Digite sua palavra-chave

post

O método canguru como estratégia de humanização em saúde

O método canguru como estratégia de humanização em saúde

Introdução

Anualmente, em todo mundo, nascem aproximadamente 20 milhões de recém-nascidos (RNs) prematuros1,2 no Brasil esse número corresponde a 9,2% do total, fazendo com que essa população necessite do aporte de cuidados oferecidos pelas Unidades de Terapia Intensiva Neonatais (UTINs)3.

Diante desse contexto, a assistência ao RN é um dos objetivos centrais em relação a reformulação dos cuidados intensivos, ou seja, rompendo a prática assistencialista e adotando medidas em que a família possa ser inserida no tratamento do neonato4.

Seguindo esse novo conceito de abordagem terapêutica, o Método Mãe Canguru (MMC) é uma assistência que aumenta o vínculo mãe e filho, devido ao contato pele a pele e que promove grandes benefícios 5. Método esse criado em Bogotá, em 1979, na Colômbia, com objetivo de reduzir as superlotações UTINs e diminuir a mortalidade infantil 6.

Diante dessa experiência, as evidências científicas observaram que a presença contínua da mãe junto ao Rn, além de proporcionar o calor e leite materno, trazia outras vantagens como menor tempo de internamento e redução da exposição a infecções hospitalares, como também um melhor desenvolvimento integral da criança7.

Ao longo desses anos, vários países adotaram o MMC nos serviços de saúde. No Brasil, o hospital pioneiro a aplicar esse método foi o Hospital Guilherme Álvaro, em 1992, e em seguida, no ano de 1993, o Instituto Materno-Infantil de Pernambuco (IMIP)8. Em 2000, foi promulgada a Portaria MS/GM 693, publicação da Norma de Atenção Humanizada ao RN de baixo peso, tendo como objetivo a inserção deste método como uma estratégia de humanização ao Rn3.

O método se aplica em três fases: a primeira fase é após o nascimento do recém-nascido de baixo peso na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN), no qual a mãe é informada sobre o estado de saúde do seu filho, a dinâmica em relação as rotinas e como funciona a UTIN e de que maneira se inicia o contato pele a pele com seu bebê. A segunda fase ocorre a partir do momento em que o Rn encontra-se com a saúde estabilizada, e é transferido para um alojamento conjunto, é nessa fase que se introduz o método canguru, período pré-alta hospitalar. A terceira fase período de alta hospitalar do bebê e a mãe dá continuidade ao MMC em seu lar, no qual terá um acompanhamento ambulatorial até o bebê atingir 2.500g9.

O MMC tem como foco a assistência humanizada, configurando de não quebrar o vínculo família e bebê. Dessa forma, os pais participam dos cuidados intensivos, possibilitando uma visão diferenciada em meio ao contexto de internamento do Rn na UTIN em uma gratificação e superação. Este trabalho tem como objetivo realizar uma revisão da literatura sobre o Método Canguru e analisar o resultados quando adotados nos serviços de saúde.

Metodologia

Tratou-se de uma revisão sistemática de literatura através de artigos científicos, foram utilizadas palavras chaves que se encontram no DeCS (Descritores em Ciências da Saúde): Método Canguru, Unidade de Terapia Intensiva Neonatal, Recém-Nascido. Para pesquisa dos artigos foi utilizado o banco de dados Scielo. Os critérios de inclusão foram artigos de revisão que retrataram o MMC, história, benefícios, humanização, indicação e contraindicação e os critérios de exclusão artigos que não se relacionavam com a temática.

Resultados

Após a análise realizada na base de dados Scielo, 61 artigos foram encontrados, 15 deles foram excluídos por apresentarem duplicidade em bases de dados e por não possuírem o delineamento metodológico a ser incluído. Conforme pormenorizados no fluxograma da Figura 1, na seleção final, foram incluídos apenas 26 artigos que contemplaram os critérios metodológicos estipulados para o desfecho pretendido.

