Drenagem Linfática Manual no Tratamento de Linfedema em Mulheres Mastectomizadas
INTRODUÇÃO
Atualmente, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de mama ocupa a primeira posição na causa de morte por câncer dentro da população feminina em quase todas as regiões brasileiras, com exceção a região Norte, na qual o câncer de colo de útero ocupa o primeiro lugar. Grande parte das mulheres afetadas por essa doença realizam tratamento envolvendo quimioterapia, radioterapia e/ou mastectomia da mama afetada, sendo o linfedema ainda uma das principais sequelas desta cirurgia.
O linfedema caracteriza-se por um acúmulo de líquido linfático nos tecidos, causando um edema na região afetada, com maior frequência em membros superiores ou membros inferiores. No caso de pacientes mastectomizadas, o linfedema de membro superior ipsolateral a mama retirada acomete cerca de 40% das pacientes que realizaram esvaziamento axilar (remoção dos linfonodos), alterando peso e volume do membro, podendo causar dano psicossocial, nas atividades de vida diárias e emocional.
O sistema imunológico engloba o sistema linfático, sendo este formado por uma rede de vasos linfáticos e linfonodos com função de coletar e transportar o líquido linfático, que tem em sua composição proteínas, água, glóbulos brancos do sangue e sais minerais. Este transporte de líquido ocorre devido a válvulas unidirecionais em conjunto com a musculatura para movimentar o líquido pela extensão corpórea. Os linfonodos, pequenas coleções de tecidos,
são caracterizados como “filtros” para coletar substâncias nocivas e auxiliam no combate à infecções.
O linfedema causado pelo câncer, pode ocorrer pela remoção de linfonodos durante a mastectomia ou pelo próprio tumor, bloqueando parte do sistema linfático, ocorrendo aumento dos glóbulos brancos devido a leucemia ou infecção, o quê também pode restringir o fluxo linfático, consequentemente formando o linfedema. Sendo a associação de mastectomia e radioterapia um fator de aumento para o risco de desenvolvimento de linfedema a longo prazo. Apesar da maior incidência do acúmulo de líquido em pacientes mastectomizadas ser no membro superior, também pode afetar o tórax e axila. Existem técnicas cirúrgicas na remoção de linfonodos que reduzem o risco da paciente desenvolver linfedema, como o mapeamento axilar, utilizando um corante azul na porção proximal do membro superior ipsolateral do alvo cirúrgico para observar o caminho da drenagem feita pelos linfonodos, sendo evitada a retirada destes linfonodos para que o líquido linfático continue sendo drenado normalmente. Além da biópsia do linfonodo sentinela e dissecção de linfonodos axilares para verificar se estes estão acometidos pela doença, sendo desnecessária a remoção dos mesmos em caso de resposta negativa, também reduzindo o risco de linfedema.
Os sinais e sintomas comuns do linfedema envolvem sensação de peso em tórax, braço, perna ou abdome, alteração da textura da pele, podendo apresentar enrijecimento e vermelhidão, dor, formigamento na região, redução do arco de movimento e da flexibilidade nas articulações próximas e edema. Quanto maior a precocidade do diagnóstico, maior a eficácia do tratamento. Além do tratamento medicamentoso de linfedema, dentre o acervo de opções fisioterapêuticas, temos a drenagem linfática manual.
A DLM é uma técnica de manipulação que utiliza pressões suaves, lentas, intermitentes e relaxantes, que simulem o bombeamento fisiológico, seguindo o trajeto do sistema linfático, auxiliando a linfa, aumentando a velocidade de condução dos vasos e ductos linfáticos. Na mastectomia, com consequente linfedema, o fluxo linfático se encontrará inadequado, sendo necessário direcionar o fluxo de linfa estagnada no tecido subcutâneo do membro superior e
axila afetada em direção aos gânglios linfáticos contralateral e linfonodos inguinais ipsolaterais ao alvo cirúrgico. Esta técnica também proporcionará a melhora da circulação da linfa, aumento da hidratação e nutrição celular, aceleração na cicatrização cirúrgica, reabsorção de hematomas e equimoses, a redução da retenção de líquido, aumento da imunidade, desintoxicação do organismo, ativação da circulação sanguínea e relaxamento corporal.
OBJETIVOS
GERAL: O objetivo deste estudo tem por finalidade avaliar os benefícios da drenagem linfática manual no tratamento de linfedema em mulheres mastectomizadas, baseado nos dados de artigos científicos e evidências clínicas que comprovem o tratamento.
ESPECÍFICO: Verificar as características do linfedema, a aplicabilidade da drenagem linfática manual na prevenção e tratamento de linfedema, resposta das pacientes acometidas ao tratamento.
