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Evidências do Treinamento Muscular Inspiratório em Asmáticos

Evidências do Treinamento Muscular Inspiratório em Asmáticos

Introdução

Asma é uma doença respiratória crônica, caracterizada por inflamação do revestimento das vias aéreas, que libera mediadores inflamatórios, que acionam o músculo liso das vias aéreas para contrair e estreitar as passagens aéreas1,2,3. Os episódios, são recorrentes de sibilância, falta de ar, aperto no peito e ou tosse, desencadeados por uma infecção respiratória superior viral, por mudanças de clima e interações gene-ambiente; com heterogeneidade na apresentação clínica, tipo, intensidade da inflamação e remodelação das vias aéreas4,5,6,7,8,11. Apresenta hiperinsuflação pulmonar, na qual desencadeia o rebaixamento da cúpula diafragmática, uma desvantagem mecânica e consequentemente fraqueza dos músculos respiratórios12.

De acordo com o relatório Global Burden of Disease de 2015, a asma foi o distúrbio respiratório crônico mais comum, com uma prevalência estimada de 358 milhões de casos. A Organização Mundial da Saúde, prevê um novo aumento no número de asmáticos em mais de 100 milhões em 20259. As taxas de mortalidade variam entre as regiões do Brasil, são maiores na região nordeste, e em países de baixa renda13. É mais comum na infância, a principal causa da morbidade infantil, por faltas escolares, visitas a emergências e hospitalizações14,15

Uma das técnicas de baixo custo para o controle da asma é o treinamento muscular inspiratório (TMI), que visa aumentar a força dos músculos inspiratórios, melhorar a mecânica respiratória e a resistência do diafragma; promover higiene brônquica quando necessária, controle do broncoespasmo, redução da dispneia e melhora da capacidade funcional16,17,18,19,20,21,22.

O TMI, normalmente consiste em fazer inspirações voluntárias contra uma carga resistiva, em toda gama da capacidade vital em repouso, podendo atuar como alternativa aos exercícios respiratórios convencionais, beneficiando os asmáticos23,24. Para configurar um TMI, primeiramente deve começar com um diagnóstico específico, da função muscular respiratória e posteriormente um planejamento de treinamento individualizado25. O treinamento com carga leve e moderada, mostra-se seguro e eficaz para aumento da força muscular respiratória, pressão inspiratória máxima (PImáx), pressão expiratória máxima (PEmáx) e melhorar a qualidade de vida26,30. O tratamento fisioterápico, só deve ser iniciado quando o paciente estiver com a medicação ajustada27,29

A proposta desta revisão sistemática, é levantar as evidências científicas, encontradas nos estudos clínicos, sobre a correlação entre o TMI e o desfecho clínico (PEAK FLOW, VEF, CVF, PIMÁX, PEMÁX, ENDURANCE, TC6, período Inter crise, Testes Funcionais, Escala de Borg, qualidade de vida) em pacientes asmáticos pediátricos e adultos.

Materiais e Métodos

Este é um estudo do tipo revisão sistemática de artigos clínicos randomizado, cego, duplo cego, publicado nos últimos 17 anos, disponível free full text, nas bases pubmed, medline, lilacs e scielo, nos idiomas português e inglês. A busca dos artigos, foi realizada através dos termos asma, TMI e força muscular. A qualidade metodológica dos artigos, foram avaliados através da escala de Jadad (tabela I), excluídos estudos com abordagem em pacientes com asma não controlada, disfunções neurológicas, dpoc, cardiovascular e covid-19.

Escala de Jadad Sim Não
1. O estudo foi descrito como randomizado? 1 0
2. A randomização foi descrita e é adequada? 1 0
3. Houve comparações e resultados? 1 0
4. As comparações e resultados foram descritos e são adequados? 1 0
5. Foram descritas as perdas e exclusões? 0 1
Total: 4

Os desfechos clínicos de interesse, foram peak flow, vef, cvf, pemáx, pimáx, endurance, TC6, período intercrise, testes funcionais e escalas de Borg, nos pacientes asmáticos pediátricos e adultos. Com relação a realização dos exercícios ou treinamento foram avaliados os aspectos: tipo de exercício, número de séries e repetições, quantidade de exercício, carga, tempo de exercícios, tempo de intervalo entre as séries, período de repouso entre os exercícios, quantos dias de exercícios por semana e por mês.

Resultados

O presente estudo analisou 30 artigos, dos quais 18 realizaram exercícios respiratório e 12 TMI especificamente, apesar da escassez. Estudos que elaboraram TMI para indivíduos com asma controlada obtiveram melhoras na PImáx, PEmáx, força muscular, resistência muscular inspiratória e expiratória, sensação da dispneia, influência na capacidade funcional, controle do broncoespasmo e melhora da mecânica respiratória.

Discussão

Treinamento com o Threshold IMT, cinco vezes por semana, durante nove semanas, totalizando 45 sessões, cada uma dividida em duas partes, uma realizada pela manhã e outra pela tarde. Em cada etapa da sessão foram executados 15 minutos contínuos de treino. O paciente, iniciou com uma resistência de 25% da PImáx durante a primeira semana. A cada semana a carga de trabalho teve um incremento de 5%, até alcançar a geração de 65% da PImáx na nona semana. Observou no final, um aumento considerável da distância percorrida pelo paciente no TC6, 184 metros a mais pós-tratamento. Verificou-se melhoras da capacidade funcional (TC6), resistência muscular localizada (TSL), aumento de 27,2% para PEmáx e 23,2% para a PImáx10.

