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Atuação fisioterapêutica em uma criança quadriplégica espática através do conceito bobath

Atuação fisioterapêutica em uma criança quadriplégica espática através do conceito bobath

Introdução

Entre 1843 e 1853, um ortopedista inglês, William John Little, descreveu os primeiros casos de um distúrbio persistente de desenvolvimento não progressivo no cérebro, mas em 1897 Sigmund Freud sugeriu a expressão “Paralisia Cerebral Infantil”.1,2 A paralisia cerebral (PC) é o termo para definir uma lesão não progressiva do cérebro que ocorre durante o período fetal ou infância.3 Ocorrendo qualquer fator agressivo ao sistema nervoso central (SNC) poderão ter anormalidades no tônus muscular, como hipertonia ou hipotonia, levando também a alterações
no corpo quanto a topografia da lesão: quadriplegia, monoplegia, diplegia ou hemiplegia, além de distúrbios de sensação, cognição, comunicação, percepção e/ou crises convulsivas.4,5,6 A taxa de incidência de crianças com paralisia cerebral com grau moderado a grave é de 2,0 a 2,5 para 1000 nascidos vivos nos países desenvolvidos, havendo relatos nos países subdesenvolvidos de até 7:1000 nascidos vivos.7 No Brasil, estima-se cerca de 30.000 a 40.000 novos casos por ano, mas não é conclusivo.8 A paralisia cerebral é a causa mais comum de deficiência na infância.9

Uma criança com PC apresenta alterações que modificam o desenvolvimento e atrasam as aquisições motoras do Mecanismo do Controle Postural Normal (MCPN), principalmente na forma espástica.10 A hipertonia elástica ou espástica (bilateral ou unilateral) que se apresenta nos grupos musculares no início com uma resistência cedendo após algum esforço, fenômeno conhecido como sinal de canivete, corresponde 72% a 91% dos casos em crianças com paralisia cerebral.11,12,13 A paralisia cerebral espástica quadriplégica é responsável por 9 a 43% dos casos de PC que se apresenta com uma distribuição corporal assimétrica, tendo um comprometimento motor nos quatro membros, controle de cabeça deficiente, impossibilitando movimentos funcionais.14 Alguns autores destacam a assimetria do
comprometimento motor nos hemicorpos e ressaltam uma leve predominância espástica maior nos membros superiores.15 Na área de habilitação e reabilitação fisioterapêutica pediátrica há inúmeras abordagens de tratamento para crianças com paralisia cerebral, déficits neurológicos, porém o conceito Bobath é o mais comumente utilizado que tem como objetivo incentivar e aumentar a habilidade da criança de mover-se funcionalmente da maneira mais coordenada possível.16,17

O conceito de tratamento neuroevolutivo (NDT) – Bobath, foi desenvolvido pelo casal Mrs. Berta Bobath e Dr.Karel Bobath em 1943, baseado numa hipótese clínica de neurofacilitação nos modelos de controle motor e neurociência disponíveis na época, na reabilitação de indivíduos com distúrbios da função, movimento e controle postural causados por uma lesão no SNC, aplicado em crianças com paralisia cerebral e adultos com acidente vascular cerebral.18,19 Atualmente o Conceito Neuroevolutivo Bobath vem evoluindo com as práticas clínicas paralelamente com as teorias científicas, se baseando na teoria sistêmica onde se utilizam teorias do Controle Motor, Aprendizagem Motora, Neuroplasticidade (adaptação do SNC após uma lesão) e Plasticidade do Músculo Esquelético.20

O conceito visa a um atendimento interdisciplinar, num processo individualizado considerando esse paciente como um “todo”, tendo a participação da família no planejamento em conjunto do tratamento, afim de permitir através das intervenções terapêuticas esses pacientes serem mais funcionais.21 O tratamento Neuroevolutivo utiliza-se da coleta de dados de avaliação detalhada para a base de planejamento, avaliando as capacidades e limitações funcionais do indivíduo, no qual abordaremos os objetivos a longo, médio e curto prazo, provendo estímulos sensoriais nas fases de preparação (trabalhando as deficiências primárias), simulação (atividades que simulem), transferência e seguimento. O conceito privilegia uma compreensão aprofundada do desenvolvimento típico e atípico, que dão uma estrutura crítica para o planejamento de tratamento e solução de problemas futuros, como na prevenção progressiva de posturas inadequadas.22

Com sua difusão e evolução no tratamento com os pacientes neuropediátricos, o conceito Bobath que é uma teoria das abordagens dos sistemas, baseado na Neurofisiologia – SNC, no Processamento de Informações considerando quatro importantes estágios na organização das atividades dirigidas a metas: motivação, planejamento, execução e
apreciação.23,24 A partir de então indaga-se nesse estudo: Quais os benefícios do Conceito Neuroevolutivo Bobath no tratamento de uma criança com paralisia cerebral quadriplégica espástica nível V?

