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A Utilização da Terapia Espelho no Tratamento do Membro Superior de Indivíduos Acometidos por Acidente Vascular Cerebral

A Utilização da Terapia Espelho no Tratamento do Membro Superior de Indivíduos Acometidos por Acidente Vascular Cerebral

INTRODUÇÃO

O acidente vascular cerebral (AVC) ocorre devido uma disfunção vascular, que pode atingir diferentes áreas do encéfalo, sendo de origem hemorrágica ou isquêmica, podendo trazer aos sobreviventes possíveis danos neurológicos e/ou déficits sensório-motores. (PEREIRA et al., 2013; BRUNETTIA et al., 2015). Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a população mais comumente afetada são indivíduos idosos entre 64 a 74 anos de idade de ambos os sexos. Em média 80% dos casos de AVC são isquêmicos, e 20% são hemorrágicos provenientes de patologias vasculares prévias (PEREIRA et al., 2013, CONCEIÇÃO et al., 2012).

As seqüelas deixadas podem ser variáveis, dependendo do grau e área de acometimento, incluindo alterações sensitivas, cognitivas e/ou motoras. A principal delas é a hemiplegia/ hemiparesia. O membro superior acometido pode ter alterações na sensibilidade, na força, no sinergismo, na coordenação motora, grande incapacidade e/ou dificuldade nas atividades de vida diária (AVD’s), perda da destreza manual, padrões anormais de movimento, ajustes posturais inadequados e descondicionamento físico (COSTA et al, 2016; THIEME et al., 2012).

A fisioterapia pode atuar com ênfase na hemiparesia. A reabilitação após lesão encefálica deve ser iniciada o quanto antes, sendo o tempo entre a instalação da lesão e início da reabilitação grande influenciador no retorno das funções motoras e sensitivas, e na recuperação da função neuronal (PEREIRA et al., 2013; THIEME et al., 2012). Sabe-se que após uma lesão no Sistema Nervoso Central (SNC) no adulto, ocorre modificações em suas sinapses e circuitos neuronais. As atividades fisioterapêuticas têm efeito direto na integridade e na reorganização de regiões adjacentes não lesadas do córtex motor, estimulando assim a neuroplasticidade. Quando o córtex cerebral se torna desorganizado pela lesão e/ ou quando ocorre mudança na via de informação, a reorganização cortical é possível com o auxílio de sistemas de membros virtuais (LUNDY-EKMAN, 2008).

Uma das técnicas utilizadas para estimular a plasticidade neuronal é a terapia espelho (ROSSITER et al., 2014). Além disso, o uso da terapia espelho está baseado na descoberta dos neurônios-espelho, localizados na região frontotemporal, giro temporal superior e lobo parietal inferior (área correspondente ao sulco intraparietal). Estes neurônios estão em atividade quando o indivíduo realiza uma
atividade motora e como quando observa uma atividade motora similar de outro. Desta forma, estes neurônios são ativados durante a terapia espelho melhorando assim a motricidade e destreza (MEDEIROS et al., 2014; COSTA et al., 2016).

A terapia espelho ou técnica Mirror Visual Feedback (MVF), foi criada por Ramachandran e Rogers- Ramachandran para tratar o desconforto e dor de membros fantasmas de indivíduos amputados (CONCEIÇÃO et al.,2012; DOHLE et al., 2009; COLOMER et al., 2016)). Era colocado um espelho em sobreposição que refletia o membro íntegro como se fosse o membro amputado, impondo ao córtex pré-motor uma percepção de dois membros íntegros, ajudando a reorganizar os estímulos perceptuais, visuais e uma reorganização cortical através do feedback visual, o que interrompia o ciclo da dor, melhorava a força muscular e as incapacidades funcionais. Em indivíduos diagnosticados com AVC, a terapia espelho pode melhorar a percepção sensorial do membro parético, auxiliando na interação com o mesmo, e revertendo ou minimizando assim possíveis sequelas comuns. (RADAJEWSKA et al., 2016; RODRIGUES et al., 2016). A utilização da imagem motora pela terapia espelho, pode favorecer habilidades para o membro acometido por meio de um feedback externo com uso do espelho, e um feedback interno com a prática mental em conjunto com a realização movimentos funcionais como visto na figura 1 (ARYA K. N., 2016; OLIVEIRA et al., 2014).

