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Pesquisador brasileiro apresenta em evento da WCPT seus estudos sobre Neurofisiologia da Dor e mecanismos de interação cognitivo-emocionais

Pesquisador brasileiro apresenta em evento da WCPT seus estudos sobre Neurofisiologia da Dor e mecanismos de interação cognitivo-emocionais

A África do Sul recebeu no início do mês de julho, o congresso bienal da Confederação Mundial de Fisioterapia – a WCPT (World Confederation for Physical Therapy). O evento recebeu centenas de fisioterapeutas de todo o mundo.

Durante o evento, foram realizadas 17 sessões especiais, cada uma delas com a participação de pesquisadores reconhecidos mundialmente.

A pesquisa brasileira em Fisioterapia esteve representada em duas dessas sessões, onde foram apresentados e debatidos os trabalhos do Prof. Dr. Felipe Reis, fisioterapeuta, professor do curso de Fisioterapia do IFRJ – Instituto Federal do Rio de Janeiro. Atua no Laboratório de Neuroimagem – UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), na Linha de Pesquisa em Neuroimagem e Psicofisiologia do Programa de Pós-Graduação em Clínica Média – Faculdade de Medicina da UFRJ. Dr. Felipe Reis também é membro do Grupo Pesquisa em Dor (www.pesquisaemdor.com.br).

Acompanhe abaixo a entrevista completa concedida à Revista do Crefito-3.

Qual será sua abordagem na mesa dedicada à sua área de investigação?

Durante o Congresso Mundial de Fisioterapia deste ano, o WCPT (World Confederation for Physical Therapy) serão realizadas 17 apresentações do tipo focused symposium session. Cada apresentação envolverá a participação de três ou mais pesquisadores, reconhecidos mundialmente na área e que são convidados a compartilhar 1h30 de discussões atualizadas sobre determinado tópico. No ano passado tive a honra de ser o único representante do Brasil a ter uma apresentação no Congresso Mundial de Terapia Manual da IFOMPT (International Federation of Orthopaedic Manipulative Physical Therapists).

Este ano, também fiquei muito feliz em poder participar do WCPT e ser um dos poucos brasileiros a ter um focused symposium no Congresso. A apresentação que irei coordenar é denominada Pain – subjective experience (Dor – experiência subjetiva), acontecerá no dia 4 de julho e contará com a participação de mais dois fisioterapeutas pesquisadores parceiros, Victoria Madden (África do Sul) e Timothy Wideman (Canadá) que fazem parte do grupo Pesquisa em Dor (www.pesquisaemdor.com.br). O título da palestra será “WHEN EMOTIONS ARE PAINFUL: INTEGRATING NEUROSCIENCE AND SUBJECTIVE PAIN EXPERIENCE” (Quando as emoções são dolorosas: integrando a neurociência e a experiência subjetiva da dor).

Nessa palestra levaremos em consideração que a dor é a queixa mais frequente na prática do fisioterapeuta e, desta forma, é importante que os profissionais reconheçam a dor como uma experiência sensorial e emocional, ou seja, entender que essa interação é inseparável considerando tantos os achados observados em estudos do cérebro assim como em estudos comportamentais. Eu serei o primeiro a apresentar trazendo informações e resultados das pesquisas da nossa linha de investigação sobre Neurofisiologia da Dor e mecanismos de interação cognitivo-emocionais. Sendo assim, vou apresentar as evidências da neurociência e dos estudos que relacionam a integração do processamento da dor e das emoções no cérebro. Victoria Madden será responsável por discutir se a dor poderia ser aprendida por condicionamento clássico.

O condicionamento clássico, ou de Pavlov, é descrito como uma das maneiras de aprendizagem do medo. No caso da dor, pode significar que as pessoas associem a dor a certos estímulos que antes não geravam dor. No entanto, o conceito de que a dor pode ser aprendida por esse mecanismo ainda não está totalmente esclarecido. O professor Timothy WidePesquisador brman irá destacar a importância de se considerar a dor como experiência individual salientando a necessidade de melhorar a escuta e a identificação de fatores cognitivos e emocionais que podem contribuir para dor além do físico, ou seja, quais os impactos que a dor na vida do paciente.

