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Benefícios e Barreiras da Mobilização Precoce em Doentes Críticos com Fraqueza Muscular Adquirida em Unidades de Terapia Intensiva: uma Revisão de Literatura

Benefícios e Barreiras da Mobilização Precoce em Doentes Críticos com Fraqueza Muscular Adquirida em Unidades de Terapia Intensiva: uma Revisão de Literatura

INTRODUÇÃO
Pacientes graves internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) tendem a desenvolver insuficiência de múltiplos órgãos. A disfunção neuromuscular ocorre em aproximadamente 25-50% destes doentes, podendo chegar a 100% em casos de indivíduos sépticos, e leva a uma fraqueza muscular importante que persiste por meses ou anos após a alta hospitalar (JONGHE et al, 2009; PAWLIK, 2012; LIPSHUTZ et al, 2013; TEAM, 2015). Este declínio funcional interfere diretamente na qualidade de vida destes sujeitos, sendo um dos maiores problemas de saúde identificados após a resolução da doença (SCHMIDT et al, 2016). Cada vez mais trabalhos têm sido publicados mostrando que esta fraqueza muscular possui forte relação com o aumento da morbidade e da mortalidade pós alta hospitalar (CALLAHAN et al, 2016)

A fraqueza muscular adquirida em UTI (FMA-UTI) refere-se à perda de força muscular bilateral e simétrica (a despeito de outras doenças neuromusculares), associada também à redução de força dos músculos respiratórios e ao aumento do tempo de ventilação mecânica (VM) (NEEDHAM, 2008; LIPSHUTZ et al, 2013). O diagnóstico é realizado através de um teste de força muscular manual, onde seis diferentes músculos são avaliados bilateralmente através de uma escala denominada Medical Research Council (MRC), com pontuação de 0 (sem contração muscular) a 60 (força muscular máxima), onde uma score < 48 caracteriza fraqueza muscular (Tabela 1) (JONGHE et al, 2009; SCHWEICKERT et al, 2009; HASHEM et al, 2016b).

Estudos sobre FMA-UTI apontam que esta é uma síndrome multifatorial (LIPSHUTZ et al, 2013; CALLAHAN et al, 2016). Primeiramente, a imobilidade possui um impacto importante sobre o capacidade funcional destes pacientes. Entretanto, outros mecanismos também estão envolvidos na disfunção neuromuscular, uma vez que, segundo os autores, a imobilização não explica de maneira isolada a fraqueza muscular observada em doentes graves. Dentre os principais fatores de risco para o avanço da FMA-UTI estão o uso de corticoesteróides, sedativos ou bloqueadores neuromusculares e a hiperglicemia (Tabela 2). Todos estes componentes contribuem para perda de massa e força muscular durante a internação na UTI (JONGHE et al, 2009; PAWLIK, 2012; LIPSHUTZ et al, 2013; HASHEM et al, 2016b).

Considerando os longos períodos de repouso no leito a que doentes críticos estão propensos, a imobilização tem ganhado grande atenção no meio científico por ser um dos elementos causais que pode ser completamente modificável (FAN et al, 2012; TAITO, 2016; SCHMIDT et al, 2016). De acordo com HASHEM et al. (2016b), para cada dia de restrição no leito, há perda de 3 a 11% da força muscular. A perda de massa muscular é maior nas primeiras 2-3 semanas de internação, segundo ZOMORODI et al (2012). Esta evolução tem início nos primeiros dias de internação e deve-se a repercussões metabólicas e respostas inflamatórias que ocorrem naturalmente durante a doença grave, sendo ainda mais exacerbada pela restrição ao leito (PAWLIK, 2012; ENGEL et al, 2013; TEAM, 2015; Schmidt et al, 2016). Neste contexto, o sistema muscular passa por um período de desuso que desencadeia uma cascata química responsável pela redução da síntese protéica e do aumento da proteólise e de mecanismos de apoptose, o que altera a morfologia, a estrutura e a função muscular, resultando em catabolismo, atrofia e fraqueza (NEEDHAM, 2008; JONGHE et al, 2009; LIPSHUTZ et al, 2013; GOVINDAM et al, 2015; HASHEM et al, 2016a).

