Modalidades Fisioterapêuticas como Recurso Terapêutico nas Principais Disfunções Sexuais no Tratamento de Neoplasia do Colo do Útero: Uma Revisão Bibliográfica Sistemática
INTRODUÇÃO
O câncer (CA) incide sobre a população de forma avassaladora, sendo, nos dias atuais, um dos problemas mais importantes da saúde pública (Mascarello; Zandonade, 2013). Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), o câncer do colo do útero, também chamado de cervical, é uma das principais causas de morte na população feminina, especialmente nos países menos desenvolvidos. As estimativas para o período de 2018-2019 apontam a ocorrência de aproximadamente 16.370 novos casos de câncer do colo uterino no Brasil, fortificando a magnitude do problema no país (INCA, 2018).
De acordo com Frigo e Zambarda (2015), no Brasil, o câncer de colo do útero (CCU) é a terceira neoplasia maligna mais comum acometida nas mulheres. É uma doença localizada no epitélio da cérvice uterina, que evolui de forma lenta e progressiva, tendo sua evolução total em até 14 anos. São observadas alterações mínimas das células, que são chamadas de displasia, que duram, em média, três anos. Após a comprovação das primeiras alterações celulares, aparece um tumor localizado, o carcinoma in situ, que domina a mucosa do útero e se desenvolve por seis anos, recebendo o nome de carcinoma invasor (Fitz; Sstüpp, 2011).
A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que o principal fator de risco para o desenvolvimento da doença são as alterações celulares devido a infecções pelo papilomavírus humano, o HPV, que são descobertas facilmente no exame preventivo, conhecido também como Papanicolaou. Por isso, é importante a sua realização periodicamente. Por meio do rastreamento com o teste Papanicolaou e do tratamento das lesões precursoras com alto potencial de malignidade em mulheres na faixa etária de 25 a 65 anos, pode ser alcançada uma redução de 80% da mortalidade desse tipo de câncer (Garcia; Pereira, 2010).
Entre outros fatores de risco citados na literatura que aumentam a probabilidade de desenvolver a doença, encontram-se o elevado número de parceiros sexuais, juntamente com antecedentes de doenças sexualmente transmissíveis, idade precoce na primeira relação sexual, higiene íntima inadequada, multiparidade, condições socioeconômicas e tabagismo (Santos; Varela, 2015).
O tratamento dessa neoplasia é constituído por cirurgia, radioterapia e quimioterapia, de forma individualizada e integrada, com o objetivo de minimizar as complicações, os sintomas e até mesmo proporcionar a cura da doença (Almeida; Pereira, 2008). Porém, esse tipo de tratamento pode levar a paciente a apresentar algumas complicações ou disfunções sexuais.
Assim, é de grande importância identificar os benefícios das modalidades fisioterapêuticas como recursos terapêuticos nas principais disfunções sexuais, durante e/ou no pós-tratamento do câncer do colo uterino, para assegurar a reabilitação e a reconstituição da qualidade de vida e do bem-estar físico, psicoemocional e social dessas pacientes.
METODOLOGIA
Este trabalho tratou-se de uma revisão bibliográfica sistemática, realizada a partir da leitura de artigos de diferentes autores sobre o tema em questão, em consulta aos bancos de dados PubMed e SciELO, além de sites da internet, como o Google Acadêmico, com a utilização dos descritores: tratamento fisioterapêutico, disfunções sexuais fisiológicas e câncer do colo do útero. Foram escolhidos artigos em português e inglês.
Foram separados 60 artigos, publicados no período entre 2002 e 2018. Após a leitura dos temas, foram escolhidos 30 artigos, porém apenas 23 foram selecionados de acordo com os critérios de inclusão, que compreenderam estudos contendo informações sobre os recursos fisioterapêuticos utilizados para a melhoria e a diminuição das disfunções sexuais apresentadas em decorrência do tratamento do câncer uterino, bem como artigos com informações sobre mulheres que apresentaram alguma disfunção sexual durante ou após o tratamento oncológico.
Como critérios de exclusão, foram retirados os artigos que abordavam disfunções sexuais masculinas e estudos sobre mulheres que apresentavam alguma disfunção sexual sem associação com o câncer do colo do útero.
RESULTADO
Por meio da leitura dos textos, foi realizada uma narrativa dos estudos encontrados, a fim de destacar os principais conceitos sobre o tema abordado pelos diferentes autores. Após a leitura completa desses artigos, foi possível identificar a escassez de materiais que têm como principal objetivo a atuação fisioterapêutica nas disfunções sexuais pós-tratamento do câncer do colo do útero. Foram encontrados poucos artigos de revisão que apresentavam técnicas realizadas por fisioterapeutas. Cerca de 95% dos casos encontrados na literatura apresentavam algum tipo de disfunção sexual após o tratamento com quimioterapia, radioterapia e cirurgias.
Apenas 23 publicações abordavam a temática dos benefícios da fisioterapia por meio dos recursos de terapia manual, cones vaginais, ginástica hipopressiva, cinesioterapia, eletroestimulação e biofeedback.
No primeiro estudo, Sartori, Oliveira et al. (2018) realizaram uma revisão da literatura científica buscando resultados fisioterapêuticos para as disfunções sexuais femininas. O estudo relata que a atuação da fisioterapia nas disfunções sexuais utiliza variados recursos, que abrangem a cinesioterapia, percepção corporal, educação comportamental, exercícios sexuais, biofeedback, massagem perineal, dessensibilização vaginal, dilatadores vaginais e eletroterapia.
