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Efeito da mobilização precoce no paciente crítico: Revisão de literatura

Efeito da mobilização precoce no paciente crítico: Revisão de literatura

A fraqueza muscular generalizada no doente crítico é uma das principais complicações adquiridas na unidade de terapia intensiva ( incidência de 30% a 60%). Vários são os fatores que podem contribuir para essa fraqueza muscular generalizada. Pode ser devido a polineuropatia, miopatia ou a combinação de ambos fatores, o que aumenta de 3 a 5 vezes o tempo de permanência da VM e no desmame ventilatório.(1) Os principais fatores de risco para o desenvolvimento da fraqueza adquirida na UTI são a gravidade e a duração da resposta inflamatória sistêmica, o tempo de permanência na UTI e a duração da ventilação mecânica. Outros fatores são a hiperglicemia, hipoalbuminemia, nutrição parenteral e uso de coticóides e de bloqueadores neuromusculares.( 4,5)

O imobilismo acomete não somente o sistema músculo esquelético mas também o sistema gastrointestinal, urinário, respiratório, cardiovasvular e cutâneo.(2) O Desuso e o imobilismo podem acarretar em fraqueza muscular, perda de massa muscular e de endurance. Como consequência do imobilismo a perda de massa muscular pode reduzir metade em menos de 2 semanas e associada a sepse pode ter perda de 1,5kg  por dia de imobilismo.(2,3)
O posicionamento no leito de forma adequada e a mobilização precoce são fatores importantes para previnir complicações inerentes ao imobilismo. (5,9) A associação desses fatores de risco aumentam o tempo de internação na UTI o que  gera maiores riscos de complicações e consequentemente aumento nos índices de mortalidade e custos elevados.(5,7) Em contrapartida a mobilização precoce pode ser um mecanismo capaz de gerar efeitos importantes no transporte de oxigênio procurando manter a força muscular e mobilidade articular além de melhorar a função pulmonar e o sistema respiratório. Isto por consequência pode facilitar o processo de desmame ventilatório, reduzir o tempo de permanência na UTI e de permanência hospitalar além de melhorar a qualidade de vida pós alta hospitalar.(14-17)

O objetivo desse estudo é mostrar, através de revisão de literatura, como a mobilização precoce na unidade de terapia intensiva pode prevenir fraqueza muscular, hipotrofia e principalmente recuperação da capacidade funcional do paciente crítico. Foram realizadas análises das metodologias dos trabalhos e os resultados ocorridos nos paciente que estiveram internados em uma unidade de terapia intensiva. Estudos tem demostrado que os pacientes críticos que sobrevivem a unidade de terapia intensiva apresentam fraqueza persistente, diminuição da capacidade de realizar exercícios de AVDs, qualidade de vida abaixo da ideal e uso prolongado de neuropsicóticos. (10)

Metodologia

A pesquisa da literatura foi realizada nas bases de dados eletrônicas: MedLine, LILACS, CINAHL, Cochrane, High Wire Press e SciELO, no período de 2005 à 2012.
As palavras chaves utilizadas foram: Physical, Therapy Mobilization e Intensive Care Unit. Não foram incluidos no estudo resumos de apresentações, dissertações ou teses  acadêmicas. A língua utilizada foi portuguesa e Inglesa.

Resultados
Foram analisados 7 artigos científicos referentes ao ao tema que estão descritos no quadro 1 em ordem cronológica

Autor/Ano Tipo de Estudo Amostra
Martin et al/ 2005 Análise Retrospectiva N= 49 pacientes com diagnóstico variado com tempo de VM > 14 dias e 2 falhas comnsecutivas de desmame
Intervenção Principais Variáveis Resultados
Cinesioterapia com exercícios ativos-assitidos e/ou ativos, controle de tronco, Transferência para poltrona, ortostatismo, deambulação, subir escadas e TRM com threshold Avaliar força muscular dos membros e respiratória, Funcionalidade da escala FM ( item subir e descer degraus) e tempo de desmame Aumento da força muscular periférica e melhora da escala FIM e redução do tempo de desmame
 
Autor/Ano Tipo de Estudo Amostra
Chiang et all/ 2006 Prospectivo Randomizado Controlado N= 32 sendo GI 17 e GC  em VM >14 dias.
Intervenção Principais Variáveis Resultados
Protocolo com exercícios calistêmicos de MMSS e MMII, Treino funcional no leito e deambulação Escala MIF e Índice de Barthel, Força Muscular Periférica (Dinamometria) e Respiratória (Manovacuometria) Melhora da escala FIM e Barthel, Aumento da FM periférica e respiratória , diminuição do tempo de VM
 