Além das implicações neuromusculares, a imobilidade possui efeito adverso sobre outros sistemas, como o esquelético, cardíaco, pulmonar e intestinal. A mobilização precoce (MP) tem sido reconhecida como uma das principais intervenções capazes de aumentar ou manter a força muscular e a capacidade funcional destes doentes, como também de reduzir os riscos de complicações clínicas. Atualmente, sabe-se que pacientes introduzidos num programa de MP permanecem menos dias em VM e possuem menor tempo de estadia na UTI e no hospital. A MP também tem sido associada à redução das taxas de morbidade e mortalidade de pacientes críticos durante e após a internação (ZOMORODI et al, 2012; TEAM, 2015; CALLAHAN et al, 2016; HASHEM et al, 2016b).

A MP é definida como uma série de práticas de caráter progressivo a ser desenvolvida dentro da UTI, onde o paciente deve estar apto a realizar exercícios de forma ativa ou assistida, incluindo manobras de rolar, sentar, levantar e caminhar (TEAM, 2015; SCHMIDT et al, 2016; KOO et al, 2016). Ainda não há um critério bem estabelecido quanto ao tempo ideal para o início desta intervenção, uma vez que o termo “precoce” não está bem definido na literatura. A maioria dos estudos estipula que a MP deve ser aplicada de 1 a 7 dias após a instalação da doença ou da intubação orotraqueal (IOT) (SCHMIDT et al, 2016; TAITO, 2016). Entretanto, estudos apontam que a MP, iniciada dentro de 48h após a IOT é ideal para produzir os benefícios esperados (Tabela 3) (HASHEM et al, 2016b).

Embora a MP seja comprovadamente segura e viável, inúmeros obstáculos já foram apontados a fim de contra-indicar seu emprego em doentes graves (Tabela 4). Efeitos adversos relacionados à tração de tubos, sondas e cateteres tem sido descritos na literatura e pode causar sérios prejuízos à recuperação do paciente (HASHEM et al, 2016b). Terapias vitais como a hemodiálise e o uso de drogas vasopressoras também tem sido consideradas barreiras à MP (LIPSHUTZ et al, 2013). Todavia, trabalhos mostram que a incidência de acidentes provocados durante a MP ocorrem em menos de 1% dos casos (Leditschke, 2012; Schmidt et al, 2016) e que estas dificuldades podem ser facilmente contornadas por um profissional habilitado e bem treinado que conduza as manobras de MP de tal forma que a máxima capacidade funcional do paciente possa ser explorada com o mínimo de risco (HODGSON et al, 2013).

OBJETIVO
O objetivo deste trabalho foi analisar e revisar o que há de publicação na literatura vigente a respeito da MP em doentes críticos com fraqueza muscular, ventilados ou não mecanicamente, acerca de seus benefícios e as barreiras existentes para sua aplicabilidade.

MÉTODOS
Os dados que comportam esta revisão foram compilados através de artigos científicos buscados na base de dados Pubmed em pesquisa realizada entre agosto e outubro de 2017. As palavras-chaves utilizadas, em língua inglesa, foram “icu-acquired weakness” e “early mobilization”. Os critérios de inclusão contemplaram artigos originais em língua inglesa, publicados nos últimos 10 anos. Também foram adicionados a este trabalho referências com bases científicas que auxiliassem na justificativa e no desenvolvimento deta revisão. Foram excluídas as publicações editadas em outros idiomas além do inglês e aquelas que não dispunham de texto completo online gratuitamente. Após adoção dos critérios, os artigos mais relevantes foram revisados (Figura 1).

