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Perfil Clínico das Crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) Acompanhadas em um Centro Especializado na Cidade de Maceió/AL

Perfil Clínico das Crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) Acompanhadas em um Centro Especializado na Cidade de Maceió/AL

O AUTISMO é um distúrbio do desenvolvimento humano que vem sendo estudado há mais de sete décadas, descrito pela primeira vez em 1943 pelo Dr. Leo Kanner e posteriormente pelo médico Hans Asperger em 1944. Nessa patologia ocorre uma severa desordem da personalidade, que se manifesta na infância de forma precoce por um anormal desenvolvimento de linguagem, onde ocorrem perdas na interação social recíproca e na comunicação, apresentando comportamentos, interesses e atividades estereotipadas (FERNANDES, NEVES, SCARAFICCI, 2004; FERREIRA, MAIA, 1998; GADIA, TUCHMAN, ROTTA, 2004).

Até a década de 60, o AUTISMO foi considerado um transtorno emocional, causado pela incapacidade de mães e pais de oferecer o afeto necessário durante a criação dos filhos, posteriormente isso se mostrou falso. Em seguida passa a ser considerado como um transtorno do desenvolvimento, referindo-se a uma disfunção neurológica, que se manifesta por alterações do comportamento e atraso nas aquisições do neurodesenvolvimento (FILHO, CUNHA, 2010; OLIVEIRA, 2009).

Mais recentemente cunhou-se o termo Transtorno do Espectro Autista (TEA) para englobar o AUTISMO, a Síndrome de Asperger e o Transtorno Global do Desenvolvimento (KLIN, 2006).  De acordo com a nova versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), as manifestações comportamentais que definem o TEA incluem comprometimentos qualitativos no desen­volvimento sociocomunicativo, bem como a presença de comportamentos estereotipados e de um repertório restrito de interesses e atividades, sendo que os sintomas nessas áreas, quando tomados conjuntamente, devem limitar ou dificultar o funcionamento diário do indivíduo (ARLINGTON, 2013).

Estudos recentes mostram que a estimativa de preva­lência do TEA é 20/10.000, com uma incidência quatro vezes maior em meninos do que em meninas (ELSABBAGH, et. al. 2012; FOMBONNE, 2009).

As manifestações clínicas são muito precoces, sendo evidentes na maioria dos casos antes dos dois anos de idade. Muitas vezes confundido com outras síndromes, esse transtorno apresenta-se com algumas características marcantes como: ausência de contato com a realidade externa e dificuldade na interação social; prejuízos na comunicação e distúrbios da linguagem; padrões restritos e repetitivos de comportamento e necessidade de manter inalterado o ambiente habitual (SCHWARTZMAN, 2010).

Cerca de 70% das pessoas que apresentam TEA tem algum grau de atraso mental e no desenvolvimento da linguagem, nos 30% que restam encontramos uma inteligência acima da média, porém focada em algo específico, voltada para atividades do seu interesse (FERRARI, 2010).

O diagnóstico do TEA é baseado principalmente no quadro clínico da criança, não havendo ainda um marcador biológico que o caracterize. Estudos mostram que durante o pré-natal já podem ser observadas alterações do desenvolvimento cerebral, no entanto, os sinais ainda são o principal indicador para um diagnóstico precoce (OLIVEIRA, 2009; POSSI, HOLANDA, 2011).

Apesar dessa precocidade, o diagnóstico geralmente acontece tardiamente, entre quatro e cinco anos (OLIVEIRA, 2009; POSSI, HOLANDA, 2011), já que na maioria das vezes, a criança autista tem uma aparência totalmente normal e harmoniosa e ao mesmo tempo um perfil irregular de desenvolvimento, com habilidades impressionantes em algumas áreas, enquanto outras se encontram bastante comprometidas (FERNANDES, NEVES, SCARAFICCI, 2004).

Normalmente os sinais do TEA são reconhecidos pelas mães onde começam a observar nos primeiros meses que a criança não reage ao ser chamada, não chora quando deixada sozinha, não aponta e não balbucia. Mais tarde são observados sinais mais específicos como à falta de interesse pelo brincar e estereotipias motoras como: abanar as mãos, pular no mesmo lugar, balanço incessante e comportamentos repetitivos (FERRARI, 2010).

