Efeitos da Eletroestimulação Neuromuscular na Reabilitação Muscular de Pacientes Adultos Internados na Uti em Ventilação Mecânica: Uma Revisão de Literatura
INTRODUÇÃO
O desenvolvimento de fraqueza muscular durante o internamento na UTI e referida como “fraqueza muscular adquirida na unidade de terapia intensiva” (ICUAW – intensive care unit acquired weakness).
É um problema frequente que apresenta impacto sobre o ritmo e grau de recuperação da doença e do nível funcional do paciente que está sobrevivendo através de ventilação mecânica (VM), contribuindo para o aumento no tempo de internação. A ICUAW é caracterizada por pelo acometimento da musculatura periférica e dos músculos respiratórios, podendo ser recuperável total ou parcialmente e podendo resultar em complicações como a insuficiência respiratória aguda (IRpA), além de comprometimento da qualidade de vida e risco de morte após a alta.
Já é de conhecimento que essa condição pode se manifestar de três maneiras: polineuropatia do paciente critico (quando nervos periféricos são afetados), miopatia do paciente crítico (acometimento músculoesquelético) ou ambos (polineuromiopatia do paciente crítico).
Fatores de riscos incluem: sepse e/ou choque, múltiplas falências de órgãos, variáveis metabólicas como hiperglicemia, intervenções como a duração de VM e uso frequente de bloqueadores neuromusculares e de corticosteroides. Imobilização prolongada esta associado com atrofia muscular em pacientes críticos. O desuso da musculatura provoca mudanças no diâmetro, comprimento e força de contração muscular.
A mobilização precoce (MP) é uma das intervenções fisioterapêuticas que tem como objetivo a preservação da força muscular, melhora da função cardiopulmonar, redução do tempo de internação e melhorar a qualidade de vida. Uma das ferramentas utilizadas para auxiliar nessa prática é a estimulação elétrica neuromuscular (EENM).
A EENM consiste na utilização de correntes elétricas através de eletrodos para estimular diversos grupos musculares, podendo promover uma assistência ao paciente com perda de ativação incompleta do músculo, sendo utilizada também em casos em que o paciente está parcialmente ou completamente imobilizado em VM.
Apesar de alguns estudos demonstrarem que a EENM promoveu benefícios na manutenção de força muscular e redução do tempo de ventilação mecânica, outros não observaram efeitos significativos . Além disso, já foi observado que esse recurso é pouco usado em algumas UTIs, tornando importante a revisar a literatura para verificar
seus efeitos clínicos.
Logo, este trabalho tem como objetivo investigar os efeitos da EENM na reabilitação de pacientes adultos internados na UTI em ventilação mecânica.
MATERIAIS E MÉTODOS
Este estudo é caracterizado como uma revisão de literatura integrativa com busca de periódicos científicos nos bancos de dados da Pubmed, LILACS e Cochrane durante o mês de Dezembro de 2022.
Utilizou-se como estratégia de busca a combinação dos seguintes descritores (português e inglês) do DeCS: “Unidades de Terapia Intensiva” (Intensive Care Units), “Terapia por Estimulação Elétrica” (Electric Stimulation Therapy), “Fraqueza Muscular” (Muscle Weakness) e “Ventilação Mecânica” (Mehcanical Ventilation).
Desfechos primários são: força muscular, nível funcional e tempo de permanência na ventilação mecânica. Desfechos secundários: tempo de permanência na UTI, mortalidade e qualidade de vida.
Foram incluidos artigos publicados entre o período de 2012 a 2022, artigos onde foram utilizados EENM como método de intervenção, artigos com pacientes adultos de ambos os sexos internados em UTI. Foram excluidos artigos que não força muscular e tempo de ventilação mecânica como desfechos avaliados, revisões de literatura, meta-análises e relatos de casos.
RESULTADOS

A busca nas bases de dados resultou em 31 artigos ao total. Mediante a leitura dos títulos e resumos, foram incluídos 6 artigos com características passíveis para a leitura completa. Após isso, somente 3 artigos apresentaram os critérios determinados para esta revisão e foram selecionados para a análise do conteúdo. Dentre os 3 estudos, 2 foram escritos no idioma inglês e 1 no idioma português.
