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Repercussões da Prática do Ciclismo nas Disfunções do Assoalho Pélvico Feminino: Uma revisão de literatura

Repercussões da Prática do Ciclismo nas Disfunções do Assoalho Pélvico Feminino: Uma revisão de literatura

A bicicleta é um dos meios mais conhecidos de transporte utilizado por milhões de pessoas de várias faixas etárias ao redor do mundo, também sendo utilizada de maneira recreativa e como treinamento físico, com efeitos benéficos para estruturas cardiovasculares. Além de ser uma forma econômica e de fácil acesso para a população (BRANT, LUE, SMITH, 2009; CARPES et al. 2009; COLPI et al. 2008; LEIBOVITCH, MOR, 2005; PARTIN et al. 2012).

Segundo Carpes et al. (2009) e Kim, Kim e Park (2011) o ciclismo é um ótimo exercício aeróbico, com uma benéfica influência sobre o risco de doenças como a diabetes, hipertensão e acidente vascular cerebral. De outra forma, o ciclismo também está relacionado com alguns tipos de lesões, classificadas como traumáticas agudas ou físicas ou lesões por overuse.

Dentro os itens composto pela bicicleta, o guidão e o assento são os principais causadores de lesões na região abdominal e genital (GUESS et al. 2011; PARTIN et al. 2012).

Guess et al. (2011) e Partin et al. (2012) afirmam que a função sexual e urinária de mulheres ciclistas sofrem influências e envolvem queixas relacionadas ao assoalho pelvico. Leibovitch e Mor (2005) descreveram em seu estudo que as mulheres ciclistas relatam queixas urológicas e sexuais, como dificuldade em chegar ao orgasmo, hematúria, dificuldade na micção, dores e dormências na região perineal.

Um problema clínico que pode ser apresentado em ciclistas femininas é o linfedema crônico e típico, que é caracterizado por um inchaço crônico unilateral do grande lábio após intensa prática de ciclismo, este linfedema pode ser resultante de inflamações crônicas na região vulvar e perineal, a postura adotada pelos ciclistas pode causar compressão repetitiva dos vasos inguinais. Estes fatores podem influenciar na circulação da linfa nesta área, facilitando no surgimento de problemas inflamatórios na pele, aparecendo cicatrizes, lesões, foliculite e nódulos perineais (BAEYENS; VERMEERSCH; BOURGEOIS, 2002).

Nos homens os sintomas urogenitais e sexuais mais frequentes são: dormência, priapismo, trombose peniana, disfunção erétil, torção do cordão espermático, prostite, endurecimento nodular perineal e elevação dos níveis séricos de antígeno específico da próstata (BAEK, 2011; KIM, KIM e PARK, 2011; LEIBOVITCH, MOR, 2005).

Esta revisão tem como objetivo verificar as repercussões da prática do ciclismo na função sexual feminina.

METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão de literatura na qual a pesquisa de dados e apontamentos relevantes foi constituída por estudos publicados em Bases Científicas Oficiais Medline, Lilacs e Scielo, publicados nos últimos 15 anos em língua inglesa e portuguesa, utilizando-se como palavras-chave: Mulheres, Ciclismo, Períneo, Assoalho Pélvico.

A seleção dos estudos foi feita com base na leitura dos títulos, excluindo aqueles que não estavam relacionados com o tema da revisão. Após essa seleção, foi realizada análise dos resumos dos artigos selecionados e, na seqüência, os estudos incluídos foram analisados na íntegra, o que permitiu a interpretação e a crítica das informações coletadas.

Os artigos excluídos nesta revisão foram aqueles que estavam relacionados apenas ao sexo masculino e foram incluídos os artigos direcionados para sexo feminino e ambos os sexos.

DISCUSSÃO

Em 2002, uma pesquisa realizada nos Estados Unidos pela Organização das Nações Unidas do Departamento de Transporte relatou que aproximadamente 13 milhões de mulheres americanas andam de bicicleta regurlamente (GUESS et al. 2006).

