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Benefícios do Método Canguru no Prematuro

Benefícios do Método Canguru no Prematuro

INTRODUÇÃO

Aproximadamente vinte milhões de bebês nascem abaixo do peso e pré-termo em todo o mundo durante o ano, o qual um terço morre antes de completar um ano de vida. O parâmetro utilizado para considerar o recém-nascido em prematuro ou não é a idade gestacional ser menor que 37 semanas, e para serem baixo peso terem menos que 1.500 g 1,2.

A etiologia do parto prematuro é desconhecida na maioria dos casos, frequentemente se associam a possíveis fatores de risco (demográficos, hábitos de vida, antecedentes ginecológicos, antecedentes obstétricos, intercorrências gestacionais, assistência pré-natal ruim e fatores iatrogênicos) 2.
As principais causas de internação são: a prematuridade, o baixo peso ao nascer, a asfixia perinatal, o desconforto respiratório, a infecção perinatal, a hipoglicemia e a icterícia neonatal.3 Devido às complicações associadas à prematuridade e ao baixo peso nascer foi desenvolvido o Método Canguru (MC). Criado pelos médicos neonatologistas Edgar Reys Sanabria e Héctor Martinez Gómez em 1978, no instituto Materno Infantil de Bogotá na Colômbia, em resposta a elevada taxa de mortalidade de recém-nascidos prematuros 2,3.

O MC é um padrão de auxílio perinatal que objetiva o cuidado humanizado agrupando táticas de intervenção biopsicossocial. No método, o contato pele a pele se inicia com o toque até evoluir para a posição canguru. Começa precoce e crescentemente, por escolha da família sendo orientada e acompanhada com apoio assistencial de uma equipe de saúde adequadamente treinada de maneira segura, desta forma permite a inserção da família no cuidado ao recém-nascido e consequentemente na amamentação. Nessa equipe de saúde é assegurada, por lei, a presença de um profissional fisioterapeuta, devido a sua participação fundamental para o êxito do método2,4,5.
A presente pesquisa tem como objetivo realizar uma revisão narrativa sobre o MC e identificar como ele interfere na saúde do recém-nascido prematuro e da mãe e delinear a atuação da Fisioterapia.

MATERIAIS E MÉTODOS

Foi realizada uma revisão narrativa com busca nas bases de dados Pubmed, Scielo e Google Acadêmico, por artigos científicos, manuais e cartilhas dos órgãos governamentais de saúde, sem restrição temporal, em português ou inglês, com as palavras-chave: recém-nascido, prematuro, MC e Fisioterapia, e seus correspondentes linguísticos em inglês: newborn, Kanguroo Mother Care/ Kanguroo Care, e Physical Therapy/ Physiotherapy, utilizando os operadores booleanos E (AND) e OU (OR). A busca foi realizada no período de 11/2017 até 04/2018. Dentre as literaturas encontradas, foram incluídos na presente revisão somente àqueles que contemplassem o MC, os benefícios para o prematuro e sua mãe/ família, e o papel do fisioterapeuta. Foram excluídos aqueles que não atenderam aos critérios estabelecidos e em duplicata.

RESULTADOS

Prematuridade

A Academia de pediatria indicou que todo neonato fosse classificado pelo peso do nascimento, idade gestacional e alguns padrões para crescimento intrauterino. Em relação ao peso, está subdividido em duas categorias: baixo peso de nascimento (Baixo Peso ao Nascimento [BPN] = <1.500 g; Muito Baixo Peso [MBP] = <1.000 g; Extremo Baixo Peso [EBP] = <750 g.) e peso de nascimento satisfatório (>2.500g). A denominação “baixo peso de nascimento” compreendia a neonatos pré-termo e a termo; porém quando ficou manifesta que aproximadamente um terço dos de baixo peso nasciam a termo, tornou-se claro a necessidade de uma nova classificação 1,2.