FIGURA 1: Paciente realizando terapia espelho (DOHLE et al., 2009)

Entretanto, faz-se necessário mais pesquisas que detalhem as características da utilização deste método nesta população. Sendo assim, o objetivo deste estudo foi realizar um levantamento de dados sobre a eficácia da utilização da terapia espelho em paciente hemiparéticos acometidos por AVC.

MATERIAIS E MÉTODOS

Esta revisão de literatura foi realizada em bases de dados eletrônicas: Medical Literature Analysis and Retrieval Sistem Online (MedLine) e Scientific Electronic Library Online (SciELO). Foram utilizados em diferentes combinações as seguintes palavras-chave: “terapia espelho”, “acidente vascular cerebral”, “fisioterapia”, “reabilitação”, “mirror therapy”, “stroke”, “physiotherapy”, “rehabilitation”. Estudos adicionais foram identificados por pesquisa manual das referências obtidas nos artigos. A pesquisa foi limitada às línguas inglesa e portuguesa, com textos completos disponíveis. Os artigos cujos títulos e/ou palavras-chave continham tais descritores foram selecionados para a segunda etapa da pesquisa que consistiu da leitura dos resumos. Os que abordavam o uso terapia espelho em pacientes hemiparéticos acometidos por AVC foram lidos na íntegra e acrescentados a este trabalho. Publicações que envolviam o uso da terapia espelho juntamente com outras técnicas que não terapias convencionais utilizadas rotineiramente na reabilitação do AVC foram excluídos. A busca foi realizada entre 01 de junho à 01 de julho de 2018, e foram aceitos trabalhos publicados nos bancos de dados supracitados nos períodos de 2008 à 2018.

Foram encontrados quinze artigos relevantes na etapa de busca, do qual um foi excluído por ter sido realizada terapia espelho para tratamento somente da dor, um foi excluído por não apresentar texto completo disponível e outro por realizar terapia espelho em indivíduos sadios. Doze artigos foram selecionados para segunda etapa. As informações sobre estes artigos encontram-se no Quadro 1, com suas características descritas e em ordem cronológica.

YAVUZER et al. (2008) realizaram estudo randomizado, controlado, cego por avaliação, com duração de quatro semanas e posteriormente reavaliados após um período de seis meses. A pesquisa tinha por objetivo, avaliar os efeitos da terapia com espelho na recuperação motora do membro superior, espasticidade e destreza manual em pacientes acometidos por AVC. Como critério de inclusão foram considerados pacientes com evento de origem cerebrovascular de mais de 24 horas, diagnosticados com AVC hemorrágico ou isquêmico sendo esse o primeiro episódio, sem distúrbios
cognitivos, capazes de compreender as instruções. Foi aplicado o Mini Exame de Estado Mental para seleção cognitiva dos indivíduos. Foram utilizados outros critérios de avaliação como: os estágios de recuperação motora de Brunnstrom, espasticidade avaliada pela Escala de Ashworth Modificada e funcionamento relacionado à mão (itens de autocuidado do instrumento Medida de Independência Funcional). Foram selecionados 48 pacientes, sendo 8 excluídos devido a déficits cognitivos graves, negligências e/ou apraxias. Ao final, um total de 40 pacientes hemiparéticos, com idade média de 63,2 anos, internados, acometidos por AVC dentro de um período de doze meses, foram divididos em dois grupos de maneira aleatória, sendo o grupo experimental (N=20) realizaria a terapia espelho além da terapia convencional, enquanto o grupo controle (N=20) realizaria apenas a terapia convencional. O programa consistia em trinta minutos de terapia espelho por dia consistindo de movimentos de flexão e extensão do punho e dedo ou terapia simulada, além do programa convencional de reabilitação do AVC com frequência cinco dias por semana, duas a cinco horas por dia, durante quatro semanas. O grupo de indivíduos com AVC subagudo, que recebeu terapia espelho além da terapia convencional, apresentou melhora no movimento funcional da mão quando comparado com o grupo que recebeu apenas a terapia convencional quando reavaliados imediatamente após as quatro semanas de intervenção, e também quando reavaliados após seis meses que receberam o tratamento. A terapia espelho não alterou a espasticidade.

