Mastectomia: Suas Intercorrências e Técnicas para Reconstrução da Aréola
INTRODUÇÃO
O câncer de mama é o segundo tipo de câncer mais prevalente entre as mulheres, ficando atrás apenas do câncer de pele não melanoma. Ele representa aproximadamente 25% dos novos casos de câncer diagnosticados anualmente no país. Essa enfermidade já recebe grande visibilidade e é abordada em diversas áreas, como oncologia, mastologia e cirurgia plástica, que são entidades internacionais empenhadas na defesa e combate ao câncer de mama, buscando restaurar a dignidade e identidade feminina das pacientes. O carcinoma mamário é a forma mais frequente de câncer no sexo feminino. É o segundo tipo de câncer com maior índice de mortalidade em escala global, ficando atrás apenas do câncer de pulmão.
É caracterizado como uma condição originada pela proliferação descontrolada de células mamárias, resultando na formação de células anômalas e no desenvolvimento de um tumor com capacidade de se disseminar para outras partes do corpo. Calcula-se que aproximadamente uma em cada oito mulheres seja impactada ao longo da vida, com a ocorrência de cerca de 1.050.000 novos casos anualmente em todo o mundo.
Desde a década de 1990, é observada uma diminuição nas taxas de mortalidade em diversos países, o que provavelmente se deve ao diagnóstico precoce e ao aprimoramento das estratégias terapêuticas. O consumo de álcool, obesidade e sedentarismo são fatores que contribuem para o aumento da incidência de câncer de mama. Entre os principais fatores de risco estão a predisposição genética, a exposição a estrogênios (endógenos e exógenos), a radiação e a nuliparidade.
Pesquisas estão em curso para aprimorar o tratamento do câncer de mama, visando melhores resultados e aumento da sobrevida. O tratamento tem se tornado mais personalizado, considerando as características biológicas do tumor e as condições da paciente. No Brasil, cerca de 70% das mulheres com câncer de mama são submetidas à cirurgia, com opções que variam entre a conservadora (remoção do tumor) e a mastectomia (remoção completa da mama). Existem técnicas conservadoras, como quadrantectomia e tumorectomia, e diferentes tipos de mastectomia, incluindo a simples e a radical, cuja escolha depende de fatores como extensão dos nódulos, contraindicações e tamanho da lesão em relação à mama.
A mastectomia envolve a remoção completa do tumor com margens adequadas, com o intuito de preservar o tecido mamário adjacente. O objetivo é obter margens livres de tumor e alcançar um resultado estético satisfatório. No entanto, em cerca de 30% das pacientes, os resultados da tumorectomia podem ser insatisfatórios, resultando em deformidades mamárias e assimetria. A remoção parcial ou total da mama pode resultar em mudanças na imagem
corporal, desencadeando sentimentos e emoções carregados de simbolismo e significado que impactam diretamente a autoestima da mulher.
Nesse contexto, a cirurgia de reconstrução mamária se tornou um avanço significativo para essas pacientes, pois busca restaurar a mama, além de reduzir o trauma causado pela
mutilação, promovendo a reconstrução da autoestima, autoimagem e a recuperação dos
sentimentos de plenitude e feminilidade.
No âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), a reconstrução mamária é disponibilizada exclusivamente para mulheres com câncer de mama que tenham se submetido à mastectomia total ou parcial. A rede de saúde pública oferece de forma integral e gratuita os procedimentos de recuperação pós-mastectomia. A decisão de realizar a reconstrução mamária é baseada na avaliação clínica e preferência da mulher. Conforme estabelecido pela Lei nº 12.802, a orientação é que a cirurgia de reconstrução seja realizada prioritariamente no momento da mastectomia. A criação cirúrgica do mamilo, que é a reconstrução do complexo aréolo-papilar (CAP), é uma das etapas da reconstrução mamária, representando a fase final do procedimento, sendo possivelmente a mais desafiadora. Essa etapa é de extrema importância para a melhoria da imagem corporal e o bem-estar do paciente.
O objetivo primordial da cirurgia reconstrutiva é restaurar a estética e reintegrar a integridade corporal, com o propósito de promover a dignidade da mulher. A mama é um símbolo essencial da identidade feminina, e sua reconstrução desempenha um papel crucial na recuperação da autoestima, auxiliando na retomada das atividades diárias e sociais. Além disso, a reconstrução contribui para a recuperação da doença, melhora a qualidade de vida e resulta em um aspecto esteticamente favorável. A motivação e o desejo da mulher são fatores determinantes para a realização da cirurgia, que frequentemente é indicada devido aos benefícios psicológicos que oferece, sem acarretar morbidade adicional à mastectomia.
