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Síndrome do Túnel do Carpo: Uma Doença Ocupacional – Artigo de Revisão

Síndrome do Túnel do Carpo: Uma Doença Ocupacional – Artigo de Revisão

A compressão nervosa mais comum é a do nervo mediano que ocorre na área em que este atravessa a região do carpo, caracterizando a síndrome do túnel do carpo (STC) (SANTOS et al , 2005; CAMPOS et al, 2003; SEVERO et al, 2001). Dentre as lesões que podem atingir o membro superior, é a neuropatia de maior incidência (KAROLCZAK et al, 2005; TURRINI et al, 2005). Foi descrita pela primeira vez por Sir James Paget, em 1854 (SEVERO et al, 2001), e os principais sintomas relacionados são dor noturna com queimação, parestesia e atrofia tênar. Como consequência, têm-se limitação de atividade e incapacidade para o trabalho (SEVERO et al, 2001 e KAROLCZAK et al, 2005).Com a progressão da doença pode ocorrer fraqueza e atrofia dos músculos da eminência tênar (OLIVEIRA, 2000).

Apesar de ultrapassado, esse paradigma mecanicista do homem relacionado ao trabalho, é bastante forte, principalmente no que diz respeito ao trabalho repetitivo. No Brasil, a denominação Lesões por Esforços Repetitivos (LER) foi adotada pelo Instituto Nacional de Previdência Social (INSS) em 1987. Sendo esta limitada, pois induz à conclusão de que as lesões são causadas por esforços repetitivos (YENG et al, 2001).

LER começou a ser utilizada no final da década de 50, para designar um conjunto de patologias, síndromes e/ou sintomas musculoesqueléticos que acometem particularmente os membros superiores, relacionando-se o seu surgimento ao processo de trabalho (SANTOS FILHO e BARRETO, 1998).

O reconhecimento da relação entre trabalho, saúde e adoecimento dos trabalhadores está registrado em antigas obras de escritores, filósofos e historiadores (IKARI et al, 2007). Atualmente observa-se que é frequente a sobrecarga musculoesquelética em trabalhadores, resultando no aumento da prevalência de distúrbios osteomusculares relacionadas ao trabalho (DORT). Para reduzir o índice de afastamento, e visando a saúde do trabalhador, deve-se enfatizar a prevenção desses distúrbios (FERREIRA, 2009). As lesões osteomusculares são, hoje, o mais frequente dos problemas de saúde relacionados ao trabalho em todos os países (CARVALHO, 2008). LER ou DORT (Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho), nomenclatura usada para caracterizar alterações musculoesqueléticas do pescoço, dorso e membros superiores (AUGUSTO et al, 2008; IKARI et al, 2007), reúnem um conjunto de afecções musculoesqueléticas que muitas vezes apresentam difícil tratamento (PINTO, MORAES e MINGHINI, 2005). As DORT são distúrbios do aparelho locomotor de etiologia ligada à atividade laboral que vem apresentando incidência crescente em todo o mundo (FROTA et al, 2008). A presença de dores e limitações, decorrentes da patologia, contribui para o surgimento de sintomas depressivos e de ansiedade, acompanhados de angústia e medo em relação a um futuro incerto (PESSOA, CARDIA e SANTOS, 2010).

No Brasil, pouco ainda tem sido feito para avaliar a repercussão do trabalho sobre a saúde em categorias de trabalhadores em que os fatores de risco são menos visíveis (PESSOA, CARDIA e SANTOS, 2010). Mesmo que desde a década de 1990, houve um crescimento acelerado dos casos no Brasil; o que antes parecia uma síndrome isolada, causada pela susceptibilidade do trabalhador exposto a riscos, transfor­mou-se numa epidemia (AUGUSTO et al, 2008; MERLO et al, 2003). No entanto, muitos trabalhadores não têm acesso a cen­tros de tratamento especializados e são tratados pelo sistema de saúde conveniado, sem a abordagem interdisciplinar (AUGUSTO et al, 2008).

Diante do exposto, o presente estudo tem como objetivo realizar uma revisão da literatura relacionando a Síndrome do Túnel do Carpo como consequência das atividades laborais.

MÉTODO

O presente estudo trata-se de uma análise da literatura, abordando a síndrome do túnel do carpo como doença relacionada ao trabalho. Sendo realizada através de artigos científicos indexados no banco de dados dentre os anos 1998 e 2011, disponível na internet, a partir do sistema SCIELO Brazil (Scientific Electronic Library Online), MEDLINE (Literatura Internacional em Ciências da Saúde) e LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), nas línguas portuguesa, inglesa e espanhola. O levantamento bibliográfico consistiu de publicações atualizadas da literatura especializada pertinentes ao tema abordado e foram empregados os descritores síndrome do túnel carpal, transtornos traumáticos cumulativos e fisioterapia e seus similares em inglês e espanhol.

Foram selecionados os artigos de caráter experimental, observacional, de revisão e estudos de caso. Não fazendo parte do estudo os artigos que relacionavam somente outras síndromes como ocupacionais, estavam fora do ano de publicação delimitado e dos idiomas escolhidos. Os textos foram minuciosamente analisados e sintetizados para se obter informações significativas e consistentes.

Através da revisão literária, neste trabalho, procurou- se discutir associação da STC como doença ocupacional e as lesões que ficam como consequência para os trabalhadores.