O tratamento do TEA é complexo, faz-se uma abordagem medicamentosa, intervenções psicoeducacionais, orientação familiar, desenvolvimento da linguagem e/ou comunicação. É necessária a intervenção de uma equipe multidisciplinar composta por psiquiatras, psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas e educadores físicos (COSTA, NUNESMAIA, 1998; AMA, 2013).

A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) Maceió dispõe de um Centro Unificado de Integração e Desenvolvimento do Autista, o CUIDA, que atende crianças de 0 a 16 anos com características ou diagnóstico fechado de Autismo. O CUIDA oferece serviços de assistência social, fisioterapia, fonoaudiologia, psicologia, terapia ocupacional, musicoterapia, integração social, física e especialidades médicas em geral.

Diversos estudos destacam a intervenção precoce como fator fundamental para a melhora do quadro clínico do autismo, gerando ganhos significativos e duradouros no desenvolvimento da criança (REICHOW, 2011; ZANON, BACKES, BOSA, 2014). Sendo assim, é de extrema importância conhecer as características das crianças com TEA bem como os fatores que podem interferir nas aquisições motoras, de modo que possamos identificar e tratar precocemente.

Diante do exposto e considerando que o CUIDA da APAE- Maceió, possui um grande número de crianças com TEA, podendo também ser considerada como um dos principais locais de atendimento na Cidade para este tipo de tratamento, faz-se necessário traçar um perfil clínico das crianças acompanhadas neste centro.

MATERIAIS E MÉTODOS

O presente estudo teve início após a aprovação do Comitê de Ética e Pesquisa do Centro Universitário CESMAC, sob número do protocolo n° 647.697/2014.

Constituiu-se de um estudo transversal, retrospectivo e descritivo realizado por meio da coleta de dados realizada com mães de crianças com TEA atendidas no “CUIDA”. A coleta de dados foi realizada no mês de junho de 2014.

Utilizaram-se como critério de inclusão, crianças com diagnóstico de TEA descrito nos prontuários, inseridas em um programa de reabilitação e compreendidas na faixa etária de 0 a 16 anos. Foram excluídas as crianças com TEA que possuíssem alguma condição associada ao quadro de TEA (Síndromes, distúrbios visuais…).

O CUIDA é um Centro Unificado Integrado de Desenvolvimento do Autismo que faz parte da APAE-Maceió, uma instituição filantrópica de direito privado sem fins econômicos.

É composto por uma equipe multidisciplinar composta por: Assistente Social, Técnico de enfermagem, Psicólogos, Terapeutas Ocupacionais, Educador físico, Fisioterapeutas, Musicoterapeuta, Nutricionista, Psiquiatra e Neuropediatra.

O CUIDA aposta em uma terapia de objetivos definidos em sintonia com médicos, terapeutas, família e escola, utilizando métodos específicos para TEA, como: terapias comportamentais que se baseiam na Análise Aplicada do Comportamento (ABA); Treatment Education of Autistic and Relted Communication Handcapped Children (TEACCH); Sistema de Comunicação por troca de figura (PECS); Terapia de Integração Sensorial, Musicoterapia, entre outros.

Inicialmente foi entregue aos cuidadores o Termo de Consentimento Livre-Esclarecido (TCLE), para que os mesmos entendessem melhor do que se tratava a pesquisa e os que concordaram em participar espontaneamente assinaram o termo.

Em seguida os dados foram coletados a partir de entrevistas realizadas com os cuidadores das crianças com TEA, sendo preenchido um formulário de coleta de dados elaborado pela autora da pesquisa, contendo as seguintes variáveis: idade da criança, idade quando foram reconhecidos os primeiros sinais de TEA e quais sinais foram, idade na época do diagnóstico, idade das aquisições motoras básicas (controle de cabeça, sentar, engatinhar, ficar de pé e andar), gênero, naturalidade, procedência, cuidador da criança, escolaridade do cuidador, se a criança frequenta escola, se recebe benefício, quantidade de profissionais necessários para diagnóstico, período do início do tratamento, se a criança apresentou a característica “andar na ponta dos pés” e quais terapias a criança realiza atualmente como tratamento.

