Digite sua palavra-chave

post

Fisioterapia no Pós-Operatório Imediato na Reconstrução Mamária após Câncer de Mama

Fisioterapia no Pós-Operatório Imediato na Reconstrução Mamária após Câncer de Mama

Introdução

O câncer de mama é uma das maiores causas de óbitos por câncer na população feminina do Brasil, principalmente na faixa etária entre 40 anos e 69 anos. Hoje, a incidência mostra que a faixa já está mais precoce, aparecendo antes
dos 40 anos, com diagnóstico em mama unilateral e bilateral com estágio avançado. Seu aumento de casos detectados, já em estados avançados, pode estar relacionado ao fato do diagnóstico ser detectado tardiamente e pela falta de instituições que promovam atendimento mais imediato para diagnóstico e tratamentos adequados a cada caso. A Política Nacional de Prevenção e Controle de Câncer (Portaria nº 874/2013) designa que o tratamento será realizado em estabelecimentos de saúde habilitados, como o Centro de Alta Complexidade em Oncologia (Cacon) ou Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon), ou, no Rio de Janeiro, o INCA, onde a responsabilidade de organizar e encaminhar os pacientes fica a cargo das Secretarias Estaduais e Municipais. Por falta de uma rede
consolidada de referência para o diagnóstico e o tratamento precoce nos casos, e frente às limitações práticas para implementação junto à população de estratégias efetivas para prevenção do câncer de mama, os números ainda são altos e os centros de referência poucos para atendimento de toda a população, que se desloca quilômetros em busca desse tratamento (SALDANHA et. al. 2018).

O câncer de mama está relacionado a vários fatores, entre eles a hereditariedade, paridade tardia, menopausa tardia, obesidade, menarca precoce, alimentação, sedentarismo e estresse (RODRIGUES, CRUZ e PAIXÃO, 2014).

Entre as técnicas cirúrgicas conservadoras estão a tumorectomia, que é a remoção do tumor em margens de tecido circunjacente, sendo indicação para tumores de até 1 cm de diâmetro (BARROS et al, 2002). A quadrantectomiaque é a remoção de um quadrante ou seguimento da glândula mamária onde está localizado o tumor, com margens cirúrgicas do tecido normal circunjacente de 2 cm a 2,5 cm incluindo a aponeurose (FERREIRA et al 2005). E a mastectomia, que é a retirada parcial ou total da mama, associada ou não a retirada dos gânglios linfáticos da axila
(esvaziamento axilar), ela é dividida em radical, simples, preventiva, e radical modificada que inclui a retirada do músculo peitoral (FERREIRA et al 2005). As técnicas mais atuais estão a da identificação da cadeia linfonodal, através da Linfocintilografia mamária(Dissecçãode Linfonodo Sentinela),Linfodenectomia e Serectomia, para preservar mais as funções motoras e danos emocionais da paciente operada. As complicações provocadas pelo tratamento cirúrgico qualquer que seja adotado associado a dissecção axilar, podem chegar a 70% e incluem
hemorragias, lesões de nervos, infecções, necrose na pele, seroma, linfedema (este o mais comum), síndrome da rede axilar, deiscências, distúrbios de cicatrização e disfunções sensitiva e motora do ombro e cintura escapular. Todas essas complicações são as principais causas de estresse emocionais e prejuízo funcional das mulheres acometidas pelo câncer de mama (BARROS e PAZ, 2017).

No grupo de mulheres com mastectomias, que conforme o resultado do exame do linfonodo sentinela, mais a biópsia local cirúrgica do imunohistoquímico acabam migrando para uma reconstrução imediata da mama com colocação de
próteses ou expansores. Se o resultado do exame linfonodo sentinela for negativo e com grau de estadiamento I e II, é indicado a cirurgia de reconstrução imediata com prótese. Entretanto, se o tumor for maior que 2 cm, e com comprometimento locoregional, será indicado a colocação do expansor. Pode ser necessária, ainda, a utilização complementar de radioterapia adjuvante.

O pós-operatório de pacientes mastectomizadas (tanto as que se submetem à reconstrução imediata com colocação de próteses ou expansores quanto às que se submetem ao tratamento quimioterápico e radioterápico antes da reconstrução) são dolorosos e precisam de suporte multidisciplinar, conforme Cartilha da OMS sobre cuidados paliativos. Uma equipe composta pelos médicos (mastologista, cirurgião plástico, oncologista clínico, radioterapeuta na parte cirúrgica) e de tratamentos associados ao enfermeiro, fisioterapeuta, assistente social, nutricionista, dentista e psicólogo compõem uma equipe multiprofissional que atenderá em todas as áreas necessárias ao bem estar do paciente. (FARIA, 2010).

