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Estimulação Precoce em Recém-Nascido Prematuros na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal: Uma Revisão Literária

Estimulação Precoce em Recém-Nascido Prematuros na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal: Uma Revisão Literária

Os recém-nascidos prematuros, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), são aqueles que passaram por períodos gestacionais inferiores a 37 semanas, sendo o grau de prematuridade considerado limítrofe quando a idade gestacional é de 35 a 37 semanas, moderado de 31 a 35 semanas, e extremo, inferior a 30 semanas. Quanto menor a idade gestacional maiores são as possibilidades de complicações pela imaturidade do Sistema
Nervoso Central, dos órgãos e sistemas.

Os prematuros apresentam maior risco de vida e são propensos a complicações como hemorragia intra e periventricular, doenças respiratórias e cardíacas, infecções, distúrbios metabólicos e hematológicos, asfixia perinatal e hipoglicemia. Além disso, podem apresentar redução do tônus muscular e do tecido adiposo, dificuldade na manutenção da temperatura corpórea, falhas nas funções digestivas e urinárias, maior fragilidade capilar e ausência ou anormalidade de alguns reflexos.

Após o nascimento o recém-nascido (RN) passa por uma fase crítica de adaptações fisiológicas distintas do ambiente intrauterino. Em prematuros, geralmente há maior dificuldade nessas adaptações, e isso demanda uma assistência especializada, sendo esse suporte ofertado pelas Unidades de Terapia Intensivas Neonatais (UTIN) para a restauração e continuidade do seu desenvolvimento.

A assistência em terapia intensiva consiste em uma das mais complexas do sistema de saúde e exige tecnologias avançadas e profissionais capacitados para direcionar as condutas. Dessa forma, ressalta-se a importância da abordagem multiprofissional, que tem a finalidade de proporcionar experiências que despertem vivências simples e de organização, que fundamente o aprendizado sensorial e motor do recém-nascido prematuro.

Nesse sentido, a fisioterapia precoce proporciona uma grande quantidade de estímulos ao bebê prematuro levando em consideração suas principais dificuldades com destaque na ausência ou presença de reflexos ou reações de acordo com o seu desenvolvimento motor.

A estimulação precoce visa à melhoria das respostas motora e cognitiva bem como o amadurecimento dos demais sistemas no prematuro por meio de exercícios específicos e elaborados de acordo com a especificidade do RN . Sua aplicação promove a motricidade normal devido ao ajuste da neuroplasticidade, alcançando respostas globais e reduzindo limites de sensibilidade tátil e sinestésica.

Este recurso é adotado como forma de favorecer as condições de auto-organização e deve ser aplicado por profissional qualificado com a finalidade de induzir o RN a interagir com os pais, cuidadores e o meio.

Diante disso, nota-se que a assistência fisioterapêutica neonatal é fundamental para auxiliar na redução de riscos de sequelas neurofuncionais bem como na adaptação extrauterina, otimizar padrões sensoriais, respiratório e posturais adequados ao desenvolvimento motor e fisiológico, potencializar a neuroplasticidade cerebral, minimizar stress ambiental e prevenir deformidades e contraturas.

O estudo é relevante devido ao grande número de nascimentos prematuros e a necessidade de uma intervenção o mais precoce possível para estimular o desenvolvimento neuropsicomotor dos RNs prematuros durante o período de internação na UTIN, bem como prevenir agravos, visto que a própria prematuridade pode comprometer ou restringir seu desenvolvimento.

Nesse contexto, a presente pesquisa teve como objetivo destacar, por meio de uma revisão da literatura, os benefícios da estimulação precoce e do acompanhamento fisioterápico em recém-nascidos prematuros na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal.

Material e Métodos

O estudo foi de natureza descritiva e exploratória com informações obtidas por meio de uma pesquisa bibliográfica. Para a realização do estudo a metodologia foi operacionalizada de acordo com as seguintes etapas: estabelecimento dos objetivos, busca na literatura, seleção do material encontrado e elaboração da pesquisa.