Em relação ao tipo de disfunção sexual e às principais intervenções utilizadas, 25% dos artigos utilizaram terapias associadas, com a combinação de duas ou mais técnicas, nas pesquisas de Etienne e Waitman (2008) para a dispareunia; 40% utilizaram a cinesioterapia e 42%, a terapia manual. Para a assistência ao vaginismo, 60% utilizaram a terapia combinada. Para a reabilitação da estenose vaginal, 35% utilizaram a terapia manual e 55%, a cinesioterapia. Não foram encontrados artigos que utilizassem a eletroestimulação como único recurso terapêutico, porém 20% dos artigos encontrados utilizaram apenas a terapia manual.
Franceschini, Scarlato e Cisi (2010) relataram, por meio de uma revisão bibliográfica narrativa, as principais disfunções sexuais femininas. Entre elas, 17% dos estudos abordaram a anorgasmia; 8%, a estenose vaginal, a dispareunia e o vaginismo; e 59% abordaram mais de uma disfunção sexual. O estudo relata que os recursos mais citados e utilizados pela fisioterapia foram os dilatadores vaginais e a digitopressão para a estenose vaginal, além da eletroestimulação, cinesioterapia e terapia manual para o tratamento da anorgasmia, do vaginismo e da dispareunia.
DISCUSSÃO
As estratégias utilizadas, como a radioterapia, a quimioterapia e até mesmo as cirurgias para a cura ou contenção dessa patologia, podem acarretar, como consequência, modificações na qualidade de vida sexual da mulher, por proporcionarem o surgimento de algumas disfunções sexuais (Weijmar; Van, 2003). Coelho e Costa (2007) afirmam que, no decorrer da aplicação dessas estratégias como recursos para impedir a evolução da doença, uma das principais consequências é a disfunção sexual. Estudos realizados demonstram diversas alterações vaginais, como fibrose, estenose, diminuição da elasticidade e da profundidade e atrofia da mucosa, contribuindo significativamente para as disfunções sexuais das mulheres com essa doença (Bernardo; Kitoko, 2007).
Segundo Frumovitz e Schover (2005), as disfunções sexuais relacionadas aos efeitos terapêuticos da radioterapia demonstram que a qualidade de vida das pacientes acometidas pela neoplasia uterina inspira preocupação e atenção, sobretudo no que diz respeito à sexualidade.
Rosenbaum (2005) e Aveiro et al. (2009) afirmam que o enfoque do tratamento fisioterapêutico, com técnicas e modalidades como terapia manual, exercícios de fortalecimento muscular pélvico, cinesioterapia e auxílio da eletroestimulação, é melhorar a qualidade de vida dessas mulheres. O estudo de Franceschini e Scarlato descreve que o tratamento fisioterapêutico consiste na reeducação da musculatura do assoalho pélvico por meio dos cones vaginais e do biofeedback, além da dessensibilização vaginal, massagem perineal e orientações sobre anatomia pélvica e distúrbios sexuais, educação comportamental e consciência corporal.
Por outro lado, Mendonça e Amaral (2011) encontraram boa efetividade em tratamentos como o trabalho da cinesioterapia nos músculos do assoalho pélvico para o tratamento do vaginismo e da dispareunia, o uso da eletroestimulação com FES ou TENS e a dessensibilização progressiva por dilatadores vaginais ou mesmo pelo uso dos dedos e gel, além do biofeedback. O uso de dilatadores vaginais também tem sido proposto por Cavalheira e Gomes (2011), assim como a utilização do relaxamento por meio de técnicas manuais e da cinesioterapia dos músculos do assoalho pélvico para o tratamento do vaginismo.
Mesquita e Carbone (2015) relatam que as modalidades da fisioterapia, por meio da cinesioterapia para os músculos do assoalho pélvico e do biofeedback, são terapêuticas que demonstram bons resultados, atuando na normalização do tônus, otimização da vascularização local, dessensibilização, melhora da propriocepção e do desempenho muscular. Os autores ressaltam ainda a importância do tratamento multidisciplinar para as disfunções sexuais.
É importante ressaltar que os profissionais da fisioterapia devem ser incluídos nos trabalhos interdisciplinares no combate a essa doença, com a finalidade de planejar programas e intervenções para a eliminação de fatores de risco, atuando não apenas na reabilitação, mas também na prevenção do câncer do colo do útero (Beghini, 2006; Tomen, 2015).
CONCLUSÃO
No entanto, foram observadas diferentes modalidades terapêuticas descritas na literatura. Contudo, a falta de padronização dos tratamentos das disfunções sexuais femininas apresentadas dificulta concluir qual é a melhor terapia para cada tipo de disfunção sexual que a paciente apresenta.
Entretanto, todos os estudos descritos na literatura que apresentam as modalidades fisioterapêuticas, entre elas a cinesioterapia, eletroestimulação, ginástica hipopressiva, biofeedback, cones vaginais e terapia manual, demonstraram melhora ou cura dos sintomas associados às disfunções sexuais.
Ainda assim, são necessários mais ensaios controlados.
REFERÊNCIAS
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ARTIGO PUBLICADO EM 30/07/2026
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