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Levantamento de Dores Músculo-esqueléticas em Taxistas Bugueiros da Ilha de Fernando de Noronha

Levantamento de Dores Músculo-esqueléticas em Taxistas Bugueiros da Ilha de Fernando de Noronha

O trabalho tem um papel importante e fundamental na vida do homem, pois, além de ser fonte do seu sustento, é uma maneira de se sentir útil, produtivo e valorizado, tendo sua auto-estima elevada, passando a contar com a possibilidade concreta de auto-realização. Entretanto, quando realizado sob condições inadequadas, o trabalho pode ser nocivo, prejudicando a saúde, provocando doenças, levando à inatividade, encurtando a vida e até causando a morte (MACIEL, FERNANDES, MEDEIROS, 2006).

Neste contexto, o impacto socioeconômico dos distúrbios osteomusculares ocupacionais vem crescendo de forma preocupante, visto que, em todo o mundo, a prevalência desta patologia vem atingindo proporções epidêmicas (SALIM, 2003). No Brasil, em 2006, 48,6% dos benefícios previdenciários por doença do trabalho, excluindo-se os acidentes de trabalho, foram concedidos por doenças músculo-esqueléticas (SOUZA et al., 2008).Os sintomas osteomusculares relacionados ao trabalho atingem várias categorias profissionais e tem várias denominações, entre as quais lesões por esforço repetitivos (LER), e distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT), adotados pelo ministério da saúde e da previdência social (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2006).

A atividade laboral leva a predisposição para desenvolver certas patologias músculo-esqueléticas no trabalho, que depende das posturas extremas e também da freqüência de manutenção destas durante as atividades de trabalho. São alguns exemplos: ombros elevados e/ou abduzidos acima de 45 graus, onde entra o esforço do músculo supra-espinhoso, braços acima do nível dos ombros, antebraços fletidos sobre os braços acompanhados de posição supina dos antebraços, extensão do punho, extensão do punho associado à força, desvio do punho na direção ulnar, braços sem sustentação, flexão repetitiva dos dedos do carpo, extensão do carpo e dedos, compressão mecânica na superfície ventral dos dedos ou carpo (BAÚ, 2002). A dor é causada pela acumulação dos subprodutos do metabolismo no interior dos músculos, decorrente das contrações acima da capacidade circulatória de remover esses subprodutos do metabolismo (IIDA, 2005)

A posição sentada possui vantagens sobre a postura ereta. O corpo fica mais bem apoiado em diversas superfícies: piso, assento, encosto, braços da cadeira, mesa. Portanto a posição sentada é menos cansativa que a de pé. Entretanto, deve-se evitar a permanência por longos períodos na posição sentada. Muitas atividades manuais, executadas quando se sentado, exigem um acompanhamento visual. Isso significa que o tronco e a cabeça permanecem inclinados para frente. O pescoço e as costas ficam submetidos a longas tensões, que podem provocar dores. As tarefas manuais geralmente são feitas com os braços suspensos, sem apoio, o que causa dores nos ombros (DUL; WEERDMEESTER, 2004). A postura sentada provoca uma alteração na coluna que conduz a um aumento na pressão dos discos intervertebrais da coluna lombar, sendo que as doenças dos discos intervertebrais são motivos frequentes de dores na região (GRANDJEAN; KROEMER, 2005). A posição sentada foi identificada como fator de risco para a coluna vertebral (MIRANDA, 2007).

O assento é provavelmente, uma das invenções que mais contribui para modificar o comportamento humano e que a espécie humana, homo sapiens, já deixou de ser um animal ereto, homo eretus, para se tornar um homo sedam. Além do assento sabemos que a tecnologia do mundo moderno provocou mudanças no comportamento humano, tornando o homem mais estático, sedentário (tendo como causa: automóvel, televisão, computadores, etc.) e menos dinâmico (IIDA, 2005).

O trabalho dos motoristas tem sido objeto de estudos por pesquisadores de vários países (LYONS, 2002; MACEDO E BLANK, 2006). Na Europa, esses profissionais são considerados um grupo de risco de distúrbios osteomusculares devido aos agentes físicos ou biomecânicos, como a vibração, que estão expostos durante o trabalho (ROBB e MANSFIELD, 2007). Os motoristas são profissionais que realizam tarefas diárias que incluem movimentos e ações que são propícias a desencadear desconfortos e constrangimentos. As exigências da profissão fazem com que o motorista, permaneça muito tempo sentado. Vários estudos afirmam que a manutenção da postura sentada por longos períodos associadas ao estresse decorrente das condições do trânsito, da poluição e do contato direto com o público, ruídos e vibrações torna o motorista alvo de várias doenças ocupacionais, entre elas as doenças músculo-esqueléticas (MORAES, 2002).