RESULTADOS
Foram encontrados 140 artigos para o termo “icu-acquired weakness”, com a exclusão de apenas 1 trabalho publicado em 1993, e 2.231 artigos para o termo “early mobilization”, onde 1.104 trabalhos publicados em ano anterior a 2007 foram excluídos. Dos 1.336 artigos disponíveis, 1.256 foram descartados pela leitura do título e 39 após a leitura do resumo. Dentre as publicações elegíveis para revisão, 7 foram excluídas por não possuírem texto completo disponível online de forma gratuita. Os demais artigos foram explorados e revisados para os fins deste estudo, sendo que ainda 5 foram eliminados por irrelevância, perfazendo um total de 29 referências incluídas neste trabalho, das quais 15 (51,7%) são estudos originais que investigaram o impacto da MP em doentes críticos e∕ou as barreiras para sua aplicabilidade.

 DESCRIÇÃO DOS TRABALHOS ORIGINAIS
Considerando os impactos da FMA-UTI é esperado que a MP produza resultados positivos sobre as consequências clínicas e funcionais da imobilização, com resultado direto sobre a morbidade e a mortalidade dos doentes críticos. Estudos fornecem evidências confiáveis de que a MP é viável e segura nesta população, aumentando as taxas de sobrevida e melhorando a qualidade de vida destes pacientes (Schmidt et al, 2016; KOO et al, 2016).

O estudo de Hermans et al. mensuraram a força muscular através da escala MRC em 415 pacientes internados em UTI. Destes, 227 (55%) foram diagnosticados com FMA-UTI. Em relação aos fatores de risco, foi constatado que estes doentes, comparados àqueles que não desenvolveram fraqueza muscular, tiveram maior incidência de sepse à admissão (59,9% vs. 50%), fizeram maior uso de corticoesteroides (3 vs. 0 dias) e bloqueadores neuromusculares (57,7% vs. 32,4%). Não obstante, estes pacientes também evoluíram com maior taxa de mortalidade na UTI (7,9% vs. 2,7%) e hospitalar (20,3% vs. 6,4%). Análise posterior mostrou que aqueles pacientes que apresentaram quadro de fraqueza muscular à alta hospitalar tiveram maior risco de óbito 1 ano após a admissão na UTI e que este risco foi maior quanto menor foi a pontuação na escala MRC.

Corroborando estes resultados, estudo recente (TEAM, 2015) mensurou a força muscular, através da escala MRC, de 147 doentes que receberam VM por mais de 24h. Após 90 dias da alta hospitalar foi constatado que um maior MRC foi associado aos que receberam mobilização mais precocemente. A taxa de mortalidade entre a alta da UTI e o 90º dia de avaliação também foi maior entre os pacientes que tiveram um MRC menor do que os que haviam sobrevivido.

Para eliminar fatores confundidores em relação as causas de FMA-UTI, Morris  et al. (2008) publicaram um estudo realizado entre 2004 e 2006 em 330 pacientes intubados onde não houve diferença entre os grupos quanto ao uso de insulina (devido a hiperglicemia), corticoesteroides e bloqueadores neuromusculares. Metade dos pacientes foi alocada num programa de cuidados usuais e a outra metade num protocolo de MP. Os doentes incluídos no grupo MP saíram do leito pela primeira vez dentro de 5 dias após a IOT versus 11,3 dias do grupo controle. O tempo de internação na UTI e no hospital foi significativamente diferente entre o grupo experimental – 5,5 e 11,2 dias, respectivamente – e o grupo controle – 6,9 e 14,5 dias, respectivamente. Poucos anos depois, Morris et al. (2011) publicaram um trabalho complementar e avaliaram a taxa de readmissão hospitalar e a mortalidade em 1 ano de 258 dos 330 sobreviventes que participaram de seu estudo anterior (MORRIS et al, 2008). Pacientes que não fizeram parte do programa de MP tiveram maior taxa de reinternação e maior mortalidade 1 ano após a alta hospitalar.