O levantamento de dados foi através de buscas em artigos de revistas científicas indexadas em acervos eletrônicos como Scientific Eletronic Library Online (SciELO), Literatura Latina Americana em Ciência de Saúde (LILACS) e Google Acadêmico utilizando as palavras-chave fisioterapia, neonatologia e prematuridade.

Os critérios adotados foram publicações originais disponibilizadas na íntegra em língua portuguesa e inglesa, no período de 2011 a 2021. Foram descartadas publicações que não estavam de acordo com os objetivos do estudo, sem caráter científico e que não se encaixavam no recorte temporal. Em seguida foi realizada uma análise exploratória para o reconhecimento dos trabalhos interessantes para o estudo de maneira geral.

Resultados e Discussão

A prematuridade é originada por causas multifatoriais e consiste em um problema de saúde pública. No Brasil a maior prevalência de internação em UTIN é o nascimento prematuro (com idade gestacional inferior a 36 semanas e 6 dias), e conforme dados da OMS o país ocupa a 10º posição no mundo com maior número de nascimentos prematuros.

Ao nascerem prematuros os RNs deixam de vivenciar experiências no ambiente intrauterino que podem acarretar em prejuízos no momento do aprendizado neuropsicomotor e aumento da vulnerabilidade, como possíveis comprometimentos anatômicos e estruturais do cérebro, alterações motoras e neurológicas, dificuldades em adquirir linguagem, habilidades cognitiva e funcional, que podem interferir nos primeiros anos escolares e em atividades de
lazer, ainda há possibilidade de apresentar fatores de risco em casos de hipoglicemia e
hiperbilirrubinemia6,5. 07

O desenvolvimento neuropsicomotor é a capacidade adquirida e aprimorada do indivíduo quanto a conduta sensorial, motora, emocional, cognitiva, linguagem e aprendizagem no decorrer da vida, estando sujeita a influências biológicas ou ambientais, durante os primeiros anos de vida.

De acordo com Formiga et al. a prematuridade e o baixo peso afetam diretamente o desenvolvimento e as respostas sensório-motoras do bebê, com tendência a apresentar atraso motor global e complicações clínicas como a hipoxemia, bradicardia, apneia.

No estudo de Silva  foi evidenciado que a prematuridade é o maior fator de risco para o aparecimento das alterações no desenvolvimento motor dos bebês, afetando o processo de crescimento e sua capacidade funcional, além de interferir no cotidiano da criança, causando algumas limitações.

Maiores complicações e a permanência prolongada do prematuro na UTIN resulta em maiores dificuldades da criança no processo de aprendizagem e vivência sensório-motora, sendo que o acompanhamento e estimulação precoce podem auxiliar na identificação de atrasos e fatores de risco, minimizando ou evitando esses impactos no desenvolvimento da criança.

A estimulação sensório-motora é proposta para a melhoria do desenvolvimento neuropsicomotor e os estímulos aplicados são sensoriais, tátil, vestibular, cinestésico, olfatório, paladar, auditivo e visual, ou a combinação destes. Essas experiências ofertadas promove o rearranjo de sinapses e redes neurais que irão estabelecer as habilidades motoras, ocorrendo a evolução de forma gradual e organizada.

A fisioterapia é uma grande aliada nesse processo de acompanhamento e tratamento do desenvolvimento neuropsicomotor do RN prematuro. Dessa forma, a fisioterapia neonatal basea-se na cinesioterapia, interação sensorial, posicionamento terapêutico, facilitação proprioceptiva e neuromuscular, de forma a contribuir com o desenvolvimento e crescimento do neonato, e auxiliando na reorganização do tônus global, inibição dos padrões
de postura, movimentos anormais, estimulação proprioceptiva, ampliação do limiar de sensibilidade cinestésica e tátil, e adaptação do comportamento autorregulatório, evitando anormalidades musculoesqueléticas iatrogênicas.