A fisioterapia tem um papel importante e primordial no pós-operatório para minimizar o quadro álgico, com casos muito intensos, como aderência cicatricial, prevenção e controle da síndrome da rede linfática, linfedema, alterações posturais, perda da amplitude de movimento do braço e aderência na cintura escapular, prevenções de processos inflamatórios (tendinites, capsulites adesivas, bursites) e processos infecciosos (celulites e erisipelas). A fisioterapia também é importante na orientação de atividades da vida diária e orientação de programa de exercícios diários,incluindo-se alongamentos do membro afetado e reorganizando a postura ideal. (BELLEZA et al, 2015) e (FARIA, 2010).

A autoestima da mulher tem uma atenção especial quando se fala em reconstrução da mama. Tratamentos inadequados e incompletos podem diminuir a possibilidade de uma vida plena e provocar alterações psicológicas difíceis de serem reparadas. (SANTOS et al, 2019).

Devemos aumentar o conhecimento e as possibilidades de cuidados aos pacientes com câncer de mama. As pessoas que militam nesta área sabem muito bem da importância da ajuda terapêutica e da dificuldade de se obter assistência com qualidade para suportar tanto sofrimento físico e emocional. (MESQUITA e SANTOS, 2016).

Os pacientes se beneficiam do tratamento através de um conjunto de métodos e técnicas fisioterápicas como a drenagem linfática, liberação miofacial, cinesioterapia, alongamento, crochetagem, linfoterapia, eletroterapia,linfotaping e reeducação postural.

Esta pesquisa tem como objetivo revisar, na literatura, a atuação da fisioterapia na preservação e tratamento de complicações cirúrgicas advindas das reconstruções mamárias após o câncer de mama.

Objetivo

Revisar, na literatura, a atuação da fisioterapia na preservação e tratamento de complicações cirúrgicas advindas das reconstruções mamárias após o câncer de mama.

Método

Trata-se de um estudo do tipo revisão narrativa de literatura,no qualforam selecionados artigos retirados da internet, de pesquisas de instituições públicas, com a atuação do fisioterapeuta no controle da analgesia, recuperação e normalização da amplitude de movimentos, reorganização postural, remissão ou controle de intercorrências pós-cirúrgicas como as aderências cicatriciais, escápula alada, edemas e linfedemas, perda do arco completo em movimentos do ombro e escápula.

O referencial bibliográfico será retirado de base de dados da internet de instituições públicas e científicas, utilizando a estratégia de cruzamento de dados. Os artigos pesquisados e revisados estão emPortuguês e datam do ano de
2000 até 2017. A pesquisa foi utilizada utilizando os descritores:Câncer de mama; Reconstrução; Pós-operatório imediato; Fisioterapia.Os artigos forampesquisados no período de Novembro/2016 e Julho/2019.

Resultados

O histórico da fisioterapia mundial remonta a Primeira Guerra Mundial, quando foram criados os primeiros centros de reabilitação, de reaprendizagem dos movimentos e reeducação funcional. Em Kiel e Dresden, na Alemanha, foram
criadas as primeiras escolas, onde ocorreram muitas parcerias entre médicos e os primeiros fisioterapeutas (que eram enfermeiros, no início), dentre os quais destacaram-se o médico neurocirurgião alemão Rudolf Klapp e os fisioterapeutas Blederbeck e Hess, os quais desenvolveram o método Klapp. Na Inglaterra, a parceria entre o neurofisiologista Karel Bobath e a fisioterapeuta Berta Bobath, também foram registrados e bem-sucedidos (FARIA, 2010).

O marco nas Américas foi em 1921, com a fundação da American Physical Therapy Association (Associação Americana de Fisioterapia), criada nos EUA, onde vários departamentos de fisioterapia foram organizados em vários hospitais norte-americanos.

Em 1951, foi fundada a World Confederation for Physical Therapy (Conferência Mundial de Fisioterapia), com adesão de 13 países, onde, em 2001, já representava 82 países membros, inclusive o Brasil, com mais de 225 mil
fisioterapeutas de todo o Mundo (FARIA, 2010).

