Digite sua palavra-chave

post

Terapia de Oxigênio Nasal de Alto Fluxo no Departamento de Emergência: Uma Revisão Integrativa

Terapia de Oxigênio Nasal de Alto Fluxo no Departamento de Emergência: Uma Revisão Integrativa

INTRODUÇÃO

As unidades hospitalares de atendimento às urgencias e emergências constituem o âmbito hospitalar do sistema de atenção à saúde, instituído em 2006 pela Política Nacional de Atenção às Urgências. O serviço de emergência é a porta de entrada do paciente no hospital. 1

A imprevisibilidade é uma característica das unidades de emergência, onde a demanda de pacientes é alta, existe uma necessidade de trabalho em equipe multiprofissional, na qual diversos profissionais convergem suas ações com o objetivo de melhorar a qualidade do atendimento prestado, buscando-se a preservação da vida. 2

A atuação do fisioterapeuta no setor de emergência ainda não está consolidada ou definida no modelo de gestão da maioria dos serviços de saúde no Brasil. Entretanto, durante a última década, esse assunto vem sendo estudado e debatido, seguindo as tendências internacionais, principalmente no Reino Unido e na Austrália, sobre seus benefícios e espaço de atuação, refletindo também mudanças na Europa e América do Norte. 3,4

A necessidade deste profissional na unidade de emergência é justificada, dado o grande volume de pacientes com diagnóstico de disfunção cardiopulmonar, necessitarem de oxigenoterapia, ventilação mecânica invasiva e não invasiva e permanecerem um maior período na emergência. A inclusão do fisioterapeuta na equipe assistencial da unidade de urgência e emergência pode facilitar o atendimento e tratamento precoce de doenças agudas e/ou crônicas e suas comorbidades, diminuindo o risco de piora na evolução do quadro clínico. 5

A dispnéia aguda associada a hipoxemia é um grande problema que se apresenta nos serviços de emergência. As causas mais comuns dessa condição são o edema agudo pulmonar, pneumonia e exacerbação de doenças obstrutivas crônicas das vias aéreas. Dessa forma, a oxigenoterapia é um tratamento de suporte essencial para corrigir a hipoxemia e aliviar a falta de ar. 6

Uma nova abordagem sendo utilizada nas emergências é o oxigênio na cânula nasal de alto fluxo, que pode chegar até 60 litros por minuto e uma fração ofertada de O2 (FiO2) de 21% a 100%. Os níveis de fluxo são altos o suficiente para gerar pressão positiva nas vias aéreas, diminuindo o aprisionamento de ar ambiente e o trabalho da respiração. O alto fluxo é ofertado aquecido e umidificado, aumentando assim o conforto do paciente. 7-11

O sistema consiste de um misturador de ar oxigênio com FiO2 ajustável, que fornece um fluxo de gás modificável, para uma câmara aquecida onde o gás é aquecido e umidificado. A mistura de gás é então encaminhada através de um circuito de alto desempenho para ser entregue a 37 graus celsius contendo 44 mg de H2O por litro ao paciente por meio de prongas binasais, conforme esquema abaixo (figura 1).

Figura 1: Esquema da cânula nasal de alto fluxo Optiflow (Adaptado de Lenglet et al., 2012).

 

Dentre os benefícios apresentados, incluem a eliminação do espaço morto naso-faríngeo, atenuação da resistência inspiratória, melhora da complacência pulmonar e fornecimento de uma pequena quantidade de CPAP para facilitar o recrutamento alveolar 9. A umidificação e aquecimento também podem evitar a desidratação da mucosa, manter a atividade ciliar, reduzir a perda de calor e minimizar atelectasias. 12

A cânula nasal de alto fluxo demonstrou benefícios em termos de melhora da dispneia e oxigenação em indivíduos com insuficiência respiratória aguda 8, pós cirurgia cardíaca 13, além de apontar menor taxa de reintubação em comparação com indivíduos recebendo oxigenoterapia padrão, após uma extubação. 14,15

O objetivo deste trabalho foi revisar a literatura afim de compreender os benefícios da utilização de oxigenoterapia por cânula nasal de alto fluxo em um serviço de emergência hospitalar. Como é um recurso já inserido no mercado, faz-se necessário seu melhor entendimento e compreensão para obter melhores resultados ao paciente.

 

MATERIAIS E MÉTODOS 

Trata-se de um estudo de revisão integrativa da literatura, realizado na base de dados Pubmed no mês de Julho de 2018.

O principal descritor utilizado foi baseado a partir do Mesh data base, sendo: ¨emergency department¨. No entanto, outros descritores também foram utilizados, como: ¨hospital emergency service¨, ¨physiotherapy¨ e ¨acute respiratory failure¨.

Foram encontrados 731 artigos que após aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, restaram 3, analisados conforme tabela de resultados.

Critérios de inclusão:

Artigos científicos de revistas indexadas

Artigos que façam a avaliação do paciente no setor de emergência hospitalar

Critérios de exclusão:

Artigos que não sejam ensaios clínicos com humanos

Artigos com mais de 5 anos

Objetivo:

Compreender a utilização da terapia de oxigênio nasal de alto fluxo, em serviços de emergência, nas disfunções respiratórias.