A Organização Mundial de Saúde estabeleceu uma linha divisória entre nascimento pré-termo e a termo, entre 37 e 38 semanas. Uma das razões para essa divisão é o número relativamente alto de crianças nascidas entre esse período que poderiam ser consideradas como de risco e precisar de atenção, porém a mortalidade é baixa nessa idade gestacional.1,4 A decisão de usar 38 a 42 semanas para marcar o nascimento a termo foi baseada na distribuição de nascimentos em torno da 40ª semana, é considerada uma distribuição mais fisiológica do que 37 a 42 ou 37 a 41 semanas. Crianças nascidas antes da 38ª semana são consideradas pré-termo, aquelas nascidas entre 38 a 42 semanas são a termo, e as nascidas na 42ª semana ou a partir da mesma são pós-termo 1.

Parâmetros fisiológicos

No Recém-nascido (RN) prematuro existe uma imaturidade do Sistema Nervoso Central (SNC), a qual retarda a propagação do estímulo nervoso. Essa prematuridade do SNC seria parte constituinte da apnéia, que é caracterizada pela pausa respiratória de duração em média de mais de 20 segundos, o que pode levar a uma alteração na homeostase dos gases sanguíneos 5.

A frequência respiratória de um prematuro varia entre 30 e 60 ciclos respiratórios por minuto (crpm), sendo a bradipnéia caracterizada por ciclos respiratórios abaixo de 30 crpm e taquipnéia por ciclos acima de 60 crpm 5,6.

O sistema nervoso autônomo e o mecanismo de regulação vasomotora se encontram bem desenvolvido tanto no bebê pré-termo quanto no a termo, e o tônus simpático do miocárdio também. Contudo, o RN pode não responder bem ao estresse ou mudanças posturais como um indivíduo adulto. A frequência cardíaca em um neonato encontra-se entre 100 e 160 batimentos por minuto 5.

Aproximadamente 98% do oxigênio conduzido pelo sangue estão ligados à hemoglobina e o remanescente fica diluído no sangue. A afinidade da hemoglobina pelo oxigênio do recém-nascido é alta por causa da presença da hemoglobina fetal, que o resultado se apresenta em uma saturação alta mesmo com uma pressão arterial baixa 5,6,7.

O recém-nascido possui todas as propriedades homeotérmicas mesmo tendo a faixa de variação da temperatura muito pequena. O recém-nascido tem muitas desvantagens como ampla área superficial, isolamento térmico empobrecido e pequena massa que age como reservatório de calor. Suas respostas podem ser afetadas por doença e condições adversas assim como o adulto (ex.: hipóxia ou intoxicação por drogas) 1.

A temperatura ambiente necessária para manter a temperatura retal de 37º C muitas vezes precisa ser alta pelas primeiras horas de vida (37 a 38º C), e pode ser necessária a manutenção na incubadora da temperatura em torno de 35 a 37º C por dias ou semanas. A umidade na incubadora previne a perda de calor por evaporação, e para manter a temperatura retal normal pode ser necessário como suporte térmico o calor radiante (a partir de uma lâmpada acima da cabeça) e a colocação de uma cobertura de plástico para evitar a perda de calor radiante, durante os primeiros dias de vida 1,2.

Problemas do prematuro

Crianças que nascem antes do termo, independente de seus pesos de nascimento estão sujeitas a várias patologias que complicam seu período neonatal. A mortalidade neonatal aumenta progressivamente com o aumento do grau de prematuridade. As principais doenças apresentadas pelos recém-nascidos são as respiratórias, dentre as mais comuns estão: síndrome do desconforto respiratório do recém-nascido, taquipnéia transitória do RN e as síndromes de escape de ar (pneumotórax, pneumomediastino e enfisema intersticial) 1.

Síndrome do Desconforto Respiratório do Recém-nascido (SDRRN)

Existem muitos desconfortos respiratórios apresentados pelo recém-nascido nos primeiros dias de vida, o mais comum e mais importante em todo o mundo é a síndrome do desconforto respiratório do recém-nascido (SDRRN), também conhecida como Síndrome da Angústia Respiratória. Acomete crianças que nasceram antes do termo, porém sua suscetibilidade depende mais do estágio de maturação pulmonar na época do parto do que necessariamente idade gestacional 6.