MICHIELSEN et al. (2010) realizaram um ensaio clínico controlado aleatório, avaliando os efeitos da terapia espelho e subsequente reorganização cortical provenientes da intervenção. Foram selecionados 40 indivíduos do Centro de reabilitação de Rijindam, em Roterdã, na Holanda, onde os critérios pra inclusão no estudo foram : escore de Brunnstron para a extremidade superior, extensão voluntária da amplitude total, pelo menos um ano de AVC, capacidade de realizar movimento de apertar a mão, sem implantes de metal. Foram excluídos pacientes heminegligentes, com comorbidades que influenciam na mobilidade articular e história de outros acidentes vasculares. Todos os participantes foram selecionados de forma aleatória para o grupo experimental (N=20) e grupo controle (N=20). Ambos os grupos realizaram a intervenção uma hora por dia, cinco vezes por semana, e receberam treinamento por seis semanas. A avaliação motora foi feita pela escala de Fugl-Meyer, sendo avaliada a força de preensão, a espasticidade, dor, a destreza, AVD’s e a qualidade de vida logo após a intervenção e posteriormente seis meses após intervenção. Alterações nas ativações neurais foram avaliadas mediante Ressonância Magnética Funcional no início e após o tratamento. Foi observado que o grupo experimental que utilizou a terapia espelho, teve uma maior melhora do que o grupo controle na reavaliação da escala de Fugl-Meyer, mas essa melhora não persistiu após os seis meses. Na Ressonância, foi mostrada uma mudança no equilíbrio de ativação dentro do córtex motor primário em direção ao hemisfério afetado somente no grupo experimental que utilizou o espelho após os seis meses. Este ensaio demonstrou a eficácia da terapia espelho na reorganização cortical.

THIEME et al. (2012) em sua revisão sistemática, resume a eficácia da terapia espelho para melhorar a função motora após AVC. Foram selecionados 14 estudos com 567 indivíduos que compararam a terapia espelho com outras intervenções. Foram incluídos no trabalho, ensaios clínicos e ensaios randomizados cruzados comparando a terapia espelho com qualquer outra intervenção para pacientes com AVC. Dois revisores selecionaram os estudos com base nos critérios de inclusão, documentaram a qualidade metodológica e coletaram os dados. Verificaram que a terapia espelho deve ser aplicada ao menos como intervenção adicional na reabilitação, mas não concluíram porém, se a terapia espelho pode substituir outras intervenções.

CONCEIÇÃO et al. (2012) em sua revisão sistemática, coletaram nas bases de dados LILACS, MEDLINE, SciELO e PubMed, estudos dos últimos 12 anos. Foi tido como critério de inclusão esse trabalho: estudo clínico randomizado-controlado, indivíduos com diagnóstico de AVC, realizando fisioterapia, ter utilizado a terapia com espelho; ter nota mínima quatro na escala PEDro, estar escrito nos idiomas português, inglês ou espanhol. Após a busca, vinte e cinco artigos foram encontrados para uma possível inclusão na pesquisa, sendo que dezenove foram excluídos pelos seguintes critérios: seis não eram compatíveis com a amostra, oito não correspondiam à terapia por exercício utilizando espelho; um não abordava tratamento, cinco eram artigos de revisão ou estudo de caso. Foram então incluídos no estudo, cinco artigos que atenderam aos critérios. A qualidade metodológica utilizada foi a escala de PEDro. A terapia espelho se mostrou benéfica para recuperação motora bem como a plasticidade neural.

PEREIRA et al. (2013) realizou um estudo com desenho experimental de único caso, selecionando um indivíduo do ambulatório de fisioterapia do Hospital Universitário Samuel Libânio na cidade de Pouso Alegre – MG, do sexo feminino de 65 anos, hemiparética espástica com predomínio braquial por AVC isquêmico a 84 meses, com cognição preservada vista pelo Mini Exame do Estado Mental. A avaliação foi
realizada com a Escala Motor Activity, escala de Fugl-Meyer. A intervenção consistiu em 15 sessões com duração de uma hora, sendo realizada a terapia espelho três vezes na semana, em um protocolo chamado “shaping”, que consite em uma série de atividades funcionais, que estimula desde os movimentos de pinça até os movimentos mais grosseiros. Observaram melhoria no tempo da realização das atividades funcionais