Discussão

Programas voltados para a intervenção precoce em recém-nascidos pré-termo vêm trazendo evidências substanciais de que melhoram a interação da criança com o meio ambiente através de estímulos táteis, vestibulares, cinestésicos, proprioceptivos, auditivos e visuais. Essas intervenções se baseiam em promover condições para que o neonato se auto-organize, através da interação com os pais, cuidadores e o meio, em busca respostas próximas ao padrão de normalidade e da inibição de movimentos e posturas anormais10.

Diante das condições clínicas de um recém nascido doente, onde em sua maioria necessita do suporte oferecido pelas UTINs, ocorre a separação do bebê de sua família, principalmente de sua mãe, podendo interferir negativamente na
formação dos laços afetivos e consequentemente no desenvolvimento psicoemocional desse bebê8.

Em busca da redução da mortalidade infantil o ministério da saúde vem investindo no atendimento pré-natal e perinatal, nesse sentido em 2000 foi criada a portaria que recomenda a atenção humanizada ao recém-nascido de baixo peso, através do Método Mãe-Canguru11.

Através do MMC ocorre o incentivo e a valorização da presença e da participação da mãe e da família na unidade neonatal. Tendo um papel importante para assegurar a saúde do bebê de baixo peso, após a alta hospitalar, tanto pelo fortalecimento do vínculo afetivo que oferece, como também pelos estímulos fisiológicos, neuropsicomotores e pelas altas taxas de amamentação que proporciona12.

Em um estudo que avaliou 33 mães que realizaram o contato pele a pele com seus bebês prematuros e um grupo controle, observaram uma tendência a maior estabilidade emocional nas mães que utilizaram essa prática13. Relataram também maior sentimento de confiança e competência em comparação com as mães dos bebês que receberam cuidados convencionais, o mesmo foi relatado em mais duas pesquisas envolvendo o método14,15.

Ao se analisar 488 mães de bebês prematuros foi observado que aquelas que realizaram o MMC se sentiram mais competentes e apresentaram melhor percepção das competências do bebê16. Além de apresentarem menos sentimentos de estresse quando a estadia hospitalar foi prolongada. Colaborando com a pesquisa na qual se
destacou que pais que participaram de um programa Canguru apresentaram melhor relação com o bebê, como também melhor aceitação dos cuidados recebidos pelo bebê na UTI e maior segurança nos cuidados17.

linguagem depende também do sistema de regulação, já que quando há maior tempo em alerta, há mais chances de se estabelecer contato físico e comunicação com a mãe, se supondo que recém nascidos colocados na Postura Canguru e em conjunto com outros fatores, influenciaria na aquisição da linguagem19.

Quando avaliados os sinais vitais foi relatado que o MMC promove alterações benéficas nos RNPT como o aumento da saturação periférica de oxigênio, melhora da temperatura corporal, além da melhora na oxigenação tecidual
e redução na frequência respiratória20, indo de encontro com os achados da pesquisa que avaliou as respostas fisiológicas, a partir da frequência cardíaca, saturação periférica de oxigênio, frequência respiratória e temperatura corporal, em bebês pré-termos colocados em decúbito ventral elevado em incubadoras e aqueles submetidos à Posição Mãe-Canguru. Sendo possível observar um aumento significativo da frequência cardíaca, da saturação de oxigênio e da temperatura axilar do grupo Posição Mãe-Canguru quando comparado ao grupo posicionado em
incubadoras21.

Quando avaliado os benefícios neurossensoriais do MMC, foi visto que bêbes prematuros colocados na postura apresentaram melhor desenvolvimento mental e melhores índices em testes de motricidade, além de menor tempo de duração do choro e no padrão de consolabilidade e períodos de sono mais profundos22. Outro aspecto sobre o
desenvolvimento do bebê prematuro se refere às alterações neurológicas no tônus muscular que variam de 36 a 83% durante o primeiro ano de vida, sendo dependente do peso e idade gestacional23.