Este estudo foi constituído de uma pesquisa experimental do tipo casuística, onde teve por objetivo geral analisar os efeitos da intervenção fisioterapêutica através do Conceito Neuroevolutivo(NDT) Bobath, numa criança com Paralisia Cerebral, atendida no setor de fisioterapia em um Centro de Referência da Pessoa com Deficiência, no Rio de Janeiro- RJ. Este estudo tem como objetivo específico, verificar a resposta da interação entre terapeuta e a
criança, determinar os níveis de desenvolvimento da criança ao realizar a prática motora, identificar os pontos positivos e as necessidades da criança através desse conceito Bobath e em parceria com a família instituir o plano de tratamento para oferecer uma maior integração dessa criança na sociedade como um todo.

Materiais e métodos

Participou do estudo um paciente, sexo masculino, 5 anos e 3 meses, com diagnóstico clínico médico de atresia de esôfago e duodenal com fístula traqueoesofágica e encefalopatia crônica da infância. O critério de inclusão utilizado conforme o diagnóstico clínico fisioterapêutico após a coleta de dados, foram ver as capacidades funcionais e as atividades limitadas da criança e assim estabelecer os objetivos funcionais considerando os mais importantes para a família, paciente e terapeuta. O paciente apresentou capacidades funcionais para fixar o olhar no objeto entre o queixo e o nariz, fazer alcance ao brinquedo no máximo dez centímetros de distância utilizando as mãos e  permanecer na posição de pé com apoio anterior e supervisão da terapeuta. Depois foram vistas as atividades limitadas onde se constatou que o paciente não conseguia permanecer de pé sem o apoio anterior e sem a supervisão da terapeuta, não alcançava o brinquedo além de dez centímetros de distância, não acompanhava com o olhar
o brinquedo e fixava quando este era colocado lateralmente e alerta baixo. Após a avaliação onde observou os níveis de atividade e participação do paciente, foram avaliados as amplitudes de movimento para constatar as funções e estruturas corporais. Visto e observado a performance e desempenho do paciente também através de testes qualitativos, detectou-se quadro de quadriplegia espástica, GMFCS nível V, MACS nível V, de acordo com a tabela (I), na escala Ashworth Modificada vide tabela (II) a criança não apresentou diferença de tônus entre os
dimidio direito e esquerdo, apresentou Grau 2 nos membros superiores direito e esquerdo e Grau 3 nos membros inferiores e na avaliação PEDI constatou que a criança apresenta maior assistência do cuidador para desempenhar habilidades funcionais, na área de mobilidade e na função social. Criança nasceu pré – termo, com 36 semanas, de parto cesáreo, no Hospital Pan Americano-RJ, com Apgar 1º minuto: 6 / 5º minuto:7, tendo uma parada cardiorrespiratória, sendo levado imediatamente para a Unidade de Terapia Intensiva onde permaneceu por
quarenta dias internado. Nesse período de internação na unidade de terapia intensiva foram realizadas as cirurgias para atresia de duodeno, correção da fístula traqueosofágica, esofagostomia e gastro com fundo aplicatura(G.T.T).

A criança após a alta até os dias atuais é alimentada através de sonda via G.T.T. Iniciou atendimento aos dez meses de nascido nos setores de fisioterapia e fonoaudiologia no Instituto Fernandes Figueira – RJ, duas vezes na semana, depois sendo encaminhado para o Centro de Referência da Pessoa com Deficiência -RJ, onde iniciou com o acompanhamento de Follow up, depois passando para os atendimentos efetivamente. Criança passou por cirurgia de tenotomia nos membros inferiores, no Hospital da Criança- Rio de Janeiro- RJ, no dia 13/07/2016. Nunca
fez aplicação de toxina botulínica. Nunca apresentou crises convulsivas. Faz uso do medicamento BaclofenR
10 mg, uma vez ao dia prescrito pelo Neurologista do Instituto Fernandes Figueira- Rio de Janeiro – RJ onde faz acompanhamento atualmente.