INVERNIZZI et al. (2013) avaliaram se a adição de terapia de espelho à terapia convencional pode melhorar a recuperação motora do membro superior em pacientes com AVC subagudo. Para isso, realizaram um estudo prospectivo, unicêntrico, simples-cego, randomizado e controlado. O Action Research Arm Test foi a principal medida de desfecho. O Índice de Motricidade e a Medida de Independência Funcional foram os desfechos secundários. Os critérios de inclusão para a pesquisa foram: hemiparesia em decorrência de AVC, documentado único evento por tomografia computadorizada, tempo de AVC menor que quatro semanas, ausência de déficit de atenção grave. Como critério de exclusão foram considerados: mais de um episódio de AVC, diagnóstico de AVC hemorrágico, afasia global, distúrbios de cognição que interfiram na compreensão (utilizada o Mini Exame de Estado Mental), doenças progressivas do SNC, desordens do sistema nervoso periférico ou miopatias. Foram selecionados 26 indivíduos com AVC subagudo (tempo de AVC <4 semanas) com paresia do membro superior (Índice de Motricidade ≤ 77), encaminhados para uma Unidade de Medicina Física e Reabilitação. Os indivíduos foram divididos de forma aleatória em dois grupos: Sendo que um grupo recebeu além da terapia convencional (N=13), trinta minutos de tratamento simulado sem espelho, e o outro grupo realizava além da terapia convencional, trinta minutos de terapia com espelho (N=13). Ambos os grupos demonstraram melhorias estatisticamente significativas em todas as medidas variáveis (P<0,05) após um mês de intervenção. Porém, o grupo que realizou a terapia espelho tiveram maiores melhorias nos valores de Action Research Arm Test, Índice de Motricidade e a Medida de Independência Funcional, verificando que a terapia com espelho é um método eficiente para a recuperação motora do membro superior em pacientes com AVC subagudo.

SAMUELKAMALESHKUMAR et al. (2014) realizaram um estudo randomizado, controlado, cego pelos avaliadores, onde investigaram a eficácia da terapia espelho para melhorar o desempenho motor do membro superior parético após AVC. Os critérios de inclusão foram: pacientes com idades entre 18 e 60 anos, diagnosticados com AVC hemorrágico ou isquêmico (primeiro evento), com menos de
seis meses desde o início do estudo. As medidas de avaliação foram: avaliação da Fugl-Meyer da Extremidade Superior para recuperação motora, estágios Brunnstrom de recuperação motora para o braço e mão, Teste de Caixa e Bloco para destreza manual grosseira e escala de Ashworth modificada para avaliar a espasticidade, Mini Exame de Estado Mental para avaliar a capacidade cognitiva adequada para seguir instruções e relatar qualquer efeito adverso durante a aplicação da atividade. Após triagem inicial, foram selecionados vinte e um indivíduos, para serem incluídos no estudo, sendo que um optou em não participar. Esses indivíduos foram divididos de forma aleatória em dois grupos: o grupo controle que receberia um programa de reabilitação multidisciplinar, incluindo terapia ocupacional convencional, fisioterapia e terapia fonoaudiológica por cinco dias na semana, seis horas por dia, durante três semanas. Indivíduos do grupo da terapia espelho, receberiam além da reabilitação convencional, uma hora de terapia espelho. Os resultados foram que o grupo que recebeu terapia espelho combinada com a terapia convencional para AVC, foi mais eficaz no desempenho motor do membro superior parético em comparação com o grupo que recebeu apenas a terapia convencional.

