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Terapia de Dilatação Gradual no Vaginismo: Uma Revisão Narrativa

Terapia de Dilatação Gradual no Vaginismo: Uma Revisão Narrativa

INTRODUÇÃO

A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece a sexualidade como um dos pilares da qualidade de vida1. A disfunção sexual feminina pode influenciar a saúde física e mental, levando há dificuldades pessoais e interpessoais 2. Dentre os transtornos sexuais da mulher até 6% podem se queixar de sintomas de vaginismo 3.

Segundo Gunter 4, “o vaginismo é uma disfunção sexual feminina que consiste em uma contração involuntária e inconsistente dos músculos do terço inferior da vagina”. Sendo classificada em diferentes graus (leve, moderada e grave) de acordo com o grau da contração vaginal. Também podendo ser classificada como primária, quando nunca se conseguiu penetração total ou parcial e secundária, quando a mulher passa a não conseguir mais realizar a penetração vaginal 5,6.

Um estudo realizado no Irã, com mulheres que participavam de um programa de clínicas de planejamento familiar, apresentou que o índice de mulheres com vaginismo era de 12% 7. No Brasil outro estudo realizado com 1219 mulheres, foi constatado que 49% apresentavam alguma disfunção sexual, sendo que em torno de 10 a 15% relataram algum tipo de dor durante a penetração levando a suspeita de vaginismo 8,9. Ferreira et al realizou um estudo no Ambulatório de Planejamento Famíliar do Centro de Atenção a Mulher de Recife aonde entre 100 mulheres, 1% apresentavam diagnostico de vaginismo 3. Mas os dados sobre a real prevalência na população nacional e mundial não são definidos, devido a falta de estudos na literatura.

Aproximadamente 10 a 20% das mulheres que procuram assistência médica sofrem algum tipo de disfunção sexual 10. Vários tratamentos foram propostos ao longo do tempo para o vaginismo, incluindo a dessensibilização gradual por dilatadores. A utilização da técnica pode contribuir para melhora dos sintomas, reduzindo a sensibilidade à penetração e favorecendo a percepção do assoalho pélvico, o que possibilita seu controle e relaxamento. 11

No entanto, ainda são restritos os estudos sobre o uso dos dilatadores no vaginismo, logo este estudo propõe uma revisão de literatura narrativa, discutindo o uso de dilatadores graduais no vaginismo e fornecer uma perspectiva de estudo para uma evolução na área, visando melhorar atenção e tratamento da mulher com vaginismo.

MATERIAIS E METODOS

Trata-se de uma revisão da literatura narrativa, realizada nas bases de dados Pubmed e Scielo. Os descritores utilizados para a pesquisa foram: assoalho pélvico, vaginismo, períneo, dilatadores vaginais, sempre associados à fisioterapia, publicados em português, inglês e espanhol, durante os anos de 1988 a 2016.

Possuindo como fator de inclusão: estudo com grupos de mulheres que possuíam diagnóstico clínico de vaginismo, estudos clínicos randomizados, estudos que realizaram comparação do dilatador com outras técnicas, estudos que divulgaram o protocolo aplicado, estudos que utilizavam em um grupo apenas o uso de dilatadores. Como fatores de exclusão: artigos sem embasamento teórico e estudos com resultados qualitativos.

Foram selecionados e incluído nesta revisão apenas 1 artigo obtido na integra que discorria sobre o uso de dilatadores graduais para o tratamento do vaginismo.

VAGINISMO

O vaginismo foi citado pela primeira vez no século XI, na literatura médica Italiana. Sims no século XVII, descreveu o vaginismo como “contração espasmódica do esfíncter vaginal” 2. Em 1970, Master e Jhonson sedimentaram uma definição e um tratamento, usados até hoje.13 No mesmo ano, Helen Kaplan, propôs modificações metodológicas no tratamento proposto anteriormente 14. Pode-se afirmar que a elucidação de todos os aspectos do vaginismo ainda estão longe de acontecer.

De acordo com a Classificação Internacional de Doença (CID-10) proposta pela (OMS) “vaginismo – não orgânico: espasmos dos músculos que circundam a vagina, causando oclusão da abertura vaginal. A penetração do pênis é impossível ou dolorosa. Vaginismo pode ser uma reação secundária a alguma causa local de dor” 15. A Associação Psiquiátrica Americana, inclui o vaginismo nos transtornos sexuais dolorosos e o classifica, “306.51 Vaginismo – contração involuntária, recorrente ou persistente, dos músculos do períneo adjacentes ao terço inferior da vagina, quando é tentada a penetração vaginal com pênis, dedo, tampão ou especulo” 16.

Quanto à etiologia não é bem definida, o que se sabe são causas para o desenvolvimento da disfunção como traumas de infância, estupro, infecções do trato urinário que pode levar a mulher a ter medo do ato sexual, educação religiosa castradora, vivencia de violências relacionadas a sexualidade, patologia de órgão pélvicos que causam dor, autoestima baixa, distúrbios no relacionamento parental, primeira relação sexual insatisfatória, lesões na vulva ou vagina, dispareunia que evolui para vaginismo, negação a homossexualidade 9,13,14,17. Logo, se nota que o vaginismo pode ser causado por inúmeros fatores psicológicos, físicos e sociais.