A criança nos exames oftalmológicos e auditivos não apresentou nenhuma alteração; raramente faz uso da prancha de comunicação, não apresenta comunicação verbal; apresenta respiração evidente bucal; para ser transportado aos lugares é adepto de uso de cadeira de rodas, principalmente para ir à escola no turno da tarde; em casa a criança se arrasta em supino (de costas); para sentar faz uso da cadeira de rodas ou da calça de posicionamento; para tomar
banho somente no colo de algum familiar; faz uso de fraldas; em casa utiliza o stand up; faz uso diário das órteses tornozelo pé bilateral não articulada; dorme no mesmo quarto com os irmãos; apresenta dependência da mãe para todas as atividades diárias. Criança apresentou aparentemente percepção do que estava a sua volta e pareceu compreender ordens simples.

Resultados

No início do protocolo da intervenção terapêutica, aplicou-se escalas de avaliação qualitativas para favorecer a classificação dessa criança no que diz respeito a capacidade, habilidades e desempenhos funcionais, como: Gross Motor Function Classification System (GMFCS), The Manual Ability Classification System (MACS), Modified Ashworth Scale (MAS), Pediatric Evaluation of Disability Inventory (PEDI). Dessa forma permitindo favorecer
a detecção de transtornos mais precocemente.25

O Sistema de Classificação da Função Motora Grossa (Gross Motor Function Classification System – GMFCS), proposto por Palisano et al.26, foi utilizado para avaliar a gravidade do comprometimento neuromotor da criança. Por meio desse instrumento, as crianças foram agrupadas de acordo com os seguintes níveis de severidade: os níveis I e II correspondem àquelas crianças com menor limitação da função e que conseguem deambular sem restrições; o
nível III corresponde àquelas crianças que necessitam de auxílio; o nível IV/V abrange as crianças que se utilizam de tecnologia assistiva para se locomover.27 O Sistema de classificação da função manual ( The Manual Ability Classification System – MACS)28, utilizada para crianças em diferentes idades de quatro anos a dezoito anos, permite classificar as habilidades para manusear objetos em importantes atividades como para brincar e lazer assim também como para alimentação e para se vestir.29 Pesquisas anteriores descobriram que a união entre as scalas GMFCS e MACS na avaliação de crianças com paralisia cerebral era de forte a moderada nas crianças com PC com aspectos de quadriplegia e hemiplegia.30 

No PEDI (Pediatric Evaluation of Disability Inventory) foram incorporados diversos itens da CIF (Classificação Internacional de Funcionalidade) nas áreas de comunicação, mobilidade e cuidados pessoais. O modelo proposto por Mancini 32 também foi empregado com o objetivo de capturar as duas diferentes perspectivas da função que são: capacidade (competência ou maestria em discretas habilidades funcionais) e desempenho (desempenho de
atividades funcionais em resposta às demandas ambientais). Avaliar estes dois aspectos possibilitam “determinar a relativa importância dos déficits de habilidades funcionais e fatores ambientais e contextuais que auxiliam ou prejudicam o desempenho funcional da criança”.33

Intervenção Fisioterapêutica

A criança foi avaliada e submetida as intervenções terapêuticas pelo Conceito Bobath, em um Centro de Referência da Pessoa com Deficiência no Rio de Janeiro, com o devido consentimento dos pais. Foram realizados dois atendimentos semanais, no horário diurno, comduração de 60 minutos cada, totalizando 54 atendimentos nos meses de maio de dois e dezessete ao início do mês de novembro de dois mil e dezessete. Para a realização desse relato de caso, foram utilizados como instrumentos de coleta de dados: fichas de avaliação do setor de fisioterapia e folha de tratamento do conceito Bobath, rolos, bola suíça, extensores de membros inferiores, órteses tornozelo pé, faixas de neoprene, mesa, banquetas e brinquedos.