Já no Brasil, surgiu em São Paulo, em 1929, o primeiro Serviço de Fisioterapia do Radium Arnaldo Vieira de Carvalho, cuja especialidade era cirurgias oncológicas e criou o serviço para dar assistência aos pacientes oncológicos do Hospital Central da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Em 1951 criou-se o primeiro curso para a formação de técnicos em fisioterapia no país, curso esse voltado para atividades curativas e reabilitadoras, cujos professores eram médicos e enfermeiros, que não tinham claras as disciplinas que deveriam ser oferecidas aos alunos.

Pouco tempo depois, o professor Godoy Moreira, da Faculdade de Medicina de São Paulo (USP), em conjunto com a Organização Pan-Americana de Saúde/Organização Mundial de Saúde (Opas/OMS) e a WCPT, fundou o Instituto de
Reabilitação, anexo à cadeira de Ortopedia e Traumatologia da referida faculdade. Um novo curso de formação foi organizado, com duração de dois anos, para atender aos programas de reabilitação que a Opas estava interessada em desenvolver na América Latina. Algum tempo depois, a Reitoria da USP regulamentou o curso (FARIA, 2010).

No Rio de Janeiro, em 1954, foi fundada a Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR), o primeiro centro do país voltado para paralisia infantil. Dois anos depois, foi criado, por Juscelino Kubitscheck, o Centro de Reabilitação na Associação Beneficente e, em 1956, começaram a funcionar os cursos para formação de fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais na Escola de Reabilitação do Rio de Janeiro (ERRJ), considerada a primeira instituição do país a oferecer um curso regular de graduação em fisioterapia. Os alunos se deslocavam entre a Policlínica do Rio de Janeiro, Hospital Carlos Chagas, Hospital Estadual Getúlio Vargas, Hospital Jesus, Hospital Pedro Ernesto e Cruz Vermelha. As aulas eram ministradas na própria ABBR. (FARIA, 2010).

Em 1957 foi criada a Associação Paulista de Fisioterapeutas (APF) e, em agosto de 1959, foi fundada a Associação dos Fisioterapistas do Estado de São Paulo, hoje denominada Associação Brasileira de Fisioterapia (ABF). Essa
associação foi fundamental no papel de transformar o curso técnico para o nível superior, contribuindo para o reconhecimento do fisioterapeuta como profissional de nível superior.

Em 1962 – o Conselho Federal de Educação estabeleceu o currículo mínimo para a formação universitária em Fisioterapia no país, onde ainda eram vistos como profissionais auxiliares aos médicos ou técnicos em fisioterapia, onde dependiam de orientação e responsável médico para indicar terapias.

No Primeiro Congresso Brasileiro de Fisioterapia, ocorrido entre 12 e 14 de novembro de 1964, no Rio de Janeiro, houve a primeira manifestação dos profissionais para uma autodeterminação, onde eles, profissionais formados e conhecedores de seus atributos, não necessitariam mais de orientação de profissional médico na condução dos tratamentos aos seus pacientes.

No final dos anos 60, a profissão foi regulamentada no país. O decreto-lei 938 assegurava o exercício das profissões de fisioterapia e terapia ocupacional. Reconhecia os profissionais diplomados por escolas e cursos de nível superior,
porém, definia como atividades executar técnicas fisioterápicas para restaurar e conservar a capacidade física do paciente. Além disso, poderiam, ainda, dirigir ou assessorar serviços em estabelecimentos públicos ou particulares, exercer o magistério e supervisionar alunos em atividades práticas (Lei 938/1969).

A lei 6316 de 1975 criou o Conselho Federal de Fisioterapia (Coffito) e o Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Crefito), onde deixava claro que a atividade do fisioterapeuta poderia ser desempenhada em hospitais,
clínicas, ambulatórios, por meio da apresentação da sua carteira profissional de fisioterapeuta.

Câncer de mama

A história do câncer no Brasil remonta de muitos anos, porém, apenas a partir de 1920, que foi criado um departamento no governo para cuidar dessa doença. Em 1922, foi criado em Belo Horizonte o Instituto Radium, voltado para a pesquisa do câncer, nos mesmos moldes que o Instituto Radium de Paris. Algum tempo depois foi inaugurado o Inca (Instituto Nacional do Câncer), que ficou responsável pela formulação e implantação de políticas de atenção oncológica no país, com prestação de serviços médicos, ensino, pesquisa e elaboração de programas educativos.

A incidência de câncer de mama é tão grande que, em 1957 foi criada a Seção de Mastologia, sob a chefia do Doutor Alberto Lima de Moraes Coutinho, pioneiro da mastologia do Brasil e que dirigiu a Seção de 1957 a 1967. Em 1959, fundou a Sociedade Brasileira de Patologia Mamária, hoje Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e auxiliou para transformar o estudo de mastologia como especialidade médica.

