Perfil sociodemográfico, clínico e funcional de pacientes com câncer avançado assistidos em Comunidades Compassivas de Favelas Rocinha e Vidigal, de acordo com o encaminhamento para ao atendimento fisioterapêutico.
1. INTRODUÇÃO
As projeções indicam um cenário de aumento no número de idosos no Brasil e no mundo e com elas um aumento da prevalência das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), inclusive o câncer. Essa mudança no perfil epidemiológico da população brasileira eleva a prevalência de incapacidades e progressões de doença, na grande maioria com necessidades de Cuidados Paliativos (CP) (FIALHO, 2020).
Cabe destacar que o diagnóstico de câncer traz com ele grandes repercussões, sejam dores físicas, psicossociais e espirituais, que geralmente deixam pacientes e familiares muito angustiados em terem de conviver com uma situação inesperada e de perspectivas indefinidas. Nesse cenário, se faz necessário o acesso a tratamento abrangente, incluindo CP (DUARTE, 2013).
A Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu pela primeira vez o conceito e os princípios do CP voltados para a assistência integral a pacientes em cuidados de fim de vida. Atualmente evidencia-se uma evolução sobre o conceito e a proposta dos CP que devem ser aplicados o mais precocemente possível, durante o curso de qualquer doença crônica e ameaçadora da vida, como parte crucial dos serviços de saúde integrados e centrados nos pacientes e seus familiares (OMS, 2022).
Diante da relevância dos CP, se estendem os cenários de assistência, que vão além de hospitais, incluindo a preferência de cuidados domiciliares, inclusive nas comunidades de favelas, onde as novas práticas de (CC) são uma forma de empoderamento social através de trabalho voluntário de próprios moradores locais e voluntários profissionais que se unem com o propósito de atender as necessidades de cuidados contribuindo para a redução do nível de dependência, com mais autonomia do paciente e familiar (KELLEHEAR, 2013).
Os estudos concluem que um número significativo de moradores das favelas do Brasil integra grupos caracterizados pela exclusão, pobreza e privação ou ineficácia no atendimento dos direitos sociais (CATÃO, 2015).
Quando acometidos por doenças ameaçadoras da vida, o sofrimento pode ser ainda maior, cenário em que o CP domiciliar poderia contribuir para redução da sensação de abandono, possibilitando a oferta de cuidados e evitando internações desnecessárias, tais orientações sobre o percurso da doença, faz diferença no cuidado (VASCONCELOS, 2018).
Inspirando neste conceito de CC, surge no Brasil o primeiro modelo de CC na favela da Rocinha e Vidigal liderada pelo enfermeiro e Prof. Alexandre Silva que para atender a demanda social de assistência domiciliar mensal aos pacientes com câncer e aos seus familiares, uniu equipe multi de profissionais voluntários capacitados, incluindo fisioterapeutas e os voluntários locais, ou seja, os moradores da própria comunidade, que apadrinham, acompanham, apoiam e prestam socorro continuamente aos pacientes e seus familiares (SILVA et al., 2021).
Dentre as diversas desordens ou intercorrências nas quais a fisioterapia pode atuar na assistência em CP para esse grupo, podemos citar, por exemplo, a reabilitação. Muitos desses pacientes ficam restritos de suas atividades e tal intervenção pode contribuir para proporcionar maior dignidade, autonomia e realização de últimos desejos favorecendo a autoestima e direcionando-os a novos objetivos (COFFITO, 2021).
Dessa forma, o objetivo desse estudo foi descrever o perfil sociodemográfico, clínico e funcional de pacientes com câncer avançado assistidos em Comunidades Compassivas de Favelas Rocinha e Vidigal encaminhados para ao atendimento fisioterapêutico.
2. MATERIAIS E MÉTODOS
2.1 Delineamento e Cenário do estudo
Tratou-se de um estudo quantitativo (com análise transversal de dados obtidos de forma retrospectiva de julho de 2021 a agosto de 2023) na CC das Favelas da Rocinha e Vidigal.