Após a análise, os dados coletados foram armazenados em uma pasta e posteriormente foram descartados a fim de evitar riscos de exposição.

Os dados foram submetidos à análise descritiva avaliando-se a distribuição de cada variável estudada por meio do programa Statistical Package for Social Sciences (SPSS) versão 17.0. Os resultados foram apresentados em tabelas em números absolutos, porcentagem, média, desvio padrão, mínimo e máximo.

RESULTADOS /DISCUSSÃO

Foram entrevistadas 40 cuidadores de crianças com TEA acompanhadas no CUIDA. A faixa etária das crianças estava compreendida entre 0 a 16 anos sendo a média de idade de 7,2±2,6 anos. Verificou-se que 9 (22,5%) eram do gênero feminino e 31 (77,5%) do masculino.

Um achado interessante envolvendo tanto as amostras clínicas quanto as epidemiológicas é de que há uma maior incidência de autismo em meninos do que em meninas, com proporções médias relatadas de cerca de 3,5 a 4 meninos para cada menina (ELSABBAGH, et. al. 2012; FOMBONNE, 2009).

Identificou-se que apenas 17 (42,5%) das crianças eram provenientes do interior do estado de Alagoas, as demais eram oriundas da capital. Acredita–se que grande parte das cidades do interior não possuem serviços de reabilitação especializados para atender ás crianças com atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, dessa forma, seus familiares procuram a capital por ser um local que fornece atendimento gratuito e especializado na área.

Verificou-se que 32 (80%) dos cuidadores das crianças com TEA eram as próprias mães das crianças cujas mesmas possuíam uma escolaridade de 9 anos ou mais em 30 (75%) dos casos. Apenas 3 (7,5%) eram analfabeto e (14,5%) possuíam 5 a 8 anos de estudos.

Apesar de a condição da criança atingir todo o grupo familiar, geralmente a figura materna é a mais envolvida no cuidado ao filho. A mãe assume a rotina dos cuidados, das visitas ao médico, das medicações e de cuidados domiciliares como alimentação e higiene. Dessa forma, o cuidador passa a viver em função do filho, estando suas ações voltadas primeiramente às necessidades da criança (MARCON, 2007). Esse fato de ser a mãe a figura mais envolvida no cuidar da criança também foi encontrado nesta pesquisa.

Um estudo comparou o bem-estar e estresse de mães norte-americanas de adolescentes de 15 a 16 anos de idade, com transtorno autístico e com SINDROME DE DOWN, as mães de crianças com transtorno autístico mostraram menor bem-estar psicológico do que o grupo comparativo (NUNES, SANTOS, 2010).

A escolaridade dos cuidadores presentes neste estudo foi em sua maioria de 9 anos ou mais. Corroborando com o estudo que relatou a escolaridade dos cuidadores de aproximadamente 10 anos (NUNES, SANTOS, 2010). Outro estudo mostrou que 39% das mães são analfabetas, 18% tem o ensino fundamental completo, 34% tem o ensino médio completo e apenas 8% tem o ensino superior completo (BARBOSA, FERNANDE, 2009). Diferente do que foi apresentado neste, já que apenas 3 (7,5%) eram analfabetos.

Os principais sinais/sintomas que os cuidadores apontaram como os que motivaram as mesmas a procurarem ajuda estão descritos na tabela 01 abaixo.

Tabela 01- Principais sinais/sintomas apontados pelos cuidadores das crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) acompanhadas no Centro Unificado de Integração e Desenvolvimento do Autista (CUIDA). Maceió/AL, junho/2014.

VARIÁVEL* N %
Ausência ou atraso na fala 31 77,0%
Desvio no olhar 28 70,0%
Isolamento Social 17 42,5%
Movimentos repetitivos 9 22,5%
Hiperatividade 6 15,0%
Auto-Agressão 4 10,0%
Convulsão 4 10,0%
Andar na ponta dos pés 4 10,0%

Legenda –N- Número absoluto, % porcentagem , * Mais de uma criança pode ter mais de um sinal Fonte- Dados da pesquisa-

A ausência das primeiras palavras e frases entre os 12 e 24 meses, aproximadamente, constitui um dos principais motivos de preocupação dos pais de crianças com TEA (ZANNON, 2012).  Esses dados foram os mais apontados pelas mães de crianças com TEA.