Devido a uma intensa jornada de trabalho e carros sem condições ergonômicas, os taxistas tornam-se expostos a atividades que exigem permanência prolongada na mesma postura e um grande número de movimentos repetitivos, alem disso estradas mal conservadas e com bastante vibração tornam a profissão propensa a apresentar comprometimento em algumas estruturas devido à maior contração dos grupos musculares, a ponto de produzir desconfortos corporais. Portanto, esse estudo teve como objetivo levantar dados acerca das dores músculo-esqueléticas em taxistas bugueiros da Ilha de Fernando de Noronha.

MATERIAIS E METODOS

É um estudo transversal. Os dados foram coletados na Associação Noronhense de Taxistas (NORTAX), localizada na Vila dos Remédios, s/n, Centro – Fernando de Noronha no estado de Pernambuco.

A amostra entrevistada foi composta por 36 taxistas da referida Associação. Como critério de inclusão foi estabelecido que os taxistas deveriam dirigir buggys e estar credenciados a NORTAX. Já os taxistas que dirigiam outros veículos e que não eram credenciados, sendo um numero de 18 taxistas, foram excluídos, alem de 18 taxistas que não estavam exercendo a profissão, 7 que encontravam-se viajando e 1 que recusou-se a participar, totalizando 44 taxistas excluídos da amostragem.

O protocolo da coleta foi elaborado a partir do Questionário Nórdico de Sintomas Osteomusculares (QNSO), com perguntas relacionadas a informações pessoais, média de trabalho por dia, freqüência de dores e localização das dores músculo-esqueléticas.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa em Seres Humanos do Hospital da Restauração de Pernambuco, conforme recomendação da Resolução nº. 196/96, do Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados da pesquisa são apresentados de acordo com as categorias investigadas no questionário: A) Informações pessoais e profissionais dos taxistas da pesquisa; B) Frequência e localização das dores músculo-esqueléticas nos últimos 12 meses e últimos 7 dias. C) Afastamento das atividades (trabalho, esportes, trabalhos em casa) nos últimos 12 meses.

A) Informações pessoais e profissionais dos taxistas da pesquisa:

De acordo com a tabela 1, participaram da pesquisa trinta e seis (36) taxistas, sendo 34 do sexo masculino e 2 do sexo feminino. A idade destes variou de 18 a 68 anos. Quanto ao tempo que exerce a atividade de taxista teve uma variação de 1 ano a 20 anos. Observa-se também que 31% dos taxistas trabalham 6 horas por dia, 11% 8 horas por dia e 58% mais de 8 horas por dia.

A postura é frequentemente determinada pela natureza da tarefa ou do posto de trabalho. As posturas prolongadas podem prejudicar os músculos e as articulações (DUL;
WEERDMEESTER, 2004). A vibração a que está exposto o motorista revelam situações de risco pois superam em muito o limite estabelecido pela ISSO-2631 para oito horas (SILVA; MENDES, 2005)

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B) Frequência e localização das dores músculo-esqueléticas nos últimos 12 meses e últimos 7 dias.

Conforme a tabela 2, 33,33% dos entrevistados relataram sentir dores no pescoço/cervical, 25,00% nos ombros, 19,44% nos braços, 2,78% nos cotovelos, 8,33% nos antebraços, 30,56% nos punhos/mãos/dedos, 30,56% na região dorsal, 55,56% na região lombar e 38,89% no quadril/MMII nos últimos 12 meses. Como pode-se observar o local em que os motoristas comentaram sentir mais dores foi a região lombar, destacando que 22,22% raramente sentem dores, 22,22% com frequência, e 11,11% sempre sentem dores nesta região.

A dor lombar quando persiste por mais de seis meses é caracterizada como dor crônica, tornando-se um problema de saúde pública por interferir nas relações sociais, econômicas, profissionais e culturais (ALMEIDA et al., 2008; PEREIRA et al., 2006).

Em um estudo de readequação ergonômica e exercicios fisicos, no período de intervenção foram realizados três procedimentos: informação e conscientização, sessões de ginástica laboral e na readequação ergonômica do posto do ambiente de trabalho. Como resultados, obteve-se a redução do estresse ocupacional, diminuição da dor lombar e alterações fundamentais na ergonomia do ambiente de trabalho (BITTAR, 2004).

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De acordo com a tabela 3, 16,67% dos motoristas relataram sentir dores no pescoço/cervical, 19,44% nos ombros, 5,56% nos braços, 2,78% nos cotovelos, 5,56% nos antebraços, 13,89% punhos/mãos/dedos, 22,22% região dorsal, 41,67% região lombar e 22,22 quadril/MMII nos últimos 7 dias, e como foi observado na tabela 2 a região lombar tambem foi a mais citada pelos taxistas.