METODOLOGIA
O presente estudo trata-se de uma revisão bibliográfica sistematizada de estudos de caso, de caráter exploratório, que foi realizada baseada no levantamento de dados encontrados em plataformas online como LILACS, MEDLINE, SCIELO e PUBMED. O estudo engloba artigos que foram publicados do ano de 1998 até os dias atuais, nos idiomas português e inglês, sendo excluídas as publicações anteriores ao ano de 2000 para a demonstração dos resultados. A pesquisa foi realizada com os temas de avaliação, diagnóstico e tratamento de linfedema pós mastectomia, drenagem linfática em linfedemas e em linfedemas como sequela de mastectomia, condutas fisioterapêuticas no tratamento de linfedema e técnicas de redução de edemas pós cirúrgicos.
Utilizados os descritores “linfedema”, “drenagem linfática manual”, “linfedema pós mastectomia”, “drenagem linfática manual em pacientes mastectomizadas”, “câncer de mama”, “reabilitação pós mastectomia”, “lymphedema after mastectomy”, “manual lymphatic drainage benefits”, “manual lymphatic drainage in mastectomized patients”, foram encontrados 36 artigos relacionados ao tema, envolvendo relatos de casos, revisões sistemáticas, meta-análises e ensaio clínicos randomizados, dentre estes, 10 foram utilizados nos resultados e discussão desta amostra.
RESULTADOS
Tabela 1. Resultados encontrados após a análise dos dados encontrados nos artigos.
| AUTOR, ANO |
AMOSTRA | PROCEDIMENTO | INTERVENÇÃO | RESULTADO |
| Marchon et al, 2016. |
N: 57; média: 62 anos; mastectomiza das: 88% |
Utilização de Terapia Física Complexa (TFC), técnica composta por drenagem linfática manual, enfaixamento compressivo/conten ção elástica, exercícios cinesioterápicos específicos e cuidados com a pele. |
A drenagem linfática manual pelo Método Vodder Original (DLMV) foi aplicada por 40 minutos nos participantes de apenas um grupo. |
Houve uma redução estatisticamente significativa no excesso de volume do membro, em média, de 281,65 mL (DP=196,32) (p<0,001). E em relação ao percentual de excesso de volume houve uma redução média percentual de 15,02% (DP=13,21). |
| Batiston et al, 2005. |
N: 160 pacientes mastectomiza das; media: 62 anos; Linfedema: 29,4 % |
Tratamento cirúrgico radical foi realizado em 68,8% das mulheres e 31,2% foram submetidas a procedimento cirúrgico conservador. A radioterapia pósoperatória foi realizada em 86,2% das pacientes. |
Limitação da ADM em 61,9% das mulheres; 32,5% relataram dor e 29,4% apresentaram linfedema. |
Foi constatado que as mulheres que apresentaram limitação de ADM, dor e linfedema foram encaminhadas para a fisioterapia tardiamente, reforçando a efetividade dessa ação na prevenção de tais complicações. |
| Táboas et al, 2013 |
Revisão literária |
Utilização da terapia combinada (Complex Descongestive Therapy, CDT). A CDT decorre em duas fases: uma mais intensiva, também denominada fase de tratamento e uma subsequente, a fase de manutenção. |
Primeira fase: educação de cuidados da pele e faneras para minimizar o risco de complicações infeciosas, exercício físico regular, drenagem linfática manual e medidas de compressão externa. Segunda fase: manutenção do tratamento. |
A DLM exerceu um efeito sinérgico na redução do edema quando associado às modalidades de compressão externa, no entanto, como terapia isolada demonstrou um benefício limitado. |
| Corrêa et al, 2008. |
Estudo qualitativo. |
Objetivo: mostrar a eficácia da drenagem linfática manual através da técnica de Leduc e a de Vodderque. |
Foco em prevenir edema linfático, melhorar a circulação sanguínea e diminuir a probabilidade de fibrose no período pós-operatório de mastectomi |
Pacientes apresentaram melhora no quadro do pósoperatório com a aplicação da DLM com redução tempo de recuperação e retorno precoce as atividades de vida diárias. |
| Dielle et al, 2018. |
Revisão de ensaios clínicos; N: entre 30 e 135 voluntárias; média: entre 42 e 68 anos; |
Objetivo: investigar a eficácia de protocolos de tratamento fisioterapêuticos associados à DLM e seus impactos sobre funcionalidade, dor e qualidade de vida de mulheres mastectomizadas que evoluíram com linfedema no pósoperatório. |
Comparação e associação de técnicas como: DLM, Terapia Complexa Descongestiva (TCD), Compressão Pneumática Intermitente (CPI), faixas, bandagens ou luvas de compressão, eletroterapia de baixa intensidade e frequência; facilitação neuromuscular proprioceptiva (PNF) |
A DLM associada com a eletroterapia de baixa frequência e intensidade não produziram efeitos tão significativos. A DLM com compressão por faixas, bandagens ou luvas, obtiveram efeitos positivos. A DLM associada a meias de compreensão elástica contribuiu para prevenção de um linfedema secundário, assim como na melhora da funcionalidade do ombro e na qualidade de vida das voluntárias. A terapia física combinada com a DLM diminuiu a dor e diminuição significativa do linfedem |