Autor/Ano Tipo de Estudo Amostra
Morris et all/2008 Coorte Prospectivo Pacientes com diagnósticos variados e com pelo menos 48 horas de TOT. N= 128 GC e N= 128 GI
Intervenção Principais Variáveis Resultados
Protocolo em 4 fases: exercícios ativos e/ou ativos-assistidos,sedestação beira leito,treino de equilíbrio, sedestação, descarga de peso em ortostatismo, transferência para poltrona e deambulação Número de dias de intervenção,custos hospitalares e número de dias para primeira saída do leito Diminuição de dias de internação, custos hospitalares e menor número de dias para primeira saída do leito no GI
 
Autor/Ano Tipo de Estudo Amostra
Schweickert W D/2009 Prospectivo N=104 todos concluiram o estudo com avaliação da escala FIM, Barthel, MRC (Medical Research Council) e dinamometria
Intervenção Principais Variáveis Resultados
Protocolo com treino de controle de tronco, treino de equilíbrio e deambulação Mostrou que a mobilização precoce pode ser associada a redução de delirium e do tempo de VM mas não houve diferença no tempo de permanência na UTI e no tempo de internação hospitalar
Autor/Ano Tipo de Estudo Amostra
Burtin et al/ 2009 Prospectivo GI e GC de pacientes que provavelmente necessitariam permanecer na UTI por mais de 7 dias
Intervenção Principais Variáveis Resultados
GI: ciclo ergômetro e Fisioterapia convencional GC: Fisioterapia Convencional TC6, escala de Borg, força de quadríceps, tempo de desmame, tempo de permanência na UTI e hospitalar,  mortalidade Aumento do teste de caminhada de 6 minutos, aumento da força muscular do quadríceps e não apresentou diferença significativa na escala de Berg, no tempo permanência na UTI e permanência hospitalar, mortalidade
Autor/Ano Tipo de Estudo Amostra
Morris et all/2011 Banco de dados do hospital e carta resposta enviadas a 280 pacientes 280 pacientes sobreviventes com IrpA que foram submetidos à VM. 132( 47%) foram readmitidos ou morreram em um ano; 126( 45%) não foram readmitidos e 22(8%) foram perdidos para follow-up
Intervenção Principais Variáveis Resultados
Protocolo de estratégias precoces de reabilitação Nº de reinternações hospitalares e mortalidade dentro de 12 meses após a alta e carta enviada até 3 x à indivíduos que não responderam e mobilidade precoce na UTI Pacientes traqueostomizados, do sexo feminino, com maior índice de comorbidade de Charlson e  falta de mobilidade precoce na UTI foram associados com as readmissões ou morte durante o primeiro ano
Autor/Ano Tipo de Estudo Amostra
Camila C D et all/2012 Controlado e Randomizado N=59 pacientes sendo 33 GFC e 26 GMP destes tiveram 19 óbitos GFC e 12 GMP finalizando 14 pacientes em ambos grupos
Intervenção Principais Variáveis Resultados
Protocolo de 5 estágios sendo somente o estágio 1 com pacientes inconscientes e que realizaram mobilização passiva, nos outros estágios foram realizados exercícios ativos-assistidos e/ou resistidos, ciclo ergômetro para MMII, transferência para poltrona, ortostatismo, treino de equilíbrio e deambulação Medidas de PI e PE e MRC Aumentos significativos nos valores de PI máxima  e MRC no GMP em relação ao GFC mas não mostrou diferença significativa no tempo de VM em dias e no tempo de internação na UTI e internação hospitalar

GC = Grupo Controle ; GI = Grupo Intervenção; VM = Ventilação Mecânica;
IrPA = Insuficiência respiratória aguda; GFC = Grupo Fisioterapia Convencional;
GMP = Grupo Mobilização Precoce; MMII = Membros Inferiores; MMSS= Membros Superiores;
PI = Pressão Inspiratória; PE= Pressão Expiratória;  MRC Medical Research Council;
TRM = Treinamento Muscular Respiratório;  FM = Força Muscular ; TC6 = Teste de Caminhada de 6 minutos

Conclusão

Ainda temos um número limitado de estudos que avaliam a mobilização precoce em pacientes críticos na unidade de terapia intensiva, no entanto a mobilização precoce aumenta a força muscular periférica e diminui o tempo de ventilação mecânica além de reduzir delirium e  a reinternação   no primeiro ano pós alta hospitalar; mas os estudos mostram que não houve diferença significante na diminuição do tempo de permanência na UTI e de internação hospitalar. No entanto a literatura apoia a mobilização precoce como uma intervenção eficaz e segura que pode ter impacto significativo sobre os resultados funcionais mas fazem-se necessários novos estudos de avaliação.