Este resultado tambem foi observado em um estudo realizado por CHEN e col. (2005) e TAMRIN e col. (2007), que pesquisaram as regiões de maior incidência de distúrbios osteomusculares em motoristas, os resultados demonstraram que as regiões mais acometidas são a coluna lombar, o pescoço e o ombro, mas é a coluna lombar à região em que há os maiores problemas associados aos distúrbios.

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C) Afastamento das atividades (trabalho, esportes, trabalhos em casa) nos últimos 12 meses.

Foi observado na tabela 4, que as regiões do corpo que provocaram maior afastamento dos taxistas foram a coluna lombar com 11,11% e 8,33% para quadril/MMII. Os valores das demais regiões do corpo são poucos significativos relacionados aos afastamentos.

Estudos comprovam que a melhor forma de lidar com patologias músculo-esqueléticas é a prevenção. É necessário criar condições mais favoráveis aos trabalhadores no ambiente de trabalho, melhoras ergonômicas simples já demonstraram grande resultado e eficácia na redução dos fatores de risco de lesões músculo-esqueléticas. Ergonomia participativa tem demonstrado eficácia e esta sendo um modelo de programas semelhantes de orientação para melhora de condições de sáude e bem estar dentro e fora dos ambientes de trabalho. (GARCIA, 2009). Além disso, a prática de atividade física causa adaptações circulatórias e metabólicas benéficas para musculatura esquelética e tecidos conectivos, contribuindo para melhora da postura estática e dinâmica e redução do risco de lesões e incapacidades osteomusculares (REIS et al. 2003).

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CONCLUSÃO

Conclui-se que o buggy utilizado como instrumento de trabalho não oferece condições ergonômicas satisfatórias, pois o banco utilizado não é adequado para a realização da atividade laboral, o qual provoca uma inversão da curvatura lombar podendo ocasionar patologias nesta região. Além disso a distancia/altura do volante e a falta de uma direção hidráulica forçam bastante os MMSS, o que favorece o aparecimento da DORT. Outro fator que pode contribuir para as dores músculo-esqueléticas é a vibração provocada pelo terreno irregular da ilha de Fernando de Noronha.

Sugere-se a adoção de ginastica laboral, horário fixo não ultrapassando 8 horas diárias, incentivo a pratica de exercício físico e carros mais apropriados.

REFERÊNCIAS
ALMEIDA, I.C.G.B. SÁ, K.N. SILVA, M. et al. Prevalência de dor lombar crônica na população da cidade de Salvador. Rev. Bras. Ortop. 2008: 43(3):96-102.

BAÚ, L. M. S. Fisioterapia do Trabalho: ergonomia, legislação, reabilitação. Curitiba: Clã do Silva, 2002. p. 218.

BITTAR, A.D.S. et al. Influência de intervenção ergonômica e exercício físico no tratamento do estresse ocupacional (resumo), v. 6, n. 24, p. 35-44, jul 2004.

CHEN JC, CHANG WR, CHANG W, CHRISTIANI D. Occupational factors associated with low back pain in urban drivers. Occup. Med. 2005;55 (7): 535-41

DUL, J. WEERDMEESTER, B. Ergonomia Prática. Tradução de Itiro Iida. 2° Ed. São Paulo Edgard Bercher. 2004.

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GARCIA, AM. et al. Ergonomia participative: empoderamiento de los trabajadores para la prevencion de transtornos musculoesqueleticos. Rev. Esp. Salud pública. São Paulo, v. 83, n. 4, p 509-518, jul/ago 2009.

GRANDJEAN, E. KROEMER, K.H.E. Manual de ergonomia: adaptando o trabalho ao homem. 5ª Ed. Porto Alegre: Artes médicas: 2005.

LYONS, J. Factors contribuing to low pain among professional drivers: a review of current literature and possible ergonomic controls. Work. 2002;19(1):95-102.

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MACIEL, ACC.; FERNANDES, MB.; MEDEIROS, LS. Prevalência e fatores associados a sintomatologia dolorosa entre profissionais da indústria têxtil. Rev. Bras. Epidemiol.; São Paulo, V. 9, n° 1, p. 94-102, mar 2006.

MIRANDA, E. Coluna Vertebral: anatomia, biomecânica, patologias, posturologia, teste neurológicos, avaliação, exercícios complementares. Rio de Janeiro: Sprint, 2007.

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MORAES, L. F. S. Os princípios das cadeias musculares na avaliação dos desconfortos corporais e constrangimentos posturais em motoristas do transporte coletivo. Florianópolis 2002.

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TAMRIN S.B.M. e col. The association between risk factors and low back pain among commercial vehicle drivers in peninsular Malausi: a preliminary result. Indul Health. 2007; 45(2):268-78.



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