A presença de quantidades adequadas de surfactante de revestimento dos espaços aéreos é um dos pré-requisitos para uma adequada adaptação pulmonar pós-natal, fazendo com que haja estabilidade alveolar em baixas pressões, fazendo com que na expiração final não haja colapso alveolar. A SDRRN é um distúrbio causado pela insuficiência da produção desse surfactante pulmonar e má adaptação a vida extra-uterina, quanto menor a idade gestacional maior a gravidade. Essa diminuição do surfactante aumenta a tensão superficial na interface ar-líquido levando ao colabamento alveolar, diminui a complacência pulmonar por causa do colapso do alvéolo. Assim, há uma diminuição da oxigenação levando a uma vasoconstricção e aumentando a pressão nas artérias pulmonares 6,8.

O recém-nascido apresenta um quadro de taquipnéia, com retração subdiafragmática, gemido, batimento de asa do nariz e cianose que aparece precocemente, sendo progressivo nas primeiras 24 horas e tem um pico em 48 horas. Os achados radiológicos precoces são bem característicos, com aspecto infiltrado retículo granular, hipotransparência homogênea pelo
fato de apresentar micro-atelectasias junto ao edema intersticial, com um broncograma aéreo estendendo-se até a periferia da área pulmonar 6.

Taquipnéia transitória do Recém-Nascido

O pulmão fetal contém em seu interior um líquido secretado pelo epitélio respiratório, durante o processo de nascimento a produção e secreção do mesmo é cessada e ele é substituído por ar. Estima-se que a maior parte do líquido seja absorvida antes do nascimento, durante o parto é eliminado mais uma parte e nas primeiras horas de vida é absorvido pelos vasos linfáticos e capilares pulmonares. A síndrome é caracterizada por um desconforto respiratório de leve a moderado, geralmente de evolução benigna, decorrente do retardo na absorção do liquido pulmonar após o nascimento 7,8.
Entre os sinais clínicos está o aumento do trabalho respiratório, sendo mais evidente a taquipnéia. O desconforto começa nas primeiras horas após o nascimento e melhora a partir de 24 a 48 horas. Os achados radiológicos consistem em uma congestão Peri-hilar radiada e simétrica, espessamento de cisuras interlobares, hipersuflação pulmonar leve a moderada, e podendo apresentar às vezes cardiomegalia e /ou derrame pleural 6.

Síndrome de escape de ar (SEAr)

A SEAr inclui espectro variado de doenças pulmonares e extrapulmonares, é caracterizada por apresentar presença de ar aonde normalmente não tem. A classificação depende da região, extensão, volume e velocidade do acúmulo de ar 6,9.
Entre as múltiplas representações que compõe a síndrome, assumem importância o enfisema intersticial e o pneumotórax, por frequência e gravidade. O acumulo de gás além de não contribuir para as trocas gasosas, causa distúrbio da relação ventilação-perfusão por compressão do parênquima pulmonar e vias aéreas distais, o que leva a hipoxemia e hipercapnia. O aumento da pressão intersticial pode comprimir os vasos sanguíneos e levar a um quadro de hipertensão pulmonar com shunt extrapulmonar. As mudanças na pressão

intratorácica alteram o fluxo cerebral, beneficiando a manifestação da hemorragia Periintraventricular em RN pré-termo 6. O episódio do escape de ar nas doenças respiratórias neonatais colabora para um pior prognóstico, aumenta o risco de doença pulmonar crônica e lesões do SNC, e ainda está relacionada com altas taxas de mortalidade principalmente em pré-termo 5,6,9.
O diagnóstico da SEAr é fundamentalmente radiológico já que os sinais e sintomas podem estar ausentes ou pouco específicos 6.

No pneumotórax (PTx) observa-se um quadro dramático de deterioração clínica e início abrupto, caracteriza-se por desconforto respiratório, cianose e sinais de colapso cardiovascular (bradicardia, má perfusão periférica, hipotensão arterial, choque). Uniteralmente pode levar a assimetria torácica, com o lado afetado com uma diminuição da expansibilidade, desvio dos sons contralateral do ictus e dos sons cardíacos. O Ptx não hipertensivo pode ser assintomático ou seguido de manifestações respiratórias leves (taquipnéia, gemido expiratório e retração da caixa torácica). Apresenta diminuição do murmúrio vesicular no lado acometido. Em imagem radiológica caracteriza-se por área de hipertransparência em que não é visualizado o parênquima ou os vasos pulmonares, localizada na face lateral e/ou medial do hemitórax, em um ou ambos pulmões. Quando há grande acúmulo de ar (Ptx hipertensivo) observa-se compressão e colabamento do pulmão comprometido, desvio de mediastino para o lado contralateral, herniação da coleção de ar entre os espaços intercostais e retificação da cúpula diafragmática 6.