O tamanho das amostras nos três estudos variou de 30 a 139 sujeitos. Desfechos em comuns que foram avaliados por todos os estudos foram: força muscular, tempo em VM, nível funcional, mortalidade e tempo de internação na UTI. Outros desfechos incluíram: incidência de ICUAW, espessura da camada muscular do quadríceps, sinais vitais, níveis de citocina , qualidade de vida, incidência de delirium e dias sem VM.
Dois estudos dividiram os pacientes em grupo controle e grupo EENM e um randomizou em três grupos: grupo 1 (exercícios ativos de extremidade associado à EENM), grupo 2 (EENM) e grupo 3 (exercícios ativos de extremidade).
Um resumo dos estudos controlados incluídos nesta revisão está apresentado na Tabela 1.

DISCUSSÃO
Esta revisão integrativa buscou verificar os efeitos da EENM na reabilitação de pacientes adultos internados na UTI em VM através de busca de estudos controlados na literatura. Todos os estudos tiveram seus participantes randomizados.
É possível observar que houveram resultados estatisticamente significativos para melhora de força muscular nos três estudos, embora em um deles essa melhora foi perceptível apenas em MMII, valendo ressaltar ao realizar a EENM em MMSS, os autores aplicaram o eletroestimulação apenas no músculo deltoide. O estudo de H.A. Abu-Khaber. Foi
possível perceber que mesmo havendo uma melhora significativa da força muscular a partir do quarto dia até o vigésimo primeiro dia, não se observou diferença entre os grupos a partir do dia 28, podendo indicar uma perda de efeitos a longo prazo.
Houveram resultados conflitantes para melhora do nível funcional entre dois estudos. Os autores do estudo de Campos DR, et al. realizaram estimulação elétrica em mais músculos do MMII, podendo ser associado a melhora significativa . Os resultados para mortalidade também tiveram um contraste entre esses dois artigos, onde apenas H.A. AbuKhaber et al. conseguiram uma redução significativa.
O tempo de internação na UTI não sofreu alterações significativas, mas em um dos estudos foi notado uma redução no tempo de internação hospitalar .
Outro conflito entre os resultados foi o tempo de permanência na Ventilação Mecânica, apenas um estudo obteve um efeito significativo para o desmame da VM, enquanto os outros dois estudos não observaram diferenças entres os grupos experimentais e o grupos controle.
Comparando esses resultados com outros artigos que não entraram para a revisão, estão os estudos de Wadaulf P, Nakanishi N, e Zhu C.
Os autores do estudo de Nakanishi N, não avaliaram o tempo de permanência na VM como desfecho, mas observaram que os pacientes que realizaram EENM tiveram um menor tempo de hospitalização, resultado semelhante ao de um dos estudos revisados, além de haver efeitos estatisticamente significativos para a prevenção de atrofia muscular em MMSS e MMII.
Assim como os estudos analisados nesta revisão, Zhu C, avaliou a força muscular e houve difrerença significativa entre o grupo experimental e o grupo controle 7 dias após o tratamento. Contrastando com os resultados de dois dos estudos revisados, os autores também obtiveram uma redução estatisticamente significativa no tempo de
permanência na VM, porém, vale ressaltar que nem todos os pacientes dentro dos dois grupos deste estudo estavam fazendo uso de VM.
O estudo de Wadaulf P, teve como desfecho primário o questionário de qualidade de vida SF-36 (Short Form – 36) 6 meses após a admissão na UTI e não se notou diferença significativa entre os grupos, enquanto o estudo de Campo DR, avaliou a qualidade de vida dos pacientes após a alta como desfecho secundário e também não observaram efeitos significativos para a melhora desse desfecho.
CONCLUSÃO
Os estudos analisados nesta revisão demonstraram resultados positivos que a EENM sobre a força muscular dos pacientes internados em UTI em uso de VM, porém os efeitos demonstrados sobre o tempo de permanência na VM e nível funcional estão em conflito.
Os estudos reforçam a aceitabilidade do uso de EENM para o tratamento fisioterapêutico de pacientes críticos na UTI em VM, principalmente para a manutenção de força muscular, porem os seus efeitos sobre o tempo de VM e nível funcional ainda precisam ser mais analisados pela literatura.
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ARTIGO PUBLICADO EM 29/08/2024
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