Com o passar dos anos, o procedimento de reconstrução mamária tem sido aprimorado com diversas inovações, como a micropigmentação da pele. Esse método pode ser considerado uma opção mais segura, levando em conta o aumento das taxas de complicações associadas a outros procedimentos em pacientes submetidas a esse recurso. Essa técnica, que também é conhecida como tatuagem, tem sido utilizada há muitos anos e foi introduzida como uma opção de reconstrução do complexo aréolo-papilar (CAP) em 1986 pelo cirurgião americano Hilton Becker. Essa intervenção tem sido aprimorada para obter um resultado mais suave e delicado, buscando uma semelhança máxima com o desenho natural da aréola e mamilo22
Nesse procedimento areolar em mulheres submetidas a mastectomia, o objetivo é recriar o desenho do mamilo, buscando obter uma aparência visual consistente entre ambas as mamas. O intuito é alcançar o tamanho, a cor, a forma e a semelhança mais naturais possíveis, a fim de proporcionar satisfação à paciente com os resultados do procedimento. No entanto, antes de realizar a técnica, é necessário realizar testes dos pigmentos a serem utilizados, garantindo que a tonalidade seja a mais próxima possível do mamilo contralateral da paciente. Caso não exista
um mamilo contralateral, é importante realizar o teste para que a coloração seja compatível com o tom de pele da paciente, permitindo que ambos os desenhos das aréolas sejam o mais semelhantes possível.
Logo após o procedimento, é frequente ocorrer liberação de líquido e formação de coágulo. A introdução do pigmento desencadeia uma resposta inflamatória, resultando em vermelhidão, inchaço e dor em alguns pacientes. Para prevenir a perda e alteração da cor, é recomendado o uso diário de pigmentos permanentes e protetor solar. O resultado final pode variar em cada paciente, podendo ser duradouro ou apresentar clareamento ao longo do tempo,
sendo necessária uma nova aplicação após cerca de 5 a 10 anos. É comum ocorrer uma diminuição gradual na intensidade da cor da aréola ao longo do tempo. A técnica de micropigmentação desempenha um papel significativo em auxiliar as mulheres a se sentirem melhores consigo mesmas, melhorando sua autoimagem e contribuindo tanto do ponto de vista psicológico quanto estético. Isso ocorre ao desfazer crenças irracionais relacionadas à perda de sensualidade e beleza após a mastectomia.
Dessa maneira, o presente estudo aqui tem como objetivo demonstrar quais as intercorrências são oriundas da mastectomia e quais as técnicas utilizadas para a reconstrução da aréola, visto sua suma importância.
MATERIAIS E MÉTODOS
O presente estudo consiste em uma revisão de literatura embasada em diversas fontes, como publicações, livros, artigos, entre outros, com o objetivo de identificar as complicações decorrentes da mastectomia e as técnicas utilizadas para a reconstrução da aréola. A pesquisa foi realizada utilizando as seguintes plataformas de dados: BVS, Google Acadêmico e Scielo, no período de abril de 2023 a junho de 2023, buscando por textos publicados nos últimos dez anos. Os descritores utilizados foram câncer de mama, complicações e reconstrução da aréola.
RESULTADOS
Com a pesquisa realizada, foram encontrados 1.110 artigos e, após leituras e avaliações, foram considerados somente estudos que correspondiam ao tema aqui abordado, tendo sido eleitos 3 estudos para integrar o trabalho (Figura 1). Logo após, teremos os artigos analisados abordados (Tabela I).

DISCUSSÃO
Um estudo de caso29 ocorreu em um Consultório de Fisioterapia Dermatofuncional em Juiz de Fora – MG, seguindo a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. A voluntária, uma mulher de 47 anos, assinou o termo de consentimento livre e esclarecido. Ela tinha histórico de carcinoma ductal infiltrante com metástase em linfonodos supraclaviculares, diagnosticado em 2004 durante uma consulta ginecológica. Após uma mastectomia radical unilateral da mama direita, esvaziamento axilar e tratamentos adicionais, como quimioterapia, radioterapia e hormonioterapia, a paciente passou por várias etapas de reconstrução mamária.