Logo, o vaginismo consiste em uma síndrome que acarreta grandes impactos na saúde físico-mental e na qualidade de vida da mulher 6. A mulher sente dor no momento da tentativa de penetração, ou antes, tendo como reação sudorese, falta de ar, aumento da frequência cardíaca devido ao espasmo muscular involuntário e tensão, podendo resultar em medo, ansiedade, depressão, cefaleia tensional, tristeza e distúrbio do sono 11,18.

TERAPIA DE DILATADORES GRADUAIS NO VAGINISMO

Atualmente, os tratamentos fisioterapêuticos utilizam de vários métodos para tratar o vaginismo. Por meio de técnicas de terapia manual, exercícios para o assoalho pélvico, eletroestimulação, termoterapia e biorretroalimentação 19. Possuindo ainda uma gama de tratamentos farmacológico, terapia sexual, terapia cognitiva e combinação de dessensibilização (in vivo ou in vitro) associada ao uso de dilatadores adotado por alguns profissionais no ambiente clínico.

A técnica de dilatação gradual, é realizada através da auto-introdução ou introdução de dilatadores de silicone ou de material emborrachados com lubrificante no canal vaginal, sendo realizada pelo fisioterapeuta. No começo os dilatadores devem ser pequenos, e o aumento gradual ocorre com a tolerância da paciente. Podendo ser realizada em âmbito clínico e domiciliar 11,24.

De acordo com Pinheiro, o uso dos dilatadores podem trazer as pacientes com vaginismo uma melhora dos sinais e sintomas, reduzindo a sensibilidade a penetração, aumentando a percepção da musculatura perineal, consequentemente levando a uma melhora no controle perineal 11.

Schnyder et al., realizaram um estudo clínico randomizado, com 43 mulheres diagnosticadas com vaginismo. Possuindo dois grupos: grupo 1(in vivo): realizavam exercícios de relaxamento de 10 a 15 minutos e em seguida recebiam orientações de como realizar a auto-introdução do dilatador com lubrificante e o grupo 2 (in vitro) recebiam apenas a orientação de como realizar a auto-introdução dos dilatadores de forma gradual com lubrificante. Ambos realizavam o protocolo cinco vezes por semana. Como resultado foi apresentado que 97,7% das mulheres conseguiram penetração satisfatória, não havendo diferença entre os grupos. Sendo que no grupo in vitro 50% dos participantes relataram desaparecimento do vaginismo, 47% apresentaram melhora do quadro clínico, 17,9% relatou melhora da capacidade de orgasmo e manteve-se em 79,5% 23.

Aveiro, Garcia e Drusco realizaram uma revisão bibliográfica de estudos clínicos, para avaliar a efetividade dos tratamentos fisioterapêuticos no vaginismo. Dentre as técnicas se encontrava o uso gradual de dilatadores vaginais, que indicava o encontro apenas do artigo citado acima, logo concluímos a escassez de estudos na área 6.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Dentre os tratamentos para o vaginismo, temos o uso de dilatadores vaginais. Apesar desta possibilidade já ser utilizada no âmbito clinico, notou-se a dificuldade em encontrar artigos que possuíssem evidencias consistentes sobre o uso dos dilatadores no vaginismo. Que respondesse, perguntas sobre que tipo de vaginismo se beneficiaria com a técnica. Qual o momento ideal para introdução do dilatador no protocolo de reabilitação. Tempo e frequência da técnica.

Objetiva-se que este estudo desperte o interesse de profissionais da saúde quanto à importância do desenvolvimento de novos estudos clínicos randomizados para o conhecimento e comprovação da aplicação da técnica e benefícios para as portadoras de vaginismo.

REFERÊNCIAS

1. FEW, C. The Politics of Sex Research and Constructions of Femal Sexuality: What Relevance to Sexual Healt Work With Ypung Women? J Adv Nurs. 1997; 25(3) : 615-25.

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3. MOREIRA. R . Vaginismo. Rev Med Minas Gerais; 23(3): p. 336. 2013

4. GUNTER, S. E. Etiology and Treatment of Dyspareunia. In: Up toDate. Barburi R (ed). Up ToDate, Walthan, MA. 2009.

5. ASTOLFI, E. Disfunciones Sexuales femininas. ? Qué Es El Vaginismo?, Aprender Salud; HIBA: 2007.

6. AVEIRO, M. C; GARCIA, A. P. U; DRIUSO, P. Efetividade de intervenções fisioterapêuticas para o vaginismo uma revisão de literatura. Revista fisioterapia e pesquisa, 2009, V.16, n.3, p 279-83.

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8. ABDO, C. H; OLIVEIRA, W. M; MOREIRA, E. D; FITTIPALDI, J. A. S. Prevalence of secual dysfunction and correlated conditions in a sample of Brazilian Women: results of the Brazilian study in sexual Behavier(BSSB). Int. J. Import. Res. 2004; 16:160-6.

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11. PINHEIRO, M. A. O casal com vaginismo: um olhar da Gestalt terapia. Revista IGT na rede, 2009, V.6, n.10, p.99-143.

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14. KAPLAN, H. S. A nova terapia do sexo. Rio de Janeiro. Nova Fronteira; 1974.

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23.SCHNYDER, U; SCHNYDER; LUTHI, C; BALLINARI, P; BLASSER, A. Therapy for vaginismus: in vivo versus in vitro desensilization. Can J Psychiatry. 1998.

24. MERCK, SHARPE e DOHME. Federal Credit Union. Advisor Newsletter. 2007.



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