Método Canguru

O Método Canguru (MC) é um modelo de auxílio perinatal voltado para melhorar a qualidade do cuidado partindo dos princípios: da atenção humanizada; melhora a qualidade do desenvolvimento neurocomportamental e psico-afetivo do recém-nascido; consente um controle térmico apropriado; diminui o tempo de separação entre mãe e recém-nascido e beneficia o vínculo; colabora para a redução do risco de infecção hospitalar; aumenta as taxas de aleitamento materno; reduz o estresse e a dor do recém-nascido; possibilita maior competência e confiança dos pais no cuidado do seu filho até mesmo após a alta hospitalar; propicia um melhor relacionamento da família com a equipe de saúde; diminui o número de reinternacões; e fornece uma otimização dos leitos de Unidades de Terapia Intensiva e de Cuidados Intermediários Neonatais 1,7,8,9.

O Método antevê uma proposta de humanização da assistência neonatal fundamentada em quatro alicerces básicos: amparo ao bebê e sua família, consideração às singularidades, solicitação do contato pele a pele (posição canguru) e a inclusão da mãe nos cuidados com o bebê 8,9,10.

A aplicação do método é desenvolvida em três etapas: na primeira se inicia com o período pré-natal, no qual os agentes deverão identificar e orientar gestantes com riscos de bebê pré-termo e/ou baixo peso, e após o nascimento se houver necessidade de permanência na Unidade de Terapia Neonatal, os agentes deverão estimular a entrada dos pais trabalhando na lactação e cuidados com o bebê; na segunda deverá haver um equilíbrio clinico da criança com ganho de peso satisfatório, segurança e disponibilidade da mãe em continuar com o bebê o máximo de tempo, sendo realizada a posição canguru segura e agradavelmente para ambos; e na terceira etapa começa a alta hospitalar com acompanhamento ambulatorial prudente do bebê e da família 1,7,12,15.

O MC desde a primeira fase é realizado por uma equipe multidisciplinar (Médicos, Pediatras e/ou neonatologistas [cobertura de 24 horas], Obstetras [cobertura de 24 horas], Oftalmologista, Enfermeiros [cobertura de 24 horas], Psicólogos, Fisioterapeutas, Terapeutas ocupacionais, Assistentes sociais, Fonoaudiólogos, Nutricionistas, Técnicos e auxiliares de enfermagem [na 2a etapa, uma auxiliar para cada seis binômios com cobertura 24 horas]), capacitada na metodologia de atenção humanizada ao recém-nascido de baixo peso 7,8,15.

A 1ª fase envolve principalmente a internação do bebê na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) e/ou na Unidade de Cuidados Intermediários Convencional (UCINco), onde o mesmo tem atendimento individualizado acatando sua capacidade neurológica e sua subjetividade; diminuição das intervenções neonatais e os estímulos ambientais; prática da posição canguru entre os pais e o bebê o quanto antes; requerimento do aleitamento materno; inclusão dos pais nos cuidados com o bebê e segurança de entrada e permanência livre dos pais na unidade 7,8,15.

Essas atuações têm prosseguimento na 2ª fase do Método também, no qual o bebê fica instalado com a mãe na Unidade de Cuidados Intermediários Canguru (UCINca), ficando o maior tempo possível amarrado por uma faixa entre os seus seios, em contato pele a pele. Nesta etapa os participantes estão sendo preparados para a alta hospitalar, podendo ser precoce se houver uma segurança materna, amamentação preferencialmente se for exclusivo no peito e se o bebê estiver ganhando peso adequado 9,10,15.