RESULTADOS e DISCUSSÃO

Como resultado, de acordo com os descritores selecionados e aplicados nos bancos de dados eletrônicos, o nosso estudo obteve centenas de artigos. Os resultados foram distintos nos três bancos de dados, tanto no quantitativo total de artigos disponibilizados, como também no quantitativo por descritor individualmente. Na base de dados LILACS, foram encontrados um total de 227 artigos tendo destaque o descritor transtornos traumáticos cumulativos, com um maior quantitativo de artigos disponibilizados. Na base MEDLINE, foi disponibilizado um total de 2.740 artigos, com destaque para a síndrome do túnel carpal com um número significativo de artigos disponibilizados e na base SCIELO, foram encontrados um total de 134 artigos com destaque para o descritor fisioterapia. Após análise minuciosa dos mesmos foram selecionados 25 para a confecção do estudo.

ASSOCIAÇÃO DA STC COM A ATIVIDADE LABORAL

Conhecida há mais de 100 anos, STC ainda é cercada de controvérsias a respeito do seu diagnóstico e sua relação com o trabalho. Sendo uma condição médica de pessoas da idade adulta média e a maioria das pessoas desta faixa etária trabalha. Por isso, frequentemente a síndrome ocorre em uma situação de trabalho (OLIVEIRA, 2000; MICHELIN e LOUREIRO, 2000; CARVALHO e ALEXANDRE, 2006). Mostrando-se uma evidência de ser DORT por raramente ocorrer em crianças e adolescentes (KOUYOUMDJIAN, 1999).

Diversos estudos foram encontrados relacionando a STC como doença ocupacional (KAROLCZAK et al, 2005). Santos Filho e Barreto (1998) acharam em seu estudo uma prevalência de 57% de sintomas de síndrome do túnel do carpo entre ecocardiografistas americanos. Reis et al. (2000)  também fizeram esse tipo de associação em seu estudo, observando que dos pacientes atendidos no ambulatório, a maioria com mais de 11% dos casos apresentava a STC como consequência das atividades laborais. Corroborando com os estudos citados, Merlo et al. (2003) indicam em seus resultados que os sintomas da STC já estão presentes em acadêmicos de sistema de informação e acredita-se que esteja relacionado a dupla jornada de trabalho e a falta de orientações quanto a prevenção da patologia.

Contrariamente, outra versão é mostrada para o aparecimento da STC, se distanciando de uma doença ocupacional, sendo ela decorrente da compressão do nervo mediano pelos depósitos da proteína. Pois ela é a característica clínica mais comum da amiloidose, estando presente em ate 74% dos pacientes em hemodiálise por dez anos ou mais, ocorrendo tanto em pacientes submetidos à hemodiálise quanto diálise peritoneal (VIEIRA et al, 2005). Assim como Campoamor et al. (2007) mostram em seu trabalho, que houve uma incidência maior da STC na categoria que executa atividades domésticas e/ou relacionadas ao lar (53,9%).

DOENÇA OCUPACIONAL A CONSEQUÊNCIA DO TRABALHADOR

As lesões por esforço repetitivo são consideradas como a mais grave doença relacionada ao trabalho, na sociedade moderna (ORSO, 2001). Representam custo econômico enorme para o trabalhador, órgãos de assistência à saúde e à sociedade. Países industrializados testemunharam aumento vertiginoso do número de casos de DORT devido provavelmente a vários fatores relacionados ao indivíduo e ao trabalho, como a mecanização e a informatização do trabalho, a intensificação do ritmo das atividades, a redução da flexibilidade e a ausência de pausas durante os períodos de trabalho, a adoção de posturas inadequadas, a repetição e a constância da execução de movimentos, a exigência pelo aumento da produtividade, o uso de mobiliário e equipamentos inadequados e a dupla jornada (YENG et al, 2001).

Diversas são as queixas relacionadas à STC, tanto queixas sensitivas quanto alterações de condução nervosa são muito comuns entre trabalhadores (OLIVEIRA, 2000). Entre os pacientes com queixas dolorosas estão incluídos trabalhadores da indústria, e de alterações ósteo-articulares e músculo esqueléticas é tida como maior do que na população geral. As causas da STC são as mais variadas, desde exposição da vibração, cisto sinovial, trombose da artéria mediana, e outras (anomalias anatômicas, doenças sistêmicas, metabólicas, fraturas, etc.) (SEVERO et al, 2001). Porém o estudo de Mitraud (2005) mostra que não há diferença nas dimensões do túnel do carpo e nervo mediano entre os indivíduos sintomáticos e assintomáticos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante dos achados encontrados, observou-se importante referencial na literatura sobre a estreita ligação entre a STC como consequência das atividades laborais, em relação aos estudos que vem provando o contrário.

Sugere-se para trabalhos futuros uma forma de prevenção da STC, para que assim seja diminuído o número de trabalhadores lesionados. Visto que a maioria dos artigos já abordam as consequências e os tipos de cirurgias que podem ser feitas. Deixando de lado o modelo preconizado pelo Sistema Único de Saúde, que é de prevenção e promoção da saúde. Além de a STC ser considerada um problema de saúde, também um problema social, tendo em vista os transtornos físicos e psíquicos decorrentes dela.

REFERÊNCIAS

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CAMPOS, C.C.; et al. Tradução e validação do questionário de avaliação de gravidade dos sintomas e do estado funcional na síndrome do túnel do carpo. Arquivos de Neuropsiquiatria, São Paulo, v. 1, n. 61, p.51-55, 2003.

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KOUYOUMDJIAN, J.A. Síndrome do túnel do carpo: aspectos clínico-epidemiológicos em 668 casos. Arquivos de Neuropsiquiatria, São José do Rio Preto, v. 2, n. 57, p.202-207, 1999.

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