Referências Bibliográficas

1. Latronico N, Rasulo FA. Presentation and management of  ICU myopathy and neuropathy. Curr Opin Crit Care. 2010;16(2):123-7.

2. Fredericks CM. Adverse effects of immobilization on the musculoskeletal system. In: Fredericks CM, Saladim LK, editors. Pathophysiology of the motor systems: principles and clinical presentations. Philadelphia: F.A. Davis Com­pany; 1996.

3. Wagenmakers AJ. Muscle function in critically ill patients. Clin Nutr. 2001;20(5):451- Review.

4. Ali NA, O’Brien JM Jr, Hoffmann SP, Phillips G, Garland A, Finley JC, Almoosa K, Hejal R, Wolf KM, Lemeshow S, Connors AF Jr, Marsh CB; Midwest Critical Care Con­sortium. Acquired weakness, handgrip strength, and mor­tality in critically ill patients. Am J Respir Crit Care Med. 2008;178(3):261-8.

5. Gosselink R, Bott J, Johnson M, Dean E, Nava S, Norren­berg M, et al. Physiotherapy for adult patients with criti­cal illness: recommendations of the European Respiratory Society and European Society of Intensive Cara Medicine Task Force on Physiotherapy for Critically ill Patients. In­tensive Care  2008;34(7):1188-99.

6. Morris PE, Goad A, Thompson C, Taylor K, Harry B, Pas­smore L, et al. Early intensive care unit mobility therapy in the treatment of acute respiratory failure. Crit Care Med. 2008;36(8):2238-43.

7. Storch EK, Kruszynski DM. From rehabilitation to opti­mal function: role of clinical exercise therapy. Curr Opin Crit Care. 2008;14(4):451-5. Review.

8. Burtin C, Clerckx B, Robbeets C, Ferdinande P, Langer D, Troosters T, et al. Early exercise in critically ill patients enhances short-term functionalrecovery. Crit Care Med. 2009;37(9):2499-505.

9. Winkelman C, Higgins PA, Chen YJ. Activity in the chronically critically ill. Dimens Crit Care Nurs. 2005;24(6):281-90.

10. Herridge MS, Tansey CM, Matte A, et al. Functional disability 5 years after acute respiratory distress syndrome.N Engl J Med. 2011;364:1293-1304.

11. Schweickert WD, Pohlman MC, Pohlman AS. Early physical and occupational therapy in mechanically ventilated, critically ill patients: a randomized controlled. Lancet. 2009;373:1874-1882.

12. Morris Peter E et al. Receiving Early Mobility During An ICU Admission Is A Predictor Of Improved Outcomes In Acute Respiratory Failure. Am J Med Sci. 2011 May ; 341(5): 373–377

13. Dantas C M et al. Influência da mobilização precoce na força muscular periférica e respiratória em pacientes críticos. Rev. bras. ter. intensiva vol.24 no.2 São Paulo Apr./June 2012

14. Perme CS, Southard RE, Joyce DL, Noon GP, Loebe M. Early mobilization of  LVAD recipients who require prolonged mechanical ventilation. Tex Heart Inst J. 2006;33(2):130-3.

15. The feasibility of early physical activity in intensive care unit patients: aprospective observational one-center study. Respir Care. 2010;55(4):400

16. Stiller K. Phisioterapy in intensive care: towards an evidence-based practice. Chest. 2000;118(6):1801-13. Review.

17. Gooselink R, Bott J, Johnson M, Dean E, Nava S, Norrenberg M, et al. Physioterapy for adult patients with critical illness: recommendations of the European Respiratory Society and European Society of Intensive Care Medicine Task Force on Physioterapy for Critically ill Patients. Intensive Care Med. 2008;34(7):1188-99.

18. Chiang LL, Wang LY, Wu CP, Wu HD, Wu YT. Effects of physical training on functional status in patients with prolonged mechanical ventilation. Phys Ther. 2006;86(9):1271-81.

19. Porta R, Vitacca M, Gilè LS, Clini E, Bianchi L, Zanot­ti E, Ambrosino N. Supported arm training in patients recently weaned from mechanical ventilation. Chest. 2005;128(4):2511-20.

20. Adler Joseph; Maole Daniel. Early mobilization in the intensive care unit: a Systematic Rewiew



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