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Displasia Broncopulmonar – Um Estudo Retrospectivo

Displasia Broncopulmonar – Um Estudo Retrospectivo

A prematuridade é responsável por um déficit de surfactante ligado à imaturidade pulmonar, ocasionando uma angústia respiratória aguda do recém-nascido (RN), a Síndrome do Desconforto Respiratório (SDR), que necessita ser colocado em ventilação mecânica com administração de uma taxa elevada de oxigênio. Essas medidas terapêuticas apresentam efeitos secundários, sobretudo os barotraumatismos e as lesões celulares. Tendo em vista que muitas vezes os recém-nascidos pré-termo podem nascer com deficiência de surfactante pulmonar endógeno, essa modalidade terapêutica está indicada como um dos principais recursos para impedir o colabamento dos alvéolos, favorecendo as trocas gasosas podendo assim manter um padrão ventilatório adequado.1,2,3

A Displasia broncopulmonar (DBP) foi inicialmente descrita por Northway et al.4, como uma doença pulmonar crônica que acometia RN prematuros com SDR ou doença da membrana hialina. Foi classificada em quatro estágios de acordo com as características clinicas, radiológicas e anatomopatológicas. Os pacientes cursavam com taquidispneia e hipoxemia em ar ambiente, lesões císticas e hipertransparentes com traves radiopacas a radiografia de tórax, cardiomegalia e cor pulmonale, além de metaplasia e fibrose pulmonar,5 o quadro clínico varia de acordo com a gravidade da doença.

De etiologia não totalmente estabelecida, a DPB é resultante de múltiplos fatores que atuam sobre um sistema pulmonar imaturo, sujeito a várias agressões, e ao mesmo tempo com mecanismos de defesa ainda não completamente desenvolvidos.3,6

Atualmente, de acordo com a patologia, podemos classificá-la em: DBP clássica; DBP nova ou atípica. A primeira ocorre com alta idade gestacional, mas expostos à lesão pulmonar precoce, como a SDR (submetidos à VPM e O2 de maneira excessiva), caracterizada por lesão pulmonar grave, com maior destruição alveolar e fibrose. Na nova ou atípica, há lesão pulmonar mais leve, com menor grau de fibrose. A lesão pulmonar predominante é a hipoalveolização associada à diminuição e alteração da vascularização pulmonar. Essa hipoalveolização ocorre pela diminuição da septação alveolar, decorrente da estagnação do crescimento e do desenvolvimento pulmonar.7

A literatura mundial relata uma taxa de 50% de re-hospitalização, na grande maioria das vezes por problemas respiratórios, tais como: pneumonia, bronquiolite e bronquite, no primeiro ano de vida. O desenvolvimento neuropsicomotor dessas crianças é atrasado, quando comparado ao dos RN prematuros sem DBP, principalmente se o diagnóstico de DBP foi de dependência de O2 com 36 semanas de idade gestacional.

O principal meio de lutar contra a DBP é a prevenção da grande prematuridade (< 31 semanas). A fisioterapia é instaurada de maneira pluricotidiana, a partir do instante da reanimação neonatal, e sob demanda, quando os distúrbios crônicos são instalados. Algumas crianças que sofreram de DBP recuperam uma função pulmonar normal, outras acusam déficits residuais e de hiperatividade brônquica, outras ainda um envelhecimento pulmonar prematuro.8

O objetivo desse trabalho foi conhecer os principais fatores e incidência de DPB, com o intuito de ofertá-los à comunidade científica.

MATERIAIS E MÉTODOS

Trata-se de um estudo de revisão bibliográfica, onde foram selecionados 24 artigos científicos e destes, 13 correspondiam ao objetivo. Com análise descritiva, abordagem qualitativa. A pesquisa bibliográfica abrange toda bibliografia tornada pública em relação ao tema de estudo, incluindo publicações avulsas, boletins, jornais, revistas, livros, pesquisas, monografias, teses, material cartográfico, entre outros.9

Os dados foram obtidos através das bases eletrônicas do Scielo, Lilacs e Pubmed. Para a pesquisa foram utilizados os seguintes descritores: displasia broncopulmonar, doença da membrana hialina, fisioterapia e recém-nascidos. A análise atual foi realizada de acordo com os temas e resumos das publicações verificadas, selecionando as que abordavam a pesquisa em pauta.

RESULTADOS

Observa-se que a maioria dos objetivos dos autores (7- 64%) foi conhecer e avaliar os fatores de riscos da DPB e determinar a incidência da mesma. Os outros autores (4-36%) verificaram a correlação da patologia na avaliação neurológica, comportamental e como fator predisponente de alteração no desenvolvimento psicomotor dos RN com DBP, além da morbidade pós-hospitalização desses pacientes. Obtivemos (4-36%) para redução do índice de prematuridade dos RN como maneira profilática para minimizar a incidência da doença, do mesmo modo (4-36%) os fatores responsáveis pelo desenvolvimento da DPB estariam associados a fatores maternos, neonatais, como o baixo peso ao nascimento e deficiência de surfactante endógeno, além do tempo de ventilação mecânica prolongada e altos níveis de oxigênio. 28% dos estudos relatam que os pacientes acometidos apresentaram alterações no desenvolvimento psicomotor e anormalidades na função pulmonar (Tabela 1).