O atraso no desenvolvimento da comunicação e da linguagem é o sintoma relatado com maior frequência pelos pais. Por outro lado, pesquisas demonstram que os comprometimentos no desenvolvimento social são os pri­meiros sintomas a emergirem, embora reconhecidos apenas por uma pequena parcela dos pais (REICHOW, 2011; ZANNON, 2014).

É importante destaca-se que o sinal “andar na ponta dos pés” foi pouco percebido pelas mães como uma característica que a preocupasse a ponto de procurar ajuda. Todavia, quando se indagou aos cuidadores sobre a existência dessa característica na criança, 24 (60%) afirmaram que isso ocorreu com seu filho.

O “andar na ponta dos pés” é uma característica comum em crianças com TEA. É ocasionado pelo Transtorno do Processamento Sensorial que as acometem. A criança passa a andar dessa forma evitando o contato total do pé no chão. Estudos indicam que problemas sensoriais já estão aparentes no primeiro ano de vida de uma criança autista, podendo inclusive ser úteis para um rastreamento precoce do transtorno (CAMINHA, 2008).

Nas últimas duas décadas, tem-se buscado identificar a Idade do Reconhecimento dos Primeiros Sintomas (IRPS) do TEA, através de entrevistas realizadas com os pais de crianças diagnosticadas com esse transtorno. Os primeiros sintomas no desenvolvimento tendem a ser percebidos pelos pais durante os dois primeiros anos de vida (ZANNON, 2014). A média de IRPS de TEA pelos cuidadores neste estudo foi de 24,5±15,8 em meses (ou seja, 2 anos e 5 meses), sendo a idade mínima de 2 meses e a máxima de 60 meses. Ou seja, resultado semelhante ao encontrado no estudo citado..

Investigou-se a idade na qual as crianças acompanhadas no CUIDA foram diagnosticadas com TEA e verificou-se que em média com 4,4±2 anos é que as crianças foram diagnosticadas e também que foram necessários em média 4,4±2,2 profissionais para que fosse fechado o diagnóstico de TEA. Destaca-se que o mínimo de profissionais foi de 1 (ou seja fechou-se com um único profissional) e o máximo de 10 profissionais.

Crianças com TEA dificilmente recebem o diagnóstico antes dos 5 anos (ZANNON, 2014). Alguns fatores que podem influenciar no atraso na realização do diagnóstico precoce como: a variabilidade na expressão dos sintomas do TEA; as limitações da própria avaliação de pré-escolares, uma vez que essa população demanda instrumentos específicos e sensíveis aos comportamentos sociais mais sutis e próprios dessa faixa etária; a falta de profissionais treinados/habilitados para reconhecer as manifestações precoces do transtorno; a escassez de serviços especializados e as dificuldades no acesso das famílias aos serviços de saúde (MANDELL, et al. 2009; SIKLOS, KERNS, 2007).

A necessidade da equipe multiprofissional para se fechar um diagnóstico assim como para o tratamento é justificada pelos diversos aspectos do desenvolvimento afetados pelo AUTISMO: comunicação verbal e não verbal, habilidade para relacionamento interpessoal, capacidade adaptativa, desempenho cognitivo, desmodulações sensoriais (AUTISMO BRASIL, 2014).

O diagnóstico do AUTISMO e de outros quadros do espectro é obtido por meio de observação clínica e pela história referida pelos pais ou responsáveis. A criança deve apresentar características da tríade: problemas de interação social, déficit de comunicação e padrões de comportamentos esteriotipados.  Assim, não existem marcadores biológicos que definam o quadro. Alguns exames laboratoriais podem permitir a compreensão de fatores associados a ele, mas ainda assim o diagnóstico é clínico (OLIVEIRA, 2009; ZANNON, 2012; AUTISMO BRASIL, 2014).

A tabela 02 descreve a média de alcance dos marcos motores das crianças TEA acompanhadas no CUIDA.

Tabela 02 – Idade média dos marcos motores das crianças baseada nas informações dos cuidadores das crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) acompanhadas no Centro Unificado de Integração e Desenvolvimento do Autista (CUIDA). Maceió/AL, junho/2014.