O carcinoma mamário é considerado um importante problema de saúde pública no Brasil (em 2014, foi o segundo tipo de tumor mais frequente no mundo e o mais comum entre as mulheres, excluindo-se o de pele, com o número assombroso de 59,7 mil novos casos no Brasil em 2018, onde 15.403 mulheres e 187 homens vieram a falecer – INCA, 2019).

O melhor método para um tratamento eficaz é a prevenção. Campanhas de esclarecimento e orientações médicas de que o câncer possui tratamento e pode-se alcançar a cura, se detectado e tratado em seu início são constantemente
divulgadas. No Brasil, a maioria dos diagnósticos são tardios, em estágios avançados, com o uso de tratamentos mais radicais, com aumento significativo de mortes.

Um dos tratamentos radicais é a mastectomia, com a retirada da mama, dos músculos do peito, de todos os gânglios linfáticos da axila, de alguma gordura em excesso e pele. É nesse momento que a fisioterapia oncológica é fundamental na reabilitação do paciente e na prevenção de possíveis complicações (FARIA, 2010). Por ser uma área recente e em expansão, a fisioterapia oncológica ainda possui estudos em andamento, com várias discussões sobre as melhores técnicas, abordagens e tratamentos.

No Terceiro Congresso Brasileiro de Fisioteapia em Cancerologia, que ocorreu em maio de 2008, o foco foi a discussão acadêmica sobre os temas de abordagem fisioterapêutica em pacientes amputados, que sofreram cirurgias
toracobdominais, nos cuidados paliativos oncológicos, no ensino e na pesquisa em oncologia, nas políticas públicas de saúde, na fisioterapia respiratória em oncologia, na neurocirurgia oncológica, na mastologia, na oncologia clínica e na urologia oncológica. Há uma crescente participação de fisioterapeutas nessa área em especial, no pré e pós-operatório de câncer de mama.

Nos estudos realizados, descobrimos que são vários os fatores que levam ao câncer de mama:

– fatores hormonais;
– alterações genéticas;
– histórico familiar;
– menopausa tardia;
– menarca precoce;
– primeira gravidez após os 30 anos;
– ingestão regular de bebidas alcoólicas;
– exposição a radiações ionizantes em idade inferior a 35 anos; e
– nuliparidade (mulheres que não gestaram filhos).

Com esses estudos, alguns paradigmas foram mudados sobre como atuar na prevenção do câncer, principalmente em tratamentos que usavam dados falsos em seus parâmetros. Um dos exemplos é o estrogênio: ao descobrir sobre a menarca precoce, menopausa tardia, o fato é que os altos níveis de estrogênio no corpo feminino aumentam em 40% de desenvolvimento do câncer, colocando os contraceptivos femininos em categoria de risco e os ginecologistas em alerta, já que usam o estrogênio em sua base (hormonioterapia-cancer-mama – Hospital Albert Einstein, 2019).

Os casos de câncer de mama ocorrem em qualquer faixa etária, mas a incidência maior ocorre após os 35 anos. Há a cura, sem a necessidade de retirada total da mama quando se é detectado no início (cerca de 90% do tratamento é
eficaz). O principal sintoma é o nódulo no seio, acompanhado ou não de dor mamária (detectado no autoexame, no exame médico ou pela mamografia). Podem ocorrer casos de alteração na coloração da pele que recobre a mama, com abaulamentos ou retrações, com surgimento de nódulos palpáveis na região das axilas ou secreção mamilar. O rastreamento é feito por meio de mamografia, que permite a detecção precoce, por sua capacidade de localizar lesões em fase inicial (Cartilha-cancer-de-mama-vamos-falar-sobre-isso2016.pdf – Inca, 2019).

Hoje há uma classificação criada pela UICC (União Internacional Contra o Câncer), que determina qual o estadiamento que deve estar um tumor para ser considerado em estado avançado ou não. A classificação se baseia em três fatores: tamanho, avaliação da extensão dos linfonodos e a presença ou não de metástases:

Conforme a figura acima, os estádios variam de 0 a IV graus crescentes de gravidade da doença. Dependendo do estádio, o tratamento indicado será ministrado. Caso o tumor seja diagnosticado em estádios mais avançados, há uma limitação dos recursos terapêuticos, onde são mais mutilantes. Nos estudos de Abreu e Koifman (2002, p. 114), os estadiamentos III e IV são cerca de 60% dos diagnósticos iniciais, em virtude do número insuficiente de mamógrafos nos hospitais para atendimento da população.