DISCUSSÃO
Segundo Marchon et al, foi analisado a associação entre apoio social e resposta terapêutica do linfedema, tendo bastante impacto no apoio psicossocial das pacientes atendidas. Um aspecto tão importante quanto o anterior, devido à grande influência na rede social, é a limitação profissional devido a limitação parcial crônica do membro superior afetado. Sendo uma complicação parcial, a paciente não tem direito à aposentadoria por invalidez, necessitando realizar uma readaptação ao serviço realizado. Neste estudo ficou evidente a redução estatisticamente significativa no excesso de volume do membro, tendo resposta positiva ao tratamento e aplicação da DLM no linfedema. Concordante com este fato, Batiston et al, também ressaltou a importância de um programa fisioterapêutico iniciado precocemente, demonstrando em seu estudo que as pacientes abordadas tardiamente tiveram maior incidência de linfedema no membro superior ipsolateral à cirurgia. Além da visão completa no
processo de reabilitação, incluindo os âmbitos físico, psicológico, social e profissional da doente. Alguns autores defendem que sendo que a introdução da cinesioterapia nos primeiros dias pós cirúrgico, incluindo a DLM, previne o linfedema, a formação de retrações miotendíneas, dor e diminuição funcional do ombro, além de reduzir o tempo de readaptação as atividades de vida diária, proporcionando melhor qualidade de vida. Brennan, Depompolo e Gardem enfatizaram que o leve aumento de volume no membro superior após a cirurgia é inevitável, podendo ser minimizado com a elevação do membro e cinesioterapia precoce.
Táboas et al, defende que a DLM auxilia na estimulação da drenagem de líquido linfático pelos vasos linfáticos superficiais permitindo a restituição do fluxo em vasos obstruídos ou não funcionantes, e apresentou um efeito sinérgico na redução do edema quando associado a compressão externa, porém como técnica isolada demonstrou um benefício limitado. Em contrapartida, Corrêa et al evidenciou em seu estudo que, as pacientes submetidas a DLM no tratamento de linfedema no pós operatório de mastectomia tiveram redução do tempo de recuperação, melhor prognóstico do quadro e retorno precoce as atividades de vida diárias. Em um estudo mais recente, Dielle et al, demonstrou que o uso da DLM almejou pelo menos um dos aspectos seguintes: Aumento da qualidade de vida, melhora da funcionalidade ou diminuição da dor. Para Belmonte et al, quando associada com eletroterapia de baixa frequência e intensidade, não obtiveram efeitos significativos em relação a redução do edema, porém influenciou na redução da dor, sensação de peso do membro superior afetado. Castro- Sanchez et al, observou uma prevenção de linfedema secundário para as pacientes submetidas a DLM associada com o uso de meia de compressão elástica, assim como na melhora da funcionalidade do ombro. Fato que está de acordo com todos os estudos que utilizaram compressão por algum material em conjunto com a terapia manual, os quais apresentaram resultados positivos na redução do edema. Cho Y et al, demonstrou que fortalecimentos e alongamentos em conjunto com a técnica de DLM proporcionaram redução da dor e do linfedema do membro superior comprometido. Em um estudo associando a DLM com a facilitação neuromuscular proprioceptiva para intervir no volume do edema, Ha K et al observou resposta positiva na redução do edema, aumento da amplitude do ombro, redução de sintomas e na depressão de pacientes com linfedema.
CONCLUSÃO
Pacientes submetidas à mastectomia apresentam elevado risco de formação de linfedema no membro superior ipsolateral a cirurgia. A formação do linfedema pode ocorrer em qualquer outro momento a partir da mastectomia, sendo de grande importância o tratamento precoce para prevenção deste efeito quanto para o tratamento visando a redução do acúmulo de líquido linfático. A drenagem linfática manual visando a redução do linfedema foi observada
em diversos artigos acadêmicos demonstrados neste estudo, proporcionando melhora na qualidade de vida, retomada precoce as atividades diárias, redução da dor e melhora no prognóstico. São necessários mais estudos sobre o tema para evidenciar resultados mais precisos, visto que em alguns casos o resultado da DLM não foi significativo por pouco tempo de estudo ou amostra limitada. Além da elaboração de protocolos para otimizar a
aplicação da técnica com máxima eficiência e proporcionando melhor qualidade de vida para tais doentes.
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Artigo Publicado em: 18/08/2022
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