Fan et al. (2012)  publicaram um trabalho que avaliou 222 sobreviventes de 13 UTIs americanas, internados com lesão pulmonar aguda, de 2004 a 2007. Os pacientes foram avaliados no último dia de internação e após 3, 6, 12 e 24 meses da alta hospitalar. Neste estudo, o tempo de repouso no leito foi o único fator de risco independente associado à FMA-UTI – a força muscular diminuiu de 3-11% para cada dia de restrição ao leito – comparado ao uso de corticóide, hiperglicemia e tempo sem sedação. Em termos de morbidade, este trabalho mostrou também que a partir do 3º mês de avaliação, a fraqueza muscular esteve correlacionada significativamente com menor distância percorrida no teste de caminhada de 6 minutos e pior relato de qualidade de vida aferido pela escala SF-36 (Medical Outcomes Short-Form 36 Health Survey).

No Japão foi realizado um estudo (OTA et al, 2015) que coletou dados de 2009 a 2013 de 108 pacientes internados em UTI e ventilados mecanicamente. Os doentes foram divididos em 2 grupos conforme tenham recebido mobilização (n = 48) ou não (n = 60). Para o grupo experimental, a mobilização foi realizada apenas no leito de forma passiva e ativa, com mediana de início de 2 dias após a VM. Diferentemente da maior parte da literatura, os resultados deste trabalho mostraram que o tempo de VM foi significativamente maior nos paciente que receberam MP. Entretanto, estes tiveram maior taxa de alta hospitalar (vs. transferência hospitalar ou sob cuidados de serviços de home care) em relação ao grupo controle (58% vs. 30%). Já Lai et al (2017) mostraram diferença significativa de dias em VM e em tempo de internação na UTI em duas fases distintas de seu estudo: antes (n = 63) e após (n = 90) a implementação de um programa de MP na UTI, de maneira que a MP possuiu efeito significativamente positivo por reduzir o tempo de VM.

Embora estes e outros artigos comprovem a influência da MP sobre a morbimortalidade, um estudo realizado na Austrália e na Nova Zelândia (TEAM, 2015) mostrou que 63,5% dos doentes em VM não receberam MP; e que mesmo nos casos em que a MP é aplicada, as atividades desenvolvidas foram subestimadas, com poucos casos descritos de mobilização fora do leito.

Um estudo observacional brasileiro (PIRES-NETO et al, 2015) coletou dados de atendimentos realizados em 120 pacientes críticos de 2009 a 2011. Foi constatado que das 3096 sessões totais de fisioterapia, a mobilização esteve incluída em 65% delas (n = 2032) e que a atividade de maior prevalência foi a cinesioterapia no leito (49%), comparada à sedestação dentro e fora do leito, ortostase e deambulação e que para 37% dos 120 pacientes, a mobilização no leito foi o maior nível de atividade alcançado. Durante a estadia na UTI, 57 pacientes (47%) sentaram em poltronas, 53 (44%) levantaram-se e 33 (27%) caminharam. Este estudo mostrou que pacientes que deambularam enquanto ventilados mecanicamente ou após serem extubados tiveram menor taxa de mortalidade do que aqueles que não deambularam em nenhum dos dois momentos (2 – 6% vs. 35 – 40%).

Um total de 104 pacientes foi avaliado por SCHWEICKERT et al. (2009) de 2005 a 2007. Os pacientes foram distribuídos em 2 grupos onde um recebeu MP (n = 49), que incluía atividades de sentar, levantar e deambular, e o grupo controle (n= 55) recebeu cuidados regulares. Pacientes do grupo experimental receberam MP numa mediana de 1,5 dias após a IOT, enquanto pacientes do grupo controle foram mobilizados em 7,4 dias. Dos pacientes intubados que fizeram parte do grupo de intervenção, 38 (78%) foram capazes de sentar a beira leito, 25 (51%) de levantar, 13 (27%) de realizar marcha estática, 21 (43%) foram transferidos para poltrona, 12 (24%) deambularam mais que 2 passos e 3 (6%) caminharam por mais de 30,5 m durante a ventilação mecânica. Estes doentes apresentaram uma mediana de 2,4 dias a mais fora da VM do que os do grupo controle, o que foi estatisticamente significativo.