O fisioterapeuta oncológico depende da informação de qual estádio encontrase o paciente, para evitar que haja proliferação celular nas redes linfática e sanguínea. Nas cirurgias conservadoras, apenas parte do tecido mamário é retirado, conservando parte da mama. Já nas cirurgias radicais, é retirada toda a mama, além do músculo peitoral em muitos casos. Ambas as modalidades cirúrgicas são normalmente acompanhadas da retirada de nódulos linfáticos das axilas (linfonodos).

Por serem cirurgias invasivas, há danos físicos importantes para o paciente. Há uma abordagem cirúrgica nas axilas e o pós-operatório pode levar a complicações como seroma, deiscência da ferida cirúrgica, aderência cicatricial, retrações, fibroses, dor na incisão da cirurgia, dor na região cervical, alterações de sensibilidade, alterações posturais, diminuição da capacidade respiratória, diminuição da amplitude dos movimentos, fraqueza, encurtamentos musculares e linfedema precoce. Dentre estes, o linfedema precoce é o mais comum (FARIA, 2010).

Pré-operatório e pós-operatório

Quando ocorre um tratamento fisioterápico antes da cirurgia, a intenção é prevenir complicações que poderão ocorrer caso não se tenha o conhecimento dos fatores prognósticos, como tamanho do tumor, comprometimento axilar, pois nesse estágio ainda não há limitações de movimentos, dor, linfedema e aderência cicatricial. Com esse tratamento paliativo, ocorre uma prevenção de complicações e a recuperação posterior menos dolorosa e em menor tempo.

Já nos casos de tratamento fisioterápico pós-operatório imediato, há a busca de “identificar alterações neurológicas ocorridas durante o ato cirúrgico, presença de sintomas álgicos, edema linfático precoce e alterações na dinâmica respiratória” (Brasil, 2004 p. 84). O trabalho avaliação da qualidade de vida em pacientes submetidos à mastectomia como estratégia de intervenção terapêutica vem trazendo muitas informações de como proceder no tratamento pós-operatório.

Nos dias atuais, há duas situações que predominam no tratamento oncológico: a cura completa, sem sequelas físicas e/ou funcionais e aquela onde há a necessidade de um tratamento mais agressivo, deixando limitações significativas.
Nesse segundo caso, há a necessidade do trabalho ativo de uma equipe multidisciplinar composta por médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e nutricionistas, com preparo para diagnosticar e intervir precocemente (FARIA, 2010).

Com a expectativa de vida para pacientes submetidas à mastectomia radical sendo ampliada a cada ano, há também a necessidade de proporcionar uma recuperação física e mental aprimorada. Surgiram várias terapias para minimizar as complicações pós-operatórias, com exercícios de alongamento global e fortalecimento muscular, outras em exercícios ativos assistidos, progredindo para exercícios ativos resistidos, exercícios respiratórios, manobras de drenagem linfática manual, além de movimentos de facilitação neuromuscular proprioceptiva e atividades funcionais, com RPG, aniginástica, cinesioterapia. Além disso, técnicas analgésicas como TENS, crioterapia, mobilização passiva, técnicas de relaxamento muscular complementam o tratamento fisioterapêutico (NASCIMENTO; MARINHO; COSTA, 2017).

O foco inicial do tratamento é minimizar a dor do paciente, com enfoque global e tratando as complicações respiratórias, motoras e circulatórias, prevenindo os riscos de infecção, aumentando a mobilidade de membros superiores e reduzindo a necessidade de medicamentos analgésicos.

No pós-cirúrgico, algumas situações ocorrem com mais frequência, como linfedema precoce, seroma, fraqueza muscular e respiratória, aderência, fibroses e alterações posturais, os quais serão tratados abaixo:

Linfedema precoce

O sangue é o responsável pelo transporte dos nutrientes pelo corpo. Para isso, grandes vasos vão se ramificando em vasos cada vez menores até que ocorra a passagem de líquido e nutrientes através de suas paredes, diretamente para o espaço intersticial – espaço entre as células.

Neste espaço, as células efetuam suas trocas – recebem os nutrientes e expelem seus detritos, para serem devidamente excretados pela urina, pela respiração ou pela transpiração. Este líquido é chamado de linfa e é recolhido por um outro grupo de pequenos vasos e transportados para vasos cada vez maiores do sistema linfático. Estes vasos irão devolver a linfa à corrente sanguínea, para, assim passar para os órgãos responsáveis pela sua excreção.

