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Fisioterapia Aquática no Tratamento da Paralisia Cerebral em Adultos – Revisão da Literatura E Relato de Caso.

Fisioterapia Aquática no Tratamento da Paralisia Cerebral em Adultos – Revisão da Literatura E Relato de Caso.

INTRODUÇÃO

Paralisia Cerebral (PC) é o termo utilizado para descrever um conjunto de desordens motoras e sensoriais decorrentes de distúrbios não progressivos no encéfalo (1). É um distúrbio do movimento e da postura sendo caracterizada principalmente pela disfunção motora, contudo, é freqüentemente acompanhado de outras desordens, como o retardo mental, defeitos sensoriais e epilepsia (2). Indivíduos com PC podem ter seus movimentos afetados, o que pode ser causado por uma lesão fixa não progressiva que ocorre antes, durante ou depois do nascimento.O dano cerebral em uma paralisia não é reversível, levando a incapacidades permantes (3).Evidencias demonstram que a expectativa de vida de indivíduos com PC tem aumentado. Segundo Donkervoot et al(4) crianças com PC podem ter sobrevivência semelhante à da população geral, desde que recebam cuidados médicos adequados e não apresentem comorbidades.

Uma das ferramentas utilizadas na reabilitação de indivíduos com PC é a Fisioterapia aquática também conhecida como Hidroterapia. Nesse recurso terapêutico, os movimentos são facilitados pelas propriedades físicas que atuam no corpo imerso. Segundo Caromano e Candeloro (5),advindos da imersão do corpo em piscina aquecida, a Hidroterapia é um recurso Fisioterapêutico que utiliza os efeitos físicos, fisiológicos e cinesiológicos,como recurso auxiliar da reabilitação ou prevenção de alterações funcionais. A Fisioterapia Aquática apresenta benefícios únicos que proporcionam aos indivíduos maior grau de independência nas atividades cotidianas, melhora da autoimagem, em estar, criatividade, socialização, condicionamento físico, alivio da dor, relaxamento muscular, melhora da propriocepção, aumento da amplitude de movimento, fortalecimento muscular, melhora da capacidade respiratória, melhora do equilíbrio, coordenação e maior independência (6).

Uma ferramenta que pode ajudar no processo de elaboração do planejamento terapêutico é a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) (7). A CIF pode ser utilizada para avaliar a funcionalidade de indivíduos com PC orientando as avaliações e tratamentos, visando não somente o olhar sobre o que os indivíduos não conseguem realizar, mas, orientando o planejamento terapêutico pela ótica da funcionalidade. Sua utilização pode ajudar na estruturação dos programas de reabilitação (8). A classificação foi desenvolvida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) afim de codificar informações e utilizar uma linguagem padronizada que permita a comunicação sobre informações de saúde.

O objetivo do presente estudo consiste em analisar e descrever a atividade cientifica sobre as intervenções da fisioterapia aquática em indivíduos adultos com PC e propor um modelo de intervenção utilizando essa modalidade terapêutica de acordo com a linguagem biopsicossocial da CIF baseado em um relato de caso.

 

METODOLOGIA

Foi realizada uma revisão narrativa de artigos científicos sobre o uso da Fisioterapia Aquática como recurso terapêutico em pacientes adultos com paralisia cerebral. A consulta foi realizada nos meses de junho a outubro de 2017 nas bases de dados: PubMed, Scopus, CINAHL e Lilacs. Não houve limite de tempo na busca dos artigos. Os descritores utilizados foram Paralisia Cerebral, Fisioterapia Aquática, Hidroterapia, Exercício Aquático e Adultos, nos idiomas português, espanhol e inglês.

Foram incluídos estudos onde os descritores foram mencionados no título e/ou resumo. Foram excluídos livros, resumos, dissertações, teses, artigos de revisão e artigos não relacionados com o tema. O presente estudo foi dividido em quatro etapas: 1) busca de artigos científicos; 2) seleção dos artigos de acordo com os critérios de inclusão e exclusão; 3) extração das informações dos estudos selecionados: tema, autor, objetivo, metodologia, tamanho da amostra e principais resultados; 4) Identificação dos componentes da CIF abordados nos estudos incluídos na revisão; 5) relato de caso e proposta de projeto terapêutico de acordo com a linguagem da CIF.

 

RESULTADOSDISCUSSÃO

Foram encontrados dois estudos que preencheram os critérios de inclusão. Estes estão descritos de forma detalhada no quadro 1.

Quadro 1. Análise descritiva dos artigos selecionados.
       
Autor/Ano Objetivo Desenho de estudo Intervenção realizada Tamanho da amostra Resultados Componente da CIF abordado na intervenção
Navarro et al., 2009(9)) Verificar a importância da hidrocinesioterapia no tratamento da paralisia cerebral para manutenção e/ou melhora do quadro clínico e sua funcionalidade Relato de caso Ajuste mental exercícios respiratórios, exercícios passivos para tronco na posição de cadeira e supino, mobilização passiva, estimulo de marcha com correção postural e uso do bastão, fortalecimento muscular em supino com exercícios ativos e uso de flutuadores um paciente do sexo masculino, 34 anos, portador de Paralisia Cerebral do tipo espástica  e atáxica, com quadro de tetraparesia Relaxamento muscular,redução de espasmos musculares e espasticidade,melhora da musculatura respiratória,equilíbrio e amplitude de movimento Funções e estruturas do corpo
Ballaz et al., 2011(10) Avaliar o efeito e a viabilidade de um programa de treinamento aquático de grupo de 10 semanas sobre a eficiência da marcha em adolescentes com PC Estudo de intervenção sem grupo controle Atividades aquáticas com foco em natação 12 adolescentes de 14 a 21 anos Melhora da marcha Funções do corpo, estruturas do corpo e atividades

 

 

Fazendo a relação das intervenções utilizadas com a visão biopsicossocial da CIF temos a capacidade de traçar o planejamento terapêutico de forma mais adequada (11).Com a CIF é possível classificar o perfil de saúde em três dimensões: 1) Funções do corpo e estruturas do corpo- partes anatômicas afetadas pela lesão e funções fisiológicas comprometidas. 2) Atividades – tarefas que se encontram limitadas e participações que estão restritas; 3) Fatores contextuais – fatores ambientais (facilitadores ou barreiras) e fatores pessoais.