No quesito aleitamento materno, na Suécia, realizaram um estudo randomizado controlado com 71 bebês prematuros com peso de nascimento inferior a 1.500g e verificaram que, na sexta semana de vida, os bebês que realizaram o MMC as taxas de aleitamento materno foram duas vezes maior que os do grupo controle24. Sendo semelhante aos achados em Nova Déli, Índia, em um estudo com 28 bebês prematuros, em que a frequência de aleitamento na sexta semana de vida foi de 85,7% para os bebês submetidos ao MMC contra 42,8% para os controles
25.

Para se analisar o impacto orçamentário da utilização do método Mãe- Canguru no cuidado neonatal, foi realizado um estudo sob a perspectiva do SUS prestador de serviços na rede municipal de saúde do Rio de Janeiro, em 2011. Onde foram incluídas as seis maternidades que oferecem cuidado ao RN de risco sob administração direta da Secretaria Municipal de Saúde, sendo as mesmas responsáveis por cerca de 60% dos nascimentos de baixo peso ao nascer, no município. Ao fim do estudo foi concluído que a utilização do MMC significou redução de gastos equivalente a 16% em um ano, representando menor custo quando comparado com a Unidade Intermediária Neonatal, tratando-se de um método de baixo custo e que representa impacto positivo no público neonatal de baixo peso26.

Conclusão

De acordo com a literatura revisada pode-se concluir que o Método Canguru trás benefícios diversos para recém-nascidos de baixo peso, ampliando o foco da atenção trazendo o prematuro para o contexto de sua família, atuando na auto- organização, influenciando no desenvolvimento psicoemocional e psicomotor dos mesmos, além dos benefícios fisiológicos decorrentes do uso do método.

Contribuindo também para a redução de gastos do Sistema Único de Saúde, quando comparado com as despesas de uma UTI intermediária, merecendo grande incentivo por se tratar de um método simples, eficaz e de baixo custo, podendo ser aplicado em qualquer hospital.

Referências Bibliográficas

1. Neves PN, Ravelli APX, Lemos JRD. Atenção humanizada ao recém-nascido de baixopeso (método mãe canguru): percepções das puérperas. Rev Gaúc ha Enferm. [periódico na internet], 2010[acesso em 2017 Fev 18]; 31(1):48-54. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rgenf/v31n1/a07v31n1.pdf.

2. Azevedo CES. Bases da pediatria. 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Rubio; 2013. R01.

3. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção a Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Atenção humanizada ao recém-nascido de baixo peso: método Canguru: manual técnico. Brasília: Ministério da Saúde; 2013.

4. Braga P, Sena RR. Cuidado e diálogo: as interações e a integralidade no cotidiano da assistência neonatal. Rev Rene. 2010;11(N Esp):142-9.

5. Gesteira ECR, Braga PP, Nagata M, Ferreira L, Santos C, Hobl C, Ribeiro BG. Método Canguru: benefícios e desafios experienciados por profissionais de saúde. Rev enferm ufsm, 2016 out/dez.;6(4): 518-528.

6. Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Políticas de Saúde. Área de Saúde da Criança. Atenção humanizada ao recém-nascido de baixo peso: método mãe-canguru: manual do curso/ Secretaria de Políticas de Saúde. Área da saúde da Criança.- 1° edição.- Brasília: Ministério da Saúde, 2002.

7. Lamy ZC, Gomes MASM, Gianini NOM, Hennig MAS. Atenção humanizada ao recémnascido de baixo peso – Método Canguru: a proposta brasileira. Ciência e Saúde Coletiva.10(3) 659-668.2005.

8. Venancio SI, Almeida H. Método Mãe Canguru: aplicação no Brasil, evidências científicas e impacto sobre o aleitamento materno. Jornal Pediatria. 2004; 80:173-80.

9. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Relatório sobre o Método Canguru desde sua implantação até os dias atuais, com critério para prosseguimento e expansão do projeto, incluindo a capacitação de recursos humanos. Brasília: Ministério da Saúde; 2009.

10. Olmedo MD, Gabas GS, Merey LSF, Souza LS, Karla de Toledo Candido Muller KTC, Santos MLM, Marques CF. Respostas fisiológicas de recém-nascidos pré-termo submetidos ao Metódo Mãe-Canguru e a posição prona. Fisioter Pesq. 2012;19(2):115-121.