Um protocolo com TMI, os participantes treinaram com o dispositivo Threshold IMT (© Philips Respironics) de 25 a 30 minutos, utilizando uma carga de 30% a 40% da pressão inspiratória máxima, demonstrou aumento significativamente da pressão inspiratória máxima (DM 13.34 cmH2O, 95% IC 4.70 a 21.98). Não houve diferença significativa entre o grupo TMI e o grupo controle para pressão expiratória máxima, taxa de pico de fluxo expiratório, volume expiratório forçado no primeiro segundo, capacidade vital forçada, sensação de dispneia e uso de beta2-agonista12.

Uma amostra de 50 crianças asmáticas controlada, dividido aleatoriamente 25 no grupo TMI e 25 no grupo controle, na faixa etária de 8 a 12 anos, durante 3 meses. Composto de TMI e exercícios respiratórios, sendo desenvolvido em 2 sessões semanais de 50 min, durante sete semanas consecutivas, totalizando 14 sessões. Durante 25 min de cada sessão, eram realizados exercícios de conscientização respiratória e os demais 25 min era iniciado o TMI com o aparelho Threshold IMT, este também foi utilizado nos primeiros 10 min, em 10 séries de 60s cada, intercaladas com 60s de repouso; nos 5 min seguintes, sem intervalos, com o objetivo de endurance. A carga utilizada nos dois momentos foi de 40% da PImáx. No grupo TMI, para a variável PImáx, houve diferença significante entre T0 e T1 (p < 0,0001) e entre T0 e T2 (p < 0,0001). Diferença também entre T0 e T1 e entre T0 e T2, ao compararmos as médias das variáveis PEmáx e PFE. No instante T1 e no T2 diferenças entre o grupo controle e TMI, e melhoras nas variáveis de gravidade como frequência de crises, atividades diárias, sintomas noturnos e diurnos, uso de medicamento, no grupo TMI pós-tratamento, com p < 0,000118.

Adultos entre 20 a 70 anos com asma controlada foram divididos em dois grupos: um realizou TMI 5 dias por semana durante 8 semanas, consistindo de seis séries de 30 respirações por dia com carga de treinamento ⩾50% da pressão inspiratória máxima, mais um programa educacional. O grupo controle recebeu apenas o programa educacional. O grupo de TMI apresentou aumento da PImáx em porcentagem do previsto e a duração do teste de resistência foram significativamente maiores pós-intervenção no grupo de TMI (Δ pós–pré: 50,8% vs 7,3% do previsto – P < 0,001 e Δ pós–pré: 207,9 segundos vs 2,7 segundos – P < 0,001, respectivamente). Não houve diferença significativa na distância de caminhada incremental entre os grupos (Δ pós-pré: 30,9 m vs −8,1 m, P = 0,165). A qualidade de vida foi percebida como significativamente melhor, sem diferença entre os grupos (P > 0,05)21.

Contudo um estudo randomizado, controlado por placebo, avaliador-cego, 34 crianças com asma controlada foram submetidas ao TMI a 40% da PImax por 20 min/sessão, três vezes/semana, durante 12 semanas consecutivas (grupo TMI ; n = 17) e o placebo TMI a 5% do PImax (grupo placebo; n = 17). Em um nível de significância ajustado para P <0,008, houve diferenças significativas pós-tratamento entre os grupos TMI e placebo em VEF1 (P=0,003), CVF (P=0,001), VEF1/CVF (P=0,004), PImax (P=0,002), PEmax (P=0,004) e ACT (P=0,001) ajustados aos valores pré-tratamento, em favor do grupo TMI27.

Um grupo com 29 asmáticos, randomizados e duplo-cego, divididos em 2 subgrupos: 14 com carga leve (C15%) e 15 com carga moderada (C50%). O TMI, foi realizado 5 dias por semana, durante 6 semanas, com aparelho POWERbreathe® e sessões de 30 repetições duas vezes por dia. Os indivíduos do C15% treinaram com carga de 15% da pressão inspiratória máxima PImáx e o C50% treinou com 50% da PImáx. Foram avaliados o nível de dispneia antes e após o teste da caminhada de 6 minutos (TC6), através da escala de Borg CR10 e a capacidade funcional pela distância percorrida no TC6 (DTC6). As avaliações foram realizadas no início do estudo e após 6 semanas de treinamento. A PImáx aumentou 20,7 cmH2O e 33,1 cmH2O nos grupos C15% e C50%, respectivamente. A PEmáx mostrou um ganho de 10,4 cmH2O no grupo C50% e 8,1 cmH2O no grupo C15%. No grupo C50%, houve uma redução de 1,13 e 1,42 pontos na escala de Borg CR10 antes e após o TC6, respectivamente. Ao final do TMI, não houve diferença no controle da asma, DTC6 e função pulmonar para ambos os grupos. TMI domiciliar com carga leve e moderada mostrou-se seguro e eficaz para o aumento da força dos músculos respiratórios, melhorando a qualidade de vida e reduzindo o nível de dispneia28.

Conclusão

Foi observado diferenças metodológicas entre os estudos inclusos. No entanto o treinamento muscular inspiratório, com carga leve e moderada, pode ser uma modalidade para melhora da força muscular respiratória, PImáx, PEmáx, endurance e redução da percepção da dispneia; consequentemente oferecendo uma melhor qualidade de vida, para crianças e adultos com asma controlada.

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Artigo Publicado em: 14/09/2023



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