Muitas vezes, nosso corpo não efetua essa excreção de maneira correta, ocorrendo acúmulo de linfa pelo corpo, resultando em inchaço ou edema no membro afetado (linfedema).

O linfedema pode ser congênito ou adquirido. O congênito ocorre quando não há número suficiente de vasos linfáticos para esse sistema de drenagem ocorrer perfeitamente. Nos casos adquiridos, ocorre quando há obstrução dos vasos, através de inflamações nos membros, traumas, infecções ou devido a um aumento do número de células no interior dos vasos (linfócitos ou células cancerígenas). Na maioria dos casos, o que ocorreu foi a retirada dos vasos e gânglios linfáticos durante as cirurgias ou nos casos onde há tratamento radioterápico, onde queimamse os vasos.

A retirada dos gânglios linfáticos se dá pela necessidade de evitar que as células cancerígenas que estão no sistema linfático se acumulem nesses gânglios, que eram responsáveis pela drenagem do sistema e pelo seu armazenamento. Em sua ausência, há a necessidade de ocorrer uma drenagem linfática externa, feita por fisioterapeuta ou especialista devidamente qualificado. Essa técnica auxiliou no controle da expansão do problema e na prevenção de futuras complicações a curto e longo prazo. (GUGELMIN, 2018).

Seroma

Outro problema que surge após a cirurgia de câncer de mama é o seroma. O seroma é uma mistura de plasma como líquido linfático e pode aparecer em espaços abaixo da pele quando a circulação linfática está deficiente, que ocorre geralmente após as mastectomias. O tratamento utilizado são punções executadas pelos médicos, mas a drenagem linfática auxilia para evitar este acúmulo.

Fraqueza muscular e respiratória

Normalmente com a retirada da massa muscular e a mama, ocorre fraqueza nos braços pela restrição de movimentação após o período das primeiras semanas após a cirurgia. O fisioterapeuta atua para minimizar esses sintomas, buscando a reversão desse quadro.

Nessa fase do pós-operatório, identificam-se as alterações neurológicas ocorridas durante o ato operatório, se há presença de sintomas álgicos, se há edema linfático precoce e alterações respiratórias. O papel do fisioterapeuta é de
orientar o paciente de como posicionar o braço na cama, com auxílio de travesseiros, com a introdução de exercícios leves para o braço e exercícios respiratórios.

Já as alterações respiratórias são decorrentes do uso da anestesia geral, inatividade, respiração curtinha devido à presença da dor, comprometimento da pleura durante a cirurgia, com o uso de dreno torácico. Nas situações citadas, ocorre a diminuição da ventilação pulmonar e podem causar acúmulo de secreção, favorecimento o aparecimento de pneumonias. O uso de técnicas de expansão respiratória e higiene brônquica são fundamentais para diminuir essas ocorrências.

Na fase de recuperação, é importante associar os exercícios para os braços e respiratórios, para auxiliar na recuperação da função pulmonar e prevenir complicações respiratórias. A automassagem e drenagem linfática ajudarão a prevenir os inchaços no corpo.

O dreno aspirativo deve estar ainda no corpo do paciente até o 15º dia após a cirurgia. Portanto, o braço não poderá ser elevado acima de 90º para evitar que haja abertura dos pontos. O paciente, caso não haja complicações, terá alta e irá para casa com os pontos e dreno, onde a automassagem e drenagem devem ser feitos em casa.

A partir do 15º dia, se não houve complicações, os pontos serão retirados, assim como o dreno. A movimentação total do braço será liberada e o paciente deverá ser encaminhado ao consultório de fisioterapia para exercícios de
alongamento, de ganho de força muscular e amplitude de movimentos, assim como técnicas de drenagem linfática.

Assim, evita-se o surgimento de aderências e deformidades, além do breve restabelecimento funcional do ombro e braços.

Aderências, fibroses

É comum após passar a fase cirúrgica ocorrer alterações funcionais da cintura escapular e do ombro, decorrentes de lesões nervosas, onde o paciente possui dificuldade para movimentar os músculos em volta do osso da escápula (omoplata), movimentos como levantar, abrir os braços e encostar a mão nas costas. O uso de aparelhos e técnicas manipulativas como massagens terapêuticas auxiliam para evitar que a aderência e fibroses se formem, pois, após formadas, são difíceis de serem tratadas e, por isso, a importância do início da fisioterapia logo após o procedimento cirúrgico.