11. Maia FA, Azevedo VMGO, Gontijo FO. Os efeitos da posição canguru em resposta aos procedimentos dolorosos em recém-nascidos pré-termo: uma revisão da literatura. Rev Bras Ter Intensiva. 2011;23(3):370-3.

12. Furman L, Kennell J. Breast milk and skin-to-skin kangaroo care for premature infants. Avoiding bonding failure. Acta Paediatr 2000; 89:1280-3.

13. Affonso DD, Wahlberg V, Persson B. Exploration of mothers reactions to the Kangaroo method of prematurity care. Neonatal Netw. 1989;7:43-51.

14. Reichert AP, Pereira WS, Silva MV. Vivências de mães no programa mãe Canguru. Rev Bras Cienc. 2002;6:51-6.

15. Charpak N, Figueroa de Calume Z. O método Mãe Canguru – Pais e familiares dos bebês prematuros podem substituir as incubadoras. Rio de Janeiro: McGraw Hill Interamericana do Brasil Ltda.; 1999.

16. Tessier, R; Cristo M, Velez S, Giron M, Figueroa-de-calume Z, Ruiz-pelaez J G, Charpac Y, & Charpac N. 1998. Kangaroo Mother Care and the Bonding Hypothesis.<http://www.pediatrics.org/cgi/content/full/102/2/e17>. [ Links ]

17. Rapisardi G, Vohr B, Cashore W, Peucker M, Lester B. Assessment of infant cry variability in high-risk infants. J Pediatr Otorhinolaryngol. 1989;17:19-29.

18. Nunes CRN, Campos LG, Lucena AM, Pereira JM, Costa PR, Lima FAF, Azevedo VMGO. Relação da duração da posição canguru e interação mãe filho pré termo na alta hospitalar. Rev Paul Pediatr. 2017;35(2):136 143.

19. Seidl de Moura ML, Mendes DM, Pessôa LF, Marca RG. Regulação dos estados de vigília de bebês (um e cinco meses) em contextos didádicos mãe bebê. Psicologia em Pesquisa. 2011;5:51 60.

20. Almeida CM, Almeida AFN, Forti EMP. Efeitos do Método Mãe Canguru nos sinais vitais de recém nascidos pré-termo de baixo peso. Rev Bras Fisioter. 2007;11(1):1-5.

21. Milstersteiner AR, Milstersteiner DR, Rech VV, Dalle molle l. Respostas fisiológicas da posição mãe-canguru em bêbes pré-termos, de baixo peso e ventilando espôntaneamente. Revista brasileira de saúde materno infantil, recife, 2003; 3(4): 44-445.

22. Feldman R, Eildeman AL, Sirota L, Welle A. Comparison of skin to skin (kangaroo) and traditional care: parenting outcomes and preterm infant development. Pediatrics. 2002;110:16-26.

23. Toma TS. Da intuição às políticas públicas: a jornada para incorporação do Método Canguru no cuidado ao recém-nascido de baixo peso. BIS, Bol. Inst. Saúde (Impr.) vol.13 no.3 São Paulo, jul. 2012.

24. Whitelaw A, Heisterkamp G, Sleath K, Acolet D, Richards M. Skin-to-skin contact for very low birth weight infants and their mothers. Arch Dis Child. 1988;63:1377-81.

25. Ramanathan K, Paul VK, Deorari AK, Taneja U, George G. Kangaroo Mother Care in very low birth weight infants. Indian J Pediatr. 2001;68:1019-23.

26. Entringer AP, Pinto MT, Magluta C, Gomes MADM. Impacto orçamentário da utilização do Método Canguru no cuidado neonatal. Rev Saúde Pública. 2013;47(5):976-83.

Artigo públicado em: 03/06/2021



Conteúdo Relacionado

Sem comentários

Adicione seu comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.

Open chat
Olá! Seja bem-vindo(a). Se tiver alguma dúvida, me procure. Estou a disposição para te ajudar.