Sobre os profissionais de saúde e as barreiras para a MP, um estudo americano (JOLLEY et al. 2014) aplicou um questionário para médicos (n = 91), enfermeiros (n = 17) e fisioterapeutas (n = 12) a fim de testar seus conhecimentos acerca dos benefícios da MP e os obstáculos para sua aplicabilidade. A respeito da VM, 19 (21%) dos médicos afirmaram que os benefícios de mobilizar um paciente crítico em VM não superam os riscos, enquanto que 16 (94%) dos enfermeiros e 7 (58%) dos fisioterapeutas concordaram que é possível mobilizar estes doentes sem riscos; 64 (70%) dos médicos, 10 (59%) dos enfermeiros e 10 (83%) dos fisioterapeutas disseram que a mobilização é capaz de reduzir o tempo de VM. Sobre a mobilização em pacientes em uso de drogas vasoativas, 39 (43%) dos médicos afirmaram que esta é uma barreira para MP, enquanto 10 (83%) dos enfermeiros e 7 (58%) dos fisioterapeutas responderam que não.

Similarmente, um estudo canadense (KOO et al, 2016) realizou uma pesquisa a respeito da FMA-UTI e da implementação da MP através de um questionário aplicado a 194 médicos e 117 fisioterapeutas. A maioria dos participantes (68,8%) subestimou a incidência da FMA-UTI. Mais da metade dos entrevistados (59,8%) relatou não possuir conhecimento ou treinamento suficiente sobre mobilização em pacientes em VM, apesar de acreditarem que a MP é crucial no tratamento de doentes críticos e que esta conduta deve ser iniciada o mais rápido quanto possível. Foi reportado neste estudo que a maior barreira para a implementação da MP era a falta de um protocolo institucional e a ausência de equipamentos e materiais adequados.

No estudo de Nydadahl et al, (2014), 84% dos pacientes mobilizados apenas no leito apresentaram algum efeito adverso ao exercício que os impediram de avançar o nível de atividade (protocolo evolutivo de cinesioterapia no leito até a deambulação), enquanto que o mesmo ocorreu com apenas 45% dos pacientes que já praticavam exercício fora do leito. Para pacientes em VM, a principal barreira à mobilização foi o uso excessivo de sedação. Outras barreiras percebidas neste estudo foram a instabilidade hemodinâmica, contra-indicação médica e fraqueza muscular. Interessante notar que este último quesito foi mais prevalente no grupo de mobilização fora do leito do que no grupo controle (13% vs. 4%)

Leditschke (2012) elencou em seu estudo os principais motivos dos pacientes (em VM ou não) não serem mobilizados. A presença de cateteres em posição femoral foi a maior causa da não mobilização tanto em pacientes em VM ou em ventilação espontânea. Dentre as causas clínicas, a instabilidade ventilatória foi o principal motivo para o repouso no leito, seguida de instabilidade hemodinâmica e hipertensão intracraniana. Outros fatores descritos como objeção à MP foram agitação psicomotora, procedimentos médicos ou transferências iminentes e recomendação médica de repouso absoluto.

Quanto aos critérios de segurança e viabilidade da MP em pacientes críticos e ventilados mecanicamente foi publicado em 2007 um dos principais trabalhos a respeito. Participaram deste estudo, 103 doentes diagnosticados com insuficiência respiratória aguda. Foram estabelecidos critérios neurológicos (pacientes alertas e responsivos), respiratórios (FiO2< 60% e PEEP < 10 cmH2O) e cardiovasculares (estabilidade hemodinâmica sem aminas) para o início da mobilização. Neste estudo, a MP foi definida como atividades de sedestação a beira leito, transferência para poltrona e deambulação, com meta final de caminhada > 100 metros antes da alta da UTI. A partir da admissão, o tempo médio para a realização de sedestação a beira leito, transferência para a poltrona, deambulação e caminhada > 100 metros foram de 6,6, 8,8, 11,3 e 12,4 dias, respectivamente. Este estudo mostrou que a MP foi segura ao relatar uma taxa < 1% (de 1449 atendimentos) de efeitos adversos e viável na medida em que utilizou de meios próprios, já disponíveis na rotina de uma UTI, e de profissionais capacitados para alcançar altos níveis de atividade com doentes graves.