Carpes et al. (2009) e Guess et al. (2006) afirmam que o ciclismo possui sua benéfica inflência para as pessoas que praticam esta atividade física, mas também tem seus riscos trazendo vários tipos de lesões. Leibovitch e Mor (2005) relatam que algumas destas lesões podem estar relacionadas a sintomas urogenitais, sendo a compressão perineal a principal desordem relatada, causando principalmente dormência na região genital. Porém fatores podem influenciar nestes sintomas, incluindo a idade superior a 50 anos, comorbidade, intensidade do ciclismo e peso corporal.

O nervo pudendo é responsável pela inervação da região perineal, o curso anatômico da artéria e do nervo são semelhantes em homens e mulheres. Devido a isto os sintomas sexuais e urinários são similares em ambos os sexos, como a dormência genital em mulheres e homens, que pode ocorre devido a uma diminuição significativa do fluxo sanguíneo na região do assoalho pélvico durante o ciclismo. Em uma revisão realizada com assuntos relacionados ao ciclismo relatou que 50-91% dos praticantes referiam dormência genital (LEIBOVITCH; MOR, 2005).

O principal fator extrínseco para o desenvolvimento de desconfortos e disfunções perineais durante o ciclismo é o selim. A medição da pressão do selim tem relação com a compressão exercida contra o períneo (CARPES et al. 2009). Segundo Baek et al. (2011), Colpi (2008), Leibovitch e Mor (2005) além do selim, as adequações da altura do assento, ângulo da sela, alcance e altura do guidão, tamanho do quadro, proa e popa são fatores cruciais para o ciclismo de alto desempenho. O ajuste inadequado e posicionamento incorreto podem trazer consequências para região perineal. (BAEK et al. 2011; COLPI, 2008; LEIBOVITCH E MOR, 2005)

Um estudo relacionado com a prática de passeio a cavalo com sintomas urinários não encontrou associação entre os dois, porém o ciclismo era um fator relacionado com os sintomas urinários nestas mulheres. Foi observado que a dureza do assento influenciava na vascularização na região do períneo, facilitando no desenvolvimento da incontinência urinária e outros sintomas nas mulheres (ALANEE et al. 2009).

Carpes et al. (2009) realizaram um estudo com 22 individuos fisicamente ativos que praticavam um ciclo de 2 horas semanais e sem queixas urogenitais, sendo 11 do sexo feminino e 11 do sexo masculinos, tendo como objetivo verificar os efeitos da posição do tronco sobre a pressão do assento. Foi concluído que nas mulheres não foi apresentado influência sobre a pressão do assento em relação a posição do tronco, porém nos homens, houve alteração de pressão no descolamento do tronco, quando deslocado para frente a pressão diminuia, comparado com o deslocamento para trás.

Guess et al. (2006) realizaram um estudo que analisava o desempenho sexual das participantes, composto por 48 ciclistas do sexo feminino e por 22 corredoras do grupo controle que praticavam atividade que não apresenta pressão direta sobre a região perineal. O desempenho sexual das participantes foi avaliado atráves de questinários e avaliação neurológicas de 8 regiões perineais que são invervadas pelo nervo pudendo, que são o clitóris, lado direito e esquedo do períneo, região anterior e posterior da vagina, grandes labios direito e esquerdo e o meato externo da uretra.

Em relação as respostas sexuais não foi apresentado uma diferença significativa entre os dois grupos, os indivíduos do estudo que tinham vida sexual ativa, apresentaram função sexual normais. Já na avaliação neurológica foi observado que houve uma diminuição da sensibilidade nas ciclistas, porém em algumas regiões a sensiibilidade foi influenciada apenas pela idade em ambos os grupos. Durante o ciclismo o nervo pudendo e a artéria são diretamente comprimidos, com isto surguem queixas sensoriais como parestesias (GUESS et al. 2006).