Estudos têm comprovado que os desvios no desenvolvimento do bebê quando identificados precocemente possibilitam o direcionamento para uma intervenção adequada voltada para a superação ou a prevenção de deficiências mais graves, viabilizando o desenvolvimento mais próximo possível da normalidade.

Essa estimulação precoce corresponde ao planejamento de técnicas psicomotoras específicas por meio de estímulos sensoriais que proporcione maior interação com o meio, bem como a evolução e desenvolvimento o mais normal quanto possível, de acordo com a sua faixa etária. Dentro da estimulação, o fisioterapeuta realiza uma avaliação inicial e contínua, traçando metas e objetivos através da aplicação de métodos adequados às suas necessidades.

Na visão de Shimizu a exposição a estímulos apropriados pode repercutir positivamente no desenvolvimento, aprendizado, memória e nas emoções. Contudo, a intervenção deve ser planejada considerando a fase e o estado do RN prematuro, observando a aceitação e os benefícios gerados, bem como a ordem de maturação dos sistemas sensoriais e possibilidade de adaptações conforme as limitações e condições médicas, garantindo assim a diversidade de intervenções conforme a exigência individual.

A intervenção é considerada precoce quando acontece antes que padrões de postura e movimentos anormais se instalem, sendo o período ideal os quatro primeiros meses após o nascimento. Horta e Soares também destacaram a necessidade de acompanhamento para o desenvolvimento de prematuros, e quando mais cedo a percepção dos fatores de risco melhor será o prognóstico com a intervenção.

Em pesquisa com bebês prematuros com o objetivo de verificar o efeito da intervenção precoce, realizada diariamente desde as 72 horas de vida até 2 semanas de idade corrigida, observou-se que houve melhora nos resultados neurocomportamentais, desenvolvimento estrutural do lobo frontal e coerência entre os achados neurofisiológicos e comportamentais de melhora na organização do sistema motor, simetria e atenção. Os autores evidenciam que a estimulação precoce, visando especialmente o uso de estímulos motores e sensoriais, favorece o desenvolvimento global do bebê.

Os resultados obtidos na pesquisa realizada por Israel et al., cujo objetivo foi verificar o efeito da intervenção precoce no desenvolvimento neuromotor de lactentes prematuros durante o período de um ano, mostraram que o programa estimulou o desenvolvimento dos participantes do estudo. Os autores ressaltam que foram adotados protocolos com estimulação sensorial, tátil e proprioceptiva nas primeiras sessões até a estimulação das etapas motoras, conforme os bebês evoluíam motoramente. Houve melhoras positivas em categorias como integração dos reflexos primitivos, coordenação visuo-cefálica, tônus muscular e etapas motoras (rolar, sentar, quatro apoios e ficar em pé).

Tedesco et al. afirmaram em seu estudo que os programas de intervenção precoce aplicados em recém-nascidos prematuros ainda hospitalizados podem colaborar com a melhora da frequência respiratória e saturação de oxigênio prevenindo e reduzindo complicações clínicas futuras, bem como estimular o processo de maturidade cerebral.

Diante do exposto, fica evidente que a prematuridade consiste no maior fator de risco para alterações no desenvolvimento motor dos bebês afetando o crescimento e sua capacidade funcional.

O nascimento prematuro constitui em um grave problema de saúde pública responsável pela elevada morbidade e mortalidade neonatal. Contudo, os subsídios tecnológicos ofertados pela Unidade de Terapia Intensiva Neonatal garantem o suporte necessário para a sobrevida desses indivíduos, sendo necessário estabelecer programas de intervenção precoce associadas a ações da equipe multidisciplinar de forma que minimize as sequelas neuropsicomotoras e reduza o tempo de internação.

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ARTIGO PUBLICADO EM: 05/10/2023



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