19,22.

CONCLUSÃO

Através da análise da UPDRS, constatamos que esta é composta por 42 questões, divididas em 6 módulos, O processo de ligação com a CIF produziu 50 conteúdos ignificativos, ligando-os à 44 categorias da mesma. Dois conteúdos não puderam ser ligados a, um por não ser coberto por ela, e o outro quesito por se tratar de uma condição de saúde.

Observamos que a UPDRS tem enfoque nas questões relacionadas às funções corporais, devendo assim ser utilizada junto à outras ferramentas de avaliação da Doença de Parkinson que abordem os outros construtos que compõe o espectro da funcionalidade e que não foram contemplados pelo instrumento, como os fatores ambientais.

REFERÊNCIAS

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