DISCUSSÃO

A displasia broncopulmonar é uma doença pulmonar crônica que acomete neonatos que permaneçam dependentes de oxigênio em concentrações acima de 21% por um período superior ou igual a 28 dias. Necessidade de oxigênio nas 36 semanas de idade gestacional com prognóstico respiratório de longo prazo,10 o que corrobora com Sarmento, Lima et al., Bhering et al.,7,11,12 quando relatam que a DBP possui incidência diretamente proporcional à idade gestacional e ao peso de nascimento, sendo mais frequente em neonatos prematuros; alguns autores ainda correlacionam a incidência com a altitude.13 A medida mais eficaz para minimizar os números de DPB é diminuir a prematuridade.5,14,15,16

A DBP é uma alteração do desenvolvimento pós-natal do pulmão causada por uma SDR tratada por ventilação mecânica e oxigenoterapia mais ou menos prolongada. A associação entre oxigênio, pressão e tempo constitui a etiologia da DBP,8,17 enquanto que os fatores de risco podem ser descritos como: Diretos VPM – Toxicidade de oxigênio e barotrauma; e Indiretos com a presença de prematuridade, doença pulmonar primária, raça, sexo, histórico familiar, subnutrição, edema pulmonar, síndrome de extravasamento de ar e hipoatividade antioxidante.18

Segundo Postiaux,8 o tratamento inicial de acometimento agudo é sintomático com adaptação da ventilação mecânica e da oxigenoterapia, nutrição adequada, diuréticos, broncodilatadores, corticosteróides.

Apesar dos progressos ocorridos na assistência neonatal, a DBP constitui ainda uma causa importante de morbidade e mortalidade no período neonatal, o que prolonga o tempo de internação e limita, muitas vezes, o prognóstico dos recém-nascidos. A elaboração das condutas terapêuticas na DBP deve considerar o acúmulo de secreções brônquicas, as alterações mecânicas da caixa torácica, que contribuem para a acentuação dos distúrbios ventilatórios, e os distúrbios sensoriais, posturais, motores e ocupacionais que a doença pode causar.19,20,21 A intervenção e os cuidados fisioterapêuticos se fazem necessários tanto na fase aguda como na fase crônica da doença, independente se o paciente estiver hospitalizado ou sendo tratado ambulatorialmente. Portanto, é fundamental que o tratamento seja individualizado e com objetivos definidos de acordo com a evolução clínica de cada recém-nascido com diagnóstico de DBP, enquanto que Lopes6 se refere ao tratamento em longo prazo inicialmente com a realização rotineira da prova de função pulmonar nessas crianças para avaliar a resistência e a complacência pulmonar, além do volume minuto e outros parâmetros funcionais respiratórios.

Com posse desses dados, e quando as condições clínicas permitem, a criança recebe alta para seguimento no ambulatório especializado. Os diuréticos são progressivamente diminuídos, com retirada total em torno de dois meses após a alta, exceto nos casos mais graves. Tal retirada progressiva é feita através da evolução clínica/radiológica e das provas de função pulmonar, onde se evidenciam a diminuição da resistência e o aumento progressivo da complacência pulmonar. Se a resistência estiver muito elevada, ainda no berçário ou após a alta, iniciamos o uso de broncodilatadores. Quando os valores de complacência estão muito reduzidos ou a criança encontra-se clinicamente em nítido desconforto respiratório e/ou dependência crônica do oxigênio, esteja ainda internada ou durante o seguimento, e após excluída qualquer complicação infecciosa, inicia-se o uso de corticosteróides por via inalatória.

CONCLUSÃO

A DBP vem sendo profundamente estudada na tentativa de identificação das suas causas e das possibilidades de prevenção e de tratamento. Ainda existem controvérsias a esse respeito e também em relação ao prognóstico desses pacientes, especialmente quando se trata da evolução tardia da nova DBP. É prioridade futura a identificação de estratégias para prevenção e tratamento do processo desencadeante da DBP. Existe, portanto, um amplo campo para pesquisa nesse assunto. Deve-se destacar a importância do acompanhamento dos pacientes com DBP por equipe multidisciplinar.