Considerando a dor como uma experiência subjetiva, existem características culturais exclusivas do contexto brasileiro que diferem de outras culturas, quando no relato e avaliação da experiência da dor?

Na abordagem atual da dor, especialmente a crônica, está ocorrendo a migração do modelo biomédico para o modelo biopsicossocial. O modelo biomédico se baseia nas alterações anatômicas e biomecânicas para justificar a dor, mas esse modelo tem mostrado que não é suficiente e pode ainda contribuir para efeitos negativos (efeito Nocebo) como aumento da ansiedade e medo relacionado a dor, catastrofização, crenças sobre sua condição e limitação das atividades. A migração para o modelo biopsicossocial se tornou uma necessidade e ao mesmo tempo um grande desafio. A integração de fatores biológicos, psicológicos e sociais corresponde ao modelo biopsicossocial e permite que o profissional tenha uma visão mais ampla da experiência de dor. Sendo assim, é possível que fatores culturais brasileiros e as suas características regionais tenham alguma influência na dor.

Um problema no Brasil é que não temos dados oficiais sobre prevalência da dor e o mesmo ocorre para a ausência de estudos que tenham abordado características específicas da nossa população. No entanto, podemos fazer um paralelo com estudos que mostram a influência de fatores regionais na experiência da dor. Por exemplo, Victoria Madden em um estudo realizado na África do Sul, especificamente na região rural de Umkhanyakude, relata que as pessoas expressavam dor com a palavra ngiyagula que significa “estou doente” ao invés de “eu tenho dor”. A palavra para a dor era raramente usada porque a dor era interpretada como “não se sentindo bem” e entendida principalmente como uma doença da pessoa por inteiro e não como um sinal de lesão isolada. Em outro estudo com aborígenes de áreas rurais e remotas da Austrália Ocidental, realizado por Ivan Lin e colaboradores, foi observado que somente aqueles que haviam tido contato com o sistema de saúde desenvolveram crenças negativas sobre dor lombar e suas consequências futuras. Os autores ainda destacam que o grande desafio para os profissionais de saúde que atendem pessoas de diferentes culturas seria a comunicação, de forma a construir crenças positivas sobre a dor e suas consequências futuras, aumentando a resiliência à deficiência.

No Brasil, considerando as suas regiões e a sua diversidade, é possível que as pessoas tenham interpretações diferentes para a dor assim como desenvolvam estratégias de enfrentamento específicas. No entanto, ainda não se pode dizer ao certo, se isso realmente acontece e quais seriam as suas características. O que temos até o momento é proveniente de outros estudos que mostram a influência de características culturais em diferentes aspectos da dor, sendo possível que as definições, descrições, percepções de dor e controle sejam culturalmente específicos.

Quais as principais dificuldades enfrentadas pelo pesquisador em sua área de atuação?

As dificuldades da pesquisa na área da Fisioterapia ou em áreas afins que os fisioterapeutas estão inseridos são semelhante às dificuldades de outras áreas. Acredito que os maiores problemas da atualidade que dificultam o desenvolvimento da pesquisa na Fisioterapia seja o desconhecimento da classe política que não compreende o que é pesquisa e não reconhece a sua utilidade e o outro fator envolve a carência de investimentos. Em relação ao segundo ponto, por exemplo, o orçamento destinado para a pesquisa que já vinha diminuindo desde 2014, reduziu mais 44% na previsão para 2017. Isso significa sair de 6 bilhões de reais para 3,4 bilhões. Mesmo com a queda nos investimentos, verificamos que a formação de mestres e doutores na fisioterapia teve um crescimento importante nos últimos 20 anos. Em 1997, segundo os registros do Painel Lattes, foram formados dois mestres e um doutor. Já em 2016 foram 165 mestres e 58 doutores.

Atualmente, temos 20 programas de pós graduação strictu-senso (mestrado e doutorado) específicos para a fisioterapia distribuídos pelo país. Esses dados mostram que existe um crescimento da ciência no que se refere à formação, mas que não vem sendo acompanhada pelos investimentos do governo. A ausência de investimentos na área poderá comprometer toda uma geração de pesquisadores. O argumento que o investimento nas pesquisas deveria partir de iniciativa privada não caberia, pois a ciência, em diferentes países, é financiada com investimento público, uma vez a produção de conhecimento é de interesse do país. Ainda sobre a carência de recursos, se sairmos da esfera federal para a estadual, a situação complica ainda mais.