 

RESULTADOS

Tabela 1: Apresentação da síntese de artigos incluídos na revisão integrativa

Autores, Periódico e Ano Título Objetivos Métodos Resultados
MAKDEE, et al., Annals of Emergency Medicine, Volume 70, Issue 4, 465 – 472.e2, 2017. 16 Cânula nasal de alto fluxo versus terapia de oxigênio convencional em pacientes do departamento de emergência com edema pulmonar cardiogênico: um ensaio controlado e randomizado Comparar a CNAF com oxigenoterapia convencional em pacientes do departamento de emergência com edema pulmonar cardiogênico Ensaio controlado e randomizado executado na emergência de um hospital. Pacientes maiores de 18 anos foram aleatoriamente designados para receber oxigenoterapia convencional ou CNAF. Desfecho primário foi a FR após 1 hora de intervenção. N= 128 Pacientes que fizeram a CNAF diminuíram, significativamente, a FR durante a primeira hora de tratamento
JONES P G, et al., Respiratory Care March 2016, 61 (3) 291-299. 17 Ensaio controlado e randomizado de oxigênio humidificado em cânula nasal de alto fluxo para sofrimento respiratório agudo no departamento de emergência Determinar se a CNAF comparada ao suporte de oxigênio convencional dado a indivíduos em desconforto respiratório agudo reduziria a necessidade de ventilação mecânica não invasiva ou invasiva Ensaio controlado, randomizado em indivíduos adultos com hipoxemia e taquipnéia apresentando-se a um serviço de emergência de um hospital acadêmico. O desfecho primário foi a necessidade de ventilação mecânica. N= 303 Não houve diferença estatisticamente significante entre os grupos.

RITTAYAMAI N, et al., Respiratory Care October 2015, 60 (10) 1377-1382. 18

Uso de cânula nasal de alto fluxo para dispnéia aguda e hipoxemia no departamento de emergência Investigar os efeitos fisiológicos da cânula de oxigênio nasal de alto fluxo em comparação com a oxigenoterapia convencional em indivíduos com dispneia aguda e hipoxemia na sala de emergência Estudo prospectivo, randomizado e comparativo, realizado no serviço de emergência de um hospital universitário. O desfecho primário foi o nível de dispneia após 1 hora de tratamento e os desfechos secundários incluíram mudanças na FR, conforto, eventos adversos e taxa de hospitalização. N= 40 A CNAF melhorou significativamente a dispneia e o conforto do paciente. A taxa de hospitalização foi menor, mas não houve diferença estatisticamente significativa (50% x 65%)

Legenda: CNAF: cânula nasal de alto fluxo; FR: frequência respiratória; N: número de participantes.

 

DISCUSSÃO

Nessa revisão foi demonstrado, de acordo com a metodologia empregada, que a oxigenoterapia com cânula nasal de alto fluxo, pode ser bem recomendada para pacientes dispneicos no setor de emergência, porém ainda carece de mais estudos para melhor embasar sua utilização.

Outros autores encontraram os mesmos resultados em cenários semelhantes. Dois estudos observacionais feitos por Sztrymf e colaboradores (2012) 19 e Lenglet e colaboradores (2012) 20 também afirmaram que a CNAF comparada com a oxigenoterapia convencional poderia melhorar dispneia e oxigenação em pacientes com insuficiência respiratória aguda.

A oxigenoterapia convencional, que foi o contraposto dos estudos em questão, apresentam algumas desvantagens. Estas incluem a quantidade limitada de fluxo de oxigênio fornecido, sendo geralmente, até 15 litros por minuto, através de uma máscara facial, a imprecisão considerável em relação a FiO2 entregue 21 e a tolerância pobre em alguns pacientes, devido ao aquecimento e umidificação insuficiente. 7,22

A melhora da dispneia pela CNAF pode ser explicada por diversos mecanismos, tais como, alta demanda de fluxo correspondente ao fluxo de gás 23, diminuição do espaço morto faríngeo 24, baixos níveis de pressão positiva nas vias aéreas 25-27, melhora da sincronia toracoabdominal 28 e sintomas reduzidos de secura geral com gás aquecido e umidificado. 29-31

A alta frequência respiratória é um importante preditor de parada cardíaca ou doença crítica em pacientes hospitalizados 32,33. Portanto, mesmo mudanças discretas deste sinal vital, muitas vezes negligenciado, podem ter um importante impacto no prognóstico do paciente mencionado. 34

Além do desfecho principal ser positivo, outra questão levantada é a respeito da tolerância dos pacientes ao dispositivo. Quanto a isso, diversos autores relataram conforto dos pacientes durante a terapêutica. 20,35-39 Alguns pacientes em desconforto respiratório que recebem oxigênio de alto fluxo através de interfaces orofaciais tendem a retirar por claustrofobia, para falar ou beber. Já a CNAF permite a ingestão oral assim como a fala. Além disso, as cânulas nasais são menos desposicionadas a noite. 40

Makdee e colaboradores (2017) 16 e Rittayamai e colaboradores (2015) 18 encontraram desfechos positivos aos pacientes em seus estudos, assim como outros diversos autores. Já Jones e colaboradores (2016) 17 não encontraram diferença estatisticamente significante em seu desfecho, porém este era a necessidade de ventilação mecânica. Enquanto os dois primeiros avaliaram a melhora da dispneia aguda após a realização da CNAF. Entende-se então que este recurso pode ser recomendado para pacientes dispneicos no setor de emergência hospitalar, porém ele não descarta o uso de ventilação mecânica, caso necessário. Além disso, é preciso executar mais ensaios clínicos sobre o referido tema afim de melhor embasar a utilização da CNAF.



Conteúdo Relacionado

Sem comentários

Adicione seu comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.

×
Olá! Seja bem-vindo(a). Se tiver alguma dúvida, me procure. Estou a disposição para te ajudar.