REFERÊNCIAS

  1. RUGOLO, L. M. et al. Manual de neonatologia: Sociedade de Pediatria de São Paulo. 2º. ed. São Paulo: Revinter, 2000.
  2. ZUKOWSKY,K. Respiratory Distress. In M. T. Verklan e M. Walden. Core curriculum for neonatal intensive care nursing . Elsevier Saunders. 3rd ed., pp. 487-523, 2004.
  3. American Lung Association. Respiratory Distress Syndrome of the newborn fact sheet. Disponível em: http://www.lung.org/assets/documents/publications/lung-disease-data/ldd08-chapters/LDD-08-RDS-BPD.pdf . Acesso em 05/06/2012.
  4. NORTHWAY JR. W. H., ROSAN R. G., PORTER D. Y. Pulmonary disease following respiratory therapy of hyaline-membrane disease. Bronchopulmonary dysplasia. NEngl J 1967; 267: 357 – 68.
  5. CUNHA, G. S.; FILHO, F. M.; RIBEIRO, D. J. Fatores maternos e neonatais na incidência de displasia broncopulmonar em recém-nascidos de muito baixo peso. Jornal de Pediatria 79, n 6, p .550 -556, 2003.
  6. LOPES, José Maria de A.; LOPES, Sônia Maria Bastos. Follow Up do Recém-Nascido de Alto Risco. 1ª ed. Medsi., 1999.
  7. SARMENTO, G. V. Fisioterapia Respiratória em Pediatria e Neonatologia – São Paulo – Manole, 2007.
  8. POSTIAUX, Guy. Fisioterapia respiratória pediátrica: o tratamento guiado por ausculta 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2004.
  9. LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Maria de Andrade. Fundamentos de Metodologia Científica. 7ª ed. São Paulo: Atlas, 2010.
  10. MONTE, L. F.; SILVA FILHO, L.V.; MIYOSHI, M. H.; ROZOV. T.; Displasia broncopulmonar. J Pediatria (RJ). 2005; 81:99-110.
  11. LIMA, M. R. O.; ANDRADE, M. A.; ARAÚJO. A. P. G.; FIGUEROA, J. N.; ANDRADE, L. B. Influência de fatores maternos e neonatais no desenvolvimento da displasia broncopulmonar. Rev Assoc Med Bras, v. 57, n. 4, pp. 398-403, 2011.
  12. BHERING, C. A.; MOCHDECE, C. C.; MOREIRA, M. E. L.; ROCCO, J. R.; Sant’Anna,
  13. M. Bronchopulmonary dysplasia prediction model for 7-day-old infants. Jornal de Pediatria. Vol. 83, Nº 2, pp.163-170, 2007.
  14. ROJAS, M. X.; ROJAS, M. A.; LOZANO, J. M.; RONDON, M. A.; CHARRY, P. Regional Variation on Rates of Bronchopulmonary Dysplasia and Associated Risk Factors. International Scholarly Research Network Pediatric, pp. 1-9, 2012.
  15. FREITAS, B. A. C.; PELOSO, M.; SILVEIRA, G. L.; LONGO, G. Z. Prevalência e fatores associados à displasia broncopulmonar em hospital de referência para microrregião de Minas Gerais. Rev Bras Ter Intensiva. 24, n. 2, pp:179-183, 2012.
  16. DUARTE, P. E. C. R.; COUTINHO, S. B. Fatores associados à displasia broncopulmonar em prematuros sob ventilação mecânica precoce. Bras. Saúde Matern. Infant., v. 12, n. 2, pp. 135-144, 2012.
  17. TAPIA, J. L.; AGOST, A.; ALEGRIA, A; STANDEN, J.; ESCOBAR, M.; GRANDI, C.; MUSANTE, G.; ZEGARRA, J.; ESTAY, A.; RAMÍREZ, R. Bronchopulmonary dysplasia: incidence, risk factors and resource utilization in a population of South American very low birth weight infants. Jornal de Pediatria. v. 82, n. 1, p. 15-20, 2006.
  18. GONZAGA, A. D.; FIGUEIRA, B. B. D.; SOUZA, J. M. A.; CARVALHO, W. B. Tempo de ventilação mecânica e desenvolvimento de displasia broncopulmonar. Rev Assoc Med v. 53, n. 1, pp. 64-67, 2007.
  19. ALMEIDA, S; BERNARDES, T. A.; Rotinas de UTI Neonatal. 1ª ed., São Paulo: Medsi, 2000.
  20. LANDRY, J. S.; CHAN, T.; MENZIES D. Long-term impact of bronchopulmonary dysplasia on pulmonary function. Can Respir J. v. 18, n. 5, pp. 265-270, 2011.
  21. MARTINS, P. S.; MELLO, R. R.; SILVA, K. S. Bronchopulmonary dysplasia as a predictor factor for motor alteration at 6 months corrected age in premature infants. Arq Neuropsiquiatr, 68, n. 5, pp. 749-754, 2010.
  22. SOUZA, T. G.; STOPÍGLIA, M. S.; BARACAT, E. C. E. Avaliação neurológica de recém-nascidos pré-termo de muito baixo peso com displasia broncopulmonar. Rev Paul Pediatr, v. 27, n. 1, pp. 21-27, 2009.


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Some Toughts (4)

  1. Marcelle Ribeiro
    added on 26 abr, 2018
    Responder

    Olá!! Gostei do seu artigo. Gostaria de saber quando ele foi publicado?

    • interfisio
      interfisio
      added on 26 abr, 2018
      Responder

      Olá Marcelle, o artigo foi publicado em 27/04/2017. Abraços.

  2. Edson Vinicius de Oliveira
    added on 3 jun, 2017
    Responder

    Boa tarde, ótimo artigo. Gostaria de ter acesso ao referencia teórica deste artigo.
    Obrigado.

    • interfisio
      interfisio
      added on 5 jun, 2017
      Responder

      Olá, Edson! As referências estão listadas logo após a Conclusão do artigo.

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