DISCUSSÃO
A fraqueza muscular é uma condição que persiste mesmo após a resolução da doença de base e um importante declínio funcional tem sido detectado em doentes críticos quando avaliados após a hospitalização. O manejo da FMA-UTI ainda é um desafio, uma vez que seu diagnóstico é subestimado e muitas vezes não ocorre e ferramentas utilizadas para sua constatação ainda são imprecisas e seu tratamento é muito subjetivo. Devido às altas taxas de morbidade e aos altos custos hospitalares de uma internação, a identificação e o tratamento FMA-UTI fazem-se necessários. Segundo LIPSHUTZ et al, (2013), mais de 25% dos pacientes graves evoluem para IOT e mantem-se nesta condição por pelo menos 7 dias, restritos ao leito. Nestes pacientes, a fraqueza muscular já pode ser identificada nas primeiras 48h.

A mobilização em pacientes hospitalizados tem sido descrita desde o século XIX. A publicação de um artigo em 1899 reconheceu que o repouso no leito no período pós-operatório poderia ser suspenso em questão de horas após o procedimento cirúrgico e que isto reduzia a fraqueza muscular. Em 1944, foi descrito em uma conferência que pacientes submetidos à mobilização 1 dia após o procedimento cirúrgico apresentavam número de complicações clínicas (cardíacas, vasculares, pulmonares, intestinais) muito inferior aos pacientes restritos ao leito (HASHEM et al, 2016a). Em 1972, foi registrada a primeira deambulação de um paciente ventilado mecanicamente após um quadro de insuficiência respiratória, na Universidade de Colorado, Estados Unidos (NEEDHAM et al, 2008).

Todavia, a literatura traz que o primeiro artigo publicado sobre a segurança e a viabilidade da MP em pacientes em VM é de 2007 (BAILEY et al, 2007). Desde então, sabe-se que a MP pode melhorar a evolução de pacientes críticos através de muitos caminhos: prevenindo a imobilidade no leito, reduzindo os mecanismos que levam à sarcopenia, aumentando a capacidade aeróbia e funcional, e melhorando a sensação de bem-estar do paciente, além de reduzir de forma significativa as taxas de morbimortalidade nesta população por meses após a alta hospitalar. Trabalhos que não mostram efeito significativo da mobilização em doentes críticos geralmente iniciam as atividades de forma muito tardia (5-11 dias após a intubação orotraqueal, por exemplo) ou restringem as atividades apenas ao leito utilizando-se até de técnicas passivas, como foi o caso do artigo de Ota et al (2015).

Os programas de mobilização variam entre regiões e países. Nos Estados Unidos, por exemplo, a MP nas UTIs ocorre 1 vez ao dia. No Reino Unido, uma sessão dura cerca de 20 a 30 minutos diariamente (LAI et al, 2017). Estudos realizados na Austrália e na Nova Zelândia propõem um modelo de mobilização precoce prescrito em “alta dose”, onde os pacientes devem realizar fisioterapia dentro do maior nível de atividade possível durante 1 hora, 7 vezes por semana (CALLAHAN et al, 2016). No Brasil, de forma geral, os pacientes internados em UTIs costumam ser assistidos de 2 a 3 vezes por dia, numa sessão que geralmente dura de não mais que 20 minutos.

Embora a duração e a freqüência da MP possuam impacto significativo sobre a evolução do paciente, nenhum consenso ainda foi acordado sobre melhor momento para o seu início, nem mesmo foram estabelecidos tipos de guias ou diretrizes sobre o tema. Alguns artigos (ZOMORODI et al, 2012; PAWLIK, 2012; ENGEL et al, 2013; GREEN et al, 2016) trazem modelos isolados de protocolos com fluxogramas de como e quando deve-se  estabelecer um programa de MP. Em conformidade com Needham et al. (2008) e Schmidt et al (2016), estes trabalhos destacam que a intensidade da MP deve ser adaptada ao status clínico do paciente, podendo ser iniciada logo quando este encontrar-se responsivo à estimulação, estável sob o ponto de vista respiratório e cardíaco e estabilidade esquelética, considerando que, desta forma, ainda que ventilado mecanicamente, o paciente está apto a realizar MP e até mesmo deambular pela UTI.