MARCOS MOTORES Média de aquisição do marco motor
 (em meses)
Mín Máx
Controle de cabeça 7,4±7,7 2 36
Sentar sem apoio 9,8± 8,3 5 41
Ficar de pé 16,1±14,4 7 84
Andar 19,8 ± 15,4 9 85

Legenda –  Min –Mínimo, Máx- Máximo             Fonte – Dados da pesquisa

O desenvolvimento motor é um processo seqüencial e contínuo onde o individuo evolui de forma gradativa aprimorando seus movimentos que inicialmente ocorrem de forma simples e desorganizados e se aperfeiçoam em habilidades elaboradas e complexas podendo ser alterado através de estímulos externos (BORELLA, SACHELLI, 2009).

A aquisição do controle de cabeça no desenvolvimento normal ocorre em média no final do 4º mês, sentar sem apoio no 9º mês e ficar de pé com 11 meses. A aquisição da marcha independente é a fase final do desenvolvimento motor grosseiro. Para atingir esse marco a criança precisa ter tido experiências com sua motricidade corporal global, sendo a média de idade de aquisição da marcha, em criança normais, de 13 meses, podendo variar entre 12 a 18 meses (WILLRICH, AZEVEDO, FERNANDES, 2009). Destaca-se que as aquisições ficar de pé e andar foram as que mais se distanciaram da normalidade neste estudo.

Geralmente uma das dificuldades de se diagnosticar o TEA se dá pelo fato das crianças terem seu desenvolvimento motor normal ou muito próximo do normal. E assim algumas características específicas que podem ser ponto chave para diagnóstico precoce passam despercebidas. Desvio do olhar, ausência de demonstração de interesse por objetos, movimentos repetitivos são alguns exemplos dessas características (POSSI, HOLANDA, 2011; ZANNON, 2014).  Esse fato não aconteceu nessa pesquisa, visto que em todos os marcos motores a média das crianças com TEA mostrou-se superior a média do desenvolvimento motor em crianças normais.

Das 40 crianças avaliadas, 23 (57,5%) segundo os seus cuidadores não realizaram o engatinhar e apenas 17 (42,5%) engatinharam, sendo a média dessas crianças de 8,0±1,7 meses (mínimo de 6 e máximo de 12 meses). Então, é preciso ficar atento a essa fase do desenvolvimento motor, pois pode ser mais uma característica para que os pais procurem ajuda mais precocemente.

Identificou-se que 31 (77,5%) das crianças com TEA acompanhadas no CUIDA frequentam a escola e que 50% recebem o benefício da prestação continuada oferecido pela previdência social.

Destaca-se a escola como um dos espaços que favorecem o desenvolvimento infantil, tanto pela oportunidade de convivência com outras crianças quanto pelo importante papel do professor, cujas mediações favorecem a aquisição de diferentes habilidades nas crianças (FAVORETTO, LAMÔNICA, 2014). O contexto escolar oportuniza contatos sociais, favorecendo o desenvolvimento da criança autista, assim como o das demais crianças, na medida em que convivem e aprendem com as diferenças (CAMARGO, BOSA, 2009).

Em Dezembro de 2012, a Lei nº 12.764, instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA, dando direito à educação e a previdência e assistência social, além de outros benefícios. É obrigação do Estado garantir atendimento especializado preferencialmente na rede regular de ensino, já que toda a criança e adolescente têm direito à educação para garantir seu pleno desenvolvimento como pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho (BRASIL, 2012).

Na tabela 03 estão descritas as características quanto ao programa reabilitacional das crianças com TEA avaliadas na pesquisa.

Tabela 03- Características reabilitacionais das crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) acompanhadas no Centro Unificado de Integração e Desenvolvimento do Autista (CUIDA). Maceió/AL, junho/2014.

VARIÁVEL* N %
Início das terapias
Até um ano antes do diagnóstico 5 12,5%
No mesmo ano do diagnóstico 23 57,5%
Mais de um ano do diagnóstico 12 30 %
Realiza terapia ocupacional 38 95,0%
Realiza fonoaudiologia 40 100%
Realiza fisioterapia 20 50,0%
Realiza integração sensorial 23 57,5%
Realiza psicologia 40 100%
Realiza psicopedagogia 23 57,5%
Realiza musicoterapia 5 12,5%

Legenda –* Mais de uma criança pode ter mais de um sinal  Fonte- Dados da pesquisa-

Nesta pesquisa, foi verificado que a maioria das crianças (57,5%) começou seu tratamento no mesmo ano em que foi feito seu diagnóstico. Logo, quanto mais cedo pais e pediatras (profissionais que têm contato com as crianças nos primeiros meses de vida) perceberem alterações, mais precocemente as crianças tendem a começar as terapêuticas de tratamento.