Após a alta hospitalar, o bebê é conduzido para 3ª fase e será acompanhado pela mesma equipe das etapas anteriores, na qual o bebê será atendido no mínimo duas vezes por semana até atingir o peso de 2.500g na Unidade Neonatal pela equipe de saúde. Na 3ª fase é feito o exame físico completo do bebê; retificado as situações de risco; avaliado o aleitamento materno, bem como a relação psicoafetiva entre o bebê e sua família, além de nortear e acompanhar tratamentos especializados. Após este passo, o bebê tem alta definitiva, sendo conduzido aos serviços de seguimento ambulatorial e/ou para a Unidade Básica de Saúde 9,10,14,15.

A interdisciplinaridade é um princípio que guia essa filosofia, na qual permite a inclusão de profissionais de diversas áreas do conhecimento: médicos obstetras, neonatologistas e anestesistas; equipe de enfermagem; fisioterapeuta, nutricionista, psicóloga, fonoaudióloga e assistente social. Neste panorama são ampliadas ações relacionadas ao cuidado humanizado ao recém-nascido de baixo-peso e sua família, como: hospedagem às mães de bebês internados, visando favorecer o vínculo afetivo e o início cada vez mais precoce da amamentação; o ingresso e permanência livre aos pais, assim como a visita de outros parentes 9,11,15.

Posição Canguru

O bebê permanece em posição vertical ou diagonal elevada, entre as mamas 7,26,30.
Em posição vertical, de frente para a mãe com cabeça lateralizada, os membros superiores flexionados, aduzidos com cotovelos próximos ao tronco e membros inferiores flexionados e aduzidos. Na posição diagonal, de lado para a mãe com a cabeça na linha média, membros superiores aduzidos na linha média e membros inferiores fletidos. E para maior segurança envolver a díade com uma faixa de algodão. Sendo necessário mudar a posição da cabeça de um lado para o outro e evitar a hiperextensão da mesma, evitar a abdução exagerada do quadril e extensão das pernas 7,9,24. A relação pele a pele é importante nos cuidados envolvidos para o desenvolvimento. Providencia uma estabilização entre os sistemas tátil e proprioceptivo e os sistemas visual e auditivo. Promove também uma experiência de limitação minimizando a sobrecarga de estímulos visuais e auditivos. Tem efeito positivo no aleitamento materno exclusivo na alta, no desenvolvimento do apego e na confiança e satisfação materna 10,15,30. O contato pele a pele pode ser feito na UTI Neonatal e/ou na Unidade Intermediaria. Nos momentos em que a mãe não puder ficar com o bebê na posição canguru ele deverá ficar, com contenção adequada sempre com a cabeceira elevada 7,15,17.

Segundo o Diário Oficial da União, em uma publicação de 02 de março de 2000, na portaria n° 72, seção 1, n° 45-E, afirma o apoio e financiamento das Normas de Atenção Humanizadora do Recém-Nascido de Baixo-Peso (MC), institui-se a participação do Fisioterapeuta como integrante da equipe de saúde responsável por esse atendimento multidisciplinar. De acordo com o Artigo 1°, inclui-se na Tabela de Procedimentos do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde – SIH/SUS, o atendimento ao recém-nascido de baixo peso pelo fisioterapeuta, sendo que a aplicação do método foi normatizada e recomendada pelo Ministério da Saúde em uma solenidade oficial no Rio de Janeiro em dezembro de 1999 11,16.

O fisioterapeuta pode atuar na atenção ao método com diversas finalidades, como o incentivo aos pais ou responsáveis a entrada no MC; estimulação da permanência dos pais no MC para garantir o sucesso do mesmo; orientação relativa às técnicas e posicionamento usados com o pré-termo; prática e orientação de padrões ventilatórios, para melhorar a relação ventilação/perfusão do bebê sempre levando em conta o posicionamento usado para conservar o mesmo na verticalidade; orientação quanto à postura mais apropriada para menor desgaste físico e melhores condições da mãe ou responsável, para beneficiar o padrão postural e alinhamento corporal; e promoção de práticas de alongamento e relaxamento para suavizar a ansiedade dos pais 11,12,14.

Durante a realização da posição Mãe-Canguru, é de grande importância que o fisioterapeuta se certifique quanto ao monitoramento dos sinais vitais do pré-termo, para garantir a estabilidade dos parâmetros fisiológicos durante o atendimento 11,14.