Alterações posturais

Com a retirada da mama, normalmente ocorre uma alteração no alinhamento do corpo dos pacientes, gerando uma alteração postural. Nos estudos de BELEZA et al., 2015, elas descobriram que há rotação da cabeça à esquerda e elevação do ombro à direita, elevação da pelve à esquerda, inclinação do corpo à esquerda, todas tiveram anteriorização da cabeça, várias deslocamento posterior do tronco e a
maioria anteversão pélvica. Essas alterações ocorrem, pois, normalmente, apenas
uma das mamas é afetada pelo câncer de mama e somente uma mama foi extirpada
ou reduzida.

Essas alterações posturais são devidas à adoção de postura antálgica no pós-cirúrgico. O peso da mama contralateral e os encurtamentos musculares posteriores podem levar ao desalinhamento cervical e, no plano sagital, a anterversão pélvica e inclinação posterior do tronco, também levando ao desalinhamento lombar, acarretando um desequilíbrio muscular com consequente reorganização postural às custas de uma alteração do centro de gravidade, onde toda a simetria corporal é prejudicada. (BELEZA et al. 2015).

Na maioria dos estudos, o relato é de que há a necessidade do acompanhamento do fisioterapeuta no período pré-cirúrgico, para analisar a postura do paciente, para conhecer e analisar os desvios e, a partir dessa informação,
escolher o melhor protocolo de tratamento a ser executado. A avaliação será através de anamnese, avaliação postural, física e funcional, avaliando o equilíbrio estático quanto o dinâmico. Há quem prefira o recurso informatizado de fotografia computadorizada, que analisa e quantifica as alterações posturais, por meio de gravação, medição e interpretação das imagens fotográficas. (SILVA;LEANDRO, 2014).

Conclusão

No Brasil, o câncer de mama é uma das principais causas de óbito, principalmente na faixa etária acima dos 40 anos. Com a evolução da medicina, a prevenção ainda é a melhor forma de diminuir os riscos e garantir uma sobrevida sem sequelas.

Como não há investimentos e nem divulgação, a maioria dos pacientes oncológicos de câncer de mama já chegam em estágios avançados, onde a cirurgia é o único tratamento possível.

Com a mastectomia parcial ou total de uma das mamas, surgem as complicações que os tratamentos fisioterápicos auxiliam em sua recuperação. Há a necessidade de conscientização para evitar a doença e num pré-operatório com estudos multidisciplinares para que todos os envolvidos auxiliem numa rápida recuperação do paciente.

Os fisioterapeutas oncológicos são os responsáveis para garantir um alívio na dor, além de auxiliar na evolução e diminuição dos desconfortos causados pela cirurgia.

Com a utilização de aparelhos como TENS, corrente russa, além de massagens terapêuticas e exercícios físicos localizados nas regiões afetadas, ocorre um alívio na dor e retorno a uma vida com qualidade.

Quando há uma abordagem utilizando a fisioterapia oncológica, há menos ocorrência de aderências, fibromas, linfedemas, problemas posturais e dores prolongadas. Além da diminuição no uso de medicamentos, ocorre também uma melhor independência dos pacientes, já que não terão tantas dificuldades nos movimentos com o fortalecimento e liberação dos movimentos que o tratamento proporciona.

Referências

BAIOCCHI, Jacqueline M.T. Fisioterapia no câncer de mama. Disponível em <http://www.fisioonco.com.br/fisioterapia-no-cancer-de-mama> [2017?].Acesso em 26 de jun. 2019.

BARROS, Cássia F.; PAZ, Fernanda C. C. G. Prevalência das complicações pósoperatórias em pacientes submetidas a mastectomia. Maceió, 2017. Disponível em:<https://ri.cesmac.edu.br/bitstream/tede/160/1/Preval%c3%aancia%20das%20compli
ca%c3%a7%c3%b5es%20p%c3%b3soperat%c3%b3rias%20em%20pacientes%20submetidas%20a%20mastectomia.pdf>. Acesso em 03 de out. 2019.

BELEZA, Ana Carolina S. et al. Alterações posturais em mulheres submetidas a cirurgia para retirada do câncer de mama. 2015.Disponívelem:<https://www.portalnepas.org.br/abcshs/article/view/839/726>.Acessoem 26 de jun. 2019.

BRASIL.Instituto Nacional do Câncer. Atlas de mortalidade por câncer no Brasil 1979-1999. Rio de Janeiro: INCA; 2002. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/inca/atlas_mortalidade_cancer_brasil_7
9_99.pdf>. Acesso em 26 de jun. 2019.