Efeitos adversos como arritmias, assincronia com o ventilador mecânico, queda da pressão arterial e da saturação periférica de oxigênio, ocorrem de 1-5% das mobilizações (SCHMIDT et al, 2016; TAITO et al, 2016). Ainda assim, muitas barreiras ainda são observadas para o início da MP. Apesar de toda literatura vigente acerca da evolução dos pacientes e todos os benefícios comprovados da MP, com riscos muito próximos de zero, na prática, os indivíduos internados em UTIs ainda são vistos como “muito doentes” ou “muito graves” para suportar um programa de atividade física controlado (LIPSHUTZ et al, 2013).

CONCLUSÃO
A evolução no tratamento de pacientes críticos internados em leitos de UTIs tem melhorado a sobrevida destes doentes, entretanto, estes indivíduos frequentemente sofrem com sequelas funcionais após o período de internação. Atualmente, a maior parte dos pacientes graves sobrevive à doença, porém às custas de debilidades como a FMA-UTI que pode durar até 1 ano após a alta hospitalar. A MP evita as seqüelas funcionais da imobilização ao alcançar o maior nível de atividade física possível dentro de uma UTI com o mínimo de risco ao doente. Estudos mostram que a MP é capaz de reduzir o tempo de VM, o número de dias de internação hospitalar e as taxas de morbidade e mortalidade, além de aumentar a força muscular e a percepção de qualidade de vida de doentes críticos. Dadas estes benefícios, a MP deveria ser uma terapia prioritária nas UTIs, entretanto sua aplicabilidade ainda encontra resistência por parte da equipe multiprofissional, o que torna um desafio transpor as evidências para a prática clínica.

 

TABELAS E FIGURAS

Tabela 1 – ESCALA MRC (força muscular) – 0 a 60 pontos

Pontuação Movimento testado
0 Paralisia completa Abdução de ombro
1 Mínima contração Flexão de cotovelo
2 Ausência de movimento ativo contra a gravidade Extensão de punho
3 Contração presente contra a gravidade Flexão de quadril
4 Movimento ativo contra resistência Extensão de joelho
5 Força normal Dorsiflexão

Fonte: ADLER et al, 2012 – Adaptado. Tradução livre para o português.

 

Tabela 2 – Fatores de risco para o desenvolvimento de FMA-UTI
Sepsel
Falência de múltiplos órgãos

Hiperglicemia

Terapia de hemodiálise
Uso de catecolaminas (norepinefrina, a epinefrina, dopamina)
Sexo feminino
Duração da VM

Uso de corticoesteroides

Sedativos e bloqueadores neuromusculares

Fonte: LIPSHUTZ et al, 2013 – Adaptado. Tradução livre para o português.

 

Tabela 3 – Benefícios da MP
Promove independência funcional
Reduz o delirium

Reduz o tempo de ventilação mecânica

Reduz o tempo de estadia na UTI e no hospital
Aumenta a distância percorrida no teste de caminhada de 6 minutos (TC6M)
Melhora a qualidade de vida (SF-36)
Aumenta a força muscular

SF-36: Medical Outcomes Short-Form 36 Health Survey

Fonte: Schweickert et al, 2011 – Tradução livre para o português.

 

Tabela 4 – Principais fatores de risco da MP descritos na literatura
Dessaturação periférica de oxigênio
Assincronia paciente ventilador

Quedas

Alterações da pressão arterial

Arritmias

Perda do tubo de gastrostomia
Perda de acesso vascular
Perda do tubo orotraqueal

Ruptuta do tendão de Aquiles

Fonte: Schmidt et al, 2016 – Adaptado. Tradução livre para o português.

 

Figura 1: Fluxograma dos critérios de inclusão e exclusão da pesquisa



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