Em 28 de novembro de 2018, ela procurou o consultório de fisioterapia dermatofuncional para reconstruir o complexo areolopapilar (CAP) comprometido durante a cirurgia. Utilizando o dermógrafo Sharp 300 Pró e pigmentos orgânicos e inorgânicos, a dermopigmentação foi realizada, resultando em melhorias na sensibilidade da mama e na percepção da paciente em relação à sua qualidade de vida, autoconfiança e aspecto emocional. A reconstrução do CAP através da dermopigmentação permitiu a definição da aréola, papila e glândulas, proporcionando profundidade e ilusionismo à neomama. Os participantes do estudo demonstraram satisfação com o procedimento, considerando-o seguro, eficaz e esteticamente satisfatório (Figura 2 e 3). A abordagem fisioterapêutica da dermopigmentação na reconstrução do CAP desempenha um papel importante na reabilitação da saúde da mulher mastectomizada, melhorando a percepção do órgão mutilado, reduzindo sequelas cicatriciais e promovendo uma melhor qualidade de vida. A paciente tratada relatou melhora na percepção corporal, autoestima,
autoconfiança e feminilidade.
O segundo estudo30 retrospectivo examinou 21 pacientes submetidas à reconstrução do complexo areolopapilar (CAP) utilizando a técnica de tatuagem e retalho em C-V entre 2015 e 2016 no Hospital São Lucas da PUCRS, em Porto Alegre, RS. Diversas técnicas de reconstrução mamária foram utilizadas, incluindo implantes, retalho miocutâneo do reto abdominal, retalho miocutâneo do grande dorsal e enxerto de gordura. Onze pacientes haviam sido submetidas à radioterapia prévia. Três complicações relacionadas à papila foram observadas, incluindo uma necrose parcial e duas deiscências pequenas. A tatuagem não apresentou complicações. Durante um período de acompanhamento de dois anos, nenhuma paciente precisou retocar a tatuagem do CAP reconstruído. No entanto, uma paciente optou por aumentar a aréola contralateral com tatuagem para obter melhor simetria (Figura 4 e 5). A
pesquisa demonstrou que a reconstrução do CAP é uma etapa crucial no processo de reconstrução da mama, proporcionando benefícios estéticos e melhorando a autoestima das mulheres afetadas. A técnica de tatuagem associada ao retalho em C-V em tempo único mostrou-se segura, com baixo índice de complicações, e pode ser realizada por cirurgiões plásticos capacitados em reconstrução mamária.
O último estudo retrospectivo foi realizado em pacientes submetidas à reconstrução da aréola mamilar e tatuagem entre julho de 2012 e dezembro de 2017. O intervalo médio entre o procedimento operatório final ou terapia adjuvante e a reconstrução do complexo aréolapapilar (CAP) foi de 4,4 meses para pacientes não adjuvantes, 4,4 meses para quimioterápicos e 6,7 meses para radioterápicos. O tempo médio de cirurgia para o compartilhamento simultâneo do mamilo e tatuagem foi de 46 minutos. Não foram observadas complicações graves, como infecção ou perda total do mamilo, em nenhum tipo de reconstrução mamária com pelo menos 6 meses de pós-operatório. A média de satisfação geral dos pacientes foi de 8,0 em uma escala de 10 pontos, e 96,9% indicaram que fariam novamente a reconstrução simultânea do CAP. A técnica simplificada mostrou-se segura, confiável e conveniente para pacientes e cirurgiões, com resultados satisfatórios.
A reconstrução do complexo aréolo papilar (CAP) por meio de dermopigmentação ou tatuagem mostrou-se eficaz na melhoria da sensibilidade, qualidade de vida, autoestima e percepção corporal das mulheres mastectomizadas. A técnica apresentou baixo índice de complicações, com resultados estéticos satisfatórios. Os pacientes relataram alta satisfação com o procedimento, indicando que o fariam novamente. A reconstrução do CAP é considerada uma
etapa crucial na reconstrução mamária, oferecendo benefícios estéticos significativos e melhorando a autoestima das mulheres afetadas, derrubando barreiras que antes as acometiam.
AGRADECIMENTOS
Quero agradecer, primeiramente, a Deus, pois sem Ele nada sou e nada posso fazer. Gratidão ao meu marido Júlio Cesar pelo apoio incondicional e parceria nessa caminhada! Agradeço à Fernanda Andrade Barbosa, professora do curso de Dermopigmentação Areolar, onde me encantei e pude aprender muito! Obrigada também ao corpo docente pelo amparo e por partilharem seus conhecimentos! Expresso também gratidão ao Wbyster Lopes pela disposição em me auxiliar nessa etapa! Manifesto meu imenso apreço e admiração à professora Chrystiane Leão por me incentivar e inspirar na área que escolhi para minha vida profissional, sempre dividindo sua vasta sabedoria, me estimulando para me tornar a profissional que sou hoje. Minha eterna gratidão! Agradeço também a Inês Silva, coordenadora do curso, que esteve comigo desde o início do percurso até o fim, sempre me auxiliando e contribuindo para o meu
crescimento pessoal e profissional nesse momento crucial da minha vida. O meu muito obrigada!
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ARTIGO PUBLICADO EM 22/05/25
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