A CC prevê a assistência domiciliar mensal aos pacientes e seus familiares com diagnóstico de doenças ameaçadoras da vida, incluindo o câncer, que demandam por CP. Tal assistência é realizada pela equipe voluntária multidisciplinar em saúde; enfermeiros, médicos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, dentistas, assistentes sociais, psicólogos, fisioterapeutas e nutricionistas. A iniciativa inclui a participação dos apoiadores voluntários, moradores locais, também voluntários, que com capacitações constantes promovidas pelo projeto, conseguem acompanhar, apoiar e prestar socorro continuamente aos pacientes e seus familiares.
A assistência aos pacientes na CC funciona da seguinte forma: voluntários locais captam pacientes com o perfil de doenças ameaçadoras da vida e que necessitam de CP. Dando seguimento a esta captação, voluntários profissionais constituídos por uma equipe básica de profissionais que se dividem em 7 grupos, se distribuem em visitas pré-definidas que acontecem em “mutirões”, uma vez ao mês, para validar ou não a captação feita anteriormente.
Tal equipe básica de saúde, acompanhada pelo voluntário local que captou o paciente, avalia o paciente para confirmar se ele preenche o critério de elegibilidade para o projeto. Com a admissão do paciente, são identificadas as reais necessidades e potenciais riscos de morte eminente. Assim, serão efetuados os referidos direcionamentos para as lideranças de cada equipe, para que seja feito o devido acompanhamento.
Além disso, algumas equipes da psicologia, nutrição, fonoaudiologia, enfermagem e fisioterapia precisam intervir em visitas avulsas, seja presencial ou on-line, fora dos mutirões, para um acompanhamento mais intensivo de cuidados.
2.2 Avaliação do perfil clínico e funcional
Foram avaliados todos os pacientes acompanhados pelo serviço de fisioterapia da CC.
Critérios de Elegibilidade: Foram incluídos pacientes de ambos os sexos, com tumores malignos em estágio avançado, independentemente da topografia tumoral, residentes das favelas da Rocinha e Vidigal e assistidos pelo serviço de fisioterapia da CC no período de julho de 2021 a agosto de 2023.
Coleta de dados: Foram coletados nos registros de arquivos da CC, dados sociodemográficos; idade, sexo, cor da pele, escolaridade, situação conjugal, religião, favela de residência, situação previdenciária e se possui cuidador. Dados funcionais e clínicos; Karnofsky Performance Status (KPS), diagnóstico, sítio tumoral primário, progressão de doença, tratamento em curso, comorbidades, presença de sintomas (astenia, fadiga, gástricos, psicológicos), rede referenciada para o tratamento oncológico, modalidade de atendimento (on-line, presencial ou ambos).
Fisiodiagnóstico; presença ou ausência de dor, astenia/fadiga/fragilidade, limitação funcional, linfedema e demanda para atendimento da fisioterapia em formulário desenvolvido especificamente para a pesquisa (APÊNDICE 1).
O KPS trata-se de uma escala percentual subjetiva que classifica o indivíduo quanto à capacidade de realizar trabalho ativo, autocuidado e necessidade de cuidados médicos frequentes devido a maior evidência de doença, sendo indicado para avaliar a capacidade funcional. O KPS possui 11 categorias e cada uma é pontuada em 10%; uma pontuação mais baixa indica pior funcionalidade (100%: função completa – 0%: morte) (SCHAG et al., 1984).
As análises dos dados foram realizadas utilizando o Stata Data Analysis and Statistical Software (STATA) versão 15.0.
Foram elaboradas tabelas com os números absolutos e frequências relativas das variáveis avaliadas de acordo com o atendimento da fisioterapia. Para comparação das proporções foi utilizado o teste qui-quadrado ou exato de Fisher, considerando o valor de p e o tamanho do efeito (TE). O critério de determinação de significância estatística adotado para o p-valor foi de 5%.
Para obtenção do TE foram utilizados o W de Cohen (para variáveis com duas categorias) e o V de Cramér (para a variável com três ou mais categorias), que forneceram o TE associado ao teste qui-quadrado. Para o W de Cohen, TE de 0,10–0,29 foi classificado como pequeno, 0,30–0,49 como médio e >0,50 como grande. Para o V de Cramér, TE de 0,07–0,20 foi classificado como pequeno, 0,21–0,34 como médio e >0,35 como grande (COHEN, 1988).