Na coleta de dados para verificar as capacidades funcionais que avalia o motor grosso, o motor fino, as mudanças posturais e o cognitivo, constatou que a criança foi capaz de permanecer de pé com supervisão da terapeuta e com apoio anterior, fazendo uso de suporte externos como órteses tornozelo pé, extensores e faixa abdominal; foi capaz de fazer alcance ao brinquedo oferecido no máximo a dez centímetros de distância e também foi capaz de fixar o olhar no brinquedo posicionado entre o queixo e os olhos por alguns segundos. Mostrou-se interessado por músicas e por brinquedos, reconheceu algumas músicas/sons. E nas atividades limitadas constatou-se que a criança não permaneceu de pé sem o apoio anterior e sem a supervisão da terapeuta; alcançou o brinquedo tendo uma distância limitada de até dez centímetros de distância; não acompanhou com o olhar o brinquedo e fixou quando este era
colocado lateralmente; pobre controle de cabeça, alerta baixo.

Após a observação clínica das capacidades funcionais, atividades limitadas e a avaliação da amplitude de movimento, foi constatado na criança quatro Deficiências Secundárias mais relevantes e aparentes, onde coletamos no pré teste (avalia o que o terapeuta observou na criança durante a atividade) e assim avaliamos como a criança fez e se comportou na atividade proposta pela terapeuta. Foram então observados hipercifose torácica, subluxação do quadril a direita, retificação da coluna lombar, pouco equilíbrio e para uma melhor postura, criança fez uso de órteses tornozelo pé bilateral não articulada, extensores nos membros inferiores, faixa neoprene abdominal, uso de rolos e uma mesa para apoio anterior. E após essa avaliação foi constatado quatro Deficiências Primárias (o que o terapeuta irá trabalhar) mais relevantes que foram: diminuição da mobilidade pélvico lombar para extensão e flexão,
diminuição da mobilidade pélvico femoral para extensão, falta de controle excêntrico dos flexores do pescoço e diminuição do alerta.

Diante disso foram descritos os objetivos funcionais considerando as mais importantes para a família, paciente e terapeuta. Então foi estabelecido os objetivos a longo, médio, curto prazo e o objetivo imediato, sendo os mesmos coerentes com o nível de atividade, participação e idade da criança. Os objetivos determinados para a criança a longo prazo que podem ser adquiridos até um ano foram: fazer escolha dentro do seu campo visual entre um brinquedo e o
outro e acionar o suíte de comunicação; médio prazo período até seis meses: apertar ou acionar o botão do suíte de comunicação a quinze centímetros de distância usando uma ou ambas as mãos; Curto prazo/ imediato: fixar o olhar no brinquedo sonoro e acionar o botão do suíte de comunicação a dez centímetros de distância.

No pré – teste que é o objetivo a curto prazo, é onde vamos coletar as deficiências secundárias e organizamos o ambiente e a execução da tarefa, terapeuta ficou sentada no banco posteriormente, com o joelho em apoio medial posterior ao quadril do paciente, mãos em dorso do tronco superior da criança na postura ortostática, com os braços em abdução, flexão de cotovelos, rotação interna, flexão de punhos, paciente apresentou movimentação ativa dos
dedos, fixou os olhos no brinquedo e conseguiu acionar o suíte de comunicação a dez centímetros de distância usando ambas as mãos. No pré – teste visualizamos as deficiências secundárias e realizamos os testes qualitativos, onde nos levou a interpretar do porquê a criança não conseguir assumir algumas posturas, o porquê da cifose torácica ou o porquê da falta de controle de tronco e pescoço.