No trabalho de MEDEIROS et al. (2014), foram estudados os efeitos da terapia espelho por meio de atividades funcionais e padrões motores na função do membro superior no hemiparético crônico. Este estudo do tipo quase-experimental, randomizado e cego, com indivíduos após AVC, foi realizado em residentes na cidade de Santa Cruz (RN), que foram recrutados por meio do Estudo da Prevalência e Fatores. As medidas de avaliação, foram dadas pela Escala de Desempenho Físico Fugl-Meyer, Medidas de Independência Funcional, Mini Exame do Estado Mental para detectar ausência de distúrbios cognitivos que impedissem a compreensão e execução das atividades e deambulação com bom equilíbrio pela escala de equilíbrio de Berg. Os indivíduos foram avaliados pelas medidas supracitadas e por uma avaliação sociodemográfica. (dados pessoais: nome, sexo, idade, estado civil e dados clínicos: diagnóstico clínico, tipo de lesão, lado acometido). Foi tido como critério de inclusão para esse estudo: indivíduos com idade superior a 18 anos, diagnosticados com único AVC, unilateral em fase crônica, hemiparéticos. Como critério de exclusão, aqueles que apresentassem doenças neurológicas prévias, deficiências físicas ou mentais associadas, AVC de origem traumática, dor e contratura articular no membro superior que impedisse a execução das atividades. Foram avaliados inicialmente 20 pacientes com sequela de AVC, dos quais somente 6 atendem a todos os critérios de inclusão. Os seis
pacientes foram divididos de modo aleatório e igualitário em grupo de atividades funcionais (GAF), que eram instruídos a executar movimentos baseados em atividades funcionais como: encaixe, transferência e o empilhamento de objetos; e grupo de padrões motores (GPM) instruídos a executarem movimentos baseados dentro dos padrões motores normais (flexão e extensão de punho, flexão e extensão de dedos, abdução e adução de dedos, pronação e supinação de antebraço e extensão de cotovelo, sem relacioná-las à atividades funcionais). Cada indivíduo foi avaliado e tratado individualmente no ambiente domiciliar, com quinze sessões de terapia de espelho, três vezes na semana com duração total de cinquenta minutos. Não houve diferença estatística entre o pré e pós tratamento para ambos, com valores significativos na Medida de Independência Funcional. Foi verificado nesse estudo que independente da execução de atividades, se funcionais ou padrões motores de movimento, existe melhora funcional em ambos grupos tratados com a terapia espelho.

LIMA et al. (2015) investigaram a eficácia da terapia espelho na motricidade do membro superior de dois indivíduos. Foi realizado um estudo longitudinal, prospectivo, quantitativo, experimental, tendo como critérios de inclusão: indivíduos com mais de 18 anos de idade, sequela e comprometimento unilateral do membro superior por AVC. Foram excluídos os indivíduos que apresentassem qualquer comprometimento visual ou déficit cognitivo para realizações das condutas (através do Mini Exame do Estado Mental). Os indivíduos foram avaliados pela escala Fugl-Meyer de Avaliação dos Membros Superiores. Foram reavaliados por meio desta mesma escala após o período de intervenção proposto por um avaliador cego. Foi selecionado um indivíduo do sexo feminino de 41 anos, com diagnóstico de AVC isquêmico a oito anos da data de publicação do estudo. Apresentava no momento da avaliação, boa mobilidade e independência para realização de marcha e atividades diárias, mas com déficit para motricidade motora fina e grossa com membro superior acometido. O segundo indivíduo é do sexo masculino, 36 anos, com diagnóstico de AVC hemorrágico a cinco anos desde a data de publicação do estudo. Apresentava no momento da avaliação déficit de força e coordenação motora em membros inferiores do lado acometido, realizando porém marcha e atividades diárias de forma independente. Não possuía espasticidade no lado acometido. Ambos os indivíduos informaram não estar realizando qualquer outra intervenção para membros superiores de maneira a não intervir nos resultados obtidos. Ambos foram submetidos a dez sessões de terapia espelho, com frequência de duas vezes por semana, realizados no Ambulatório de Fisioterapia do Hospital Universitário Lauro Wanderley, onde realizavam alongamentos passivos de grupos musculares (flexores e extensores de ombro, cotovelo, punho e dedos), e mobilização passiva das mesmas articulações. Posterior a isso, realizaram cinco atividades voltadas para tarefas funcionais na caixa espelho, onde a mão refletida era o membro superior não acometida como se fosse o membro superior parético. Foi observada que a terapia espelho proporcionou ganhos satisfatórios em ambos os indivíduos com melhora na motricidade fina, aumento da atividade motora grossa para mobilização de ombro, diminuição de tempo para execução de tarefas.

MOTA et al. (2016) em seu estudo experimental selecionou todos os pacientes com sequelas motoras provenientes de AVC, atendidos na Faculdade ASCES e na Unidade de Prestadores de Serviços – Casa Henrique, incluíndo porém, somente aqueles que obtinham algum tipo de limitação nas habilidades funcionais e amplitude ativa de movimento de punho e cotovelo. Foram excluídos aqueles com deformidades de punho e cotovelo que restringisse a movimentação, aqueles que apresentassem outras lesões neurológicas, com doenças que oferecessem limitações da mobilidade articular ou com deficiências cognitivas e/ou visuais que impedissem a compreensão dos comandos. Foram selecionados 10 pacientes previamente avaliados quanto à amplitude de movimento, flexo-extensão do punho e cotovelo, goniometria, escala modificada de Ashworth, escala de Fulg-Meyer e índice de Barthel, sendo reavaliados após 15 dias de intervenção. As condutas foram realizadas em 15 sessões, sendo cada uma delas por 30 minutos. Os exercícios consistiam em alongamento muscular do flexor e extensor do punho e cotovelo, pronadores e supinadores, e terapia espelho. Foram realizadas atividades funcionais no membro sadio refletidos no espelho como se fosse o membro parético. Foi observada melhora em todos os aspectos estudados com diferenças significativas principalmente para a supinação do punho e antebraço, concluindo que a terapia com espelho teve bom desempenho nos pontos estudados, principalmente quando relacionados a amplitude de movimentos do membro afetado.