As frequências relativas (%) das modalidades de atendimento da fisioterapia e fisiodiagnóstico de pacientes foram representadas graficamente.
Questões éticas: Como se trata de coleta de dados secundários e retrospectivos de pacientes que provavelmente já foram a óbito, foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) a dispensa de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
3. RESULTADOS
Foram incluídos no estudo 68 pacientes acompanhados pela CC residentes nas favelas da Rocinha (n=48; 70,6%) e do Vidigal (n=20; 29,4%), dos quais 43 (63,2%) foram atendidos pela fisioterapia. A maior parte deles possuía a partir de 60 anos de idade (65,1%), sexo feminino (60,3%), era solteiro, divorciado ou viúvo (51,4%), possuía cuidador (76,5%) e acesso à rede de atenção à saúde (76,5%). Dentre os pacientes que foram atendidos pela fisioterapia, houve maior proporção de casados ou que viviam em união (p-valor=0,044; TE médio=0,341) e que possuíam acesso à rede de atenção (p-valor=0,015; TE médio=0,300) (Tabela 1).
A maior parte dos pacientes apresentava KPS menor que 50% (42,5%) e diagnóstico de câncer (54,4%), seguido por AVC (13,2%). Os sintomas/queixas mais frequentemente apresentados foram dor (31,0%) e queda da funcionalidade (20,7%). Dentre os pacientes que foram atendidos pela fisioterapia, houve maior proporção de pacientes sem hipertensão (p-valor=0,030; TE fraco=0,267), com queixa de queda da funcionalidade (p-valor=0,043; TE fraco=0,235) e de astenia/fadiga (p-valor=0,048; TE fraco=0,194) (Tabela 2).
A maior parte dos atendimentos fisioterapêuticos foi presencial (n=29; 67,4%) e os fisiodiagnósticos mais frequentes foram a limitação funcional (n=24; 55,8%) e a astenia/fadiga/fragilidade (n=13; 30,2%) (Figura 1). Esses dois principais fisiodiagnósticos foram os menos abordados em atendimento remoto (4,2% e 7,7%, respectivamente), porém sem diferença estatisticamente significante em relação a outras modalidades de atendimento (Figura 2).

4. DISCUSSÃO
É crescente a necessidade de CP, principalmente mediante a lugares populosos e de difícil acesso, como nas comunidades de Favelas. Nosso principal resultado demonstra que, com base nos fisiodiagnósticos dos pacientes avaliados, verificamos que a limitação funcional e a astenia/fadiga/fragilidade foram os resultados mais frequentes.
A fadiga é um sintoma prevalente relacionado ao câncer avançado e tem como consequências a limitação funcional e o medo de movimentar-se, que podem desencadear quadros de astenia, deixando o paciente mais fragilizado e hipoativo (PYSZORA et al., 2017).
Pacientes com câncer estão sujeitos aos efeitos deletérios da doença que comprometem a funcionalidade, exigindo cuidados mais frequentes e acompanhamento contínuo. A incapacidade funcional pode conduzir o paciente a uma percepção negativa de sua qualidade de vida, ampliando a demanda de cuidados à dependência funcional, aumento dos custos do cuidado e o risco de complicações associadas ao imobilismo. As intervenções fisioterapêuticas se fazem necessárias durante todo o curso da doença, mas se tratando de fase avançada do câncer as demandas por intervenções se tornam mais frequentes, pois há uma piora de sintomas (FLORENTINO et al., 2012).
O tratamento para fadiga depende de uma equipe de cuidados, incluindo o fisioterapeuta, que dispõe de recursos não farmacológicos associados a orientações, com a intenção de alívio de sintomas, o que tem levado ao interesse de inúmeros pesquisadores. Alguns estudos citam a eficácia da intervenção da equipe de fisioterapia com protocolos de exercícios individualizados ou em grupo, permitindo a inclusão e a manutenção de atividades físicas, com impacto positivo na funcionalidade, fadiga e qualidade de vida (PYSZORA et al., 2017).