Em uma revisão realizado por Ricchiuti et al. (1999) relatou um estudo com 180 mulheres ciclistas, 80% relatavam dor ou queimação na região genital, e 70% relatavam dormência genital. Ricchiuti et al. (1999) também citou um estudo com 282 mulheres ciclistas encontraram sintomas de dor genital e dormência em apenas 34% das participantes, porém o autor fez a suposição que esta porcentagem pequena pode ser explicada, pois apenas 11% das mulheres eram ciclistas competitivas. Este achado difere do estudo de Guess et al. (2006) no qual todas as atletas eram profissionais, mais de 60% delas relataram queixas de dor genital, dormência e formigamento, contra menos de 5% do grupo controle.

Outro estudo realizado por Partin et al. (20120) analisou as diferenças entre sensação genital e função sexual, este estudo foi realizado com as mesmas 48 ciclistas citada em um estudo anterior sendo analisada apenas as 41 ciclistas, pois 7 ciclistas foram excluidas devido critérios adotados. As ciclistas utilizaram as selas e a posição do guidão que são usadas normalmente em suas atividades. A maioria das ciclistas posicionaram seus guidão mais baixo que a sela ou no mesmo nível da sela e do guidão, uma pequena minoria posicionou o guidão mais alto que a sela. O guidão baixo pode influenciar a inclinação do tronco para frente, deslocando o peso para região perineal, caso a inclinação fosse para trás o peso se deslocaria em direção a tuberosidade isquiática. A região períneo foi a região mais afetada em relação ao nível do guidão, concluindo que o posicionamento do guidão abaixo do nível da sela trazem danos prejudiciais ao assoalho pélvico feminino (PARTIN et al. 2012).

No mesmo estudo foi observado que 80% das mulheres com idade mais jovens posicionavam o guidão mais baixo do que a sela, enquanto 80% das mulheres com mais idade posicionavam seus guidões no mesmo nível da sela. Analisando estes fatores, foi possível observar que as mulheres com mais idade, modificam o modo de pilotar com o objetivo de minimizar os sintomas desagradáveis (PARTIN et al. 2012).

Já o estudo realizado por Thompson et al. (2001), relata que o melhor posicionamento do guidão deve ser de 1 a 2 centimetros mais baixo que o nível da sela, para uma melhor postura aerodinâmica do ciclista. Este estudo não explica se a orientação era direcionada para atletas ou pessoas que realizavam o ciclismo como lazer.

A controvérsia pode ser explicada por Potter et al. (2008) pois a postura aerodinâmica melhora o controle e velocidade da bicicleta e a postura ergonômica diminuindo os riscos neurovasculares, ou seja, minimizando os danos ao assoalho pélvico.

Guess et al. (2011) concluiu que as selas tradicionais resultavam em pressões menores sobre o períneo, podendo ser obsevados que as selas com cortes e o projeto de sela mais estreito afetavam negativamente a pressão do perineo nas mulheres.
Foi realizado um estudo composto por 22 indivíduos que praticavam o ciclismo com lazer por até 2 horas semanais, sendo 11 homens e 11 mulheres, o estudo analisou os efeitos de duas cargas diferentes de trabalho e dois projetos de selas. Foi observado que a pressão média entre ambos os sexos não apresentou diferença. Em relação ao tipo de sela, no tipo tradicional ocorreu aumento da pressão media apenas nos homens, conforme a carga de trabalho também era aumentada, nas selas com recorte, ambos os sexos apresentaram aumento conforme a carga de trabalho era aumentada, sendo observado que a sela com recorte não apresentou uma menor pressão no assento nos ciclistas (CARPES et al. 2009).

Com o propósito de impedir as lesões consequentes ao ciclismo, algumas mudanças podem ser feitas, como variações da posição sentada para posição em pé durante o ciclo, limitar a distância do treino e fazendo pausas durante o ciclo de longa duração, evitando ou minimizando a compressão do nervo pudendo (SOMMER et al. 2001a, 2001b).