DISCUSSÃO

Miltersteiner et al (2003), realizou estudo para avaliar as respostas fisiológicas (frequência cardíaca, saturação periférica de oxigênio, temperatura axilar e frequência respiratória) em bebês pré-termos estáveis e ventilando espontaneamente, observados na incubadora e na Posição Mãe-Canguru. Participaram do estudo 23 bebês estáveis hemodinamicamente do Centro de Neonatologia do Hospital Conceição, divididos em dois grupos: Grupo I (incubadora) e Grupo II (Posição Mãe-Canguru). Os dados foram registrados no primeiro minuto (T1), aos trinta minutos (T30) e aos sessenta minutos (T60). Observaram aumento significativo na frequência cardíaca em T30, na saturação de oxigênio em T30 e T60 e na temperatura axilar em T60 em comparação do GII ao GI. Assim puderam concluir que a Posição Mãe-Canguru promove aumento nos valores das respostas fisiológicas em comparação ao mesmo período de incubadora 11.
Em um estudo realizado por Andrade e Guedes (2005), foram avaliados 30 recém-nascidos prematuros com idade gestacional entre 30 e 35 semanas, dividindo-os em dois grupos: Grupo I (GI) composto por 16 recém-nascidos do alojamento mãe-canguru e Grupo II (GII) com 14 recém-nascidos submetidos aos cuidados tradicionais. No GI foi obtida uma melhora significativa em relação ao estado comportamental, sinais de estresse, coordenação e ritmo de sucção, além de ter diminuído o tempo de permanência hospitalar. Já no GII verificouse melhora da relação entre sucção, deglutição e respiração. Verificou-se que foram obtidos melhores resultados com o MC, pois contribui para efetividade da amamentação, diminui o tempo de permanência hospitalar, o que acarreta menores custos para saúde pública 14.

Almeida et al (2007), concretizou um estudo com 22 RNPT com idade gestacional de 28 a 33 semanas e pesos ente 1050 e 1500 g e estáveis clinicamente, sendo realizada a avaliação dos parâmetros fisiológicos, após trinta minutos de permanência do RNPT em berço comum e após trinta minutos de aplicação do MC, por 3 dias consecutivos. Não se obteve alterações significativas quanto à pressão arterial média e frequência cardíaca após aplicação do MC, porém houve aumento significativo da temperatura axilar e saturação periférica de oxigênio e diminuição da frequência respiratória. Além da melhora dos parâmetros fisiológicos do RNPT, cita como vantagens o aumento do vínculo mãe-filho; evita longos períodos sem estimulação sensorial; estímulo do aleitamento materno; melhora do controle térmico; reduz o número de RN em unidades de cuidados intermediários, o índice de infecção hospitalar e o tempo de internação 13.

Cruvinel e Macedo (2007) avaliaram as mudanças de estados de humor de mães de bebês pré-termo através do contato com seu filho, no MC ou visita ao filho na incubadora da UTIN. Participaram do método 60 mães, que foram divididas em dois grupos: 30 no grupo do MC Grupo I (GI) e as outras 30 no grupo da visita à incubadora Grupo II (GII), sendo avaliadas antes e depois de visitarem seus filhos. As mães do GI apresentaram melhora do humor relatando que se sentiram mais calmas, fortes, com ideias claras, ágeis, dinâmicas, satisfeitas, tranquilas, perspicazes, relaxadas, atentas, competentes, alegres e amistosas. Já as mães do GII não apresentaram melhora do estado de humor em nenhum item e ainda pioraram no quesito “sentindo-se desajeitada”. Os autores concluíram que o MC melhorou o humor das mães de bebês pré-termo contribuindo assim para a minimização dos efeitos negativos da internação neonatal 3.