Então foi realizado planejamento do tratamento que é tratar as deficiências primárias mais relevantes vistas na criança, relacionadas com o objetivo a curto prazo e fazer as fases de tratamento que são: preparação, simulação, transferência (Manuseios) e pós – teste. Na preparação foi feito rolar a criança na bola com o incentivo de aumentar o alerta e ganhar amplitude de movimento nos braços e observar se havia alguma alteração visual ou vestibular;
na simulação a criança foi posta na postura ortostática, com suporte externo, apoio anterior, com supervisão da terapeuta, dando apoio posterior, sendo estimulado com brinquedo sonoro na altura dos olhos. Os manuseios realizados na criança foram: Rolo Inclinado Modificado (Figura A) (para ativação dos extensores de tronco, alongamento de adutores e também para mobilização pélvica lombar e femoral), paciente sentado no rolo inclinado com base de suporte, a cavalo com um rolo pequeno transversal apoiando os braços da criança, então uma das mãos
da terapeuta na caixa torácica na parte de trás e a outra mão na região da caixa torácica a frente e faz uma mobilidade para cima e para baixo; Corredor ( transição fêmur e quadril, para dissociação dos membros inferiores, alongamento de toda cadeia extensora de tronco, fortalecimento abdutores e adutores de glúteo, extensores e flexores de joelho) utilizando o rolo, paciente sentado de costas para o rolo, um braço do paciente esticado sobre o rolo, e terapeuta impulsiona – o pela caixa torácica com as duas mãos, faz ele virar de prono no rolo, leva – o
até a frente do rolo faz extensão de pelve, ficando com o rolo na transição entre o fêmur e o quadril, segurando o pela caixa torácica, deslizando – o para trás, ajoelha o paciente e uma mão da terapeuta na caixa torácica e a outra mão estende uma das pernas do paciente, e senta sobre o calcanhar da perna dobrada; Sentado sobre os calcanhares (incentivando a mobilidade de tronco em rotação; dissociação dos membros inferiores, alongamento dos extensores e flexores de quadril, extensor de tronco) início o mesmo do corredor, somente ao retornar separa as pernas do paciente e junta os pés para fazer rotação externa de fêmur e sentar a pelve sobre os calcanhares; Rotação de Tronco com Dissociação dos Membros Inferiores ( mobilidade de tronco em rotação, dissociação dos membros inferiores, suporte de peso no membro inferior a frente, alongamento extensores e flexores de quadril, dorsi flexores, extensor de tronco, adutor e fortalecimento de adutores, flexores de quadril, extensores de tronco, abdutores e adutores de
glúteo, extensores e flexores de joelho) criança sentada com um dos joelhos dobrado alinhado a noventa graus e a outra perna com suporte de base e a terapeuta atrás sentada a cavalo.  Terapeuta coloca as suas mãos na caixa torácica da criança e faz o rolo rolar, sendo que o rolo vai para um lado e o corpo da criança para o outro, fazendo a extensão da perna de trás e a perna da frente faz apoio a frente; Passar joelho para de pé (alongamento de extensores de cervical, flexores de quadril, mobilidade extensão de tronco, fortalecimento flexores de quadril, extensão de ombro, abdutores e adutores de ombro, abdutores e adutores de glúteo, extensão e flexão de joelhos) ; Transferência Antero Posterior Variação com uso da bola à frente para suporte dos membros superiores (ativar extensores da cervical e de troco) terapeuta sentada na maca ou no tablado com base de suporte criança à frente sentada na bola no centro (linha média) de costas para a terapeuta, uma bola pequena na barriga da terapeuta encostando nas costas da criança e a outra bola como apoio dos braços da criança, realiza movimento diagonal. Estimular para a criança fazer extensão de tronco.

Após os manuseios escolhidos para trabalhar as deficiências primárias, observadas no pré –teste em relação a um objetivo funcional específico, fez –se então o pós teste que pode ser realizado no mesmo dia ou em uma semana, a fim de avaliar a postura ou função no início e no final de um período. No pós – teste (Figura B) após uma semana do início da avaliação, o paciente foi colocado em postura ortostática com supervisão da terapeuta, auxilio das órteses nos membros inferiores, extensores nos membros inferiores, uso de rolos e uma mesa para apoio anterior. Foi colocado um brinquedo sonoro na altura dos olhos, com um suíte de comunicação. Terapeuta sentada no banco posterior ao paciente, com joelho em apoio medial e posterior ao quadril do paciente, mãos da terapeuta no dorso do tronco posteriormente. Paciente fixou o lhar no brinquedo e acionou o suíte de comunicação a uma distância um pouco mais de dez centímetros.

Discussão

Este estudo mostrou que a criança ganhou interesse e maior interação social, após as intervenções do Conceito nos atendimentos. A partir de alguns manuseios utilizados do Conceito Bobath, que continuam sendo importantes como uma chave na estratégia de intervenção para aquisição de habilidades motoras associado ao aprendizado e controle motor, observou-se que houve aprimoramento e fortalecimento de toda a musculatura na criança, resultando em melhor desempenho motor nas posturas sentado e de pé.