BRASIL. Instituto Nacional do Câncer. Diagnóstico histopatológico e citopatológico
das lesões da mama Brasil.Conprev. Rio de Janeiro INCA, 2002. Disponível em: <
ttp://bases.bireme.br/cgibin/wxislind.exe/iah/online/?IsisScript=iah/iah.xis&src=google&base=LILACS&lang=p
&nextAction=lnk&exprSearch=470585&indexSearch=ID>. Acesso em 26 de jun. 2019.

BRASIL. Instituto Nacional do Câncer. Câncer no Brasil: Dados dos registros de câncer de base populacional. Rio de Janeiro: INCA; 2003. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cancer_brasil_dados.pdf>. Acesso em 26 de jun. 2019.

BRASIL. Instituto Nacional do Câncer. Controle do câncer de mama: documento de consenso. Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2004. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/Consensointegra.pdf>. Acesso em 26
de jun. 2019.

GUGELMIN, Márcia R. G. Recursos e tratamentos fisioterápicos utilizados em linfedema pós-mastectomia radical e linfadenectomia: revisão de literatura. 2018. Disponível em:
<http://acm.org.br/acm/seer/index.php/arquivos/article/view/353/281>. Acesso em 03 de out. 2019

HOSPITAL DO CÂNCER AC CAMARGO. Departamento de cirurgia reparadora. Reconstrução da mama. Disponível em:<https://www.accamargo.org.br/tipos-decancer/mama>. Acesso em: 26 de jun. 2019.

FARIA, Lina. As práticas do cuidar na oncologia: a experiência da fisioterapia em pacientes com câncer de mama. Hist. Cienc. saude-Manguinhos[online], 2010. Vol. 17 suppl.1, pp.69-87.

LAHOZ, M. et al. Capacidade funcional e qualidade de vida em mulheres pósmastectomizadas. Rev. Bras. Cancerologia v. 56, n. 4, p. 423–430, 2010. MELO, Marcela S. et al. Avaliação Postural em Pacientes Submetidas à
Mastectomia Radical Modificada por meio de Fotogrametria Computadorizada. 2011. Disponível em <http://www1.inca.gov.br/rbc/n_57/v01/pdf/07_artigo_avaliacao_postural_pacient
es_mastectomia_fotogrametria.pdf>. Acesso em 26 de jun. 2019.

MESQUITA, Gabriela C.; SANTOS, Laise P. Programa de reabilitação em oncologia mamária– CAISM: atuação da psicologia. 2016. Disponível em: <https://econtents.bc.unicamp.br/inpec/index.php/simtec/article/view/8805>. Acesso em 03 de out. 2019.

NASCIMENTO, Ícaro M. B. do; MARINHO, Cleidilaine L. F.; COSTA, Roniery de O. A contribuição da Fisioterapia nos cuidados dos pacientes com dor oncológica. 2017. Disponível em: <http://revista.uninga.br/index.php/uninga/article/view/21/467>. Acesso em 03 de out. 2019.

OLIVEIRA, Miguel. Linfedema: prevenir e controlar. Stop Cancer Portugal, julho, 2015.

RODRIGUES, Juliana Dantas, CRUZ, Mércia Santos e PAIXÃO, Adriano Nascimento. Uma análise da prevenção do câncer de mama no Brasil. 2014. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413- 81232015001003163&script=sci_abstract&tlng=pt>. Acesso em 03 de out. 2019.

SALDANHA, Raphael de Freitas; et. al. Estudo da análise de rede de fluxo de pacientes de câncer de mama no Brasil entre 2014 e 2016. Disponível em: <https://www.scielosp.org/article/csp/2019.v35n7/e00090918/>. Acesso em 03 de out. 2019.

SANTOS, Marcela Savegnago dos. et al. Implicações da mastectomia na autoestima da mulher. 06/2019. Disponível em: <https://www.acervomais.com.br/index.php/saude/article/view/1124/628>. Acesso em 03 de out. 2019.

SILVA, Germanias da C.;BARBIERI, Leandro Gomes. Análise das principais alterações posturais em pacientes que sofreram mastectomia radical unilateral, através de uma revisão de literatura integrativa. 2014. Disponível em:
<http://www.efdeportes.com/efd189/alteracoes-posturais-em-mastectomiaradical.html>. Acesso em 26 de jun. 2019.

Artigo públicado em: 06/05/2021 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Conteúdo Relacionado

Sem comentários

Adicione seu comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.

Open chat
Olá! Seja bem-vindo(a). Se tiver alguma dúvida, me procure. Estou a disposição para te ajudar.