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Mobilização Precoce em UTI: Uma Revisão de Literatura

Mobilização Precoce em UTI: Uma Revisão de Literatura

Em meados de 1970 o fisioterapeuta passa a compor as equipes da unidade terapia intensiva (UTI) assim assumindo um papel importante, criando-se a especialidade da Fisioterapia Respiratória, com conhecimentos desenvolvidos em Ventilação Mecânica (VM) e uma visão generalista. Comprovando sua efetividade na redução do tempo de internação e infecções hospitalares do doente internado (Franco, et.al., 2011), A UTI é um ambiente de alta complexidade, é destinado a internação de pacientes com instabilidade clínica e com potencial de gravidade, cuja recuperação depende de inúmeros fatores, é composto por uma equipe multiprofissional e interdisciplinar (NACER, 2012).

Na UTI a fraqueza muscular é adquirida através de uma complicação grave em doentes críticos. A fraqueza é caracterizada pela atrofia das fibras musculares tipo II e miopatia do filamento grosso. Reconhecida como patologia periférica neuromuscular adquirida na Unidade de Terapia Intensiva que lesa basicamente o axônio, gerando sinais de acometimento do 2° neurônio motor (SANDERS, et. al., 2012).

A perda de mobilidade em pacientes hospitalizados tem impacto negativo em vários sistemas orgânicos, incluindo os pulmões, o sistema cardiovascular, a pele, os músculos, os ossos, entre outros. As complicações pulmonares, como atelectasia, hipoxemia, embolia pulmonar e pneumonia, estão entre as mais comuns, levando ao aumento do tempo de internação e à mortalidade (SOARES, et. al., 2011).

Nas últimas duas décadas, ocorreram avanços na terapia intensiva bem como na VM, o que resultou no aumento da sobrevida dos pacientes críticos. No entanto, alguns pacientes desenvolvem a necessidade de ventilação mecânica prolongada (VMP), mostrando-se frequentemente descondicionados devido à insuficiência respiratória precipitada pela doença subjacente, efeitos adversos das medicações e período de imobilização prolongado (DANTAS et. al., 2012).

A falta de movimentação no leito está associada à gênese de disfunções musculoesqueléticas como fraqueza muscular e deformidades osteoarticulares dentre outras complicações reduzindo a funcionalidade e a qualidade de vida desses pacientes após a alta hospitalar (MATTOS, 2011). Tal imobilidade presente no paciente crítico, proporciona importante limitação com conseqüente perda de inervação e declínio na massa muscular. Pode comprometer diversos órgãos e sistemas tais como: os sistemas musculoesquelético, cardiovascular, gastrointestinal, urinário, cutâneo e respiratório e cutâneo (FELICIANO, et. al., 2012).
A mobilização precoce na UTI pretende manter ou aumentar a força muscular e a função física do paciente. Ela inclui atividades terapêuticas progressivas, tais como exercícios de mobilidade no leito, sentado na beira do leito, em ortostase, transferência para uma poltrona e deambulação (MOTA E SILVA, 2012).

Conforme Mattos, (2011) A mobilização precoce é considerada elemento fundamental na maioria das condutas de assistência da fisioterapia em pacientes internados em uma UTI. Inclui uma variedade de exercícios terapêuticos que previnem fraquezas musculares, deformidades e ainda reduzem a utilização de recursos de assistência durante a hospitalização. Os efeitos nocivos do repouso no leito e os benefícios da mobilização precoce têm sido reconhecidos em pacientes hospitalizados quando se fala em “precoce”, refere-se ao conceito de que as atividades de mobilização começam imediatamente após a estabilização das alterações fisiológicas importantes, e não apenas após a liberação da ventilação mecânica ou alta da UTI (MOTA E SILVA, 2012).

A mobilização de doentes tem como finalidade, entre outros, provocar no indivíduo resposta a nível respiratório e cardiovascular, por isso, é imprescindível considerar a segurança do doente antes do tratamento ser instituído (OLIVEIRA E SILVEIRA, 2012). O conhecimento da história clínica anterior e atual indica de que forma a reserva respiratória e cardiovascular do doente pode ser fator limitativo da atividade e que sinais e sintomas devem ser monitorizados durante a mobilização (OLIVEIRA E SILVEIRA , 2012).

Essa revisão teve como objetivo descrever os benefícios clínicos da mobilização precoce aplicada ao doente crítico no leito de UTI.

MÉTODOS

Trata-se de uma revisão de literatura do tipo síntese, realizada através de um levantamento bibliográfico, nas bases de dados eletrônicos, SCIELO e LILACS, envolvendo os artigos publicados entre 2006 e 2012 de língua portuguesa ou inglesa, As palavras-chave usadas; Fisioterapia, Unidade de Terapia Intensiva, protocolos, mobilização precoce e benefícios clínicos.

Para identificar estudos adicionais foi realizada uma busca nas referências dos artigos revisados. Os critérios de inclusão estabelecidos foram: artigos publicados de 2006 a 2012 nos idioma inglês e português do tipo ensaios randomizados, não-randomizados e estudos prospectivos. Para os critérios de exclusão foram considerados artigos publicados anteriores a 2006, é que não tinham relevância com a área de estudo em questão.

RESULTADOS

Foram encontrados 07 estudos que se encaixavam nos critérios de inclusão, apresentados de forma cronológica na tabela 1, Destes, um estudou o treinamento muscular respiratório (TMR) e seis estudos examinaram a mobilização precoce.