Além destas medidas, deve se ter um cuidado minucioso com qualquer lesão na região da vulva e do períneo, fazer elevação dos membros inferiores durantes as pausas, tem influência benéficas sobre a região pélvica, contribuindo para uma melhor drenagem linfática da região (BAEYENS; VERMEERSCH; BOURGEOIS, 2002).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os estudos analisados apontam que mulheres ciclistas apresentam sintomas relacionados à região genital. Entretanto as pessoas que praticam o ciclismo como lazer não apresentaram alterações sobre a função urinária e sexual feminina.

O ajuste e o posicionamento correto da ciclista são de suma importância, guidão acima do nível da sela minimiza os danos ao assoalho pelvico feminino, causando uma menor pressão na região do períneo. Em relação a sela com recortes não foi apresentado diminuição da pressão sobre o períneo comparadas com as selas tradicionais.

As informações sobre o assunto ainda são escassas, necessitando de mais estudos direcionados para mulheres ciclistas.

REFERÊNCIAS

ALANEE S. et al. Horseback riding: impact on sexual dysfunction and lower urinary tract symptoms in men and women. Urology. 2009 Jan;73(1):109-14.

BAEK S. et al. Bicycle riding: impact on lower urinary tract symptoms and erectile function in healthy men. International Neurourology Journal 2011 Jun;15(2):97-101.

BAEYENS L, VERMEERSCH E, BOURGEOIS B. Bicyclists’vulva: Observational study. British Medical Journal 2002 July 20;325(7356):138–139

BRANT WO, LUE TF, SMITH JF. Does bicycling contribute to erectile dysfunction? Examining the evidence. Physician and Sportsmedicine. 2009 Apr;37(1):44-53.

CARPES FP. et al. Bicycle saddle pressure: effects of trunk position and saddle design on healthy subjects. Urologia Internationalis 2009;82(1):8-11.

CARPES FP.et al. Effects of workload on seat pressure while cycling with two different saddles.Journal of Sexual Medicine. 2009 Oct;6(10):2728-35.

COLPI GM, et al. Erectile dysfunction and amatorial cycling. Archivio italiano di urologia, andrologia 2008 Sep;80(3):123-6.

GUESS MK. Et al. Genital Sensation and Sexual Function in Women Bicyclists and Runners: Are Your Feet Safer than Your Seat? Journal of Sexual Medicine 2006 Nov;3(6):1018-27.

GUESS MK.et al. Women’s bike seats: a pressing matter for competitive female cyclists. Journal of Sexual Medicine 2011 Nov;8(11):3144-53.

KIM DG, KIM DW, PARK JK. Does bicycle riding impact the development of lower urinary tract symptoms and sexual dysfunction in men? Korean Journal of Urology 2011 May;52(5):350-4.

LEIBOVITCH I, MOR Y. The vicious cycling: bicycling related urogenital disorders. European Urology 2005 Mar;47(3):277-287

PARTIN SN.et al. The Bar Sinister: Does Handlebar Level Damage the Pelvic Floor in Female Cyclists? Journal of Sexual Medicine 2012 May; 9(5): 1367–1373.

POTTER JJ. et al. Gender differences in bicycling saddle pressure distribution during seated cycling. Medicine & Science in Sports & Exercise 2008;40:1126–34.

RICCHIUTI VS. et al. Pudendal nerve injury associated with avid bicycling. Journal of Urology 1999 Dec 162(6):2099-100.

SOMMER F. et al. Changes in penile blood flow during cycling–how does one prevent a decreased perfusion? Deutsche Medizinische Wochenschrift 2001 Aug 24;126(34-35):939-43

SOMMER F. et al. Impotence and genital numbness in cyclist. International. Journal of Sports Medicine 2001;22:410-3.

THOMPSON MJ, RIVARA F. Bicycle-related injuries. American Family Physician 2001;63:2007–14.



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