Abaixo está descrito um relato de caso e sua estruturação de acordo com a estrutura e linguagem da CIF.

A.L.L.A,30 anos, sexo masculino, portador de Paralisia Cerebral do tipo diparesia espástica grave-CID G.80.1.Realiza ortostatismo com auxilio, porém não deambula. Se locomove com cadeira de rodas e auxilio de terceiros, apresenta contratura muscular em MMSS, mantendo o antebraço em flexão e encurtamento em MMII, mobiliza os membros de forma precária com arco de movimento limitado. As vezes relata dor articular e tem dificuldade em trocas posturais. Paciente é lúcido, orientado e cooperativo com as condutas terapêuticas. É alfabetizado e interage com o meio. Realiza Fisioterapia desde 2002 e deu início a Fisioterapia Aquática em Março de 2017. Iniciou os tratamentos Fisioterápicos com 1 ano de idade, além de Fonoaudiologia. Teve atraso no desenvolvimento motor. O paciente necessita de auxílio para algumas atividades de vida diária como ir ao banheiro, tomar banho e se vestir, porém consegue fazer algumas atividades sozinho como ler, escrever, digitar e escovar os dentes. Gosta de ir à Igreja e faz parte do grupo jovem e teatral, escreve no jornal da Paróquia e tem livros não publicados. No momento pretende publicar seus livros e prestou vestibular para cursar letras e foi aprovado. Recebe apoio da família, em especial pela mãe, que o acompanha nos atendimentos e passeios. Dentre as dificuldades enfrentadas o que mais o aflige é o meio transporte precário, muitas vezes sem acessibilidade, as ruas desniveladas e a falta de oportunidades de emprego. Já fez entrevistas, porém, não se empregou devido à distância, carga horaria e a necessidade de ajuda de terceiros. Tem demonstrado evolução nos atendimentos, onde melhorou o alongamento global, controle de tronco, atrofia muscular, preensão palmar, controle postural, força e liberdade na piscina.

 

Quadro 2. Organização da avaliação de acordo com o modelo biopsicossocial da CIF.

Nome: ALLM Idade: 30 anos  
Avaliação
Condição de Saúde: Paralisia Cerebral CID G.80.1
Função do corpo: Diminuição do arco de movimento em membros superiores, encurtamentos, contratura em membros superiores e rigidez articular. Atividades limitadas: tomar banho, ir ao banheiro, se vestir

 

Atividades não limitadas: escrever, digitar e escovar os dentes.

 
Estrutura: Coluna Vertebral (Escoliose), membros superiores e inferiores. Restrição a participação: emprego

 

Participação: Igreja, lazer.

 
Fatores Contextuais
Fatores Ambientais Fatores Pessoais
Facilitadores

 

Família, fisioterapia,

Cadeira de rodas.

Barreiras

 

Transporte público precário, ruas e calçadas desniveladas, emprego sem auxiliares.

 

Homem, solteiro, gosta de sair, ir à Igreja, escrever e ler.

 

 

 

Quadro 3. Plano terapêutico individual.

 

Objetivos – Intervenções – Instrumentos de avaliação

Queixa Principal: Encurtamentos/pouca mobilidade/dor articular.
Objetivos de curto e longo prazo Intervenções – hidroterapia Instrumentos de avaliação
Melhorar o alongamento global Alongamento global Goniômetro
Mobilidade articular, transferências posturais e preensão palmar. Fortalecimento de membros superiores e tronco e mobilização passiva de membros e articulações Inspeção, fita métrica para mensurar trofismo e teste muscular manual

 

Dos artigos selecionados, ambos relataram melhorias com o uso da água como tratamento e na prática clínica foram observados bons resultados com a Fisioterapia Aquática, mostrando que é possível ter uma boa evolução quando se traça uma linha de tratamento voltada para a funcionalidade e não somente para a patologia. No meio aquático a atividade se torna mais lúdica, prazerosa e dá mais mobilidade ao paciente devido a diminuição da ação da gravidade sobre o corpo imerso.

 

CONCLUSÃO

Embora a Fisioterapia Aquática seja considerada benéfica no tratamento de pacientes com Paralisia Cerebral, faltam evidências experimentais da sua eficácia. No entanto, justifica-se a continuidade da prática da Fisioterapia Aquática, pois os estudos já realizados não apontaram efeitos negativos dessa intervenção em pacientes adultos com paralisia cerebral e sim efeitos positivos.

O objetivo da Fisioterapia Aquática é aumentar a funcionalidade dos indivíduos adultos com paralisia cerebral.Com a ajuda das propriedades físicas da água e os acessórios, os indivíduos conseguem ter experiências que não são vividas em solo. O ambiente aquático é rico de estímulos e possibilidades que proporcionam prazer, autonomia, confiança e alegria, tornando o tratamento mais lúdico e motivador. assim o paralisado cerebral se sente mais livre dentro da água e mais seguro fora dela.



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