Autores/ ano Tipo de estudo Amostra Benefícios
Aliverti el al. (2006) Estudo prospectivo LPA/SDRA N=9 Recrutamento mais homogêneo dos músculos respiratórios com menores níveis de PSV.
Chiang et al (2006) Estudo randomizado Variáveis, N= 17 grupo intervenção, N= 15 grupo controle Aumento da força muscular respiratória e membros, e maior independência funcional.
Bailey et al. (2007) Estudo prospectivo N= 103, diagnósticos variáveis, MV 19 ± 15 admissão Melhor status funcional e prevenção de complicações musculares.
Thomsen et al. (2008) Estudo prospectivo Insuficiência respiratória > 4 dias VM Número de deambulação aumentou três vezes mais quando comparado às taxas de pré-transferência
Morris et al. (2008) Estudo prospectivo Falência respiratória aguda N=165 grupo cuidados usuais e N= 165 grupo intervenção. Grupo intervenção saiu da cama mais rápido dias, teve menor tempo de internação na UTI/ hospitalar.
Schweickert et al.(2009) Estudo controlado e randomizado Diagnósticos variáveis, VM < 72hs, N= 49 grupo intervenção e N= 55 grupo controle Melhores resultados na alta hospitalar, menor duração de delírio, menor tempo de desmame.
Bourdin et al. (2010) Estudo prospectivo Diagnósticos variáveis, N= 20 VM ≥ 2 dias. Não houve alterações significativas nas variáveis fisiológicas durante a intervenção.

DISCUSSÃO

Estudos comprovam que a mobilização precoce de pacientes na UTI melhora o status funcional e aceleração do processo de retorno á vida pré-internação. (FRANÇA, et al., 2009) Soares e et al. (2010) demonstram que a atividade física e a retirada precoce do leito de pacientes criticamente enfermos assumem papéis fundamentais na restauração da função perdida.

De com estudo Chiang et al. (2006) ensaio clínico randomizado, foi realizado no grupo intervenção um programa de treinamento físico de MMSS e MMII, exercícios funcionais na cama, deambulação e exercícios diafragmáticos de 6 semanas em pacientes, enquanto o grupo controle não recebeu intervenção alguma. Foi observado no grupo intervenção o aumento da força muscular respiratória, periférica e independência funcional, com isso fornece fortes evidências do benefício de fisioterapia corpo inteiro.

Um estudo prospectivo de coorte por Bailey et al. (2007) centrou-se na viabilidade e segurança de uma intervenção deambulação precoce em pacientes sob ventilação mecânica. Segundo ele, a atividade precoce em pacientes com insuficiência respiratória é viável e não apresentou a necessidade de aumentar a equipe da UTI, mas apenas exigiu-se a elaboração de uma equipe multidisciplinar como parte das rotinas diárias, tais como: Fisioterapeutas, médicos, nutricionistas, fisiologistas, enfermeiros,etc. Conforme o estudo Morris, et al. (2008), Avaliou se um protocolo de mobilidade aumentou a proporção de pacientes de unidade de terapia intensiva que recebem a terapia física versus cuidados habituais. Pacientes em unidade de terapia intensiva com insuficiência respiratória aguda com necessidade de ventilação mecânica na admissão. Sua conclusão foi positiva, pois a mobilidade precoce era viável, seguro, não aumentar os custos e reduziu UTI e tempo de internação estadias para aqueles que receberam o protocolo. De acordo com Thomsen et al. (2008), aplicaram prospectivamente um protocolo de mobilização precoce a todos os pacientes com insuficiência respiratória transferidos para a unidade de terapia intensiva respiratória. Após transferência, os pacientes com insuficiência respiratória aguda na unidade de terapia intensiva respiratória melhorou substancialmente sua locomoção, o número de episódios de deambulação triplicou quando comparado às taxas de pré-transferência, Esse resultado contrasta com a realidade de muitas UTIs onde os doentes terão dificuldade de deambular durante todo o seu período de permanência. Reabilitação precoce é viável e segura em pacientes na UTI por mais de 1 semana. A intervenção cadeira-sitting foi associada à melhora da oxigenação não significativa. A intervenção inclinando-up foi um esforço tão intenso como caminhar (BOURDIN, et.al. 2010). Estudo de Schweickert et al. (2009) A estratégia para todo o corpo reabilitação consiste em interrupção da sedação e fisioterapia e terapia ocupacional nos primeiros dias da doença crítica, foi segura e bem tolerada, e resultou em melhores resultados funcionais na alta hospitalar, um período mais curto de delírio, e mais dias ventilador sem comparação com o tratamento padrão.

Foram observados resultados significativos como retirada precoce do leito, melhora do status funcional, menor tempo de internação hospitalar e diminuição de custos (MORRIS et. al. 2008; FRANÇA et. al. 2009; BURTIN et.al. 2009).

CONCLUSÃO

Em suma, foi verificado que os pacientes submetidos à mobilização precoce de forma segura e viável têm benefícios frente às enfermidades. Esta conduta contribui para a diminuição da fraqueza muscular adquirida pela imobilidade no leito, possibilitando uma recuperação funcional mais rápida, um menor tempo de desmame e de internação hospitalar e na UTI.

A mobilização precoce como conduta terapêutica, vem ganhando espaço na fisioterapia no tratamento do paciente crítico UTI. A fisioterapia motora na UTI tem como alvo a independência funcional e melhora da qualidade de vida.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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