Conforme descrito por Lamy et al (2008), não apresentaram diferenças entre o grupo do MC e da incubadora nos quesitos tempo de internação e intercorrências clínicas. A amostra foi composta por 16 unidades de diversos centros de referências divididos em dois grupos: grupo específico, composto por oito centros de referência para o MC, e o grupo controle, composto por oito que faziam parte da Rede Brasileira de Pesquisas Neonatais, nos quais foram incluídos 985 recém-nascidos pesando entre 500 e 1.749 g. As unidades canguru obtiveram desempenho melhor em relação ao aleitamento exclusivo na alta, contudo o peso, comprimento e perímetro cefálico com 36 semanas de idade gestacional corrigida se apresentaram menores 8.

Conforme descrito por Kashaninia et al (2008), citado por Pedreira et al. (2006), o MC também pode auxiliar em pequenos procedimentos dolorosos nos RN, antes da injeção parece diminuir a dor de forma eficaz e deve ser considerado 18.

Ferreira et al (2010) avaliou as respostas fisiológicas de 24 recém-nascidos pré-termos estáveis e com idade gestacional entre 24 e 37 semanas, pesando menos de 2.500 g. Os bebês foram submetidos ao método após 60 minutos da administração da dieta e avaliados antes e após 30 minutos da realização do método durante 3 dias consecutivos. Puderam observar diferenças significativas na FR, SatO2, T e PAM, enquanto a FC e o peso não apresentaram diferenças importantes 17.

Através de uma amostra com 20 RNPT com idade gestacional entre 24 e 36 semanas, dividiram em dois grupos: grupo I (MC) e grupo II (PP), sendo avaliados por três dias consecutivos antes e após 60 minutos da aplicação do método. Olmedo et al. (2012) não observaram ao final de três dias de tratamento alterações significativas na FR, FC, T e SatO2 em nenhum dos grupos em relação aos dados iniciais e nem comparadas as variáveis entre os grupos. Porém concluíram que as variáveis FR, SatO2 e FC apresentaram melhora pelo menos até 60 minutos após aplicação das mesmas, sendo mais evidentes com a PP 20.

Lopes et al. (2010), expõem alguns motivos para a não realização da posição canguru, já que evidenciaram a recorrência da gravidade do RN e uso de suporte ventilatório como fatores que limitam a realização do método na UTIN, desmotivação materna para a realização do mesmo juntamente com a carência de informações a respeito do método nesta fase, já que os profissionais dão foco apenas da segunda fase, o que fragmenta a assistência e a literatura aponta que uma fase depende do sucesso da outra 17.

No entanto há evidências do impacto positivo do método sobre a amamentação. Mesmo que o método tenda a diminuir a morbidade infantil, as evidências ainda são escassas para que o mesmo seja indicado habitualmente. Entretanto, não existem relatos sobre implicações deletérias da aplicação do método 12,14,25.

Segundo Moreira et al (2003), devemos ressaltar que o MC não substitui o convencional assim como a mãe não substitui a incubadora, porém o método propõe uma atenção humanizada ao recém-nascido, sendo a premissa básica proporcionar uma assistência com toda tecnologia imprescindível para a segurança do bebê 19.

CONCLUSÃO

Conclui-se com a realização deste trabalho que o MC é uma técnica eficaz no tratamento do RNPT, além de promover o contato pele-a-pele precoce fornecendo um melhor vínculo afetivo entre mãe e bebê. Também promove o aleitamento materno exclusivo na alta e proporciona um menor risco de infecção devido à diminuição da permanência hospitalar gerada pelo método.

O método além de melhorar os parâmetros fisiológicos do RNPT na maioria dos artigos descritos na presente pesquisa, também promove benefícios à saúde materna, proporcionando maior bem estar e segurança na hora do cuidado do bebê. O fisioterapeuta sendo um dos profissionais integrante da equipe técnica, pode auxiliar tanto para o bem-estar do bebê quanto para a mãe, orientando para a execução de uma posição adequada, evitando assim desgastes físicos excessivos, suavizando os níveis de ansiedade dos pais através de alongamentos, diminuindo os riscos à saúde do bebê devido a um mau posicionamento, verificando os sinais vitais do RN durante a realização do método, realizar padrões respiratórios quando necessário.

Ainda existe escassez em relação à quantidade de artigos relacionados ao método e a fisioterapia, necessitando ainda de mais pesquisas no campo. Porém com os artigos estudados já conseguimos perceber que o MC é benéfico tanto para mãe quanto para o bebê.

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