Contribuição Terapêutica da Dança na Melhora do Controle Postural do Indivíduo Paraplégico
Introdução
Além de ser uma modalidade artística, a dança também pode ser uma medida terapêutica empregada ao portador de deficiência física. Ferreira (2002) relata que segundo a ISOD (subcomitê para dança em cadeira de rodas da Organização Internacional de Esportes para pessoas com Deficiências) a dança em cadeira de rodas apresenta, entre outros, o objetivo de melhorar a postura e a habilidade de movimentação. Lundy-Ekman (2000) relata que a posição da cabeça em referência à gravidade, ao pescoço e o mundo visual afeta as ativações musculares do tronco, sendo sinalizada pela propriocepção cervical e pela informação vestibular e visual. Os movimentos da dança, conforme Schilder (1999), influenciam cinestesicamente na percepção do corpo, pois eles alteram a reação vestibular.
No decorrer da realização de trabalhos de dança com a população de portadores de deficiência física que integram o “Extremus” (Grupo de Dança sobre Rodas da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM), observou-se que havia uma relativa melhora do controle postural dos participantes. Dessa observação surge a idéia de se pesquisar e quantificar essa melhora do controle motor de tronco no indivíduo portador de paraplegia.
Objetivos
O trabalho teve como principal objetivo quantificar a contribuição da dança para melhorar o controle postural através do aprimoramento do controle motor e equilíbrio de tronco em portador de lesão medular adquirida e, secundariamente, avaliar os benefícios na realização das atividades de vida diária desse indivíduo.
Metodologia
Para o alcance dos objetivos, desenvolveu-se uma pesquisa qualitativa e quantitativa do tipo antes e depois caracterizada como um estudo de caso, realizado com um sujeito portador de lesão medular traumática ao nível lombar há nove anos, morador da cidade de Santa Maria-RS-BR, o qual realizou aulas de dança no período de 24 de maio a 02 de agosto de 2003.
A esse sujeito foi aplicado no dia 20 de maio de 2003 testes que contém a “Avaliação do Controle Motor e Equilíbrio de Tronco” retirado de O’Sullivan (1993) e o “Índice de Barthel” para medir a qualidade das atividades da vida diária, os quais foram reaplicados em 05 de agosto após a realização de dez aulas de dança pelo participante.
As aulas foram desenvolvidas no Ginásio II do Centro de Educação Física e Desportos da Universidade Federal de Santa Maria, junto ao Grupo de Dança para portadores de deficiências físicas “Extremus”, existente nesta universidade desde 2001, com freqüência de uma vez na semana e duração de duas horas.
Para a realização das aulas utilizou-se a metodologia da Dança Educação que prioriza em sua proposta pedagógica, segundo Nanni (1995), vivenciar o corpo dentro da sua especificidade, considerando a carga afetiva, emocional e sensório-perceptiva, assim como a da Dança Educativa Moderna de Laban (1990), na qual a dança deve permitir que cada bailarino determine sua relação com o espaço, sendo respeitadas as individualidades e aptidões dos bailarinos. O trabalho com portador de deficiência física foi embasado em Fonseca (1983), o qual coloca que o indivíduo com deficiência física deve vivenciar seu corpo e descobrir movimentos de acordo com suas possibilidades e experiências motoras.
Resultados e Conclusão
A comparação dos percentuais obtidos na primeira e segunda avaliação mostrou que houve melhora no controle postural e na qualidade da realização das atividades da vida diária com as aulas de dança. Os resultados encontrados nas avaliações pré e pós-aulas de dança foram os seguintes:
Avaliações
Primeira Avaliação:
-Respostas de endireitamento presentes : 75% dos itens testados
-Reações de equilíbrio presentes:73% dos itens testados
-Independência na realização:65% das AVD’s
Segunda Avaliação:
-Respostas de endireitamento presentes : 86% dos itens testados
-Reações de equilíbrio presentes:88% dos itens testados
-Independência na realização:80% das AVD’s
Os resultados apresentaram um ganho de controle postural, evidenciado pela melhora do equilíbrio de tronco e do controle motor, através da melhora das respostas de endireitamento do tronco. Nas atividades de vida diárias houve um aumento de 15% na realização com independência após o período das aulas de dança.
Esses resultados evidenciam a eficácia da terapia com dança sob o ponto de vista avaliado neste sujeito em estudo. Portanto além dos supostos benefícios emocionais decorrentes do prazer de dançar, os resultados desse trabalho revelam que ela pode ser uma importante contribuição na reabilitação de pessoas com lesão medular.
Referências Bibliográficas
DAVIES, P. M. Exatamente no centro: atividade seletiva do tronco no tratamento da hemiplegia no adulto. São Paulo: Manole, 1996.
FERREIRA, E. L. Dança em cadeira de rodas: os sentidos dos movimentos na dança como linguagem não verbal. Brasília: publicações SNE, 2002.
FONSECA, V. da. Psicomotricidade. São Paulo: Martins Fontes, 1983.
LABAN, R. Dança Educativa Moderna. São Paulo: Ícone, 1990.
LUNDY-EKMAN, L. Neurociências: fundamentos para reabilitação. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2000.
NANNI, D. Dança-educação: princípios, métodos e técnicas. Rio de Janeiro: Sprint, 1995.
O’SULLIVAN, S. B. Fisioterapia: avaliação e tratamento. 2. ed. São Paulo: Manole, 1993.
SCHILDER, P. A imagem do corpo: as energias construtivas da psique. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
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