Os resultados obtidos levaram a entender que a espasticidade e os músculos espásticos que favorecem a rigidez dos membros como outros sintomas motores, não são tão responsáveis pela capacidade funcional anormal quanto a fraqueza muscular.15

A espasticidade é apenas um pequeno componente da desordem de movimento e é seletiva, afetando músculos específicos, ocorrendo um padrão predominante em crianças quadriplégicas espásticas com a postura flexora em membros superiores e um padrão extensor em membros inferiores. Podemos concluir que a espasticidade não é a mesma coisa que hipertonia, elas coexistem. A redução da espasticidade não é solução para promover eficácia no
tratamento, o movimento voluntário está presente e deve ser estimulado nos atendimentos.14,15

O fisioterapeuta tem um papel importante para o aumento do controle motor deste paciente, inserindo – o em atividades sociais, educacionais e laborais. Ao considerar a análise de tarefas, não somente entre o fisioterapeuta, mas também entre os profissionais que o atendem é necessário promover uma melhoria das habilidades residuais ou estabelecidas das sensações, percepções, nível de cognitivo e motivação da criança. A participação ativa da criança é
essencial para a ocorrência do processo de aquisição de uma habilidade motora.17

A atividade diária, manuseio dinâmico em direção ao mais funcional, preparação para função específica e a ação motora e suas áreas sensoriais, perceptivas e cognitivas do paciente continuam a ser diretrizes na abordagem com o Conceito Bobath. O Conceito privilegia uma compreensão aprofundada do desenvolvimento típico e atípico, e especialização em análise do controle postural, movimento, atividade e participação durante toda a vida, que formam a base para o exame, avaliação e intervenção.22

A fisioterapia com o uso do Conceito Bobath na criança espástica visa a desempenhar a melhora funcional, onde o que se trata é o músculo esquelético que é capaz de produzir força muscular. O terapeuta controla e guia a resposta motora da criança através do impulso sensorial, mas, vai gradualmente retirando sua ajuda à medida que a criança aprende a controlar seus movimentos sem ajuda.8

O trabalho com a família da criança mostra-se de suma importância, onde os familiares são orientados e instruídos na participação das atividades, de como serão os atendimentos e avaliações com o uso do Conceito Bobath. O terapeuta considera as atividades limitadas da criança mais importantes para a família e assim estabelece objetivos a curto, médio e longo prazo.

O fisioterapeuta pode complementar ao Conceito Bobath o uso de abordagens diferentes para satisfazer as necessidades únicas de cada criança. Abertura a outras estratégias, por exemplo, ao fazer uso de técnicas como contenção induzida, uso de esteira para fortalecimento muscular, órtese, gesso, dispositivos para resistência muscular, estimulação elétrica, entre outros, poderão agregar ao tratamento do paciente para atingir padrões motores desejáveis.

A maior parte dos fisioterapeutas têm obtido melhor resultado quando trabalha com as crianças no contexto do seu dia a dia, indo à casa da criança, à escola, aos locais comunitários, para proporcionar apoio à criança, aos pais e professores. A ideia de um tratamento eclético ou multimodal, onde o terapeuta seleciona aspectos de diferentes abordagens terapêuticas de tratamento que lhe parecem mais apropriados para com a necessidade do paciente, parece ser o futuro da reabilitação.

Conclusão

Diante dos dados obtidos nesse estudo conclui-se que após a introdução do Conceito Bobath nos atendimentos foi benéfica para criança pois houve ganho em algumas habilidades motoras, que ainda precisarão ser moldadas ao longo do tempo, mas foram expressivas, principalmente na postura sentado com apoio onde a criança mostrou extensão completa dos membros superiores fazendo suporte de peso com as mãos mantendo-as abertas, o alcance com as mãos a objetos lúdicos numa distância um pouco mais de dez centímetros e na postura de pé com supervisão, com apoio anterior e com o uso de suportes externos, apresentou maior equilíbrio de cabeça e tronco, habilidades que são e serão importantes para manter a qualidade de vida. A meta de tratamento deste Conceito nos casos de paralisia cerebral visa tanto quanto possível, o aumento das habilidades motoras do paciente, tendo aquisição de transferências e a diminuição das suas deficiências.

O fisioterapeuta deve estabelecer objetivos de tratamento, deve observar as necessidades da criança segundo sua idade, estado de saúde, família, ambiente físico, social e cultural e também os problemas secundários que vêm associados à paralisia cerebral. Pelo grande comprometimento motor, mesmo a fisiopatologia ocorrendo no sistema nervoso central, as deficiências se desenvolvem no sistema músculo esquelético, geralmente o paciente permanece longos períodos em tratamento. O objetivo é dar-lhe maior independência possível e integração dentro da sociedade produtiva.

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Artigo Públicado em: 27/05/2021



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