Na revisão sistemática de COSTA et al. (2016), foi realizada coleta de trabalhos nas bases de dados SciELO, LILACS, PubMed, PEDro e ScienceDirect. Os critérios de inclusão foram ensaios clínicos controlados, nos quais os indivíduos acima de 18 anos apresentassem diagnóstico clínico de AVC de qualquer etiologia e em qualquer fase, e com sequela no membro superior; estudos publicados na íntegra em revistas científicas indexadas nas bases supracitadas, nos idiomas inglês e português, publicados entre 2010 e 2015 e que utilizassem a terapia espelho para reabilitação
funcional do membro superior de pacientes com AVC. Foram excluídos artigos verificados como duplicatas. A amostra final se constituiu de treze artigos, que tiveram sua qualidade metodológica avaliada pela escala PEDro, com 368 indivíduos analisados. Esses estudos avaliaram função motora, sensorial e independência funcional. Alguns trabalhos também utilizaram medida de força muscular, espasticidade e cinemática, além de análises eletroencefalográficas e de ressonância magnética funcional. As medidas de avaliação fora verificadas a Escala de Desempenho Físico Fugl-Meyer – EFM (8 estudos), Brunnstrom Motor Recovery Stage – BMRS (4 estudos), Manual Function Test – MFT (3 estudos) e Box and Block Test – BBT (4 estudos). A independência funcional foi avaliada pela Medida de Independência Funcional (4 estudos). Foi verificado que grande parte desses trabalhos, constatou a melhora na função motora grossa e fina do membro superior do membro acometido, mostrando-se eficaz quando comparada a outras terapias rotineiras no tratamento do hemiparético por AVC, e também, relacionada a independência funcional nos níveis de autocuidado e transferências, vista na escala de Medida de Independência Funcional.

ZENG et al. (2018) em sua meta-análise, pesquisaram a terapia espelho para função motora da extremidade superior após AVC. Foram coletados trabalhos relevantes nas bases de dados eletrônicas, incluindo a Cochrane Library, PubMed, MEDLINE, Embase e CNKI. Foram selecionados para essa pesquisa, ensaios clínicos randomizados e piloto randomizados controlados que compararam a terapia espelho com outras abordagens de reabilitação. As medidas de avaliação dos trabalhos foram dadas pela Avaliação Fugl-Meyer. Não houve restrições quanto à idade, sexo, tipos e áreas de AVC, níveis de gravidade ou tempo desde o início do AVC. Indivíduos com hemiparesia devido a qualquer outra doença ou trauma foram excluídos, e também, uso de outros tipos de terapias que não forem rotineiramente recomendados utilização na reabilitação. Foram comparados grupos que realizavam treinamento com a terapia espelho com grupos que realizavam somente a terapia convencional. Onze estudos, com um total de 347 pacientes, foram incluídos na meta- análise para investigar a eficiência da terapia espelho na função do membro superior em pacientes acometidos por AVC. Embora os estudos selecionados tenham alta heterogeneidade, a meta-análise proporcionou evidências de que a terapia espelho pode melhorar significativamente a função do membro superior em pacientes acometidos por AVC.

Quadro 1: características e informações dos resultados descritos em ordem cronológica.

CONCLUSÃO

Verificamos que a terapia espelho é um método com resultados favoráveis no tratamento da recuperação sensório-motora fina e grossa do membro superior, e auxilia na neuroplasticidade em pacientes acometidos por AVC, seja ele isquêmico ou hemorrágico, mostrando-se eficaz tanto na fase subaguda quanto na crônica após a instalação do evento. Porém, apesar disso, nosso estudo aponta que devido à diversidade metodológica que vem sendo utilizada, é necessário mais estudos, randomizados e controlados, para uma possível padronização do método.

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