A diminuição nos investimentos com as pesquisas são provenientes das crises nos estados uma vez que as fundações são mantidas com percentuais da receita de cada Estado. No Rio de Janeiro, existem pesquisadores que, mesmo tendo seus projetos aprovados há dois anos, ainda não receberam nenhum centavo. É claro que, como em outros países, existem outros problemas. Por exemplo, a revista Nature publicou uma pesquisa em novembro de 2016 com o título “Hard work, little reward: Nature readers reveal working hours and research challenges” (Trabalho duro e pouca recompensa: Horas trabalhadas e desafios para pesquisa) evidenciando que 65% dos pesquisadores disseram ter considerado a possibilidade de desistir da pesquisa, e 15% já tinham parado realmente. Cerca de um terço considerou que tinham sido julgados apenas pelo número de artigos que haviam publicado, e outro terço disse ter publicado um artigo do qual não se orgulhavam. Outro problema apresentado nessa pesquisa está relacionado com a dificuldade para equilibrar a vida pessoal com as horas trabalhadas. Das 13.000 pessoas que responderam, quase 5.000 (38%) disseram que trabalhavam acima de 60 horas por semana.

No Brasil, ainda existe a dificuldade da pessoa que acabou de concluir seu doutorado de se inserir no mercado de trabalho como pesquisador. Há um número grande de pesquisadores talentosos que poderão trocar uma carreira de pesquisa para uma alternativa mais rentável ou mesmo abandonar o país em busca de condições melhores. Não há dúvida de que a ciência e a fisioterapia no Brasil sofrerão com isso.

Como você avalia a Fisioterapia brasileira e as pesquisas em sua área de atuação, em relação ao que tem sido desenvolvido mundialmente?

Existem grandes grupos de pesquisa sobre dor no mundo, mas o Brasil tem produzido pesquisas importantes com grupos que estudam desde a pesquisa básica até as pesquisas clínicas. É interessante destacar que os grupos de pesquisa não estão concentrados em regiões específicas, eles estão distribuídos em diversas partes do país. Existem grupos em São Paulo, São Carlos, Ribeirão Preto, Sergipe, Florianópolis, Salvador, Rio de Janeiro, Brasília, Piauí entre outras cidades. Esses grupos têm produzido pesquisas que contribuem para a compreensão de mecanismos, no desenvolvimento de novas intervenções na investigação de efetividade de técnicas, no panorama da dor no Brasil e no ensino de dor nas faculdades de Fisioterapia no Brasil. Muitas dessas pesquisas produzem artigos de impacto mundial.

Hoje, podemos dizer que os pesquisadores brasileiros são reconhecidos e respeitados pela sociedade científica sendo comum ver artigos publicados em periódicos de alto impacto e apresentações em congressos internacionais. É possível que as parcerias com instituições de outros países tenham contribuído para a internacionalização da ciência assim como para a conquista do respeito da Fisioterapia do Brasil como produtora de conhecimento. A conquista dessa posição no nível internacional precisa ser reconhecida pelos próprios fisioterapeutas brasileiros. Devemos olhar para dentro do nosso país e reconhecer os pesquisadores e não mais considerar que só os estudos provenientes de outros países, considerados grandes centros, são importantes. Esses pesquisadores enfrentam dificuldades e muitas vezes lidam com condições de trabalho que não são as ideais e mesmo assim produzem ciência de qualidade.

Um exemplo de como a fisioterapia cresceu enquanto ciência é o número de publicações dos pesquisadores brasileiros e o crescimentos de revistas científicas como o Brazilian Journal of Physical Therapy (BJPT). No entanto, acredito que ainda faltam espaços como eventos para se discutir pesquisa no país, assim como há uma distância entre pesquisa, clínicos e população. Um grande desafio que temos pela frente é fazer com que as pesquisas produzidas nas universidades cumpram o seu papel de serem revertidas para a sociedade. Ainda não conseguimos fazer com que os resultados das pesquisas impactem em modificações para a sociedade. Esse é um grande desafio, que nós pesquisadores, temos pela frente.

Fonte: Crefito-3



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