Estudos se aplicam também ao paciente em estágio avançado de câncer onde se observa uma certa negligência em torno do incentivo à funcionalidade por se tratar de um estágio avançado, lembrando que estes pacientes podem obter benefícios significativos, impactando na sua qualidade de vida e qualidade de morte através de exercícios direcionados (CHEVILLE et al., 2012).
Uma limitação do presente trabalho que merece ser destacada é que a coleta de dados ocorreu a partir dos registros pré-existentes na CC e não foram aferidos diretamente pelo pesquisador face a face com os pacientes. No entanto, esse estudo tem a relevância de ser pioneiro em relação a esse grupo de pacientes atendidos em CC de Favelas.
É sugerido maiores pesquisas sobre o tema de CC em favelas e estratégias para ampliar a inserção e aceitação de equipe de fisioterapeutas em atendimentos a esta população, talvez aprimorando e padronizando ferramentas para identificação de um perfil mais ajustado para este atendimento e com oferta proporcional de cuidados.
A partir da relevância do levantamento de dados realizado neste trabalho, será possível aumentar a oferta de cuidado fisioterapêutico a pacientes com câncer avançado em CP assistidos em CC de Favelas, sendo uma iniciativa inovadora.
Dessa forma, concluímos que pacientes com câncer estão sujeitos aos efeitos deletérios da doença. Em presença de comprometimento da funcionalidade, como verificamos, demandam por cuidados mais frequentes e acompanhamento fisioterapêutico.
AGRADECIMENTOS
Humildemente venho agradecer a todos que participaram direta ou indiretamente da minha trajetória acadêmica e profissional, e que hoje podem admirar a profissional que estou me transformando e principalmente podendo contribuir para uma sociedade mais igualitária.
Agradecimento especial a Deus por ser o meu grande orientador, a minha mãe e meu pai que são luzes na minha vida e ao meu marido e filhos que são a minha força e inspiração.
Agradeço à Profa. Livia Costa de Oliveira por não largar a minha mão e me adotar nesta trajetória acadêmica.
REFERÊNCIAS
Cheville et al., 2012
KELLEHEAR, A. Compassionate communities: end-of-life care as everyone’s responsibility. 2013.
DUARTE IV, FERNANDES KF, FREITAS SC de. Cuidados paliativos domiciliares: considerações sobre o papel do cuidador familiar. Revista da SBPH. Dezembro de 2013;16(2):73–88.
FIALHO, S. 2020. Comunidade compassiva: uma estratégia empoderadora da promoção da saúde. http://hdl.handle.net/10400.14/31989.
FLORENTINO, Danielle et al. A fisioterapia no alívio da dor: uma visão reabilitadora em cuidados paliativos. Revista Hospital Universitário Pedro Ernesto, 11(2), 2012.
MESQUITA, Maria Gefé da Rosa. Levando os Cuidados Paliativos para a Favela: a Comunidade Compassiva como estratégia de acesso. Repositório Virtual – Prêmio Marcos Moraes 2022. Galoá, Campinas, Brasil. Disponível em: https://proceedings.science/premiomarcosmoraes-2022/trabalhos/levando-os-cuidados-paliativos-para-a-favela-a-comunidade-compassiva-como
MESQUITA MGR, SILVA AE, COELHO LP, MARTINS MR, SOUZA MT, TROTTE LAC. Slum compassionate community: expanding access to palliative care in Brazil. Rev Esc Enferm USP. 2023;57:e20220432. https://doi.org/10.1590/1980-220X-REEUSP-2022-0432en
PYSZORA et al., 2017
SILVA, A. (2021). Cuidados paliativos em favelas no Brasil: Uma revisão integrativa. DOI: http://dx.doi.org/10.33448/rsd-v10i6.16183
VASCONCELOS GB, PEREIRA PM. Cuidados paliativos em atenção domiciliar: uma revisão bibliográfica. Revista de Administração em Saúde.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). National cancer control programmes: policies and managerial guidelines. 2.ed. Geneva: WHO, 2002.
KELLEHEAR, ALLAN. Compassionate communities: end-of-life care as everyone’s responsibility. 2013.
ARTIGO PUBLICADO EM 06/11/2025
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