Destaca-se a intervenção precoce como fator fundamental para a melhora do quadro clínico do AUTISMO, gerando ganhos significativos e duradouros no desenvolvimento da criança. Devido à plasticidade cerebral, a precocidade do início da intervenção desempenha papel importante, potencializando os efeitos positivos da mesma. Os ganhos decorrentes da intervenção precoce podem reduzir consideravelmente os gastos dos familiares no tratamento das crianças com TEA, bem como os dos sistemas de saúde pública, quando se analisa os resultados a longo prazo (ZANNON, 2012).

Da mesma forma que se destaca a importância de um diagnóstico realizado por uma equipe interdisciplinar, também é importantíssimo um tratamento passando por várias terapias, dependendo das características e dificuldades apresentadas por cada criança, visto que cada área possui sua especificidade do tratamento para as crianças com TEA.

A Terapia Ocupacional trabalha conjuntamente habilidades cognitivas, físicas e motoras. O objetivo é ajudar a criança a se tornar funcional e independente. Já a terapia fonoaudiológica visa coordenar a mecânica da fala com o significado e valor social da linguagem. O acompanhamento psicopedagógico busca desenvolver recursos para a aprendizagem, instrumentalizando com técnicas que o facilitem a aprender, investindo no potencial (habilidades) encontrado das crianças com TEA.

A fisioterapia nas crianças com TEA atua na ativação do nível sensorial e motor. No tratamento podem ser utilizadas bolas, jogos interativos, brinquedos pedagógicos. Existe a busca de melhorar a concentração, a memória e as habilidades motoras, como a coordenação, o equilíbrio e a metria. Como algumas dessas crianças possuem hiperatividade é também indicado a hidroterapia e a equoterapia (FERRARI, 2010; SEGURA, NASCIMENTO e KLEIN, 2011; TECKLIN, 2002).

Assim, podemos observar a importância de se ter um centro integrado, com uma equipe interdisciplinar para o diagnóstico e tratamento de crianças com TEA. Ter um centro de referência proporciona as crianças com TEA e seus familiares um conhecimento maior sobre a patologia, diminuição dos gastos dos pais com transporte e desgaste físico para levar seus filhos ao tratamento, diminuição da quantidade de faltas e abandono do tratamento, melhorando assim o prognóstico e evolução das crianças com TEA.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O perfil clínico das crianças com TEA que fazem acompanhamento no CUIDA mostrou a prevalência do gênero masculino, com média de idade 7 anos e com grande índice de frequência a escola. A maioria das crianças mora na mesma cidade do local de tratamento e são acompanhadas por suas mães, essas apresentaram em sua maioria grau de escolaridade de 9 anos ou mais.

Os principais sinais reconhecidos pelos pais foram ausência, atraso ou regressão de linguagem, desvio do olhar e isolamento social, sendo a média de idade para o reconhecimento desses sinais, 2 anos e 5 meses. O diagnóstico foi realizado em média com 4 anos. E a maioria das crianças iniciou tratamento no mesmo ano em que foi dado o diagnóstico.

As principais alterações de desenvolvimento motor foram nas fases de ficar em pé e andar que apresentaram maior atraso quando comparado ao desenvolvimento neuromotor normal. Destaca-se a ausência da fase engatinhar pela maioria das crianças.

Diante do exposto por este estudo, confirma-se a importância de se realizarem cada vez mais pesquisas principalmente com foco nas características que das crianças com TEA em especial no primeiro ano de vida.

Da mesma forma reforça-se a importância de profissionais de saúde estar cada vez mais preparados e buscarem atualizar sempre seus conhecimentos em relação à TEA, pois muitas vezes ocorre atraso no diagnóstico devido à falta de um investigação mais especializada.

REFERÊNCIAS  

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